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Aluno
do Sensei Yamada por 25 anos, Sensei Bernath - 5º
Dan
- é o fundador e Instrutor Chefe do Florida Aikikai
em Dania, Florida.
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ATM:
Sensei, quando voce começou a praticar o Aikido? Quantos
anos voce tinha?
Sensei Bernath: Comecei meus treinamentos de Aikido
em 1971, no San Francisco Aikikai, sendo aluno de um dos
antigos alunos do Sensei Yamada, Mel Stuart. Eu tinha vinte
e um anos. Depois de mais ou menos um ano, eu assisti o
Sensei Yamada em uma demonstração e fiquei impressionado
com o que ele conseguia fazer e decidi a me mudar para Nova
York para estudar com ele no New York Aikikai.
ATM: Por favor, conte-nos sobre sua moradia e treinamento
com Sensei Yamada.
SB: No New York Aikikai eu era um Soto deshi (estudante
que mora fora do dojo), ao invés de uchi deshi (estudante
que mora do dojo).
Naqueles dias, o programa de deshi era menos formal do que
atualmente. Havia um grupo de nós que simplesmente amavam
o Aikido, treinava a cada chance que aparecia, e saia para
comer e tomar uns drinks até altas horas. Nós todos ajudávamos
no dojo, fazíamos entregas de coisas, arrumávamos as coisas,
e viajávamos com o Sensei Yamada. Não tínhamos aulas especiais,
mas o Sensei nos observava intensamente durante as aulas.
É espantoso como seu treinamento muda (e o quanto voce fica
exausto) quando o Sensei fica te olhando por quinze minutos!!
Nós éramos todos meio loucos então, e constantemente enchíamos
uns aos outros e fazíamos coisas estúpidas. Me lembro de
uma vez quando o Sensei não estava no dojo, Butch Chernofsky
atendeu o telefone. A pessoa no outro lado da linha disse,
com um sotaque japonês, que estava fazendo a chamada para
o Doshu ---- o grupo do Doshu estava detido no aeroporto
e queria falar com o Sensei. Butch pensou que era um de
nós tentando brincar com ele, e respondeu, “ Ah, sim, com
certeza --- e eu sou o O-Sensei, vai te catar seu FDP...”
e desligou. Bem, o Doshu realmente estava detido no aeroporto,
e era o Sensei Shibata no telefone - uma pessoa que voce
não deveria insultar.... Mas, no decorrer das coisa, tudo
deu certo.
Estávamos constantemente constrangendo o Sensei Yamada assim.
ATM: Voce teve muitas experiências interessantes
com o Sensei Yamada?
SB: Já estou com o Sensei Yamada há muitos anos agora,
e tive muitas experiências interessantes com ele.
Uma coisa que foi marcante para mim (e para todos os que
estavam assistindo), foi quando ele me arremessou sem me
tocar, em uma demonstração. Estávamos fazendo ataques de
forma livre, com quatro ukes, eu acho. Ele havia acabado
de arremessar alguém, quando eu corri para atacá-lo por
trás. Ele deve ter sentido que eu estava vindo, e virou
até mim com seus braços estendidos, num movimento de kokyu.
Não sei descrever exatamente como aconteceu. Eu estava a
um metro e meio dele, quando senti que havia sido atingido
ou repelido por seu ki. Ninguém conseguia acreditar. Eles
disseram que eu simplesmente voei para trás em queda livre.
Ele nem chegou a me tocar. Acho que eu estava tão sintonizado
com seus movimentos e tão concentrado, que até sentiu o
poder de sua energia ou intenção e seguiu com ela.
Na verdade eu não gosto de ser muito místico sobre ki, mas
sinto definitivamente que foi sua energia que me arremessou.
ATM: Com quantos outros Sensei voce já estudou?
SB: Sensei Yamada é o meu Sensei, a pessoa no Aikido
que eu sigo e que tenho como meu “mentor”. Eu me sinto muito
próximo de seu movimento, estilo e filosofia de Aikido.
No entanto, Sensei Yamada sempre nos encorajou a treinar
com outros shihan.
Sensei Kanai tem sido o parceiro mais próximo do Sensei
Yamada há anos, e eu tive muito contato com ele. Ele influenciou
muito meu Aikido. Também o Sensei Chiba, porque eu o via
constantemente em meus anos de formação (do 3º kyu aproximadamente,
até nidan). Sensei Tamura e Sensei Shibata também me deixaram
grandes impressões. Eu também tenho viajado ao Japão e Europa
e tive o prazer de estudar com outros mestres Sensei, incluindo
o Doshu, Waka, Tada, Arakawa, Masuda, Saito, Yamaguchi,
Tohei e Kurita.
ATM: Nós ainda não vimos o Sensei Sugano aqui no
Brasil. Por favor, nos diga algo sobre ele.
SB: O Sensei Sugano vive agora em Nova York e ensina
no New York Aikikai. Ele passou mais de dez anos na Austrália
como chefe conselheiro técnico e cinco anos mais ou menos
na Bélgica. Seu Aikido parece ser sem esforço, mas mesmo
assim muito potente. A maneira como ele se posiciona, movendo-se
no momento do contato, parece simples, mas voce nunca consegue
alcançá-lo quando faz ukemi.
ATM: Como foi quando voce começou seu dojo, Florida
Aikikai?
SB: Eu me mudei para a Flórida em 1980 para iniciar
o Flórida Aikikai.
Sensei Yamada viajava frequentemente para a Flórida, e queria
ter um dojo no Sul, para divulgar seu estilo de Aikido.
Ele me perguntou se eu gostaria de dirigi-lo para ele.
Naqueles dias, nem meus amigos ou eu pensávamos que íamos
conseguir nos manter ensinando Aikido, mas parecia tão excitante
que eu acabei aceitando.
No começo não era uma vida normal. Eu sempre estava sem
dinheiro. Comi arroz e sardinhas por um ano. O clima era
quente como o inferno, e eu não tinha ar-condicionado. Eu
odiava e queria voltar para Nova York com meus amigos. Mas
me contive, e as coisas começaram a melhorar. Encontrei
minha esposa Penny na Flórida, e agora eu tenho duas crianças
maravilhosas. Não funcionou da maneira que eu e o Sensei
planejamos, mas acho que no final deu tudo certo para nós
dois. Estou pessoalmente contente com a maneira que minha
vida evoluiu.
ATM: O que voce faz de diferente quando está ensinando
mulheres e crianças?
SB: Na verdade eu não faço nada de diferente. Mulheres
e homens treinam juntos em aula, como iguais, e eu espero
a mesma prática sincera e árdua de ambos. Eu provavelmente
flerto mais com as mulheres, mas além disso...
Anos atrás, eu fazia mais atividades tipo jogos, nas aulas
com crianças mas agora eu quase sempre faço puro Aikido.
Sinto que o Aikido é divertido e significativo para todas
as pessoas do modo que é, e não acho que devo mudar isso
para adaptar para um grupo ou outro.
ATM: Nas demonstrações de Aikido, a impressão inicial
deve ser leve e harmoniosa ou marcial e dura?
SB: Ambas, talvez. Na aula de iniciantes, eu sempre
tento mostrar a técnica lentamente e levemente primeiro,
assim os alunos podem ver o que se deve fazer e observar
como harmonizar com seu parceiro. No entanto, eu também
mostro a técnica de forma dinâmica, para as pessoas poderem
ver o timing e intenção necessários para executar a técnica
de maneira marcialmente eficiente.
ATM: Em que nível deveríamos abandonar o treinamento
leve e começar a treinar de modo eficiente de defesa pessoal?
SB: Na verdade eu não vejo o Aikido nesses termos.
No começo, nós mostramos as pessoas como treinar com um
parceiro, a fim de que eles dominem seus princípios básicos
de Aikido. Eles são ensinados a como fazer técnicas básicas
como ikkyo e irimi nage. Eles aprendem a como atacar, como
cair corretamente, como fluir com um ataque, e como seguir
com a condução.
Uma vez que as pessoas desenvolvem alguma técnica nessas
áreas, eles podem realmente começar a aprender Aikido ----
não tanto de seus instrutores, como de seus parceiros. Eles
podem sentir como ser desequilibrados e conduzidos num arremesso
ou técnica de imobilização, por exemplo. Uma vez que aprendem
como se mover suavemente, podem ver mais claramente como
o atemi pode ser usado em certas situações.
O que eu estou tentando dizer é que não é uma questão de
se mudar de leve para pesado, tem mais a ver com conseguir
ser mais perceptivo e experiente em geral, ao fazer Aikido.
ATM: Qual é a sua impressão sobre o Aikido pelo mundo
--- e particularmente no Brasil?
SB: Tive a sorte de viajar muito e ver o Aikido sendo
praticado em vários países.
Uma coisa que me chama mais atenção é o crescimento espantoso
que o Aikido atingiu no período de tempo relativamente curto
que eu venho praticando-o. Eu me lembro de quando um grande
seminário tinha umas 50 ou 60 pessoas. Hoje nós vemos 200,
300 ou até 800 pessoas num seminário --- como vimos no 30º
Summer Camp de Aniversário do New York Aikikai.
Também sinto que a qualidade geral do treinamento de Aikido
progrediu muito. Acho que os esforços dos shihan como Sensei
Yamada, Sensei Tamura, e outros que viajam a todos os lugares,
ajudaram imensamente a disseminação do Aikido pelo mundo
todo. Os vídeos também têm sido tremendamente benéficos
para aqueles que não tem instruções de um expert por perto.
A partição do mundo do Aikido é preocupante até certo ponto,
mas eu não acho que o Aikido tem que ter uma grande organização
central para crescer e prosperar. As pessoas são diferentes,
se eles acham que uma certa maneira de aprender ou ensinar
o Aikido é mais interessante para eles, e eles querem fazer
de seu próprio modo, tudo bem ---- desde que os princípios
básicos estejam sendo ensinados corretamente, e o Aikido
seja como uma arte marcial. Eu tenho fé nas pessoas quanto
a sua habilidade de discernir o que é real do que é falso.
As pessoas reconhecem qualidade quando a vêem. Por isso,
eu acho que com o passar do tempo o Aikido proliferará.
ATM: Voce tem algum conselho final para o Brasil?
SB: Apenas continuem o que voces estão fazendo. O
Aikido é forte no Brasil, e voces tem pessoas dedicadas
ajudando a conduzi-los pelo caminho. Em sua organização,
voces decidiram escolher o caminho do Sensei Yamada. É importante
ser leal e seguir seus conselhos, porque ele é sua ligação
com a origem primária do Aikido, o O-Sensei. Tentem viajam
a seminários o máximo que puderem. Também, tentem pensar
sobre o que voce está fazendo ao invés de praticar somente
por estar habituado. Examine-se a si mesmo. Perceba como
o Aikido afeta voce e como ele pode ser integrado em sua
vida. Leia sobre o Aikido. Se envolva o mais que puder.
Muito obrigado por me deixar expressar minhas idéias.
Entrevista
feita por Nelson Wagner dos Santos - Brasil Aikikai - para
a Aikido Today Magazine nº 48
(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro - Sorocaba)
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