ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
A reverência

por Midori Yamamoto
tradução - S. M. Keira

Ted Morris é um americano que chegou cedo ao Japão, como um estudante de intercâmbio. Certa noite, Ted estava assistindo uma demonstração de Aikido e ficou fascinado com a beleza dos movimentos e sentiu algo misteriosamente japonês nesta arte marcial. Ele decidiu iniciar-se nos estudos do Aikido.

Em seu primeiro dia de treino, quando o Sensei e os alunos perfilaram-se, sentados em posição de seiza (forma japonesa tradicional de se sentar), Ted ficou surpreso e incomodado. "Meu Deus, eles estão reverenciando uma foto pendurada na parede!", ele disse para si mesmo. "Isto é muito estranho. Eu fico imaginando porque eles fazem isto." E sentiu-se extremamente incomodado. Então, o professor e os alunos reverenciaram-se e iniciaram o treino. A sua curiosidade crescia à medida que o treino continuava.

Os alunos reverenciavam-se antes e depois de treinarem entre si. Da mesma forma, toda a vez que o professor dava alguma explicação, os estudantes reverenciavam-no. E, ao término do treino, o professor e os alunos reverenciavam-se e, mais uma vez, à foto na parede e entre si. E isso não parava por aí. Após o treino, toda vez que alguém saía do tatami, eles reverenciavam uma última vez. "Eles estão se reverenciando o tempo todo! Isto é ridículo!", pensou Ted.

Nesta situação, Ted foi colocado frente aos costumes de uma sociedade medieval verticalmente estruturada, onde os hierarquicamente inferiores tinham de se curvar em deferência de seus superiores. Por outro lado, para Ted, reverenciar uma fotografia trazia à tona todos os tipos de imagens desagradáveis de religiões e seus rituais.

Após o treino, Ted resolveu perguntar a alguém sobre o assunto. Felizmente, ele encontrou um aluno de nível avançado, chamado Shigeru Yokoyama, que falava um inglês fluente. Shigeru ofereceu a seguinte explicação: "Para os japoneses, o costume de reverenciar as pessoas é semelhante ao aperto de mãos, em seu país. Nós reverenciamos as pessoas, de um modo geral, como um gesto de respeito ou como uma expressão de gratidão." Ted refletiu sobre a explicação por um momento e disse: "Então, tanto o professor como os alunos expressam respeito mútuo e gratidão, quando se reverenciam?" "É exatamente isso," disse Shigeru. "Nós também reverenciamos a foto de O-Sensei, o fundador desta arte marcial, pela mesma razão." Um outro aluno avançado, ouvindo a conversa, fez um comentário interessante, que Shigeru traduziu para Ted: "A reverência me proporciona o exato estado de espírito para praticar o Aikido. Nós estamos aprendendo uma arte marcial muito letal. Nós precisamos treinar de uma forma cuidadosa e séria. No Aikido, a formalidade tem uma função importante.

Eu acho que a seriedade de sua prática está representada no gesto da reverência. Eu costumava reverenciar a foto de O-Sensei de uma forma mecânica. Mas eu comecei a sentir um verdadeiro senso de gratidão e respeito em relação a ele, a medida que comecei a entender mais a respeito do Aikido e seu espírito." Ted começou a perceber que a reverência tinha um significado muito diferente de sua idéia inicial e, com o tempo, ele começou a aceitá-la como uma entidade natural e apropriada na prática do Aikido.

Ted Norris treinou Aikido em um dojo japonês há aproximadamente um mês. Durante este período, ele não somente treinou as técnicas com afinco como também fez um esforço especial para aprender a etiqueta utilizada dentro do dojo. Havia um fenômeno em particular que ele achava muito estranho. Era a forma ordenada dos alunos se sentarem da esquerda para a direita, do mais novo para o mais avançado, no início e no fim das aulas.

No dojo, onde o Sensei dá grande importância para a observância das formalidades e tradições das artes marciais japonesas, o ato de sentar em ordem hierárquica, de acordo com o sistema de graduação kyu-dan, é praticado em respeito a um antigo costume. É uma convenção aceita entre os japoneses de uma forma muito natural. Ted, entretanto, não via qualquer razão que justificasse o fato dos alunos sentarem seguindo uma ordem especial. Da mesma maneira, ele não entendia o significado do sistema "sempai-kohai", que servia de base para a ordenação.

Como sempre, ele questionou Shigeru a este respeito: "Naturalmente, eu desconheço muitas coisas aqui, mas eu estou confuso em relação ao porque de se sentar em uma determinada ordem, de acordo com um sistema hierárquico. Eu acho que não importa onde alguém se senta. Parece-me que o Sr. "S", que está sentado à esquerda do Sr. "N" é um aikidoísta mais forte." "É simplesmente tradição.", respondeu Shigeru, "Contudo, nem todos os dojos japoneses adotam esta forma de se sentar.

Em alguns dojos, as pessoas se sentam ao acaso. Mas o sistema "sempai-kohai" é geralmente considerado como essencial para se manter a ordem e a disciplina em um dojo. Espera-se que os sempai (alunos mais avançados) tomem conta dos kohai (alunos mais novos) e que os ajudem, durante os treinos; e também espera-se que os kohai aceitem as ordens e conselhos dos sempai. Você perceberá o quanto isto é útil para o seu treino, uma vez que o Sensei não consegue ensinar cada aluno individualmente. Todo o dojo forma uma unidade verticalmente hierarquizada ou uma "família" com o Sensei no comando. A forma ordenada de sentar é, como antigamente, uma manifestação do sistema vertical de relacionamento humano." Mais tarde, Shigeru explicou que toda a sociedade japonesa tem uma estrutura vertical semelhante e que a idéia de respeitar o sempai (termo este que significa, literalmente, "aqueles que entraram antes no caminho"), como alguém mais experiente é fundamentalmente a mesma daquela quando os japoneses respeitam as pessoas idosas e aqueles que estão em uma posição social mais privilegiada.

Ele também disse que este costume é originário da filosofia de Confúcio, na China, e que os japoneses adotaram esta forma de pensar desde os primórdios de sua história.
Ted ouviu atentamente à explicação de Shigeru e, então, expôs o pensamento americano em relação a este assunto: "Como você sabe, as noções de liberdade e igualdade são muito ressaltadas em nossa sociedade. Ninguém conquista o respeito das pessoas simplesmente porque ele ou ela nasceu antes, ou em outras palavras, porque ele é mais velho ou porque ele está envolvido em um trabalho há mais tempo do que alguém. O respeito não é algo automaticamente concedido devido à idade, à classe social ou à hierarquia, mas sim devido ao esforço e à capacidade. Logo, seria difícil impor uma estrutura como o de "sempai-kohai" em um país ocidental."

Como os comentários de Ted podem denotar, os ocidentais tendem a estudar Aikido como indivíduos. Eles são relutantes em se colocarem dentro de uma estrutura hierárquica, durante um treino. É claro que eles ajudam-se mutuamente durante a prática do Aikido e freqüentemente recebem ajuda dos alunos mais avançados. Mas eles fazem isto como amigos ou como indivíduos envolvidos em uma atividade cooperativa. As estruturas verticais rígidas são mais uma exceção do que a regra. Logo, mesmo uma simples maneira de se sentar revela a disparidade existente entre os costumes e as culturas de diferentes povos. Como o Aikido está se tornando cada vez mais internacionalizado, é necessário haver um esforço de ambas as partes, isto é, do Oriente e do Ocidente, para que haja um aprofundamento da compreensão mútua.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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