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ENTREVISTAS
COM GRANDES MESTRES
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Entrevista
com Shigemi Yonekawa
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A
entrevista a seguir foi realizada no dia 7 de abril de 1979
em Tsuchiura, Japão, na casa do Sr. Shigemi Yonekawa. O Sr.
Yonekawa foi um dos primeiros discípulos de 0-Sensei e durante
vários anos durante a década de 1930 foi uma figura muito
importante no desenvolvimento do que foi então chamado de
"Aiki-Budo".
Sr. Yonekawa: Se você quiser
fazer qualquer pergunta, eu tentarei falar sobre os assuntos
com os quais estou familiarizado.
Jornalista: Bem Sr. Yonekawa,
quando encontrou O-Sensei pela primeira vez?
Sr. Yonekawa: Acredito que foi
aproximadamente em 1931. Como você sabe, 0-Sensei tinha conexões
religiosas. Ele ensinou budo em várias partes do Japão sob
os cuidados da seita religiosa Oomoto e da “Budo Enhancement
Association” (Associação de Intensificação do Budo).
Jornalista: Qual era a relação
de 0-Sensei com a “Budo Enhancement Association” e com a religião
Oomoto?
Sr. Yonekawa: A “Budo Enhancement
Association” foi criada com o suporte da religião Oomoto.
Sensei, como membro da “Budo Enhancement Association” (na
verdade a organização foi centrada ao redor dele e não poderia
ter existido sem sua participação), treinou muitos estudantes.
Um dos estudantes dele era um homem enérgico chamado Fujita.
O Sr. Fujita veio a lwama para ensinar. Havia uma divisão
de Oomoto na casa do encarregado de lwama, Sr. Akazawa. Sensei,
também, veio ensinar lá. Por eu ser parente do Sr. Akazawa,
eles perguntaram se eu não me interessaria em participar de
um seminário de budo. Decidi assistir. A propósito, eu havia
praticado Judô, mas já que esta arte parecia completamente
diferente de Judô, eu equivocadamente pensei que seria divertido.
Porém, se mostrou mais difícil do que eu imaginava. Antes
de participar do seminário, eu tive alguma experiência com
ukemi (quedas) no Judô. Isso me ajudou no seminário, e o Sensei
me conduziu com grande facilidade. Como conseqüência fiquei
muito interessado e senti que isto realmente era algo que
gostaria de estudar e praticar. Assim, quando eu perguntei
qual seria a melhor coisa para fazer, me foi dito que o modo
mais rápido para aprender seria tornando-me um uchideshi (discípulo
interno). Então pedi ajuda ao Sr. Akazawa, que pediu a permissão
do Sensei, e assim eu iniciei como um uchideshi.
Jornalista: Isto foi em Tóquio?
Sr. Yonekawa: Sim, era o dojo
em Ushigome em Wakamatsu-cho. Naquela época, Sensei dirigia
uma escola muito popular conhecida como "Ueshiba Juku". Também
era conhecida como "Kobukan". Bem, eu entrei no Kobukan e
imediatamente me vi limpando banheiros e lavando a entrada
principal. Este era o método de treino no estilo antigo, onde
você não começava a treinar imediatamente. Além disso haviam
os alunos mais antigos que aprontavam comigo.
Jornalista: Quem eram os alunos
mais antigos naquela época?
Sr. Yonekawa: Vejamos, eu me
tornei muito amigo de Tsutomu Yukawa, Kaoru Funahashi e Hisao
Kamata. Também havia Kengi Tomiki que não morava no dojo.
O Sr. Tomiki era casado e, assim como Ueshiba Sensei, alugou
uma casa em Wakamatsu-cho. Ele ia de trem de sua casa para
o dojo. Havia ainda Yoichiro Inoue ... e outros. Todos eles
eram realmente fortes. Sr. Yukawa entrou um pouco antes do
que eu. O Sr. Funahashi era mais antigo que ele e, o Sr. Kamata
estava lá há mais tempo do que todos. O Sr. Funahashi era
parente do Sensei. A vida lá era bem severa. Pela manhã havia
treino das 6:00 até as 7:00 e novamente das 9:00 até as 11:00.
À tarde nós praticamos das 14:00 às 16:00 e à noite das 19:00
às 20:00 ... quatro vezes por dia. Era realmente duro. Eu
ficava esbaforido e ofegante o dia inteiro. Você não podia
adquirir ensinamentos do Sensei assim que entrasse. Era realmente
um método de ensino muito severo. Além disso, o Sensei costumava
olhar com seus olhos penetrantes. Isso sempre me amedrontou.
Certa vez, eu fiz um ukemi ruim e o Sensei me deu uma bronca
bem no meio de um dojo famoso. Ele parou o treino, e mesmo
com muitas pessoas presentes, voltou para o seu quarto. E
eu fiquei ali, imaginando o que tinha acontecido e se eu seria
expulso do dojo. Por isso que o dojo era considerado um lugar
tão rigoroso. Um outro tipo de comportamento que o Sensei
mencionava sempre era de como você não deveria ficar descuidado
ou permitir qualquer tipo de abertura. Este era o modo de
vida dos samurais dos velhos tempos. Os samurais aprenderam
que deveriam ter uma atitude mental que os permitisse lidar
com um inimigo sempre que ele aparecesse. Assim era a vida
diária do Sensei, estivesse ele comendo ou dormindo. Por exemplo,
mesmo quando você estiver caminhando em um corredor, alguém
pode aparecer no final e você não pode ser descuidado. Isto
é o que ele sempre usou para ensinar. Até mesmo quando você
está falando no telefone e alguém se aproxima por trás, você
deve ter olhos na parte de trás de sua cabeça assim você não
será pego despreparado. Foi assim que ele nos ensinou. Então,
às vezes quando eu estava falando ao telefone sem perceber
que o Sensei havia se aproximado por trás de mim, ele me dava
uma cutucada nos ombros e dizia: “Você esta sendo descuidado”.
Assim depois de eu ter ido para Manchuria e me tornado um
membro da associação ideológica "Kyowakai", as pessoas me
diziam: “Sr. Yonekawa, seu modo de entrar e sair pelas portas
é diferente do das outras pessoas”. Acredito que o treino
já estava incorporado em mim. Mas agora eu me tornei preguiçoso.
Estar consciente destes aspectos da vida diária sempre foi
parte dos ensinamentos do O-Sensei. Ele sempre estava atento
a estas coisas e as praticava. Quando por exemplo um inseto
pousava no “shoji” enquanto O-Sensei estava dormindo, me lembro
vezes em que ele dizia: “Tem um inseto em tal ou tal parte,
livre-se dele”. Nós não conseguíamos entender como ele era
capaz de dizer exatamente em que lugar havia um inseto enquanto
estava adormecido. Eu acredito que ele sempre estava adormecido
mas alguma parte dele não estava. Realmente era algo incrível.
Por razões como estas, os samurais dos velhos tempos tiveram
vidas muito rígidas.
Jornalista: Naquela época qual
era método de ensino do 0-Sensei? Como ele ensinava seus uchideshi?
Sr. Yonekawa: Ele não ensinava
de maneira diferente às pessoas que vinham de fora. Não havia
nenhuma distinção entre os uchideshi e os demais. Os ensinamentos
eram os mesmo para todos. No entanto, como uchideshi, quando
nos era ensinado algo, nós praticávamos mais e mais, ao contrário
dos outros que vinham de fora. Nós praticávamos as técnicas
diversas vezes e também fazíamos as quedas para O-Sensei.
Esta era a diferença. Outra coisa era que nós treinávamos
com muitas pessoas de fora quando O-Sensei ensinava em suas
aulas - seria incorreto dizer que nós ajudávamos a ensinar
estas pessoas - nós treinávamos com elas. Essa era uma das
razões do rápido progresso dos uchideshi. Há um ditado japonês
que diz "Ensinar faz parte de aprender”. Você não pode ensinar
as pessoas se você não ainda não dominou mental e fisicamente
o que vai ensinar. Quando nós tentávamos ensinar as pessoas
de fora as mesmas coisas que nos havia sido ensinado, ficávamos
cheios de dúvidas. Quando nos era ensinado algo pelo O-Sensei,
as coisas pareciam simples e claras. Mas quando chegava o
momento de ensinar as pessoas, era muito diferente e nos faltava
confiança. Então, acho muito bom não somente aprender de alguém
mas também tentar ensinar. Esta é uma das principais razões
do progresso dos uchideshi. Tem ainda a questão da vida no
dojo. Há três aspectos na vida do uchideshi no dojo: sua vida
com o sensei que não pode ter uma vida familiar comum; seu
relacionamento com os companheiros os quais dormem junto com
você no dojo, seus travesseiros todos alinhados em uma única
fila; e a sua relação pedagógica com as pessoas que vem de
fora para treinar no dojo. Estas são as três facetas que compõem
sua vida. Eu penso que é muito bom este tipo de vida variada.
Mas o sistema de uchideshi recentemente começou a desaparecer.
Todos vão ao dojo treinar e depois vão embora. Então, este
é o motivo pelo qual o sistema de uchideshi não se encaixa
nos tempos atuais. Ser um uchideshi deveria ser uma questão
espiritual envolvendo o sensei e o uchideshi. Acho importante
refletir sobre este ponto. Aqueles que acham, tecnicamente
falando, que tornando-se um uchideshi obterá um progresso
rápido já que terá a oportunidade de praticar diversas horas
por dia, pensam de maneira errada. Acho que a questão de como
deve ser a vida com o sensei, como deve ser o relacionamento
sensei-deshi, como deve ser a ligação entre os dois, são fatores
muito importantes. Talvez este ideal seja uma característica
da cultural japonesa. Eu não sei muito sobre países estrangeiros.
Até mesmo o que minha esposa faz em Ikebana (arranjos de flores)
ou a cerimônia do chá não são simplesmente uma questão de
gestos porque gestos são apenas formas. Eu penso que há um
"michi” (caminho) nestas formas e que é manifestado na cerimônia
de chá e nas flores. É algo extremamente difícil. Eu acredito
que é uma questão de entendimento, de aprendizado próprio
com as coisas que o sensei não ensina, e não uma questão de
aprender com ele a fazer isso ou aquilo. Todos estas coisas
as quais chamamos de “Michi” (caminho), quer seja o “caminho”
do Budo, o arranjo de flores, a caligrafia ou outra coisa;
tudo parece ter algo que você aprende com seu professor, entretanto
nunca é falado; algo além do que ele está realmente ensinando.
Afinal de contas, qualquer coisa chamada de "Michi” não deve
ser ensinada explicitamente, mas sim compreendida por si próprio.
Esta é uma grande tarefa, mas é assim que deve ser. Eu conheci
Ueshiba Sensei e o seu Budo quando participei de uma conferência
e de um treino de “Aiki Budo”. Eu fiquei tão impressionado
com a singularidade, com a sutileza e a profundidade da arte
do O-Sensei, que nasceu em mim um desejo de aprender aquilo,
e foi ai então que entrei no grupo. Eu suponho que a próxima
pergunta é por que eu não continuei em meu treinamento do
Budo. Bem, eu mudei para Manchuria no meio de meus estudos
e lá, me envolvi com o "Shiso Undo” (Movimento Político Liberal).
Também, naquela época em Manchuria, havia o Ninjutsu e outras
artes do mesmo gênero. Não era muito para um ator ou charlatão
alugar um teatro ou algum outro lugar e fazer uma apresentação
caminhando descalço nas lâminas de espadas japonesas ou saltando
para cima e para baixo, com força, sobre cacos de garrafas
de cerveja. Este era o tipo de coisa que se via por lá quando
cheguei. Assim que vi fui perguntar como faziam. Me foi dito
que se eu pudesse entrar no “Reino sem Ego” (Muga-no-Kyo)
poderia fazer aquilo. No entanto, entrar no “Reino sem Ego”
é uma tarefa muito difícil assim, quando eu perguntei como
devia ser feito, me disseram para “praticar Reido” ou “atividade
psíquica”. Se você praticar “Reido”, você pode unificar sua
mente e espírito. Disseram que se eu pudesse unificar meu
espírito eu poderia fazer as coisas que eles estavam fazendo.
Quando perguntei se algum deles podia me ensinar “Reido”,
um me disse “venha a meu endereço”. Três ou quatro dias de
treinamento seriam suficientes mas iriam me custar 15 yens.
Bem, eu estava sem dinheiro na época então pedi que derrubasse
o preço para 5 yens e voltei lá outras vezes. No entanto,
parecia ter algo extremamente “impuro” pairando no ar. Eu
finalmente percebi o que era quando, após muito tempo, nada
havia acontecido. Agora, porque eu acreditei na primeira pessoa
que encontrei e que me falou que se eu treinasse um pouco
de "Reido" entraria no "Muga-no-kyo”? Bem, na época que fui
para a academia do O-Sensei eu estava ensinando na Universidade
Naval. Havia um professor de matemática chamado Yoshisaburo
Doi. Este professor também freqüentava o dojo para praticar
o Budo. Ele podia se sentar à frente do Altar Shinto e fazer
uma meditação silenciosa, mas seu corpo estava sempre se movendo.
Era realmente um tipo estranho de movimento. Eu estava realmente
impressionado com ele e então lhe disse, “Sensei, você tem
uma forma diferente de se mover, não? E ele me respondeu “É
o “Reido” (movimento psíquico)”. Quando lhe perguntei se usava
algum sentimento enquanto fazia os movimentos ele respondeu,
“A força de vontade está envolvida, e eu estou ciente de que
estou me movendo, mas não sou eu quem faz com eu meu corpo
se mova. Então era hora de praticar, cumprimentei-o e treinamos
juntos. Às vezes lhe perguntava “Há alguma vantagem quando
você faz o tal “Reido”?”. Lembro que ele estava fazendo um
trabalho de matemática de alto nível e realmente muito difícil
na Universidade naval e, durante os exames, quando estava
folheando as questões, parava de repente. Quando isso acontecia
ele olhava para a questão e com certeza encontrava um erro
nela. Ele dizia que isso era o “Kan”. Sua intuição funcionava
muito bem. Talvez se eu tivesse estudado “Reido” com Doi Sensei
eu não teria sido enganado por aqueles charlatões em Manchuria
mas, de qualquer modo considero estes tipos de fenômenos,
muito interessantes de serem pesquisadas. Eu próprio nunca
fui capaz de seguir até o fim. No caso de algo tão profundo
como o Aikido, acho que ninguém, nem mesmo depois de uma vida
inteira de envolvimento, pode dizer que foi suficiente; não
há limite. Com algo assim profundo, nós às vezes sentimos
que é muita coisa, que estamos apenas batendo nossas cabeças
contra uma parede. Quando Ueshiba Sensei falava ou enquanto
ele praticava Budo ele dizia coisas extremamente difíceis.
Ele falava de coisas as quais segundo ele estavam profundamente
relacionadas com o que ele chamava de “amor”. Quando ele abordava
este tipo de assunto era realmente um problema difícil. Por
exemplo, era um prazer viajar com O-Sensei fora do país ou
em uma de suas freqüentes viagens a Tokyo ou Osawa. Não me
lembro se eles estavam voltando de Osawa ou indo de Osawa
para Tokyo. Mas um de meus sempai, um homem chamado Sr. Yukawa,
de alguma forma se separou do Sensei no caminho e eles chegaram
separados. Foi então repreendido por causa disso. Acho que
o Sensei estava brincando com ele. Quando fui honrosamente
escolhido para ser o companheiro de viagem do Sensei, sempre
ficava pensando que não iria deixar ele escapar de mim. Acho
que ainda tinha um pouco de presunção em minha atitude. Nós
freqüentemente íamos a um certo clube de economistas para
treinar. Sensei tinha dito que assim que o treino daquele
dia terminasse retornaríamos a Tóquio. Mais tarde, quando
estávamos saindo do elevador, Sensei estava um pouco à minha
frente e eu o seguindo, mas de repente ele desapareceu! Eu
pensei comigo mesmo “Este vai ser um replay do problema com
o Sr. Yukawa” e fiquei um pouco descontrolado. Corri de taxi
para a estação de Osaka mas o Sensei também não estava lá.
Eu pensei “Fui abandonado”. Então, por alguma razão tive que
trocar de trem em Kyoto e quando saí na plataforma lá estava
o Sensei. “Bem Sensei”, eu disse, “que bom que encontrei o
senhor em Kyoto”, e fiquei aliviado por não ter que voltar
sozinho para Tokyo. De qualquer maneira, o treinamento de
um deshi acontecia 24 horas, uma ocupação que durava dia e
noite. Este é um tipo de treino. Por isso que O-Sensei tinha
algo completamente diferente de seus mestres de Budo. Isso
que é realmente necessário aprender. Se você acha que deveria
dizer “Bem, você podia ter me esperado” ou “Você não devia
me deixar para trás”, então você nunca vai ser capaz de seguir
seu professor. Mas no mundo de hoje, esta forma de fazer as
coisas não é muito apreciado.
Jornalista: Sr. Yonekawa, você se lembra deste velho
livro chamado "Budo Renshu"? Foi republicado recentemente.
Sr. Yonekawa: Este, deixe-me
mostrar para você. Eu tenho uma cópia aqui. Este Sr. Miura
mencionado aqui era um dos deshi do Sensei que cuidava destas
reuniões. Ele escrevia tudo que era dito naquela época.
Jornalista: Porque 0-Sensei publicou
"Budo Renshu”?
Sr. Yonekawa: Bem, no passado
vários senseis escreveram pergaminhos ou ornamentos de propagação
(makimono) esperando que seu entendimento fosse fácil ou então
através de desenhos e diagramas, para preservar o conhecimento
deles. Acredito que estas foram as principais razões.
Jornalista: Tomiki Sensei estava
envolvido nestas publicações?
Sr. Yonekawa: Neste caso acho que o responsável era
a Sra. Kunikoshi. Ela era uma artista. Acredito que era ela
mas não posso me lembrar com exatidão... O-Sensei planejou
para que fosse uma espécie de “Mokuroko” (catálogo de técnicas)
para alguns deshi, mas não me lembro quantos foram feitos.
Eu estava por perto até mais ou menos 1940 mas...
Jornalista: O Sr. mencionou ao
telefone que tinha um grande número de fotos daquele período...
Sr. Yonekawa: Sim, elas foram
tiradas no dojo Companhia de Kodansha. Considerando as fotos
de todos, havia 600 ou 700, talvez quase mil fotos tiradas.
Eu tinha muitas delas mas, enquanto eu estava em Manchuria,
meu filho as tirou da loja e acabou perdendo por isso, restaram
poucas. O dojo foi construído pelo Sr. Noma da Kodansha e
nós fomos lá para ver O-Sensei praticar e achamos que deveríamos
tirar algumas fotos...
Jornalista: O Sr. tinha alguma
razão particular para fotografar?
Sr. Yonekawa: Bem, presumo que
Kodansha queria preservar para gerações posteriores. Naquela
época, o Jornal Asahi em Osawa fez um programa que foi exibido
na América. Por ser um filme com som, quando alguém era projetado
havia um grande estrondo e você podia até mesmo ouvir a sirena
de um carro de polícia do lado de fora.
Jornalista: Sim, eu ouvi falar
sobre o filme feito pela Asahi Shimbun. Eu acredito que este
filme foi feito aproximadamente 50 anos atrás. Se não forem
tomadas providências para se preservar estes filmes antigos,
temo que eles acabem se perdendo para sempre.
Sr Yonekawa: Sim, você tem razão.
Jornalista: Eu acho que o Hombu
Dojo tem uma cópia deste filme mas gostaria de saber se há
mais alguns por aí.
Sr. Yonekawa: Eu imagino que
o escritório da Asahi Shimbun em Osaka tenha um, mas não em
Tóquio. O Sr. Tomodate era diretor e o Sr. Takuma Hisa era
o diretor de assuntos gerais. Eu costuma ir à casa do Sr.
Hisa para ensinar aos executivos do Asahi Shirnbun e cheguei
a ir também ao Rico Club. Tudo isso ocorreu naquela época.
Jornalista: Não é o Sr. fazendo
um ukemi nesta foto? O Sr. parece realmente jovem...
Sr. Yonekawa: Bem, eu era bonito
e também tinha um rosto rosado! (risos)
Jornalista: Sensei, estamos atualmente
pesquisando métodos para preservar fotografias antigas como
estas. Nós sabemos que é possível fazer uma cópia infra-vermelha
para devolver o contraste. Acho que poderíamos salvá-las para
as futuras pessoas do Aikido e outras também.
Sr. Yonekawa: Verdade, bem, por favor continuem suas
pesquisas. Assim como estas fotos servem de referência, deve
haver muitas outras em algum lugar mas infelizmente eu sinto
muito dizer que não sei detalhes sobre elas. Nós tínhamos
planejado fazer uma série completa de suwari-waza hanmi-handachi,
tachi-waza, ushiro-waza, e finalmente, ataques múltiplos,
mas por algum motivo tivemos que interromper antes de terminarmos.
Jornalista: A razão pela qual
me interessei em preservar fotografias foi porque notei que
poucas pessoas pareciam interessadas no desenvolvimento ou
evolução do Aikido. Imaginei que se eu não colecionasse muitas
destas fotografias antigas elas iriam se perder juntamente
com os registros das antigas técnicas de Aikido.
Sr. Yonekawa: Eu sinto o mesmo.
Por isso que você entrou em contato com Tomiki Sensei?
Jornalista: Sim, eu o entrevistei
exatamente há um mês atrás.
Sr. Yonekawa: O Sr. Tomiki tem
mais experiência no Aikido do que eu em termos de tempo, mas
do ponto de vista do tempo gasto no dojo, falando ou em contato
direto com O-Sensei, eu tenho mais experiência. Também o Sr.
Shioda veio para o dojo quando entrou na faculdade. O pai
dele era um médico muito conceituado mas ele estava completamente
envolvido com Ueshiba Sensei e com o Budo. Quando ele abriu
a porta do dojo e me viu lá logo disse: “Bem, aqui está Yonekawa
novamente.” Hoje, após todos estes anos, sempre que nós nos
encontramos ele ainda diz a mesma coisa! Eu também tive duas
ou três oportunidades de encontrar Sokaku Takeda Sensei. Em
relação aos estranhos ele podia ser maravilhoso mas com seus
alunos ele era um terror. Sempre que ele visitava o dojo,
Ueshiba Sensei o tratava com extremo respeito. Para nós, era
a lição mais objetiva e evidente de como tratar nosso mestre
e a guardamos de coração.
Jornalista: Qual era a atitude
de Ueshiba Sensei com relação às demonstrações naquela época?
Sr. Yonekawa: Sobre o que sei
com relação às demonstrações, posso dar o seguinte exemplo.
Naquela época o “Aiki Budo” não era tão bem conhecido. Por
esse motivo acho que as demonstrações incluíam muito do que
poderia ser chamado de material educativo, ou seja, coisas
para atrair diversos setores ou para mostrar que não era simplesmente
um Budo, mas algo que ampliou o Budo, direcionando o treinamento
do homem à perfeição do ser humano. Lembre-se que era o período
em que o Judô era uma arte marcial em pleno crescimento. Assim,
não era simplesmente uma questão de mostrar o Budo e juntar
pessoas interessadas em Artes Marciais. Acho que as demonstrações
de Aiki Budo incluíam o desejo de ampliar os horizontes da
espécie humana. Além disso, naquela época havia o “Kobudo”
(arte marcial clássica) para ser vista, mas não era tão bem
vista como o Judô. O Aiki Budo era visto como algo parecido
com o Kobudo. Eu sentia que O-Sensei estava fazendo um grande
esforço para mostrar que seu Aiki Budo não era de forma alguma
uma das artes marciais ou caminhos clássicos. Realmente era
algo muito difícil de se treinar dentro do Aiki Budo. Jigoro
Kano Sensei (1860 - 1938) que criou o Judô e fundou o Kodokan
em 1882, idealizou o moderno método Shiai (competição) para
satisfazer o senso de superioridade das pessoas, penso eu.
Pelo menos, me parece que no shiai há o elemento que supre
este tipo de dimensão humana. Acho que o Aiki Budo, por ter
rejeitado o shiai, possui um elemento superior.
Jornalista: Eu sinto muito nós
não termos mais tempo para aproveitar. Foi fascinante escutar
suas lembranças e visões em relação ao Aikido. Eu gostaria
de agradecer sua gentil colaboração.
Traduzido por Federico Ventriglia - Instituto Takemussu Central.
Nota do Prof. Wagner Bull:
O video feito a 50 anos mencionado na entrevista, bem como
os livros, podem ser facilmente adquiridos, entrando no site
do "Aikido Journal",cujo endereço estã no link "sites" do
presente homepage. Shiguemi Yonekawa treinou com o fundador
no decada de 30 e saiu nas maiorias das fotos como seu uke.
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Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil
Aikikai.
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