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ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
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Entrevista
de Steven Seagal para o Jornal Shambala Sun - concedida
em Novembro de 1997.
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(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro - Sorocaba).
Nessa entrevista com o escritor de cinema Stanley Weiser,
o expert em artes marciais e ator de cinema em filmes de
ação, Steven Seagal, quebra o silêncio sobre seus vários
anos de práticas budistas e lança críticas em relação ao
reconhecimento recente, de ser uma incarnação de um Lama
Tibetano.
Stanley Weiser: Em primeiro lugar,
voce pode contar aos leitores um pouco sobre seu background
na arte do Aikido --- por quanto tempo voce treinou, quem
foram seus professores e quando voce atingiu o status de
mestre?
Steven Seagal: Bem, o título de mestre --- no papel --- é
uma coisa que eu provavelmente recebi na década de oitenta.
Eu ainda não acredito que atingi esse nível de ser um mestre.
Talvez algumas pessoas pensem que sou um mestre, mas em minha
mente certamente não o sou.
Quando voce iniciou seus treinos em
Aikido?
Lá pelos anos sessenta, comecei a treinar com Ishisaka
Kiyoshi.
Voce se iniciou no Budismo como uma
ramificação da sua disciplina das artes marciais?
Bem, para ser honesto com voce, eu não tenho certeza.
Eu nasci com uma consciência espiritual muito séria e por
muitos anos estudei vários caminhos. Fui ao Japão no final
da década de sessenta e comecei a me envolver com Zen. Visitei
mosteiros, estudando Budismo e recebendo instruções espirituais.
Isso foi o começo para mim, do modo que achei que deveria
ser --- o desenvolvimento físico de um homem através das artes
marciais e o polimento do lado espiritual simultaneamente.
Voce também estudou acupuntura?
Certo. Essa foi a maneira pela qual fui primeiramente introduzido
no Budismo Tibetano. Haviam muitos Lamas que tinham vindo
do Tibet. Estavam doentes e haviam sido torturados. Por eu
estar estudando acupuntura, me foi pedido para tomar conta
de alguns deles, mesmo eu não sabendo falar a língua Tibetana.
Conseguimos nos comunicar sem problemas. Acabei aprendendo
Tibetano e me tornei muito amigo deles. Mais tarde, acabei
me envolvendo em certas coisas que realmente não são o tipo
de coisas que quando me recordo, me trazem boas lembranças.
Era uma época quando os Kampas ainda estavam lutando com os
Chineses e a CIA estava ajudando-os, e por causa da severa
repressão que havia sobre o povo Tibetano, eu quis me envolver.
Meu envolvimento foi mínimo. Esses foram os anos em que meu
interesse em Budismo Tibetano foi despertado, mas meu envolvimento
em quaisquer atividades espirituais e treinamentos continuaram
assunto pessoal --- não secreto como algumas das outras coisas
foram, mas pessoal. Foi uma época em que eu queria estar completamente
invisível na comunidade dharma por várias razões. Somente
nos últimos meses que eu apareci.
Voce pode nos dizer de seu envolvimento
com os guerreiros libertadores do Tibet?
Acho que seria melhor se não entrássemos nesse assunto.
Nós estamos tentando viver num mundo onde podemos escolher
o caminho do meio e procurar harmonia, eu não quero parecer
ser uma pessoa revolucionária perigosa, porque realmente não
sou. Estou aqui na Terra para uma coisa e essa coisa é ver
de alguma maneira posso servir a humanidade e aliviar o sofrimento
dos outros.
Quem foi seu guru inicial?
Basicamente, para mim Sua Santidade Dilgo Mhyentse
Rinpoche foi o maior, e hoje em dia, minha devoção á Minling
Trichen e Sua Santidade Penor Rimpoche é muito forte.
Existem reportagens recentes que dizem
que Penor Rimpoche o reconheceu como um tulku. Isso está
correto?
Meu Deus, Essa não é a maneira que eu colocaria isso.
Há uma revista muito vil que me fez acusações dizendo que
eu subornei Penor Rimpoche e todos os outros lamas mais altos
para me darem o reconhecimento. Bem, em primeiro lugar, esse
é um reconhecimento que as pessoas já me disseram existir
há mais de vinte anos, pessoas que eu conheci em dharma há
muito tempo, muito antes de Penor Rimpoche formalizar isso.
Foi algo que sempre mantive em segredo e até chequei a negar.
Então, se eu neguei, porque eu subornaria alguém agora? Voce
me entende, é tão estúpido. Eu não ligo que me insultem, mas
é uma vergonha que as pessoas escandalizem o dharma e falem
coisas más sobre Penor Rimpoche e outros lamas Nyingma mais
altos.
Voce está dizendo que por m ais de
vinte anos as pessoas vem dizendo que voce poderia possivelmente
ser um tulku?
Existem pessoas que me dizem que sou um lama encarnado
ou tulku. Penor Rimpoche basicamente me reconheceu como Kyung-drak
Dorje, que foi a reencarnação do tradutor Yudra Nyingpo. De
acordo com "Vidas dos Tertons" de Jamgon Kongtrul, Yudra Nyingpo
foi discípulo do grande tradutor Berotsana e se tornou um
estudante exemplar e chegou a mestre de meditação. Muitas
de suas reencarnações, como a do tradutor de Minling Lochen
Dharma-shri, conseguiram contribuir com o Budismo e parecem
ter renascido em vários tertons (reveladores de tesouros).
Voce tem memórias de sua vidas passadas?
Desde o tempo em que comecei a ir a Índia e meditar,
eu comecei a ter memórias que eram um pouco confusas. Há alguns
dias atrás, eu estava sentado com um lama e uma das coisas
que ele me disse foi que eu tinha várias marcas de muitas
vidas passadas fortes, e devido a isso, minha percepção virá
muito mais sutilmente que a de outras pessoas.
O que voce quer dizer com isso?
Não sei explicar, realmente. Mas com alguma coisa como
ngondro, se voce treinar e treinar e dissolver-se no vazio
com o treinamento e voce está se concentrando em bodhicitta
mais do que qualquer coisa, voce provavelmente começará aos
poucos a dissolver o véu de quem voce pensa que é e se transformará
em sua verdadeira natureza, que é a combinação de todas as
suas vidas passadas. Nós só temos que relembrá-las. É aí que
o retiro é benéfico. É claro, quanto mais voce pratica, voce
desenvolverá siddhis diferentes. Mas nenhum deles realmente
importa. O que realmente importa é o que voce faz com sua
vida. Em contraste com o que aquela revista tinha a dizer,
quando uma pessoa me perguntava se eu era um tulku, o que
eu tenho a dizer é que não creio que isso seja importante
quem eu fui em minhas vidas passadas, eu penso que o que importa
é o que soou nessa vida. E o que eu faço somente é importante
seu eu puder aliviar o sofrimento dos outros, se eu conseguir
fazer do mundo um lugar melhor, se de alguma maneira eu puder
servir a Buda e à humanidade, se eu puder, de alguma maneira,
plantar a semente de bodhicitta no coração das pessoas.
Então, contrário ao fato de muitas pessoas pensarem que
esse reconhecimento foi um tipo de descoberta repentina,
na verdade foi desenvolvida durante um longo período de
tempo.
Oh, eu tenho feito meditações sérias da minha própria
maneira por mais ou menos vinte e sete anos.
É um longo tempo. Os estudante tem
que chamá-lo por algum título diferente?
As pessoas me chamam de todo o tipo de coisas, incluindo palavras
de quatro letras (f...). Eu respondo a todos eles. Quando
entro em algum lugar, algumas pessoas vêem um cachorro, algumas
pessoas vêem uma vaca; eu sou tudo o que eles vêem, é a percepção
deles. Mas eu acredito que a natureza Buda está em todos nós,
mesmo em um malhado deitado num beco cheio de pulgas. O cachorro
é Buda para mim. As pessoas podem me chamar do que elas quiserem,
eu respondo a tudo.
Voce deu uma palestra pública em Santa
Bárbara - Califórnia, recentemente.
Eu transmiti ensinamentos, sempre ensinamentos sobre
Buda. O Dalai Lama me disse para me concentrar em bodhicitta.
É isso que eu sinto que gostaria de fazer.
O Dalai Lama lhe deu instruções particulares
sobre ensinamentos?
Eu não diria que ele me deu instruções particulares sobre
ensinamentos. Mas ele me deu instruções pessoais e me convidou
a vir a outros ensinamentos dele. Eu também estudaria, espero,
com Trichen Rimpoche e Penor Rimpoche --- esses são alguns
dos lamas que eu acho ser professores extraordinários e grandes
mestres, e tenho a sorte de me ser dado algum tempo com eles.
Tenho esperança de que, estando sentado com eles, eu absorverei
algum conhecimento ou sabedoria em como transmitir o pouco
que eu já sei.
Quando voce se tornou uma estrela
de cinema, no que isso afetou seu ego? Voce perdeu o controle?
Os ensinamentos devem ter sido duros de aprender, considerando
que tentavam te explorar e/ou abusar?
Mesmo quando eu estava no Japão, as pessoas tentavam me endeusar,
e a razão pela qual eu saí de lá é porque esse "endeusamento"
é uma grande e mortal armadilha. Essa é a razão pela qual
eu mantive minhas práticas espirituais para mim mesmo, na
América. Não acho que ser tido como um deus foi meu maior
problema na vida porque tive a sorte de ter compreendido há
muito tempo que, o que a adoração e o poder realmente são.
Acho que o maior obstáculo foi somente a falta de entendimento
do jeito que seria.
Há um ditado Budista que diz, "Trabalhe
com as grandes sujeiras/corrupções primeiro". O que voce
diria que foi a maior decepção que voce teve que enfrentar
nessa vida?
Foi não entender realmente a diferença entre desejo
de perfeição espiritual para o benefício de todos os seres
perceptivos/conscientes e me alimentar com isso. Foi aí que
eu me confundi em minha juventude, eu pensava que se eu pudesse
me alimentar espiritualmente até atingir altos níveis espirituais,
daí então eu poderia fazer coisas melhores no mundo e seria
bom para mim e por conseqüência seria bom para todos os outros.
Eu era ignorante e tolo até entender que a base de tudo tem
que vir primeiro com o benefício de todos os seres conscientes.
Isso foi um grande obstáculo para mim e me causou muito sofrimento.
Voce acha que o reconhecimento é um
meio de acelerar esse processo?
Espero que sim.
Quais práticas de meditação voce faz?
Eu faço ngondro e faço yoga guru, essa é uma grande forma
de meditação para mim. Faço práticas secretas que sou autorizado
a fazer.
Voce faz adorações?
Adorações são minha coisa favorita no Universo. Nesse
momento estou tentando simplificar todas minhas práticas
que estão em minha cabeça, todos os tantras que tentei aprender
e estou tentando me concentrar em bodhicitta. Quando fico
meio esotérico no campo dos tantras, me perco um pouco.
Daí eu entendo a sabedoria de meus professores quando eles
me dizem para voltar ao início e me concentrar em bodhicitta.
Não sou um ser altamente iluminado, não sou um grande lama,
não tenho nenhuma grande prática. Sou uma pessoa bem simples
tentando chegar na primeira base e a mais prática de Bodisattva.
Estou iniciando memorizações humildes, meditações e orações.
Por quanto tempo voce pratica?
Não tenho um relógio particular. Eu não marco quanto
tempo pratiquei, mas eu diria que é por mais ou menos por
duas horas na parte da manhã e por duas hora na parte da
noite. Na vida corrida do cinema com o caos e o ego incerto,
onde está seu senso de equilíbrio?
Como voce se segura nesse mundo?
Eu realmente não me importo com o que as pessoas pensam
ou falam de mim. Quando voce pergunta, o que me dá conforto
na alma e acalma o samsara, é o Guru Rimpoche, o Deus Buda
e todos seus protetores, dakas e dakinis. Eu caminho diretamente
para essa cidade e contribuo dando o pouco que sou capaz.
Em quais outros projetos voce tem
gasto seu tempo?
Eu quero poder alimentar as crianças que estão morrendo
de fome e doentes no Tibet. Quero trabalhar em projetos
inicialmente com crianças que estão morrendo de fome e doentes.
Também estamos tentando fazer algo para as pessoas com problemas
nos olhos no Tibet. Muitos dos mosteiros necessitam de ajuda.
Quando aquela revista disse essas coisas erradas sobre meus
professores, o que eles não quiseram mencionar é que eu
dôo tradicionalmente grandes parcelas em dinheiro para várias
organizações religiosas diferentes. Fiz isso em segredo,
mas parece que, no que chamamos de "crença da imprensa",
não há lucro quando se reporta feitos bondosos. Eles preferem
notícias más, mesmo que tenham que fabricá-las.
Parte disso, eu acho, é a inabilidade
deles conciliarem sua imagem no cinema com sua imagem de
homem espiritual.
Atuar é uma arte. É a intenção que seja uma arte.
Um de meus professores disse que a arte é a mãe da religião;
nos tornando um com nós mesmos e com a natureza, nos tornamos
um com Deus. Não estou dizendo que sou um grande artista;
provavelmente eu seja um artista fraco, mas o ponto é que
consegui através desse veículo, espalhar o dharma e ajudar
outras instituições religiosas pelo mundo, desde Judeus,
Católicos até os Hindus.
O que voce faz com toda essa raiva desenfreada que provém
desse negócio traiçoeiro. Sendo um Budista, como voce responde
a isso?
Sou humano, quando me machuco eu sangro como qualquer
um. Quando isso acontece, é melhor trazer seus problemas
em suas práticas. Sobrepondo sua raiva, dor e apego, nos
tornamos mais fortes, voce leva isso a Buda, até os protetores,
e nos purificamos.
Seu tipo no cinema, é o de uma pessoa
nobre e forte protegendo os inocentes e oprimidos dos gangsters,
traficantes de drogas e terroristas. Nos personagens que
voce interpreta, voce é forçado a enfrentar a violência
com violência. Quando voce se vê na tela, como voce concilia
a carnificina com o estilo de vida de uma pessoa que pratica
os ensinamentos de compaixão e não-violência?
Bem, não acho que uma ciosa tenha a ver com a outra. Acho
que a arte imita a vida e sua função deveria ser uma perfeita
e exata interpretação de como a vida realmente é, em todas
as suas emanações. Sou um artista procurando aperfeiçoar
e progredir em seu trabalho, mas ao mesmo tempo tenho meus
sentimentos sobre a violência. Eu estava sob o contrato
da Warner Brothers que eu não conseguia sair, e o que eles
queriam de mim era que fosse somente o homem nos filmes
de ação. Foi me oferecido somas extraordinárias em dinheiro
por outros estúdios para que fizesse outros tipos de filmes
e a Warner Brothers não me liberava. Agora que estou fora
daquela situação, terei a oportunidade de fazer os tipos
de filmes que eu realmente gostaria, que certamente terão
uma natureza espiritual e que levarão as pessoas à contemplação
e oferecerá a elas prazer.
Okay, última pergunta. Entendendo
a inseparabilidade de samsara e do nirvana, o que voce diria
que é e melhor coisa em ser Steven Seagal e qual a pior
coisa em ser Steven Seagal?
Como voce sabe, eu fui criado em Zen e não olho para a minha
vida em termos de melhor ou pior...
Eu quis dizer de um ponto de vista
relativo...
A coisa que mais aprecio e agradeço são os professores
que me permitiram ter um pouco mais de sabedoria e conhecimento
que é o que me mantém respirando agora. Tenho que agradecer
pela habilidade que possuo na tela do cinema para trazer
às pessoas prazer e felicidade e à habilidade que tenho
esperança de ter no futuro, para trazer as pessoas ao Caminho
da contemplação. Em termos de coisas ruins, considero ser
meus piores inimigos e meus piores sofrimentos os meus maiores
professores, para que haja sempre um outro lado para essas
forças negativas.
Muito Obrigado!
Muito obrigado. |
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