ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Saito Sensei .

No ainda quente dia de 10 de setembro passado [1978], a equipe de Aiki News visitou na cidade de Iwama, província de Ibaragui, o responsável pelo Aikikai Ibaragui Dojô e também mantenedor do Santuário Aiki, Shihan Morihiro Saito, que nos relatou lembranças dos tempos em que conviveu com Ô-Sensei, os métodos de ensino do próprio Shihan e mensagens e orientações aos praticantes de Aiki-shugyô (treinamento austero). A entrevista ocor-reu num clima agradável e harmonioso, proporcionada pela presença de diversos membros graduados de Iwama Dojô, que haviam encerrado o treino de domingo; visitantes da província de Iwate e sob a cálida hospitalidade da Sra. Saito em pessoa.

Soubemos que o senhor conheceu Ô Sensei logo após a Guerra. Poderia nos dizer como tomou a decisão de iniciar o Aikidô, assim como nos contar lembranças desta época?
Desde criança tinha adoração pela arte da espada. Como todos. Li em alguma revista sobre a história de pessoas como Gotô Matabei ou Yagyû Jubei... mas era na época antes e durante a guerra, eram tem-pos em que os homens tinham vergonha de não saberem lutar Judô ou Kendô. Obviamente, ensinavam estas artes nas escolas. Eu escolhi apren-der Kendô e então... acabou a guerra. A partir disso, ficou proibido o porte de armas, não se liberava nem o aikuti (espécie de faca) e era perigoso não se conhecer algum tipo de defesa, por isso comecei a fre-qüentar o Shudôkan em Meguro. Nesse bairro tinha um professor de Karatê Shitô ryu. Era professor do Nitidai (Uni-versidade do Japão). Mudei para lá e passei a treinar Karatê diligentemente. Nessa época, por motivos de família, morava em Tokyo. Depois de ter sido trans-ferido para cá, não pude mais ir treinar em Tokyo. Então fui treinar no dojô em Ishioka, este era de Judô. Já sabia Karatê e Judô; dependendo das condições da briga, poderia usar tanto um como o outro; por outro lado, se tivesse uma arma nas mãos, o Kendô daria mais certo - pensava que sabendo Ken-dô, Karatê e Judô, não tinha o que te-mer... então ouvi falar que nas profundezas das montanhas de Iwama vivia um velhinho que usava técnicas estranhas. Uns diziam que era Karatê, um professor de Judô disse: "Aqui-lo é Ueshiba-ryû Judô". De qual-quer modo, era pavorosa a idéia de se embrenhar pelas montanhas, provocava um medo sobrenatural, supersticioso. Mesmo assim, a curiosidade falou mais alto e com-binei com um amigo de ir até lá. O amigo ficou com medo e faltou ao nosso encontro. Eu vim sozinho. Era uma manhã quente, quan-do cheguei. Ô-Sensei estava ministrando a aula matinal aqui. Sua residência ficava para o lado de lá. Quem estava sentado aí era aquele que desde cedo havia ido para a Itá-lia/França, o Minoru Mo-chizuki. "Ô-Sensei encontra-se ali" disse-me. Estava sentado de pernas cruzadas. Vindo para cá, estavam treinando Akio Kano e Shoiti Abe, que havia ido desde o começo para a França e filho do empresário de uma gran-de firma chamada Ishihara Comercial. Os três estavam treinando com Ô-Sensei . Aí fui até o atual quarto de seis tatamis, sentei-me e estava esperando, quan-do o Ô-Sensei e o Abe-san vieram. O Abe-san atendia Ô-Sensei rapidamente; por exemplo, quando Ô-Sensei ia se sentar, já lhe passava ligeiro a almofada. E me encarou firmemente. Por isso digo que dojô de Judô (em comparação com este) é play-ground de criança. Lá parecia que crianças estavam rindo e brincando. Por que será? O dojô de Karatê tinha um clima mais respeitoso, mas o de Judô parecia um parque de diversões. Por este motivo, às vezes sentia-me desanimado com o Judô. Quando se está atracado no Judô, a qualquer momento pode-se chutar o adversário, ou mesmo até furar os olhos do outro. E isto o Judoca deixa transparecer na falta de kamae com relação às outras pessoas. Por esta razão, quan-do eu praticava o Judô, às vezes sentia falta de alguma coisa. E também, quando estava treinando, o senpai sempre nos usava para o seu treino e só de vez em quando, quando estava de bom humor, deixava que nós o arremessássemos; achava isto uma falta de respeito e de consideração muito grandes - bem, deixe-me parar de reclamar, senão vou levar bronca do Ô-Sensei - continuando, perguntaram-me "por que você quer aprender Aikidô ?" respondi que "se puder me ensinar eu gostaria de aprender" e aí me ques-tionaram " você sabe o que é Aiki ?". Não tinha como saber, não é? "Va-mos lhe ensinar a servir para o bem do mundo e da humanidade através deste Budô", afirmaram-me. Espantei-me, porque nunca tinha pensado que o Budô pudesse servir para o bem do mundo ou da humanidade. Naquela época só pen-sava em ficar forte. Somente agora é que comecei a entender. Já naquele tempo Ô-Sensei --deveria ser espiritualmente muito evoluído. Eu, entretanto, praticava o Budô somente com o objetivo de tornar-me forte e estranhei o pen-samento de que isto pudesse servir para o bem da humanidade e do mundo. Mas, de qualquer forma, se não conseguisse a permissão para ingresso no dojô, de nada adiantaria, então eu disse: "Hai, compreendo". Pensei "Já que vim até aqui, vamos ver se saio aprendendo uma ou duas técni-cas". Entrei no dojô apenas com as man-gas da camisa arregaçadas e me chamaram "Ve-nha com tsuki". Fui e me arremessaram. Não sei se foi kotegaeshi, ou o quê, mas me jogaram. "Venha com chute". Chutei e quando senti que flutuei, estava no chão. "Venha me agarrar" e como sabia Judô, fui com segurança, mas não adiantou. A manga da camisa rasgou, as calças descosturaram, e Sen-sei me disse "Se desejar, venha trei-nar". Deu as costas e foi-se embora. Disse "se desejar, venha" e com isso pensei aliviado que a permissão para ingressar no dojô havia sido dada, mas Abe-san disse "Ô-Sensei conhece a arte de ver as pessoas. Pela sua atitude, você teve permissão de ingressar no dojô, mas temos uma organização chamada Aikikai. Portanto, se você não passar pelo julgamento no Aikikai, não podemos permitir o seu ingresso. Você tem que esperar três dias, pelo menos. Outro dia uma pessoa de Hokkaido veio dizendo que 'faria Aikidô nem que, para isto, tivesse que morrer'; então lhe dissemos para assistir algumas aulas. No dia se-guinte foi-se embora dizendo que precisava pensar.". Como Abe-san me provocou, tive que responder "En-quanto meu corpo permitir, me empenharei". Mas não era nada disso. Simplesmente fui testado por Abe-san. Na verdade, Abe-san é uma pessoa que cuida muito bem dos kohais. Ensina com minúcia e boa von-tade. Sou-lhe grato até hoje. Dizem que quan-do Abe-san ingressou, foi tratado como um irmão pelo Tohei-san, que lhe ensinou. Abe-san me tratou da mesma forma. De qualquer modo, havia um clima que nunca havia experimentado antes. Como explicar? Ô-Sen-sei parecia quase divino. Parecia franzino, mas tinha os olhos brilhantes. Quando ele falava, tinha uma expressão severa, mas ao mesmo tempo infinitamente bondosa, então decidi que iria aprender de todo jeito. Comecei a treinar, mas quando recebia a técnica doía-me o corpo, faltava-me ar. Achava preferível apanhar em uma briga do que aqui-lo, mas à tarde, lá ia eu treinar novamente. Uma vez fui treinar com um emplastro no braço e levei uma grande bronca do Ô-Sensei : "Estúpido!". A partir de então, quando ia para o dojô, tirava o emplastro e quando terminava, ia correndo tomar banho para colar novamente. Quando dávamos a entender que algum lugar doía, geralmente vinham atacando justamente este lugar. Enquanto esta situação se repetia, um dia descobri que já estava gostando muito do Aikidô... Fiz Aikidô por muito tempo com Ô-Sensei . Muitas vezes acom-panhava Ô-Sensei em suas aulas, por exemplo, em Ôsaka. Uma vez uma pes-soa de lá disse a Ô-Sensei "Dê-nos esta pessoa. Deixe Saito-san aqui para que possamos treinar com ele". Tive muitas propostas desta natureza, mas como não tinha intenção de deixar Ô-Sensei , sem-pre recusei. Acha-va que Ô-Sensei viveria até os cem. Foi câncer no fígado. Se não fosse pela doença, ele viveria até os cem anos. Era o ano 44 da era Shô-wa...(quando Ô-Sensei faleceu). (esposa de Saito sensei) Cem, não. Ô-Sensei dizia que viveria até os 120 anos. Saito Sensei:Desta maneira, vim a conhecer uma pessoa que pensava ser tenebrosa e encontrei um ser humano rígido, mas respeitoso, que eu sempre sonhei encontrar e de quem fiquei gostando. Depois, não sabia como, saía rolando e Ô-Sensei ficava ali de pé, sorrindo. Mas que técnica estranha, pensava, preciso aprender. Quando ingressei, todas as pessoas eram gen-tis para com os kohais e por isso fiquei gostando.

Ouvimos dizer que Saito-sensei encontrou-se com Ô-Sensei logo após a guerra, e nesta época Ô-Sensei estava em plena atividade. Gostaríamos que nos contasse como eram suas aulas diárias. Poderia nos falar sobre seus métodos de ensino?

Depois da guerra, proibiu-se o porte de katana ou armas de fogo, a guarda de katanas em casa, o porte de armas bran-cas com a lâmina maior que 7 cm e o Ministério da Cultura disse que "gos-taria que se perpetuasse o Aikidô, por este ser o âmago espiritual do Budô, mas se o tratarmos como Budô, seremos repreendidos pelo exér-cito americano, por isso mude o nome para ginástica ou arte de defesa pessoal e perpetue a semente do verdadeiro Budô". Ô-Sensei não foi a nenhum lugar, ficou só em Iwama, por isso temos que perpetuar em Iwama. Durante a guerra, Ô-Sensei esteve muito atarefado. Tinha uns poucos alunos mais velhos, aqui e acolá, mas eram muito poucos os que apren-diam com Sensei. Os Kohais apren-diam todos com Senpais. Nós tivemos muita sorte de Ô-Sensei nunca sair de Iwa-ma. Durante a guer-ra, Ô-Sensei foi obrigado pelo exército a usar o Budô que desenvolveu com tanto estudo e empenho para ensinar táticas de derrotar, de matar o adversário ou, a pedido da escola de Nakano, ensinar técnicas mortais, e era isto que ele vinha fazendo contra a sua vontade e quan-do a guerra acabou, ele foi desobrigado de fazer essas coisas. Finalmente podia fazer o Aikidô da harmonia humana, o Aikidô em que ele acre-ditava, em que poderia se concentrar, comentava, feliz. Todas as manhãs, rezava ao Kami e nos dava aulas. Depois, para termos alimento, trabalhava na lavoura e , se não usasse os mesmos instrumentos agrícolas que os alunos, não lhe agradava. Encomendou à casa de instrumentos agrícolas, uns mais pesados e, quan-do carregava os maços de arroz colhidos, fazia ques-tão de carregar mais do que os alunos. Fazia tudo junto conosco: debulha, colheita, semeadura, tudo. Tínhamos que carregar as pilhas de arroz colhidos até a escola, pois o caminhão não passava pela ladeira, então tínhamos que carregar ladeira acima no braço. Em aula, Ô-Sensei dava as técnicas como que organizando tudo o que ele vinha acumulando. Se começava em suwari waza, era só suwari waza. Agora a próxima, agora a seguinte, assim por diante. Treinando senpai e kohai, o kohai sempre começava como ukê. O senpai fazia com o lado direito, o esquerdo, e quando chegava a vez do kohai, já vinha a próxima técnica. O treino daquela época não era nenhuma moleza. Eu ia embora com o tio de Yûiti-san, Gorô Narita-san pelos caminhos entre plantações até a linha Joban, relembrando as técnicas dadas em aula naquele dia. Quando muito, demorávamos até duas horas pelo caminho, pois estas eram nossas horas de treino livre. Quando se apren-dia uma técnica, fazíamos seriamente, somente técnicas relacionadas àquela. Eu acredito que este método é o correto, por isso nunca faço as técnicas que acho mais fáceis, de qual-quer jeito. Sem-pre faço técnicas relacionadas àquelas. Desta forma, a pessoa que aprende também consegue organizá-la e na hora de ensinar, fica mais fácil. Se treina-se de qual-quer jeito, quan-do vai-se ensinar não se consegue sistematizar. Isto Ô-Sensei nos ensinou, dividindo em três, ou dois, ou quatro níveis. No kata, quando fica assim, faz-se assim e termina-se ficando assim... e é assim que hoje me permito fazer. Não se pode ensinar somente técnicas em que você é bom, para que os alunos te acha-rem um bom professor. Não precisa ser bom na aparência. Quem não quer, não precisa vir. Por isso não se deve falar do Aikidô para as pessoas "Venha, vamos treinar, venha fazer Aikidô". Não se deve fazer propaganda. As pessoas que quiserem, vêm e aí todos treinam. Por isso digo que não se deve chamar ou obrigar as pessoas a virem fazer Aikidô. Atrapalham as pessoas que realmente querem treinar. Por Ô-Sensei nos ter ensinado tão seria-mente, eu também preciso ensinar seriamente. Os ensinamentos de antes da guerra não incluíam explicações. Os alunos não podiam perguntar. Éramos só arremessados, sempre. Mas me ensinavam de manhã à noite. "Não é assim. Não pode errar nem um detalhe, se não a técnica fica errada. Portanto, deve-se fazer assim ou assado". O que se escreveu sobre isto é o "kuden" (ensinamentos orais). Em determinada técnica, quando acho que algo não está certo, relembro o que Ô-Sensei me disse e a técnica sai perfeita. Por isso estas palavras são maravilhosas, são profundas, são ensinamentos por palavras... e por isso escrevi um livro de kuden. Antigamente, tais ensinamentos eram secretos e não se podia revelar. Os segredos eram bons e necessários. No Aikidô atual, não é necessário. Ô- Sen-sei disse que queria expandir este Aikidô, este verdadeiro Aikidô, por isso eu tento seguir sua vontade, ensinando o mais perfeitamente possível, ensinando a todos o que Ô-Sensei me ensinou, esperando que todos se desenvolvam o mais rapida-mente possível. E também, naquela época não havia muitos alunos, mas Ô-Sensei nos chamava a todos, para sermos seu ukê, pelo menos uma vez. Por isso eu também faço o mesmo; é claro que quando há milhares de alunos é impossível, mas pelo menos quan-do é tai no henkô e kokyû-hô, faço todos os alunos me tocarem. Não sei se posso dizer que é minha filosofia, mas no meu entender este modo de vivência familiar é importante, e sem o ensinamento corpo-a-corpo não dá para se apreender nem passar a verdade. Acho que não dá certo ensinar sentado em um lugar alto, dizendo: "Você, faça as-sim" ou "assim está errado". E, da minha parte, as explicações são longas até quase se poder dizer entediantes. As pessoas não são burras, mas, no meu caso, tive dificuldades em apren-der por que meus miolos eram um pouco fracos. Quan-do vejo alguém cujos movimentos não são satisfatórios, acabo parando-o um pouco para dizer "o seu (movimento) não está satisfatório, é melhor fazer as-sim..." ou "tente dessa forma".. e também, se não parar para explica-ções, sei que uma hora o pessoal acaba ficando cansando, então sinto vontade de fazê-los descansar um pouco; tenho também von-tade de fazê-los desenvolverem técnicas perfeitas o mais rapidamente possível... por isso minhas interrupções para dar explicações são freqüentes. Como não domino bem as palavras e não tenho muitos talentos, não consigo fazer exatamente o que penso. Apesar disso, realmente tive muita sorte. Ô-Sensei me explicou detalhadamente até as mínimas coisas e o que faço hoje é guardar tudo o que me passou. Em companhia do Fundador, ninguém lhe faltava com respeito, mas a mim, todos sempre quiseram me testar. Uma vez, quando fomos a Ôsa-ka, só tinha gente que era 4o. ou 5o. dan de Judô. E além disso meu braço era fino assim. Ninguém me levou a sério e todos quiseram me testar de várias maneiras.

Seu braço era assim tão fino? (risos).
Depois da guerra, o Sr. Minoru Mochizuki abriu um dojô e na sua inauguração, Ô-Sensei foi convidado. Na hora de tomar banho acompanhei-o e ele olhou para minha cara e disse "Saito, como você é esquálido". Daí, fui até a companhia ferroviária e pedi emprestado uma barra de trilho que media 1 m e pesava 37 Kg para usá-lo como alteres... Hoje não posso mais fazer nada porque minhas pernas estão ruins... De qualquer forma, os métodos de ensino de Ô-Sensei eram perfeitos. Ensinava de forma que todos entendessem, que todos apren-dessem. E dizia que o Aikidô de antes da guerra não era o verdadeiro, lembre-se que ele recebeu ordens do exército.. que o verdadeiro Aikidô era o de pós-guerra. De qualquer forma, como as orientações de Ô-Sensei eram acertadas, eu estou preservando-as em meus ensinamentos. Apesar de precisar estudar mais e mais e ensinar de modo amável e minucioso. Vou estar estudando.

Eu soube que, durante a guerra, quando Ô-Sensei veio aqui para Iwa-ma, ele sofreu uma grande e fun-damental trans-formação espiritual. De que forma se deu esta trans-formação e ainda, como isto influenciou o desenvolvimento futuro do Aikidô?

Desconheço detalhes, mas pelo que sei, quando se aproximou o fim da guerra, o exér-cito finalmente se deu conta que com o Judô não se venceria a guerra. Então, o presidente da Escola Superior de Kenkoku na Man-chúria disse "Não dá mais para ganhar a guer-ra com Judô, mudemos para Aikidô". Desta forma, o Sr. Kenji Tomiki tornou-se Shihan da Escola Superior de Ken-koku. Na Escola da Marinha Militar de Edajima também chegaram a conclusão de que "Judô não serve mais, vamos mudar para Aikidô". Aí pensaram quem seria melhor como Shihan e decidiram que Nosabu Akasawa seria bom. Nosabu Akasawa-chan chegou a lutar na frente da batalha do Pacífico, a bordo de um navio chamado Akishima. E Ô- Sensei mostrou sua força ao fazer o alto comando militar enviar uma ordem de trazê-lo de volta da frente de batalha. Aí Sabu-chan voltou para Edajima e, no começo, parece que con-seguiu só comer e dormir, para se recuperar. Logo depois, veio o fim da guer-ra. Sensei disse: "Finalmente o Aikidô começou a ser aceito. Os jovens oficiais do exér-cito são moles demais. Tem que reeducá-los. Mas para isso não existe local apro-priado. Há de se construir um dojô no campo. Se não se reeducar os jovens oficiais num dojô campal, será difícil vencer esta guerra. Enquanto tiver Ju-dô/Kendô como matéria oficial nas escolas, não vencerá. Se não apren-der os fundamentos do Aikidô, pelos métodos do Aikidô, não vai dar". Encontrou estas terras para construir o dojô campal e quando terminou a cons-trução, a guerra acabou. Isto é tudo e sobre as transformações no íntimo de Ô-Sensei, causado pela situação social do país, nada mais sei. O que contei agora é tudo que me consta e que escutei perfeitamente. Sei que no exército, pelo menos na escola da marinha militar, se pensava que "Continuando com judô, o país perderá (a guerra)". Antes disso Ô-Sen-sei já ensinava na Escola de Soldados de Nakano, Escola Superior do Exército, Escola Superior da Marinha, Escola Superior de Toyama, Escola de Soldados. Já ensinava a pouco mais de dez anos, mas disseram que "Judô não serve mais" e chegaram a mudar para o Aikidô na Escola Superior de Kenkoku, na Manchúria. Entretanto, veio o fim da guerra e determinaram que "é proibido Budô, é proibido katana, armas de fogo, armas brancas com lâmina superior a 7 cm". Foi nesta épo-ca, em que Ô-Sensei estava se empenhando para encontrar uma maneira de preservar as sementes do Aikidô, que eu vim, por acaso, a ingressar no dojô. Naquela época havia muitos senpais. Todos estes senpais se desenvolveram e foram embora. Ou voltaram para suas casas, começaram a trabalhar; quem tinha um dojô (na família) assumiu suas responsabilidades; no final das contas, sobraram uns poucos senpais locais e eu, mas os senpais, quando se casavam, ti-nham que se preocupar com o sustento de suas famílias e assim não podiam mais vir ao dojô. De qualquer forma, quando Ô-Sensei estava aqui, poderiam receber uma convocação a qualquer hora. Se hoje, mesmo com compromissos, Sensei dissesse "venha" e a pessoa não fosse, seria terrível. Eu ia trabalhar em dias alternados e tinha as tardes livres, por isso consegui continuar.Mesmo que não recebesse um centavo de Sensei, ganhava salário da Ferrovia. Sensei não tinha problemas porque tinha posses, mas os alunos locais não tinham. Mesmo que viesse aqui, não havia remuneração do Sensei, e se não colhessem arroz em suas casas, morreriam de fome, por isso se afastaram do dojô. Eu continuei porque tinha um salário para me alimentar, da Cia Ferroviária Nacional. Ainda bem que tinha um trabalho, porque se não tivesse, não teria continuado. Enfim, fui útil e Ô-Sensei me ensinou tudo de bom ânimo. Nos-sa, foi duro. Dava a minha vida... era Budô... Não abria o coração senão para o aluno que trabalhasse de manhã à noite, todo sujo de terra, junto com os lavradores e ainda lhe fizesse massagem em suas costas. Já fazem nove anos completos que Ô-Sensei faleceu e já há o perigo de, ao longo do tempo, os ensinamentos que Ô-Sensei nos transmitiu sofrerem tantas trans-formações até o ponto de não serem mais aceitos como sendo Aikidô. Gostaríamos de indagar a Saito-sensei um ponto que, em seus ensinamentos, con-sidere de vital importância. Bem, no final, é realmente insistir no kihon. Não fazer o kihon de qualquer jeito nem se preocupar somente com técnicas bacanas. Mas ao mesmo tempo, se não mostrar técnicas bacanas hoje em dia, não o consideram bom professor. Se não fizer isto, os alunos não ficam. O budoka comete um engano quando planeja sobreviver com a men-salidade das aulas. O budoka não pode se preocupar com seu o pote de arroz. Porque acaba por concedendo dan para pessoas que não merecem ou dando mais atenção às pessoas que lhe trazem coisas. Ô-Sensei sempre disse: "Eu treino duro há 60 anos, é por isso que eu sou o que sou hoje. O que vocês acham podem fazer?". Sem-pre repetia isto. Porém há muitas pessoas que não entendem a diferença entre "duro" e "suave". Ser "duro" é ter movimentos firmes e ao mesmo tempo descontraídos, redondos. Muita gente fica com o movimento tenso e quando falamos para descontrair, fica completamente mole. Tem de desenvolver um movimento descontraído, impregnado de ki da melhor qualidade. Não conseguem captar a diferença entre duro e suave, mas também é porque não puderam ter con-tato com Ô-Sensei . Quan-do ia a algum local estranho para demonstrações, Ô-Sensei dizia que poderiam lhe roubar técnicas e que " as técnicas de Aikidô não são para serem mostra-das". O significado verdadeiro de se difundir Aikidô é difundir entre os verdadeiros aman-tes e praticantes de Aikidô. Não é para mostrar e difundir para quem não tem nada a ver com o Aikidô. Difundir Aikidô significa verdadeiramente criar mais e mais praticantes verdadeiros de Aikidô. Por isso, em demonstrações, é para mos-trar técnicas que ninguém entenda, mas que no fundo exista um funda-mento. Fundamento que pessoas que não tenham treinado diligentemente o kihon, não entendem. É por isso que exis-tem pessoas que tentar imitar somente as técnicas que Ô-Sensei fazia. E também é por isso que as coisas começaram a perder o centro. Não tem jeito, estão de tal forma que não sabem onde é o início do Aikidô. Mas o verdadeiro Aikidô exige sofrimento. Tem muitos dias que não são nada divertidos. O começo de qualquer coisa, de início, não tem graça. Mas isto se torna fundamento e depois tudo se ilumina... Em se sofrendo nos treinos, adquire-se alegria no Aikidô. Por ter-se folga no começo é que mais tarde se vai sofrer. O Shihan Hidaka, se esforçando, enfurnado aqui em Iwama, sim, é uma grande pessoa. Por isso, lembre-se do que Ô-Sensei disse, pode ser qual-quer coisa, interiorize-o e lapide-se mais a cada dia. Lapide-se como Ô-Sensei que fêz shugyô em Iwama. Enfim, para fazer um Aikidô perfeito, pes-quise Ô-Sensei . Sou muito grato porque sem-pre sonho com Ô-Sensei . Não quero parafrasear a carta de Sensei Abe, mas não pode se esquecer de Ô-Sensei. Da parte de todos (que não o conhece-ram), é difícil. Mas pelo menos as pessoas que aprenderam com Ô-Sensei devem respeitá-lo e lembrarem-se sem-pre de seus ensinamentos, desta forma, vão se lem-brar das palavras de Ô-Sensei bronqueando-os. Assim, logo vão melhorar. As palavras sempre voltam. Se esquecerem Ô-Sensei, Ô-Sensei nunca mais vai lhes aparecer e aí, estará sozinho. Se continuarem em fren-te assim, não terão como voltar. Depois que começarem a ensinar de seu modo e se um dia mudarem de repente, vão-lhes perguntar "estava ensinando errado?". Se fizer o kihon que Ô-Sensei ensinou, haverá kokyû-hô. Den-tro do kokyû-hô haverá ki. Não há kokyû-hô dentro do ki. Há ki dentro do kokyû-hô. Uma vez que venho praticando em Iwa-ma, não posso deixar de fazer como vinha fazendo em Iwama. Por isso venho fazendo dessa maneira. É por isso que, assim como Ô-Sensei exigia o kihon de mim tão enfaticamente, eu não posso deixar que todos deixem de apren-der o kihon, mesmo que isto lhes custe muito sacrifício. Porque, no final das contas, torna-se a maneira de todos compreenderem o Aikidô. Dentre os senhores alunos há pessoas de diferentes estilos. Exis-tem aqueles que acham bacana vir treinar com o keiko-gi amarrado com a faixa e pendurado ostensivamente às costas. Treino? Tanto faz. Tem outros que gostam de fazer ukemi. Mesmo que ainda não saibam cair. Acham "refrescante como coca-cola" que seu sensei lhes aplique técnicas que o arremessem. Divertem-se e se sentem felizes com isso. Outros que-rem ficar fortes, não se importam com graduações, mas apenas ficarem fortes. Outros, contrariamente, fazem questão da graduação, não se importando com a eficácia de suas técnicas. Há estes dois tipos. Por isso, há muitas pessoas que deixam de vir treinar, tão logo recebem o dan. Até receberem a graduação se esforçam bastante e depois disso, somem. Há diversos estilos diferentes. O melhor de todos é aquele que não têm ambição. Os não-ambiciosos são os melhores. Esse tipo de gente tem espírito de cooperação. Seu reigui também é correto. É certo que as pessoas que têm respeito são pessoas alertas. Quem é alerta, tem respeito. Acho que é por isso que os budokas todos tinham reigui corretos.

Saito-sensei divide os segmentos de dan por meio das técnicas mais importantes, alterando o escopo gradualmente do kihon até o ki no nagare, ensinando-nos paciente-mente cada graduação. Por exemplo, há muitos alunos estrangeiros que, mesmo não conhecendo uma palavra de japonês, dizem que entendem muito bem quando recebem os ensinamentos de Saito-sensei. Como o senhor conseguiu desenvolver este método de ensino?
É tudo graças a Ô-Sensei. Ô-Sensei me corrigia, exigia muito e pesquisando seus ensinamentos...

Com isto Ô-sensei não chegou a receber doutorado em educação de alguma Universidade Americana? (risos).

Ô-Sensei também ensinou exigente e minuciosamente em cada graduação. Eu apenas pesquisei diligentemente suas exigências, tornando-as minhas e estou me esforçando para passá-las aos senhores Alu-nos, por isso tudo se deve ao fundador, aos ensinamentos de Ues-hiba Ô-Sensei. Por guar-dar os ensinamentos de Ô-Sen-sei, recebo o contentamento dos senhores Alunos. É por isso que peço tanto a seus senpais que pesquisem Ô-Sensei.

Os treinamentos com jô ou bokken é um dos mais importantes dentro do Aikidô, mas há muitos instrutores que, por quaisquer motivos, não possuem a devida experiência com jô e bokken. De que forma poderia ser resolvido este problema?
Ô-Sensei sempre começava as explicações do Aikidô com a espada. Sem-pre dizia: "Você, traga-me o bokken. É assim, é dessa forma". E assim Ô-Sensei explicava, usando a espada, o tai-sabaki do espírito do não-confronto, o awasse da espada, todos os ensinamentos do Aikidô, sem-pre começava pela espada. O que eu estou fazendo é por causa da instrução que recebi. Isto para mim é imprescindível. Para fazer o Aikidô, se não pensar de forma shinken , shinken de um contra muitos, não se torna Aikidô. Quan-do se está treinando espada, mesmo que sua lâmina quebre ou que lhe escape das mãos, é necessário o tai sabaki que lhe forneçe a possibilidade de mover-se livremente. É necessário o ki gamae . É para isso que exis-te o tai sabaki peculiar do Aikidô. -E então, se não se pensar na espada, sem-pre acaba surgindo o suki (o vazio, o ponto de entrada). Se pensar na espada o suki não surge, porque a espada corta. Mesmo que no Karatê se quebre dez telhas, a espada corta só de encostar. Ken/jô é apren-dizado de máxima importância no Aikidô. É estudando bastante este relacionamento, que se obtém o movimento eficiente, sem suki. Por isso, é necessário o apren-dizado da espada. É necessário incorporar os movimentos corporais da luta com espadas. Com o mesmo movi-mento desenv-olve-se o jô, o tantô e a arte do leque de ferro. É tudo a mesma coisa. Todos têm uma relação muito íntima. Por isso, Ô-Sensei dizia: "Vo-cê, venha cortar. Então, faz-se assim. Agora venha pegar minha mão. Então, faz-se assim" e, no todo: "É tudo um, é tudo igual" esta frase Ô-Sensei repetia sem-pre. Mandando cortar, golpear com tsuki, arremessando, dizia: "é tudo igual".-.. era assim que nos ensinava. Eu simplesmente estou seguindo o que ele dizia. Não penso muito a fundo. Hoje os senhores Alunos me agra-decem, por isso temos que agra-decer a Ô-Sensei . Por isso vou estudar ainda mais, para que todos possam ficar mais contentes e para que todos possam ver melhor como Ô-Sensei foi grande.

Ao que parece, algumas pessoas japonesas pensam que, pelas diferenças culturais, os estrangeiros jamais serão capazes de compreender o verdadeiro Aikidô. Pessoalmente, como estrangeiro, sinto-me bastante pesaroso com esta possibilidade. Ao mesmo tem-po, se isso for verdade, creio que se pode duvidar da possibilidade de internacionalização do Aikidô. O que Sensei poderia nos dizer sobre o assunto?
As pessoas que pensam dessa forma são pessoas que não sabem ensinar. Como não con-seguem ensinar direito o correto Aikidô, criam esta situação. Eu não concordo com isso. Desse jeito, vai acontecer o contrário, vão ter que reimportar tudo. Vão ter toda a verdade levado para fora do Japão. Todos levarão a verdade para fora. Penso que as pessoas do Japão terão que ir receber ensinamentos no exterior, com os estrangeiros. Eu peço aos alunos japoneses: "Venham o máximo que puderem, desde que não atra-palhe profissionalmente, desde que não interfira na saúde e sejam meus colaboradores, ajudando os kohais". Em especial peço que tratem bem às pessoas que vieram do estrangeiro, de modo que nunca venham a pensar que "estrangeiros não con-seguem entender o verdadeiro Aikidô". De modo nenhum. Desde que esteja em Iwama, não há pessoas que mais compreendem o Aikidô do que os senhores "ga-ijins Quase 100% dos gaijins que vêm a Iwama compreendem o Aikidô. A prova está à vista em seus modos do cotidiano. Seus modos no tatami, seus modos do dia-a-dia. Eu tenho muitas esperanças nos alunos gaijins e os respeito muito. Se não fosse assim, não permitiria o relacionamento tão intimamente familiar. Me relacionaria a uma distância segura. -De jeito nenhum. Esta é uma pergunta triste. Para mim é uma pergunta muito triste. Nunca pensei, nem sonhando, numa pergunta como essa. Todos que vêm a Iwama são pessoas maravilhosas. Veja, por exemplo, Pat Hen-dricks. Por isso que digo que, se esta situação con-tinuar, no final, todas as técnicas verdadeiras como estou ensinando, serão levados para fora, para os Estados Uni-dos. Quan-do isto acontecer e quando eu não puder mais ensinar, eu vou dizer: "Vá estudar nos Estados Unidos". É isso que eu acho. Todos aqueles que vêm estudar num lugar como este, cozinhando para si mesmos, sem TV ou rádio, são todos os que melhor apren-derão.

Eu acho que, com suas palavras de encorajamento, estrangeiros e japoneses vão se empenhar ainda mais nos seus treinamentos de Aikidô. Muito obrigado, Sensei, pelo seu de-poimento de inestimável valor.

Entrevista em três partes
extraída de Aikido News
# 32, 33 e 34 Notas e
tradução do japonês: Satie


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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