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ENTREVISTAS
COM GRANDES MESTRES
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Entrevista
com Masando Sasaki
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por Eisuke Aoyagui e Ikuko Kimura
Masando Sasaki é um shihan, 8o dan, do Aikikai, que iniciou
a prática de Aikido em 1954. Suas considera-ções francas
a respeito da vida, da filosofia e do budo são nitidamente
nacionalistas e rememorativas de uma antiga era. Sasaki
fala sobre seus esforços nos anos que sucederam a Segunda
Grande Guerra Mundial e também sobre a influência de Tempu
Nakamu-ra e Morihei Ueshiba em seu treinamento e modo de
pensar, dividindo suas idéias controversas, porém estimulantes,
sobre o Japão como uma nação.
Hoje, quando nos encontramos no limiar no século XXI, o
Japão foi tomado por situações que fariam qualquer um desejar
cobrir os próprios olhos. Relacionamentos humanos tornaram-se
ásperos, burocratas e políticos tornaram-se corruptos, as
pessoas perderam a visão de suas me-tas, a moral e o comportamento
ético estão em declínio e muitas pessoas parecem atravessar
sonâmbulas pela vida e pela sociedade. Alguém pode imaginar
para onde caminha o Japão. Enquanto ninguém acha que as
coisas estão bem assim como estão, também não é tarefa fácil
adivinhar o que precisa ser feito para solucionar os problemas
que enfrentamos. Sensei (Sasaki), entendo que o senhor discute
regu-larmente muitos destes assuntos em seus treinos diários
de Aikido e imagino que o senhor pudesse compartilhar alguns
de seus recentes pensamentos com nossos leitores.
Suponho que uma das coisas mais significativas em que tenho
pensado deva ser o uso do aiki como o caminho para a resolução,
já que se relaciona, pela sua natureza, como uma forma de
"movimento ondular". Que tipo de movimento ondular? Na ciência,
ondas cerebrais entre 14 e 25 hertz por segundo são chamadas
ondas beta, que são características de pessoas que vivem
apenas no nível físico e que possuem senso de estar litigioso,
materialista e ganancioso. Aikido representa o caminho que
guia um simples "ser" a se tornar um "ser humano", ou, em
outras palavras, um caminho para ondas de "harmonia", ou
ondas alfa na amplitude de 14 a 7 hertz. Esta é a amplitude
do "ser humano espiritual". No caso do fundador do Aikido,
Morihei Ueshiba, pode ser que estivesse desperto em um estado
na amplitude de ondas theta entre 7 e 4 hertz, ou, possivelmente,
no quase divino intervalo de ondas delta entre 4 e 1 hertz.
O universo, se tivesse de ser ex-primido em uma palavra,
seria expresso pela palavra "alegria" (yorokobi). O tipo
de alegria, por exemplo, que uma flor expe-rimenta quando
é regada. A palavra "alegria", em verdade, conota ou contém
uma variedade de tipos de alegria. Perdoem-me por fazer
uso deste exemplo, mas ao escrever o ideograma chinês para
o tipo de regozijo ou felicidade (ureshii) experimentado
no relacionamento de um homem e uma mulher, deve se adicionar
o caracter que re-presenta a mulher ao ideograma básico
de alegria (yorokobi). Ao apreciar um sabor delicioso ao
comer algo, também, é um tipo de alegria. Mas estes são
tipos ordinários de alegria. Este é tipo de coisas que escrevi
em meu livro intitulado Povo Japonês, Volte para o Coração
Ma-terno (Parasu Publishing Co.). Uma mãe é alguém que encon-tra
um tipo de alegria extravagante e altruísta na felicidade
de seus filhos. Assim como a Mãe Terra, a Mãe Natureza é
realmente maravilhosa. Em japonês, referimo-nos à nossa
nação como "país materno", porém, o que é o Japão? Vinte
anos atrás quando lecionava um curso de Shinto em uma escola
na França, fui convidado para a casa de um de meus pupilos.
Havia um mapa múndi sobre a parede mas não havia sinal do
Japão sobre o mapa
Mas o Japão não estava nem no mapa?
Por que não?
Espere, deixe-me esclarecer isto: o mapa, originalmente,
mostrava o Japão, mas o lado direito do mapa, por algum
mo-tivo, havia sido rasgado ou estava faltando. Não obstante,
eles disseram que vinham utilizando aquele mapa há décadas!
(risos) Aquilo surpreendeu-me e me fez pensar que talvez
o Japão fosse realmente um país desnecessário. O mundo é
redondo, mas o Japão foi colocado na porção mais longínqua
do leste asiático e circundado pelo mar para que servisse
como uma nação de paz, a "tribo" Yamato no século XXI. O
mar revolto entre a Coréia e o Japão é dez vezes maior que
o Estreito de Dover e as correntes marítimas facilitam a
saída desta área, porém dificulta a chegada. O Japão foi
protegido pela natureza até mesmo durante a invasão Mongol.
Eu pessoalmente acho que estivemos protegidos de forma tal
que poderemos realizar nos-sa missão no século XXI. De fato,
até mesmo Albert Einstein, certa vez, falou sobre o Japão
desta forma, dizendo algo com este efeito:
Nos tempos modernos, não houve algo mais surpreendente para
o mundo que a dimensão à qual o Japão se desenvolveu. Este
desenvolvimento surpreendente sugere que haja algo diferente
sobre o Japão, talvez algo a ver com sua longa história
de 3000 anos. Também sugeriria que a inviolada linha imperial
que o Japão experimentou ao longo desta longa história é
o que trouxe renovação para o Japão de hoje. Estava pensando
que deve haver ao menos um país como tal no mundo. Digo
isto pois visto que o mundo continua a progredir e avançar,
certamente haverá competição e conflito recorrentes e virá
uma era, ao final, em que as nações não mais desejarão ou
terão capacidade para suportar tamanha discórdia. Quando
esta época chegar, a humanidade iniciará a busca pela verdadeira
paz. Será neces-sário buscar uma nação para guiar o mundo.
Uma nação que não liderará através da força ou opulência
militar, porém, mais propriamente por poder reivin-dicar
uma história mais nobre e antiga que os outros países e
por possuir um dos mais antigos e nobres pedigrees dentre
as nações. A cultura mundial foi originada na Ásia e retornará
à Ásia, para aquele pináculo da Ásia: Japão. Somos agradecidos
a Deus por Ter criado nação tão nobre.
O que é o Japão? Em uma palavra, é uma nação, um corpo po-lítico,
uma "tribo" se você preferir. Nem tanto um país compreendido
entre fronteiras tangíveis, mas um corpo político espiritual
caracterizado por uma profunda familiaridade e étnica, uma
identidade e continuidade unificadas. Lamentavelmente, como
você havia men-cionado anteriormente, neste momento, aquele
mesmo Japão está à beira da ruína. Pensando que não poderemos
continuar sob tais condições de deterioração, decidi em
1962 montar uma escola de espionagem.
Uma escola de espionagem? Quais eram
os objetivos e tipos de atividade desta escola?
Eu a montei com a colaboração de alguns veteranos
da antiga escola de espionagem Nakano e algumas pessoas
engajadas no estudo de uma revisão constitucional. Nós compartilhávamos
o temor de que o Japão fosse eventualmente arruinado se
fosse permitido continuar na rota em que seguia na época.
Eu atuei como diretor chefe, montando a academia propriamente
e provendo fundos. Porém, tivemos que fechála totalmente
após a publicação de um artigo que a revelava na revista
Time.
O senhor ainda trabalhava na Agência
de Defesa Japonesa nesta época?
Sim, mas tive que me afastar como resultado da revelação.
Mas pelo fato de estar na Agência de Defesa, em primeiro
lugar, me fez consciente de um grupo "à sombra" controlando
e movendo os fios do mundo por trás da cena. Tendo sido
pego, eu praticamente fui à bancar-rota utilizando centenas
de milhares de yens de meu próprio dinheiro para montar
a academia de espionagem. Tendo acontecido, fui convidado
pelo então secretário geral do Partido Liberal Democrático,
Masayoshi Ohira, a atuar como intermediário na resolução
de uma greve numa certa compa-nhia, e como resultado disto
pude ter minhas dívidas de em-préstimo liquidadas. Isto
foi a única coisa que me salvou da completa ruína.
Isto relembra-me do envolvimento de
Sensei Tempu com o Incidente de Taira. refere-se ao incidente
em que Tempu Nakamura auxiliou na resolução de uma greve
nas minas de carvão de Taira em Fukushima, arriscando sua
vida e até mesmo esquivando-se de tiros durante o processo
de negociação:
Na verdade foi antes de me encontrar com Sensei Tempu. De
certo, Sensei Tempu o fez pela verdadeira sinceridade de
seu coração; eu estava apenas desesperado para encontrar
alguma saída para minhas dívidas de empréstimo! (risos)
Eu iniciei meus estudos de Aikido em 1954. Lembro-me certa
vez em 1964, durante minha primeira viagem de trem bala,
acabei me defrontando, na loucura da juventude, com um bando
de gangsters. Você faz este tipo de coisa quando tem trinta
e quatro ou trinta e cinco anos de idade. Felizmente, consegui
resolver a situação ao final, mas tais experiências de "sangue
quente" tornam-se memórias das quais nunca se esquece. Acho
que experiências como estas são necessárias ao bujutsu.
Como o senhor envolveu-se com o Aikido?
Havia uma demonstração de Aikido nos jardins da
Agência de Defesa. Lembro-me de ter olhado para baixo e
pensado o que estavam fazendo. Achei interessante interessante
o modo com que pareciam mover-se em todos os tipos de círculos
Era O-Sensei?
Naquela ocasião era Wakasensei [na época da entrevista,
o Doshu vigente, Kisshomaru Ueshiba] e um número de pes-soas
que atualmente lecionam no exterior. Eles me pergunta-ram
se gostaria de descer e fazer um tentativa por mim mes-mo,
então fui e acabei sendo arremessado, simplesmente assim!
Provavelmente por Sensei Nobuyoshi Tamura, se me recordo
corretamente.
O senhor ficou surpreso?
Naturalmente, e quando fiz nova tentativa, fui novamente
arremessado tão facilmente quanto da vez anterior. Acho
que foi kotegaeshi, mas me recordo de ter pensado o quão
surpreendente tinha sido. Depois disso encontreime com O-Sensei
e fiquei imediatamente fascinado pela aparência de seu rosto
e a dignidade de sua postura. Ele se parecia com um mago
ou sábio ou algo assim. Eu sou facilmente comovido pela
fisionomia das pessoas e a de O Sensei certamente era maravilhosa.
Então acho que as três coisas que melindraram o meu interesse
pelo Aikido foram: ter sido atirado tão facilmente por Tamura
Sensei, ter ficado encantado com a fisionomia de O Sensei
e a curiosidade pelo fato de o Aikido não ter lutas, nem
combates.
O senhor pensou a respeito da ausência
de lutas competiti-vas?
Eu sabia que bujutsu tinha a ver com combate e luta até
a morte, e que o único budo do qual já havia ouvido falar
que não possuía competições eram as uvas de da província
de Ya-manashi! (risos) [a palavra "budo" em japonês, com
uma inflexão levemente diferente, também significa "uvas",
das quais as mais famosas são as de Yamanashi] Eu podia
imaginar facilmente outras atividades tradicionais como
a cerimônia do chá [chado] ou o arranjo de flores [ikebana]
com a ausência de competições, mas não podia imaginar o
mesmo como sendo verdadeiro com o budo. Evi-dentemente,
na época muito pouca gente sabia até mesmo sobre o Aikido,
então não havia quase nenhuma maneira através da qual eu
poderia saber a respeito do Aikido. Entretanto, uma vez
que comecei a treinar, eu continuei a mergulhar mais e mais
profundamente no Aikido.
O senhor teve alguma experiência anterior
em budo?
Assim como qualquer outra pessoa, eu tive que praticar
sumo, judo, kendo e jukenjutsu (luta com baioneta) durante
a guerra.
O senhor poderia nos contar com mais
detalhes sobre as condições sob as quais teve de se afastar
da Agência de Defesa?
Isto se deu principalmente por causa da escola de
espionagem que mencionei há pouco. Sendo jovem na época,
meu sangue ainda corria quente. Todos eventualmente morrem,
você sabe, e eu imaginei que uma vez que eu tinha conseguido
sobreviver à guerra, eu deveria estar fazendo algo para
prevenir o Japão de escorregar para um declínio e ruína
mais adiante. Aqueles de nós que tínhamos atravessado a
guerra, tínhamos dificuldade em nos sentir à vontade se
qualquer coisa que estivéssemos fazendo não fosse para o
benefício do país. Nós não queríamos acabar vivendo apenas
para comer e sobreviver. A maioria dos jovens em minha geração
foram criados pensando que nosso maior propósito na vida
seria o de nos tornarmos pilotos, alistarmo-nos nas corporações
suicídas (tokkotai) e levar nossos aviões de encontro aos
navios inimigos. Assim como aconteceu, meu próprio sonho
de fazer aquilo estava destinado a não se realizar jamais,
sendo, ao invés disso, recrutado à força de trabalho durante
a guerra e enviado para trabalhar em uma fábrica de aviões
em Nagoya. Eu gostava de aviões, então estava contente em
ir. Tendo ape-nas quatorze anos nesta época, eu fantasiava
que estaria construindo aviões inteiros, mas quando cheguei
lá deparei-me fazendo nada além de parafusos em um torno
mecânico! Ainda assim, lembrei-me do ditado, "Aquele que
dirige o palanquim sobre o Monte Hakone, aquele que carrega
o palanquim e aquele que faz os chinelos de palha do proprietário
do palanquim." O corpo humano tem a mesma questão: apenas
quando as pernas, braços e outros membros juntam-se, o todo
torna-se uma pessoa. Mais tarde, compus um verso sobre este
tema que dizia algo assim: Galhos, folhas, tronco e raízes
Cada um a serviço dos outros Tragam a flor ao desabrochar
A vida, em outras palavras, é feita de todas estas partes
unindo-se para o mútuo serviço. O mesmo era verdade para
a fabricação de aviões: ao fazer o trabalho que me foi atribuído,
e o fazendo bem, e, assim, tendo o resultado do meu esforço
combinado aos resultados dos esforços de outrem, o resultado
era um avião. Aquela experiência ensinou-me que a "grandeza"
e a "pequenez" não está no trabalho, mas na mente e no co-ração
da pessoa que o faz. De qualquer modo, o patriotis-mo e
o ímpeto em beneficiar a nação que me incendiaram não eram
fáceis de se apagar
Parece-me que este tipo de coisa é
um dos seus estais Sim, os samurais são meus estais.
No ano passado, eu repen-tinamente me sentei e escrevi um
livro chamado Samurai. Eu simplesmente me sentei e trabalhei
sem parar até que o livro estivesse pronto. Iniciava com
o Imperador Jimmu e continuava com considerações do Príncipe
Naka no Oe, Príncipe Shotoku, Soga no Iruka, as Reformas
de Taika, Hojo Tokumune, Oda Nobunaga, Nichiren, os quarenta,
os sete Ronins de Ako e o samurai da Restauração Meiji.
Também o modo como o Imperador Showa lidou com o fim da
guerra de maneira a trazer uma certa unidade nacional ao
fechar a fenda entre o legislador e os legislados foi um
fato da história merecedor de menção especial. Escrevi que
a identidade do Japão é encontrada no samurai.
Nos dias de hoje há tantos problemas
germinando entre jovens japoneses, incluindo a prostituição
infantil, o uso de estimulantes entre colegiais, fanfarronice
e outros problemas mais. O que o senhor acha desta situação
à luz do fato de que estas são as crianças que serão os
líderes de amanhã?
Atualmente, leciono para aproximadamente 120 alunos
de co-legial, a maioria dos quais são do tipo que caíram
nas desgraças da sociedade por uma razão ou outra, ou, que
têm problemas de disciplina. Eu tento utilizar o Aikido
como o veículo para ensinar-lhes várias coisas. Estes são
os tipos de garotos que são quase inacessíveis por professo-res
ordinários que contam apenas com a aproximação acadêmica,
puramente intelectual. Eles me chamaram para trabalhar com
eles, pois acho que precisavam de alguém com um pouco mais
de músculos, assim dizendo.
Sua prática de Aikido parece muito
divertida. Ouço dizer que suas práticas são bastante populares
entre as garotas! É
por que sou mais suave com elas: não acredito nesta coisa
de "igualdade entre homens e mulheres"! Como seres humanos,
não deveria existir discriminação entre homens e mulheres,
mas há diferenças. Porque homens não se tornam prostitutos,
por exemplo? Seres humanos têm tanto apetite como desejo
sexual. Porque está tudo bem, então, em ter apetite voraz,
mas nada bem em ter desejo sexual voraz? Acho isso estranho
também. Você poderia dizer que o apetite por alimento é
uma forma de auto-preservação, en-quanto desejo sexual é
uma forma "espiritual" de ânsia pelo propósito da preservação
da espécie, e, assim sendo, uma variedade muito importante
de apetite divino. Existem religiões que exigem que as pessoas
joguem fora todos os apetites e desejos, mas acho isto ridículo.
Se você realmente pensar a respeito disso, apetites e desejos
são, de fato, o que mantém a raça humana viva, o que permite
às pessoas continuarem vivendo. Muitos dos problemas que
você mencionou com alunos colegiais, poluição e deterioração
da educação afloraram. Suponho que por não se ensinar mais
moral, mas eles têm um lado positivo, também. O fertilizante
não se torna fertilizante até que a matéria de que é feita
se deteriore e apodreça. Então, mesmo que o povo japonês
esteja se deteriorando e apodrecendo, o mesmo irá erguer
a geração de novos botões e mudas. A prudência e economia
do universo estão no princípio da circulação, assim criação
sem deterioração não é aiki. É porque pes-soas morrem, que
pessoas também vivem. O ki, por si só, é eterno, mas as
manifestações no mundo fenomenal são fugazes e sempre em
fluxo: por esta razão, enquanto vidas humanas estão limitadas
por um período de tempo, o que chamamos de espírito ou alma
é eterna. Aqueles que enxergam suas mentes e corpos como
seus próprios, chamamos de "pessoas" (hito), enquanto aqueles
que compreendem que suas mentes e corpos são instrumentos
de alguma coisa grandiosa, estes chamamos de "seres humanos"
(ningen). Isto, por que as pessoas confundem-se e perdem-se
por pensar que eles são suas mentes e corpos. Aqueles que
percebem que estes são apenas ferramentas tornam-se iluminados.
Porque é considerado errado, ou mau, possuir desejos sexuais,
apetite por alimento, desejo por coisas ou ânsia por glória
e honra? É por que nós temos estes desejos que continuamos
vivendo. Permitindo-nos sermos utilizados por tudo isto,
perderemo-nos; utilizando-os, tornamo-nos iluminados. A
essência da Grande Natureza está na renovação diária o,
aquilo a que nosso honrado professor se referia como evolução
ou elevação. Nosso mundo nunca pára ou se estagna mesmo
que por um momento fugaz; mesmo o planeta está sempre se
movendo. Se o planeta Terra parasse por apenas três segundos
haveria tremendo caos e perturbação. Você mesmo, no curto
intervalo de tempo que leva para dizer uma simples frase
ou pensar um simples pensamento, é um instante mais velho
e continua mudando. Isto é exatamente o tipo de coisa que
é o budo. Tempu Sensei me disse para fazer budo. Não se
pode entender a preciosidade e a santidade da vida sem que
se busque o budo de forma a colocar a sua própria vida em
risco por um segundo. Um dos ensinamentos secretos da escola
Yagyu é que "não existe o "agora" mesmo agora, assim que
você chegar na sílaba "ra" [na palavra "agora"] o "ago"
já terá pas-sado." A vida, então, existe e se exala no fluir
de cada momento de como você o vive.
Eu entendo que após o senhor ter se
envolvido com o Aikido, também começou a freqüentar o Tempukai.
Sim, é verdade, e ao fazer isto, auxiliou a me tornar
mais meticuloso na prática do Aikido. Juntar-me ao Tempukai
colocou-me em uma situação onde poderia utilizar a técnica
para explorar e conhecer a profundidade profundidade da
trilha, do caminho e com este entendimento eu cheguei a
uma nova decisão para praticar o mais arduamente quanto
pudes-se.
Por favor contenos sobre o treinamento
austero pelo qual o senhor passou.
Não tomei uma decisão consciente para me por sob
tal trei-namento; foi apenas algo que tive de acabar fazendo.
De mi-nha posição vantajosa, hoje, eu até diria que viver
durante os anos de guerra foi por si só uma forma de treinamento
austero. Não havia quase nada para alguém comer. Você realmente
tinha que trabalhar e suar apenas para ter o que comer.
Não é algo pelo qual me orgulho, mas tive até mesmo de fazer
coisas como vender livros como am-bulante na beira da estrada.
Eu ficava lá, em pé, atraindo as multidões que passavam:
"Dê-em um passo para cá, pessoal, vejam meus livros! Valiosos
como referência para estudantes! Remédio para olhos ruins!
Venham JÁ!"
Parece que o senhor era mesmo bom
nisso!
É
claro que era! Eu até que vendi alguns!
Que tipo de livros eram aqueles?
A maioria de pornografia leve e novelas eróticas,
este tipo de coisa. (risos) Evidentemente, os livros deste
tipo daquela época pareceriam literatura infantil se comparados
aos que circulam hoje em dia. Era, afinal, ainda uma época
em que as pessoas ficavam exaltadas com um livro tão leve
como O Amante de Lady Chatterly. Olhando para trás, no entanto,
vendendo tais livros todos os dias no frio e no calor até
que resultou num bom treino. Eu também trabalhei no mercado
negro, dentre outras coisas, carregando arroz para Tokyo
e retornando com carregamentos de livros para vender.
A sua primeira prática de Aikido foi
na Agência de Defesa?
Sim. Diversos instrutores do Hombu Dojo vinham para
ensinar ali e isto, naturalmente, levou à formação da Associação
de Aikido da Agência de Defesa
E após este fato, o senhor começou
a treinar no dojo do Hombu Dojo?
Eu comecei a treinar no Hombu Dojo após ter fracassado com
a escola de espionagem. Particularmente, eu não tinha nada
a fazer e o Sensei Nobuyoshi Tamura teve de partir para
ensinar na França, então, fiquei encarregado de continuar
o seu trabalho num acordo de dois anos. Logo antes disso,
eu testemunhei a morte de um dos meus veteranos da escola,
bem diante de meus olhos, e comecei a ponderar a respeito
do propósito da vida. Eu tinha pensado que a coisa mais
im-portante para os seres humanos era manter algum "propósito
grandioso" ou determinação, a fim de realizar uma meta.
Bem, eu estive pulando "de galho em galho" em diversas ati-vidades,
mas o que quero dizer é que na época em que cheguei ao Aikido
eu já tinha experimentado uma gama de coisas diferentes.
Eu decidi ingressar na Corporação de Reserva da Polícia,
que era precursora da Agência de Defesa de hoje. Mas para
que você seja aceito, você tem de ter os dois olhos para
eles, e eu tenho apenas um. Eu perdi o outro quando tinha
dezenove anos, quando foi atingido por um prego. Ele (o
prego) entrou fazendo um som nauseante, se-guido de uma
dor aguda. Mas isto foi apenas após a guerra, e com a maior
parte de Tokyo reduzida a um campo queimado e muitas outras
pessoas em volta que tinham perdido braços e pernas, perder
um olho apenas não era nada de mais; na verdade, foi dada
a mim esta visão de um olho só de alta precisão e zoom!
(risos) Eu costumava gabar-me de poder "enxergar tudo, claramente
com "um" simples olhar". E depois, quando encontrei minha
esposa foi amor à "primeira" vista. (ri-sos) Eu precisava
de dinheiro. Eu mesmo iniciei e operei minha própria companhia
apesar de ser ainda um adolescente. Meu choque pela derrota
do Japão supostamente a "terra dos deuses" - foi tão grande
na época que eu sinceramente acreditava que os deuses e
Buddha não existiam. De qualquer forma, eu tinha ouvido
que você poderia ganhar 60.000 yens trabalhando para a Corporação
de Reserva da Polícia por dois anos, então, desejando isto,
e apesar de possuir apenas um olho, eu decidi prestar o
exame de admissão. Quando chegou a hora do exame de vista,
o examinador pri-meiramente mandou que eu cobrisse o olho
esquerdo com um instrumento em forma de espátula e lesse
algumas letras. Então, ele disse "Está bem, agora o direito."
Aí troquei para minha mão direita mas cobri o mesmo olho.
O examinador não percebeu?
Aquilo o enganou. Mas, eu juro que não fiz nada de
errado! Tudo o que ele falou foi "direita" e "esquerda";
ele não falou "olho direito" e "olho esquerdo"! (risos)
O senhor agiu rápido, no impulso do
momento e então ... Sim, agi. Eu improvisei. Eu fiz
uma coisa similar para entrar na faculdade. Eu não sabia
praticamente nada sobre a língua inglesa, exceto, talvez,
algumas palavras que soavam como inglês, assim como "I"
["eu" em inglês] e "and" ["e" em inglês]. Quando, finalmente,
fiquei um pouco mais velho, descobri a letra "H" [a letra
"H", pronunciada "eti" em japonês, é uma gíria que vem da
primeira letra da palavra "hentai", que significa "pervertido"].
Então, entrei na universidade sabendo apenas as sílabas
romanizadas. Evidentemente, eu não tinha discernimento de
nada, mas imaginei que letras romanas eram, afinal, um tipo
de língua inglesa, então eu escrevi a letra "I" e então
a frase "Tsuki wa deta deta, tsuki wa deta"* e acabei passando
no exame. Provavelmente a letra de uma música do festival
japonês O Bon sobre o aparecimento da lua, mas, neste caso,
essencialmente apenas uma frase disparatada.] Sabe, há tantos
grandes mestres de Aikido e aqui estou um verdadeiro desleixado!
Você provavelmente nem deveria estar entrevistando alguém
como eu! (risos) Quando fui prestar a pós graduação, desta
vez foi na Alemanha. O meu conhecimento da língua alemã
resumia-se às palavras como "Der", "Das" e "Dem". Aí eu
conheci o filho de um médico chamado Takagi, que chamei
antes do teste e quem disse para sentar-se à minha direita.
Isto, por que eu não enxergava para a esquerda. De antemão,
eu havia comprado um livro chamado "Escola Elementar - Quinta
Série", apoiei-o sobre a minha mesa e comecei a copiar a
folha de respostas do Takagi. Afinal de contas, eu sou um
samurai, então, não poderia fazer nada mais baixo que tra-pacear;
eu apenas copiei o que ele escreveu. Eu acho uma vergonha
para um japonês, o fato de ser ignorante a respeito da língua
e da história do Japão, mas não vejo vergonha alguma em
não conhecer línguas estrangeiras. Especialmente, quando
se tratava de uma universidade estrangeira. Eu estava fazendo
aquilo de maneira tão vistosa, que era absolutamente óbvio,
especialmente já que havia apenas cerca de vinte pessoas
na sala. Quando o fis-cal do exame viu o que eu estava fazendo
ele disse, "Ei, você!", ao que eu prontamente respondi com
um seco "Sim, senhor!". Ele olhou para minha cara, e então
para o livro escolar da série elementar sobre a minha mesa,
e disse, "Ah, eu vejo que você tem uma criança para cuidar.
Deve ser difícil para você.". Eu disse que era uma vítima
da guerra e ele finalizou me dizendo para continuar, e isso
foi o final da história. (risos)
Incrível.
Bem, você nunca saberá sobre as coisas se você realmente
não prová-las, não é? Como eu sempre digo, "sua barriga
não ficará cheia, lendo um livro de receitas; você precisa
comer!" A vida não é teoria. Qualquer um com algum conhecimento
e qualquer um com dinheiro pode construir uma casa. Mas
a emoção, digamos, em construir uma casa sem dinheiro é
que faz as coisas ficarem interessantes. Uma vida ordinária
e razoável é um tanto monótona, você sabe; não merecedora
de que se escreva sobre ela numa novela, por exemplo. A
vida compreende o meio como você a vive en-tre o nascimento
e a morte. Vendo um veterano morrer de ataque cardíaco bem
em frente dos meus olhos foi uma das coisas que me direcionaram
para compreensão de que a vida deveria ser tratada como
arte
Esta experiência foi uma das razões
que o instigou a ir às montanhas para buscar o treinamento
ascético?
Sim, eu também fiz treinamento sob cachoeira. "O que é "propósito"?",
eu imaginava. Eu me preocupava com isso. Eu não terminei
ficando com uma neurose, pois não sabia a palavra inglesa
"neurosis", mas sim, eu me preocupava. "Se eu estivesse
à beira da morte, isto seria simplesmente o fim?" e assim
por diante. Foi mais ou menos nesta época que conheci Tempu
Sensei. Eu fui apresentado a ele por um homem chamado Sadao
Yasutake (depois, o segundo diretor do Tempukai), que tinha
ligação com a Agência de Defesa. Eu perguntei a Tempu Sensei,
"Sensei, o que é a morte?" ao que ele respondeu "Não há
uma só pessoa que já tenha morri-do." Eu disse, "Mas eu
vi meu amigo morrer diante de meus olhos!" ao que ele respondeu,
"Então traga-o aqui." "Como posso trazê-lo para cá se ele
não mais está aqui?" E ele dis-se, "Você vê, então? Todos
neste mundo estão vivos; as pes-soas estão vivas e vivem
até morrerem." E aí perguntei-lhe novamente, um pouco tímido
desta vez. "O que é a morte?" Ele respondeu, "É uma esfera
à qual todos as-cendem, e pensar a respeito disso depois
que você morre não é muito tarde." Quando escutei estas
palavras, meu coração repentinamente encheu-se com luz e
eu me senti muito mais à vontade. Pensando nisso, eu decidi
que a esfera à qual todos ascendem deve ser um bom lugar
lugar, a prova do motivo de ninguém voltar de lá. Para ser
honesto, eu chorei.
Tempu Sensei parece ter sido o tipo
de homem que poderia sentir-se à vontade mesmo com uma espada
no pescoço. É uma impressão correta sobre ele?
De certo que sim. As coisas não o aborreciam. Ele
tinha uma imperturbável presença de espírito, o tipo de
mentalidade sugerida pela expressão "Lindo sob céu limpo,
lindo sob céu nebuloso, o formato do Monte Fuji permanece
inalterado." Você diria que ele estava realmente "acima
de tudo" com uma mentalidade desinteressada e sem preconceitos.
Eu costumava acompanhá-lo, carregando sua mala e o ajudando
e suas demonstrações penetravam no meu subconsciente como
água em areia seca. Tal contato com ele modificou-me radicalmente
como ser humano, particular-mente, a idéia de que a vida
está no modo como vivemos cada momento. Dentre outras coisas
que eu absorvi estava a idéia de que não importa o que aconteça,
é importante manter um coração coração radiante e alegre,
um senso de determinação forte e vívido e uma atitude positiva.
Tome consciência destes principais axiomas sobre como viver
e seu destino desabrochará. Tempu Sensei disse certa vez:
"Embora seu corpo esteja doente, sua mente permanece sa-dia;
embora uma injustiça possa fazer parte de seu destino, não
deixe que ela penetre em seu coração; e embora você possa
enfrentar a mais abominável miséria, tenha a força de espírito
para tornar esta miséria em um grande deleite. Seu coração
é o que o ata diretamente ao divino e, em sendo verdade,
você deve estar decidido a, pelo menos, nunca macular, manchar
ou aviltar este ponto de conexão." Eu gosto muito destas
palavras.
Eu acho que as palavras de Tempu Sensei
são inestimáveis para a obtenção do entendimento verdadeiro
do Aikido.
Ueshiba O-Sensei procurou harmonizar a humanidade
através do Shinto expresso como budo não competitivo, que
é o Aikido. Em um de seus Cantos do Caminho (Doka) ele expres-sava
a idéia de que cultivar-se sinceramente é um meio de compreender
a verdade profunda de que o que é manifesto e o que é oculto
são na realidade um. Deste modo, o universo é sinceridade.
Se você olhar a Terra por um satélite em órbita, você enxerga
tanto o ontem como o hoje. Do mesmo modo, não há "esta"
esfera ou "aquela" esfera e, no entanto, pode-se ver que
este mundo está compreendido entre ambos, o manifesto e
o oculto. Quando uma pessoa morre e seu corpo se decompõe,
isto não é um evento negativo ou que subtrai ou que pode
ser descrito como "menos". Assim como o ki de um ponteiro
de relógio se move inexoravelmente para frente de uma maneira
"mais", a decomposição da carne acontece em um movimento
progressivo, de modo positivo, momento a momento. Apenas
em relação ao absoluto, é que pode existir a positividade
e negatividade, ou movimento "progressivo e regressivo"
do avanço daquele ki "positivo". Tempu Sensei perguntou,
"O que é que nos dá diretamente vida?" Deuses, Buddhas,
ar e todo o resto são importantes, evidentemente, mas ele
resumiu tudo isso na palavra "nervos", que em japonês é
escrito shinkei com dois caracteres significando "divino"
(shin) e "passar por meio de" (kei). Isto me surpreendeu
um pouco. A vida é dada às pessoas através do sistema nervoso.
Assim, se interpretarmos o segundo ideograma, kei, como
um "caminho", não significaria que o sistema nervoso é "um
caminho para o divino"? Quando as pessoas morrem, então,
este caminho divino é cortado. Então, quando uma pessoa
morre, não quer dizer que ela repentinamente deixa de ser;
quer dizer que ela gradativa-mente decompõe-se e desaparece.
O sistema nervoso está sob o comando do coração e assim,
dependendo da condição do co-ração, os nervos podem ser
estreitos ou largos. Tenho uma recordação particular. Foi
durante aquela experiência em ajudar a resolver a greve
trabalhista que mencionei há pouco e estava lidando com
um sindicato de 1.200 membros Havia momentos em que as coi-sas
estavam tão tensas que percebi minhas pernas tremendo sob
mim. E, em um certo ponto, um conhecido meu estava até mesmo
sendo atacado por gangsters; apenas dois ou três dias depois,
a mãe do rapaz me chamou para dizer que uma tal gangue estava
atrás dele. Quando escutei aquilo eu disse "O que ?! Por
que não me disse isto no começo?!" (risos) Eu quase desabei
quando soube com quem estive lidando.! Aikido é um movimento
ondu-latório chamado harmonia. Lutando sem lutar, este movimento
ondulatório salva o mundo. Existem também movimentos ondulatórios
de conflitos no mundo. Existe o prazer de oprimir outrem,
por exemplo. Tudo é movimento ondulatório, inclusive movimentos
ondulatórios de sinceridade e harmonia. Todas as formas
de arte tradici-onais e modos praticados no Japão envolvem
o uso de mo-delos ou de padrões exemplares. Mas em algo
como a caligrafia japonesa não há modelo de conflito; ao
contrário, existem apenas modelos como harmonia, amor, paz,
piedade e assim por diante. Não há nenhum modelo que diz
"Mate", certo? A cultura japonesa neste sentido é maravilhosa,
você não acha? É uma cultura de ondas de har-monia. Deixe-me
dar um exemplo. Imagine um lago com folhas de Lotus crescendo
dentro dele e imagine que todo o dia as folhas de Lotus
aumentam até que ao fim de quinze dias eles já tenham coberto
metade da superfície. Quanto tempo, então, levará para que
o resto do lago seja completamente coberto por folhas de
Lotus? A resposta é "Apenas um dia"!
A realização da pacificação mundial progride lentamente,
mas se as pessoas continuarem a focar perseverantemente
nela, então um pequeno canto iluminado, e então outro, e,
repentinamente, um dia o mundo muda. Assim, não podemos
desistir para a desesperança; devemos, ao invés disso, manter
os esforços, empenhando-nos dia após dia. A cada dia devemos
fazer com que o treino de Aikido seja a prática da harmonia.
Esse movimento ondulatório espalhar-se-á para uma, então
duas, e três pessoas, dobrando, e en-tão triplicando, e
rapidamente expandindo e ganhando veloci-dade. Eu acho que
este tipo de ação ondulatória é importante. Isto é essencialmente
sobre o que falei em uma palestra que proferi em Paris,
20 anos atrás, em que disse: "A ação ondulatória que irá
restaurar nossa humanidade e nos levar da esfera em que
somos meras "pessoas" até aquela em que somos "serhumanos"
é a capacidade humana da sinceridade que nos permite desfrutar
a alegria, na alegria e contentamento de ou trem. A maior
descoberta do "ser humano" foi o ki, enquanto a maior invenção
foi o do dinheiro. Ki é a raiz de tudo. Mesmo na língua
japonesa existem milhares de palavras que contém o ideograma
ki no seu centro, incluindo, kuki (ar), denki (eletricidade),
byoki (doença) e muitos outros. O dinheiro é uma invenção.
Mas por outro lado, você não pode comer ou mesmo beber ki
ou dinheiro, nem mesmo cortá-los com uma faca; eles são
intangíveis. Ki é algo para ser usado. Assim também o é,
com o dinheiro. Certamente, o dinheiro é a base da economia,
mas por outro lado é também a origem de discórdia e matança.
O pensamento do Ocidente, do Oriente e do Japão pode ser
categorizado com segue:
Ocidente: o Eu - Conhecimento - Desejo - Ciência - Maldade.
Oriente: Abnegação - Fé - Ascetismo - Religião - Bem. Japão:
o Eu - Crença e Conhecimento - Moderação - Caminho - Vida
Um dos paradigmas dominantes no Ocidente é Descartes: "Pen-so,
logo existo". A partir disto, emerge a cultura do "conhecimento"
e, através do conhecimento, "desejo", que faz nascer a "ciência",
seguida pelo desenvolvimento da civilização materialista
e, por conseguinte, um estilo de vida enriquecido. Eu acho
isto uma coisa muito maravilhosa. Entretanto, devido ao
movimento ondulatório inerente da competição e conflito,
não há meio de o coração estar à vontade ou de se ter paz
de espírito. No caso do Oriente, o "eu" é aniquilado e renunciado
ou, de outro modo, ignorado ou rejeitado e mergulha-se numa
esfera de abnegação. A partir deste estado inicia-se uma
esfera de "fé". Há um ditado: "Mesmo a cabeça da sardinha
é divina para aqueles que acreditam nela." Creio que o equivalente
em inglês deva ser algo assim "A fé remove montanhas" ou
"Qualquer coisa pode ser objeto da verdadeira fé." Mais
adiante, o Oriente coloca o "as-cetismo" em oposição ao
"desejo" do Ocidente, e isto deu origem a uma cultua religiosa.
Os japoneses não usam a mes-ma palavra para o "eu" (em japonês:
ga) que é usada em outros lugares no Oriente; em seu lugar,
usamos a palavra jibun, que é composta dos ideogramas "natureza"
(ji) e "divi-são" (bun). Em outras palavras, o "eu" significa,
"separado da natureza". O pai e mãe de alguém não são os
verdadeiros pais deste; eles são meros pais por parentesco,
por um acidente ao acaso ou fatalidade. O fato de não existir
pessoa capaz de dar à luz um filho por desígnio próprio
é uma evidência disso. Um filho é algo com que alguém é
humildemente abençoado, uma dádiva. De qualquer forma, no
lugar da fé do Oriente e do conhecimento do Ocidente, o
Japão aplica uma combinação dos dois, com o conhecimento
vindo através da aceitação de crença e intelecto, e com
a crença na religião não indo tão longe para dentro do campo
da fé. Então você é budista? Cristão? Sem problema. Em outras
palavras, os japoneses não sucumsucumbem à "fé cega". Possuindo
divindade e valorizando este "eu", pode ser chamado de valorização
do "eu espiritual". Então, no lugar do ascetismo, temos
a moderação. O desejo é tido como não sendo essencialmente
bom ou mau, mas meramente algo que precisa ser utilizado
adequadamente e também ditado pelo tempo e espaço. O fogo
na ponta de um cigarro traz prazer, mesmo assim você o enxota
quando o mesmo fogo cai no seu colo. "Os caminhos são diferentes",
como dizemos, o Japão é um país de tais caminhos. No Ocidente,
da maneira como é sugerido no livro de Gênesis, os seres
humanos tornaram-se "maus" ou "pecadores" por terem comido
a fruta proibida. Por causa disto, eles são compelidos a
trabalhar. E só pelo fato de terem nascido, os seres humanos
já são pecadores ou maus. No Oriente, pelo contrário, as
pessoas são vistas como sendo boas de maneira inata, sendo
puxadas para um ou outro lado apenas pela passagem pelo
meio mundano e experiências adquiridas nele; pelo fato das
religiões e ideologias falarem apenas sobre o absoluto é
que a exclusividade e conseqüente conflito surgem. O Ja-pão,
por outro lado, é a cultura da vida em que a vida tem tanto
o bem como o mau. O século XXI será a era do Japão. No Japão
há um personagem bem conhecido chamado "Komon-sama", que
sobrepuja os malfeitores e que esconde o brasão de sua família
(o que revelaria seu alto status) até o momento final. Quando
ele finalmente revela o seu brasão, isto sempre impõe medo
em seus adversários, mas somente por que eles fizeram algo
de ruim; para aqueles que não fizeram maldade, isto significa
pouco. Esta é a "filosofia do espelho" (kagami no shiso).
Os espelhos não rejeitam nada, tampouco fazem concessões.
Eles dão afirmação a tudo. No dia 5 de maio de 2001 haverá
um alinhamento dos planetas, o que marcará o início da era
da nação dos caminhos que é o Japão. É dito que os japoneses
nunca dão um claro "sim" ou "não", mas eu acho isto completamente
normal e esperado. O Japão é um país simultaneamente ultra-socialista,
ultra-democrático, ultra-liberalista, e tudo o mais. É parecido
com uma grande loja de departamentos com to-dos os tipos
de esporte, religi-ões, comidas, e assim por diante. Assim
como o oceano, que é vasto pelo fato de não rejeitar qualquer
sorte de água, o Japão aceita tudo e isto é aiki. Não "não
competitivo", porém "competindo, mas não competindo", "colidindo,
mas não colidindo"; dentro disto encontrarse-á um tipo de
"harmonia de rivalidades amistosas" a que eu caracterizo
como um tipo de harmonia geral compreensiva o bastante para
conter e agrupar até mesmo tais oposições relativas. O peixe
luta contra a cor-rente, porém não luta contra ela. O fato
de conseguirmos ficar de pé é o resultado do fato de lutarmos
contra a gravitação universal, porém não lutamos contra
ela. Aiki-jutsu é um combate mortal, uma batalha até a morte
(koroshiai); combate mortal em que também há a batalha pela
vida torna-se um "caminho" que é o aikido. Acontece, porém,
a morte inevitável das pessoas. Isto não pode ser esquecido.
No Hagaku-re está escrito que "o indivíduo descobre o caminho
do bushido na morte". Em outras palavras, o caminho do guerreiro
deve ter uma mentalidade tal em que se saiba que a morte
poderá chegar amanhã e por isso a vida deve ser vivida mais
preciosamente hoje. Três elementos da disciplina que têm
sido explicados desde tempos remotos incluem: a ênfase em
oferecer um cumpri-mento pela manhã, responder prontamente
e claramente quando seu nome for chamado e colocar as coisas
em ordem uma vez que tenha acabado de utilizá-las. Dois
anos atrás perdi minha esposa e não há mais mulheres em
minha casa, porém, esta ainda é limpa e bem organizada.
Isto, por que a primeira coisa que faço quando me levanto
toda manhã é limpeza. E claro, também certifico-me de deixar
a cozinha limpa antes de dormir, assim não faria diferença
se eu morresse durante a noite. Este tipo de coisa é o que
o Aikido abrange.
Que tipo de treinamento o senhor buscou
quando jovem?
Eu praticava como um fanático, constantemente e arduamente.
Eu fazia tudo. Quando nossos centros colidem uns com os
outros, isto é kokyu. Disto emerge uma técnica ilimitada,
dependendo da escolha de subir, descer ou ir para o lado.
"Takemusu" acontece quando um centro colide com outro e,
neste momento, dependendo de como alguém se mova, a técnica
é concebida. Quando se executa o ikkyo, por exemplo, não
é bom fazer um ikkyo que já tenha sido feito; ele tem de
se criado a cada momento.
Voltando à época em que o senhor treinava
sob a orientação de O-Sensei, o senhor foi capaz de compreender
tudo o que ele dizia em suas técnicas e conversas?
Não, eu não era capaz. Naquela época, a única coisa
que eu compreendia era que minhas pernas estavam dormentes
por estar sentado há tanto tempo em seiza. Mesmo assim,
eu parecia não afundar de alguma maneira, absorvido através
dos meus "poros", assim dizendo. Como no jingle do Ryukakusan
[um remédio para tosse muito popular no Japão], se você
diser "Se você tiver tosse ...." a qualquer japonês, eles
responderão inconscientemente "Tome Ryukakusan!" Do mesmo
jeito que o jingle, em algum ponto, a informação deve ter
sido incorporada em minha mente. E como o ditado revela,
"um atendente numa loja perto de um templo irá recitar as
sutras espontaneamente."
O senhor tem alguma estória ou anedota
sobre O-Sensei que possa dividir conosco?
Há várias coisas que aconteceram enquanto eu o acompanha-va
durante suas viagens. Lembro-me que certa vez ele ficou
bravo comigo quando perguntei a ele, "Sensei, como devo
explicar quando as pessoas me perguntarem o que é o Aikido?"
(risos) Dificilmente alguém tinha ouvido falar sobre o Aikido
naquela época, então eu sempre ficava em apuros quando tinha
de explicar algo sobre o Aikido. Eu achei que Ueshiba O-Sensei
seria capaz de explicar o Aiki-do, visto que foi ele quem
o criou. Mas quando perguntei a ele, ele bateu os pés no
chão e exclamou, "Aiki? Eu sou aiki!" Naquele tempo, eu
fiquei surpreso e pensei comigo mesmo , "Ele é o fundador
e mesmo assim não vai me explicar!" (ri-sos) No entanto,
pensando nisso mais tarde, eu percebi o grande significado
de suas palavras.
Aikido não é algo que ele simplesmente praticou dentro do
dojo; sua vida em si foi aiki. Certa vez, viajando juntos,
O-Sensei embarcou no trem e as portas se fecharam antes
que eu pudesse entrar. Eu fui repreen-dido por isso também.
E ele costumava aborrecer-se se não conseguisse obter um
assento no trem, mas igualmente aborrecido por estar incomodado,
a me-nos que, por exemplo, fizésse-mos um valentão desistir
de seu assento para que ele pudesse sentar-se, caso em que
ficava contente. Ele também ficou bravo quando, certa vez,
tentei dar diretamente a ele a minha taxa de utilização
(mensalidade) do dojo. Meu sempai me agarrou rapidamente
e disse "Não, não, não, ponha no altar!" Uma vez, quando
fui com ele ao templo Omoto em Ueno, eu estive ao seu lado
por todo o trajeto, amparando-o e ajudando-o, mas assim
que entramos no templo e começamos a subir a escadaria ele
bradou, "Afaste-se! Estamos indo perante o kami-san!" e
me arremessou para longe dele com um kokyuho. Como O-Sensei
sempre disse, "Aiki é algo que aprendemos do kami-san" e
seus ensinamentos derradeiros a mim foram vê-lo adotar uma
postura tão pessoal perante o kami mesmo quando ele mal
podia andar por si só, bem como o kokyuho com o qual ele
me arremessou naquela ocasião. Ele faleceu dois ou três
meses depois. Certa vez, quando O-Sensei es-tava praticando
sua caligrafia, de repente, ele me disse para trazer mais
papel até ele rapidamente. Ele percebeu que to-dos os ideogramas
que ele pretendia escrever não caberiam no pedaço de papel
que ele tinha tinha em mãos, então, ele queria apenas juntar
mais uma folha para que pudesse terminar a peça. Ele podia
ser perfeita-mente despretensioso e simpático em ocasiões
como aquela. Outro exemplo seria que, qualquer que fosse
o motivo pelo qual ele estivesse aborrecido comigo, eu sabia
que se trou-xesse uma jovem para visitá-lo, seu humor se
alteraria instantaneamente para um grande sorriso. (risos)
Achei surpreendente que o seu espírito podia alterar seu
humor tão rapidamente. Às vezes, O-Sensei costumava segurar
um jo e ter duas ou três pessoas empurrando o jo. Certa
vez tive a oportunidade de ser um dos que empurravam e era
realmente muito estranho o modo como todo o nosso esforço
em empurrar parecia simplesmente evaporar. Isto é somente
minha própria teoria, mas eu suspeito que ele pode ter feito
isto rotacionando o jo de alguma forma. O-Sensei, em certa
ocasião, encontrou-se com o jogador de beisebol Arakawa.
Eu me lembro que ele disse "Yakyu (beise-bol)?" Isto é feito
com moxa..." ao que respondi "Não, Sensei, isto é okyu (tratamento
através de queima de moxa). Beisebol é quando se usa uma
coisa chamada "bastão" para acertar uma "bola"." Eu sabia
que não estávamos chegando a lugar algum quando ele retrucou:
"Porque um bastão? Este tipo de coisa você pode fatiar em
dois com uma espada japonesa..." (risos) Mas eu perseverei:
"um sujeito arremessa uma bola e você rebate a bola com
o bastão." Ele disse "Ah, sim ... muito bem, então, traga-me
uma espada de madeira." O-Sensei fez com que Arakawa batesse
o bastão de beisebol o mais forte possível em sua espada
de ma-deira, mas o bastão ricocheteou e quase voou de suas
mãos. Assim como o jo, para fazer isto acho que O-Sensei
deve ter rotacionado a espada de algum jeito. É só uma teoria,
evidentemente, e fazer isto de verdade não é fácil de maneira
alguma. O-Sensei era um indivíduo incrível.
Há alguém, em particular daquele período,
de quem o se-nhor se lembra até mesmo hoje? Que tipo de
pessoas es-tavam por lá naquela época?
Havia muitos "samurais" shihans como Nobuyoshi Tamura, Yoshimitsu
Yamada, Mitsunari Kanai, Mitsugu Saotome, Kazuo Chiba e
muitos outros. Todos eles tinham sua própria esplêndida
individualidade.
O senhor teve algum relacionamento
em particular com Koichi Tohei?
Tohei Sensei foi o instrutor chefe do Hombu Dojo
e foi, por esse motivo, nosso mestre. Ele era uma pessoa
incrível e eu me recordo dele passando uma impressão de
grande força. Ele também é um dos responsáveis por difundir
o Aikido pelo mundo. Existe uma antiga expressão, "gentileza
concedida, esqueça; gentileza recebida, grave numa pedra".
Esta última parte é como me sinto por pessoas como Tohei
Sensei, Hiroshi Tada Sensei e o falecido Seigo Yamaguchi
Sensei, que me acolheu quando eu não sabia nada sobre Aikido,
bem como, Nobuyoshi Tamura com quem eu treinei. Eu sou grato
pelo estestímulo que todos eles deram a mim.
O senhor tem alguma reflexão final
sobre a prática de Aikido para nós?
Shomenuchi ikkyo, praticado adequadamente é algo que você
pode fazer todos os dias por um ano e ainda assim não se
cansar dele. Algo de que não se cansa é treinamento verdadeiro.
Isto é o que percebi no dia a dia. Todos os dias de nossas
vidas, dormi-mos, acordamos, alimentamo-nos, e assim por
diante; mesmo assim, porque não nos cansa-mos destas coisas?
Eu não sei no seu caso, mas eu vou ao toalete todos os dias.
Mesmo tendo ido ontem, eu irei hoje novamente. Porque não
me canso disso? Porque não nos cansa-mos de respirar o ar?
Tais coisas são a base de nossas vidas e, essencialmente,
estas coisas básicas como o ar, a água e o arroz não têm
sabor ou cheiro. A água tem o potencial de "ativar" ou "vivificar"
tudo o mais por que ela não tem cor própria; o mesmo pode
ser dito do arroz, que é o alimento principal do japonês
e que ativa o resto dos alimentos em sua volta. A luz branca
de certo modo é incolor; e o que ela faz é o que torna nosso
mundo e a Mãe Natureza tão belos. Somenuchi ikkyo, como
uma das técnicas básicas de Aikido, é algo muito profundo
e que nunca se desgasta, não importando o quanto você mergulhar
nele. A forma e maai (distância combativa) que são os mais
profundos ensinamentos do budo estão no ikkyo. O bujutsu,
no qual alinhamos nossas vidas em cada momento de encontro,
nos oferece a oportunidade despertar para a Vida Universal,
enquanto, simultaneamente, provê filosofia prática para
viver nossas vidas, que incluem o seguinte: 1. Seja livre
e evite a frase lógica porém vazia 2. Ame o humor e a graça,
e mantenha uma mente flexível 3. Faça as coisas simples,
concisas e efetivas, brilhantes e mentalmente abertas Assim
como a expressão "explorando o velho para verter luz sobre
o novo" sugere, nosso treinamento deveria ser simplesmente
como o sol, uma das coisas mais antigas que conhecemos,
ainda assim, constante-mente se renovando e iluminando o
mundo hoje.
Masando Sasaki nasceu na Província de Yamagata em 1929.
Ele é graduado em economia e direito pela Universidade de
Chuo. Sasaki iniciou-se no Aikido em 1954 quando estava
empregado na Agência de Defesa. Ele também foi um membro
do Tempukai e Ichikukai onde engajou várias práticas ascéticas.
Sasaki proferiu palestras sobre a religião Shinto na França
em várias ocasiões. Ele é um sacerdote da seita Yamakage
San'in Shinto. Sasaki é o autor de People of Japan, Return
to Your Mother´s Heart, Samurai e vários outros. Ele é atualmente
shihan 8º. dan e ensina Aikido no Aikikai Hombu Dojo e em
vários outros locais.
traduzido por Jorge Ikeda
extraído da tradução em inglês de Derek Steel para o Aikido
Journal #116 (1999 volume 26-Nº.1)
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