ARTIGOS E ENTREVISTAS

Contos ZEN
por Jean Carlos Peyerl

 

Nota do prof. Wagner Bull:
"Muita gente pensa que o Aikido foi influenciado pelo ZEN. Segundo minhas pesquisas isto está bem longe da verdade. O Zen, parte do Vazio, (UM ), o Aikido da totalidade (SU).
Embora , é verdade que o Zen influenciou enormemente a arte da esgrima, e as artes nipônicas . Esta coletânea de contos nos dá perolas de sabedoria e de lições de vida."

O Zen é uma forma de Budismo característica do Japão; uma filosofia de vida que ainda hoje influência, e muito, o povo japonês. Consiste na procura da iluminação através do autoconhecimento; uma busca que ultrapassa os obstáculos da mente lógica a fim de encontrar a verdade em seu estado puro. Uma percepção extra-sensorial das coisas. Um ensinamento especial que não envolve palavras ou letras: apenas chama a atenção para a verdadeira essência do homem, alcançando a iluminação. O Zen também prega autocontrole, disciplina e simplicidade no viver.

As raízes do Zen estão na China e na Índia, é uma variação do Budismo tradicional. Houve uma época em que monges budistas acreditavam que era preciso decorar livros e sutras budistas para se atingir o Satori (iluminação). Assim, o conhecimento intelectual era muito valorizado. Em oposição a esse pensamento, surgiu uma nova corrente do budismo, que pregava o desapego aos livros e às escrituras. Essa nova forma de pensar ficou conhecida como Ch'an na China, e foi estabelecida por Bodhidharma, que veio da Índia no século VI.

O Zen é impossível de ser descrito em palavras: traz consigo muitos significados, nenhum deles inteiramente definível. Se forem definidos, eles não são Zens. Muito mais que simples teoria, o Zen só é experimentado integralmente através da prática, que faz o praticante vivenciar uma experiência. A prática do Zen é feita através do za-zen, que é a meditação Zen. Além do za-zen, os praticantes costumam estudar também os koans, que são pequenas frases, aparentemente sem sentido, mas que possuem grande profundidade embutida. A verdadeira análise do koan não deve contar com o pensamento lógico; é uma análise meditativa e intuitiva. Exemplo de koan típico: "Qual o som de uma única mão que bate palmas?".

O aprendiz do Zen deve contar com o apoio direto de um mestre, que lhe transmitirá o caminho para a iluminação. A independência de livros e textos sagrados para se alcançar a iluminação: eis a diferença básica entre o Zen e o Budismo tradicional. O Zen foi trazido da China para o Japão no século XII, pelo mestre Eisai (1141-1215). Lá, ele gozou de grande popularidade entre a classe dos Bushi (samurais), que já dominava o poder.

Foi na área da preparação psicológica que os samurais descobriram o Zen. Ora, não era suficiente apenas a preparação física para ser um samurai, era necessário cultivar também a preparação espiritual. Obviamente, a capacidade de manter a calma e a mente em ordem diante da morte foi de grande utilidade para o samurai, e nisso consistia a procura deles pelo Zen. Assim, surgiu uma nova forma do Zen, que ficou conhecida como "Zen do Guerreiro". Como os samurais não se familiarizaram com as histórias clássicas do budismo chinês, no Zen do Guerreiro os koans e os contos Zen eram decorrentes da experiência diária dos próprios samurais.

Na verdade, o Zen sempre esteve relacionado com a prática de artes marciais. Isso porque era um método de aperfeiçoamento pessoal que dava valor à experiência prática e que estimulava o desenvolvimento de uma mente autoconfiante, corajosa e desapegada das coisas materiais: atributos de grande atrativo entre os guerreiros.

Apesar da procura dos samurais pela filosofia ter, inicialmente, caráter essencialmente prático, o Zen contribuiu para a maturidade espiritual de muitos. O espírito profundamente Zen de alguns samurais pode ser comprovado, pela seguinte citação de Kimura Kyuho, mestre de Kenjutsu (arte da esgrima), no século XVIII:

"O espadachim perfeito evita discutir e brigar. Brigar significa matar. Como pode um ser humano induzir a si próprio a matar seu semelhante? Fomos feitos para amar uns aos outros, não para matar... A espada é um instrumento infausto, usado para matar em circunstâncias inevitáveis. Mas pode também dar a vida, ao invés de tirá-la."

A Beleza Natural

Um jovem era o responsável pelo jardim de um famoso templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava as flores, arbustos e árvores. Próximo ao templo havia um outro templo menor onde vivia apenas um velho mestre Zen. Um dia, quando o monge estava esperando a visita de importantes convidados, ele deu uma atenção extra ao cuidado do jardim. Ele tirou as ervas daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo, e gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse de cima do muro que separava os templos.

Quando terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.
- Não está lindo? - ele perguntou, feliz, para o velho monge.
- Sim, - replicou o ancião - Mas está faltando algo crucial. Ajude-me a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você.
Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.
- Pronto! - disse o velho monge - Agora você pode me levar de volta.


Ansiando por Deus

Um sábio estava meditando à margem de um rio quando um homem jovem, um tanto entusiasmado, o interrompeu.

"Mestre, eu desejo ser seu discípulo!", disse o jovem.

"Por quê?" Replicou o sábio.

O jovem era uma pessoa que sempre ouviu falar dos caminhos espirituais, e tinha uma idéia fantasiosa e romântica deles. Em sua imaturidade, ele achava que ser "espiritual" era algo como participar de um movimento, de uma crença, de uma moda, sem grandes conseqüências. Ele então pensou numa resposta bem "profunda" e disse:

"Porque eu quero encontrar DEUS!"

O sábio pulou de onde estava, agarrou o rapaz pelo cangote, arrastou-o até o rio e mergulhou sua cabeça sob a água. Manteve-o lá por quase um minuto, sem permitir que respirasse, enquanto o terrificado rapaz chutava e lutava para se libertar. Finalmente o mestre o puxou da água e o arrastou de volta à margem. Largou-o no chão, enquanto o homem cuspia água e engasgava, lutando para retomar a respiração e entender o que acontecera. Quando ele eventualmente se acalmou, o sábio lhe perguntou:

"Diga-me, quando estava sob a água, sabendo que morreria, o que você queria mais do que tudo?

"Ar!", respondeu o jovem, amuado.

"Muito bem", disse o mestre. "Vá para sua casa, e quando você souber ansiar por um Deus tanto quanto você acabou de ansiar por ar, pode voltar a me procurar."


O Aperfeiçoamento Pessoal

Um praticante certa vez perguntou a um mestre Zen, que ele considerava muito sábio:
- Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal?
- Pessoas como eu - Comentou o mestre. O praticante ficou algo espantado:
- Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?
- O aperfeiçoamento, - respondeu o sábio, - nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se...
- Mas, - replicou o praticante, - fazemos isso sempre! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo para um mestre.
- O que achas que faço todos os dias? - retrucou o mestre - A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, faço com cuidado e honestidade os atos comuns do cotidiano. Nada é mais profundo do que isso.


Autopiedade

Dois velhos amigos se encontraram, após muitos anos. Entretanto, a vida tinha levado um a se tornar muito rico e o outro miserável.

Eles ficaram juntos muitas horas, trocando reminiscências e bebendo saquê. O homem rico era muito generoso e afável, mas seu amigo só sabia se entregar à autopiedade. Após certo tempo, o homem miserável adormeceu, e seu amigo, condoído com sua condição, resolveu lhe dar uma dádiva e antes de partir introduziu-lhe no bolso um belo diamante. "Se meu pobre amigo estiver em dificuldades poderá conseguir uma boa soma com a venda desta jóia", pensou o bom homem.

Anos se passaram e os dois amigos de novo se encontraram. Mas o homem miserável continuava assim, e ainda se lamentando.
- Mas como ainda estás tão pobre depois de tantos anos? - perguntou o rico, surpreso.
- Pobre de mim! - lamuriou-se o outro - Sou inútil, e ninguém se importa comigo! Sou incapaz de ganhar dinheiro para sobreviver!
- Tua autopiedade e egoísmo te fizeram um tolo! Não fosse tua profunda cegueira auto-indulgente, poderias há muito ter percebido o tesouro que deixei em teu bolso!


Caçando dois coelhos

Um estudante de artes marciais aproximou-se de seu mestre com uma questão:

- Gostaria de aumentar meu conhecimento das artes marciais. Em adição ao que aprendi com o senhor, eu gostaria de estudar com outro professor para poder aprender outro estilo. O que pensa de minha idéia?

- O caçador que espreita dois coelhos ao mesmo tempo, - respondeu o mestre - corre o risco de não pegar nenhum.


Carroça

Um Imperador, sabendo que um grande sábio do Zen estava às portas de seu palácio, foi até ele para fazer uma importante pergunta:

- Mestre, onde está o Eu?
O mestre então pediu-lhe:
- Por favor traga-me aquela carroça que está lá.
A carroça foi trazida. O sábio perguntou:
- O que é isso?
- Uma carroça, é claro, - respondeu o Imperador.
O mestre pediu que retirasse os cavalos que puxavam a carroça. Então disse:
- Os cavalos são a carroça?
- Não.
O mestre pediu que as rodas fossem retiradas.
- As rodas são a carroça?
- Não, mestre.
O mestre pediu que retirassem os assentos.
- Os assentos são a carroça? Não, eles não são a carroça.
Finalmente apontou para o eixo e falou:
- O eixo é a carroça?
- Não, mestre não é.
Então o sábio concluiu:
- Da mesma forma que a carroça, o Eu não pode ser definido por suas partes. O Eu não está aqui, não está lá. O Eu não se encontra em parte alguma. Ele não existe. E não existindo, ele existe.
Dito isso, ele começou a se afastar do surpreso monarca. Quando estava já afastado, voltou-se e perguntou-lhe:
Onde Eu estou?


A Certeza e a Dúvida

Buda estava reunido com seus discípulos certa manhã, quando um homem se aproximou:
- Existe Deus? - perguntou.
- Existe - respondeu Buda.
Depois do almoço, aproximou-se outro homem.
- Existe Deus? - quis saber.
- Não, não existe - disse Buda.
No final da tarde, um terceiro homem fez a mesma pergunta:
- Existe Deus?
- Você terá que decidir - respondeu Buda.
Assim que o homem foi embora, um discípulo comentou, revoltado:
- Mestre, que absurdo! Como o Senhor dá respostas diferentes para a mesma pergunta?
- Porque são pessoas diferentes, e cada uma chegará a Deus por seu próprio caminho. O primeiro acreditará em minha palavra. O segundo fará tudo para provar que eu estou errado. E o terceiro só acredita naquilo que é capaz de escolher por si mesmo.


Certo e Errado

Quando Bankei realizava semanas de retiro de meditação, estudantes de muitas partes do Japão compareciam. Durante um desses encontros um estudante foi pego de surpresa roubando. O assunto foi relatado a Bankei com a solicitação de que o estudante fosse expulso. Bankei ignorou o caso. Mais tarde o estudante foi pego em um ato semelhante, e mais uma vez Bankei desconsiderou a questão. Isto irritou os outros estudantes, que redigiram uma petição pedindo o afastamento do ladrão, afirmando que caso contrário eles iriam embora do grupo. Quando Bankei leu o pedido, convocou todos para comparecer à sua presença.

-Vocês são sábios.- disse ele - Vocês sabem o que é certo e o que é errado. Vocês podem ir para algum outro lugar para estudar se quiserem, mas este pobre irmão não sabe nem mesmo distinguir o certo do errado. Quem lhe ensinará seu eu não o fizer? Vou mantê-lo aqui mesmo que todos vocês partam.

Uma torrente de lágrimas limpou o rosto do irmão que tinha roubado. Todo o desejo de roubar havia desaparecido.


Dar e Receber

Um professor de Zen, após anos como orientador de um aluno particularmente sensível e sábio, resolveu lhe dar um presente:
- Estou ficando velho, em breve morrerei. Para simbolizar sua sucessão a mim como mestre vou lhe dar este livro valiosíssimo.

O discípulo, entretanto, não estava interessado em livros:- Não é necessário, obrigado, mestre. Eu aceitei o seu ensinamento como o Zen que prescinde a palavra escrita. Gosto de sua face original. Fique com seu precioso livro.

O professor insistiu, e afirmou, orgulhoso:
- Este livro atravessou sete gerações, é uma relíquia! Por favor, fique com ele como um símbolo de sua aceitação do manto e da tigela!

O outro apenas disse:
- Está bem, dê-me o livro.

Ao recebê-lo, o discípulo simplesmente atirou o livro no fogo próximo, queimando-o. O professor ficou chocado. Gritou para o aluno, indignado:
- Como pôde fazer isso?! Era uma peça inestimável de conhecimento!

Foi a vez do sábio discípulo ficar indignado:
- Como podes dar mais valor a papel e couro do que àquilo que me ensinastes diretamente, de forma pura? Ensinar uma sabedoria que não se pode praticar é como agir sem coração, e não ser nada mais do que um repetidor de textos sagrados. Tu me deste um objeto, e eu usufrui dele como considerei adequado. Como podes ficar indignado com um simples 'dar e receber'?


Um Discurso Muito Importante

O Mestre Yao-shan há muitos meses que não dava uma palavra de orientação aos seus discípulos. Estes estavam confusos, e certo dia um discípulo foi à sua presença e disse:
- Todos os discípulos anseiam sua orientação, Mestre. Por que vós estais tão silencioso?

Yao-shan replicou:
- Muito bem. Toqueis o sino e conclamais todos do Templo. Farei um discurso muito importante.

O sino foi tocado e todos foram alegres para o salão de meditação, esperando pelo discurso de seu mestre. Yao-shan entrou, sentou-se em frente à todos, e permaneceu em silêncio. Passou-se dez minutos, vinte, trinta minutos, uma hora. Em determinado momento o sábio levantou-se e foi embora, encerrando a reunião.

O discípulo foi atrás dele correndo, chamou-o e perguntou:
- Mestre! Por que vais embora sem nos dizer uma palavra?!

Yao-shan respondeu:
- Há intelectuais do Dharma para ensinar sutras, disciplinadores que ensinam apenas proibições. Mas sou um mestre Zen. Não adianta falar sobre isso, pois o Zen está além das palavras. Portanto, o que vós esperais de mim?


É mesmo?

Uma linda garota da vila ficou grávida. Seus pais, encolerizados, exigiram saber quem era o pai. Inicialmente resistente a confessar, a ansiosa e embaraçada menina finalmente acusou Hakuin, o mestre Zen o qual todos da vila reverenciavam profundamente por viver uma vida pura. Quando os insultados pais confrontaram Hakuin com a acusação de sua filha, ele simplesmente disse:
- É mesmo?

Quando a criança nasceu, os pais a levaram para Hakuin, o qual agora era visto como um pária por todos da região. Eles exigiram que ele tomasse conta da criança, uma vez que essa era sua responsabilidade.
- É mesmo? - Hakuin disse calmamente enquanto aceitava a criança.

Por muitos meses ele cuidou carinhosamente da criança, conseguindo leite com os vizinhos e tudo o mais que o bebê necessitava. Até o dia em que a menina não agüentou mais sustentar a mentira e confessou que o verdadeiro pai era um jovem da vila que ela estava tentando proteger.

Os pais imediatamente foram a Hakuin, constrangidos, para ver se ele poderia devolver a guarda do bebê. Com profusas desculpas eles explicaram o que tinha acontecido, enquanto pediam o seu perdão.
Hakuin consentiu. Ao entregar a criança, tudo o que ele disse foi:
- É mesmo?


Equanimidade

Durante as guerras civis na China feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando - todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado.

Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge. O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.
- Seu tolo! - ele gritou enquanto desembainhava a espada - Não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?

Mas o mestre permaneceu completamente tranqüilo.
- E você percebe,- o mestre replicou calmamente - Que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?


A Falsa Prisão

Em um mosteiro Zen, um monge novato estava agindo de forma rebelde às normas do local, causando um certo tumulto. O mestre, percebendo o desconforto da comunidade dos monges, resolveu chamar a atenção do monge rebelde determinando-lhe que ficasse num alojamento a parte para que refletisse sobre a sua conduta. Contrariado, mas obediente, o monge aceitou a ordem e foi levado ao tal alojamento.

Passaram-se algumas semanas e o monge ainda estava no mesmo aposento, onde lhe levavam diariamente comida e água que eram deixadas em uma abertura da porta. Todo esse tempo de enclausuramento fez com que chegasse à conclusão que havia de fato passado dos limites com aquela atitude de rebeldia. Estava realmente arrependido.

O tempo passava e já fazia alguns meses que o monge estava lá, quando começou a se inquietar e pensou, indignado: "Sei que abusei da minha liberdade, mas não acho que minha atitude tenha sido tão grave ao ponto de ficar tantos meses trancafiado nesta prisão. Agora quem passou dos limites foram eles. Não vou mais aceitar tamanho absurdo. Vou sair daqui imediatamente, nem que eu tenha que arrebentar esta porta."

Neste momento, o monge se aproxima da porta e, numa atitude enraivecida, tenta forçar a tranca da porta para arrombá-la logo em seguida. Ao fazer isso, a porta se abre sem qualquer esforço de sua parte. Espantado, o monge nota que a porta estava aberta durante todo o tempo em que permanecera ali!


Garotas

Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.
"Venha, menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.

Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o alojamento do Templo. Então ele não mais se conteve e disse: "Nós monges não nos aproximamos de mulheres", ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"
"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"


Hora de Morrer

Ikkyu, um mestre zen, era muito inteligente até quando era apenas um menino. O seu instrutor possuía uma preciosa xícara de chá, uma peça antiga e rara. Ikkyu acabou quebrando essa xícara e ficou completamente perplexo. Ouvindo os passos de seu instrutor, ele segurou os pedaços da xícara atrás de si. Quando o mestre apareceu, Ikkyu perguntou:

-Mestre, por que as pessoas têm de morrer?
- Isto é natural...- explicou o homem mais velho - Tudo tem de morrer e tem um tempo determinado para viver.
Ikkyu, mostrando a xícara despedaçada, acrescentou:
- Era tempo de sua xícara morrer.


Impermanência

Um famoso mestre Zen aproximou-se do portal principal do palácio do Imperador. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se aonde o Imperador estava, solenemente sentado em seu trono.
"O que vós desejais?" perguntou o governante, imediatamente reconhecendo o visitante.
"Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria," replicou o mestre.
"Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem",disse o Imperador, divertido, "Este é o meu palácio."
"Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?" perguntou o mestre.
"Meu pai. Ele está morto."
"E a quem pertenceu antes dele?"
"Meu avô," disse, já bastante intrigado, "Mas ele também está morto."
"Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem - vós me dizeis que tal lugar não é uma hospedaria?"


Jovem

Um jovem monge foi até o mestre Ji-shou e perguntou:
- Como chamamos uma pessoa que entende uma verdade, mas não pode explicá-la em palavras?
Disse o mestre:
- Uma pessoa muda comendo mel.
- E como chamamos uma pessoa que não entende a verdade, mas fala muito sobre ela?
- Um papagaio imitando as palavras de uma outra pessoa.


O Ladrão Que Virou Discípulo

Uma noite quando Shichiri Kojun estava recitando sutras um ladrão com uma espada entrou em seu zendo, exigindo seu dinheiro ou a sua vida. Shichiri disse-lhe:
"Não me perturbe. Você pode encontrar o dinheiro naquela gaveta." E retomou sua recitação.

Um pouco depois ele parou de novo e disse ao ladrão:
"Não pegue tudo. Eu preciso de alguma soma para pagar os impostos amanhã."

O intruso pegou a maior parte do dinheiro e principiou a sair
"Agradeça à pessoa quando você recebe um presente," Shichiri acrescentou. O homem lhe agradeceu, meio confuso, e fugiu.

Poucos dias depois o indivíduo foi preso e confessou, entre outras coisas, a ofensa contra Shichiri. Quando Shichiri foi chamado como testemunha ele disse:
"Este homem não é ladrão, ao menos tanto quanto me diz respeito. Eu lhe dei o dinheiro e ele inclusive me agradeceu por isso." Após o homem ter cumprido sua pena, ele foi a Shichiri e tornou-se um de seus discípulos.


A lua não pode ser roubada

Ryokan, um mestre zen, vivia o tipo mais simples possível de vida em uma pequena cabana no sopé de uma montanha. Uma noite, um ladrão visitou a cabana e surpreendeu-se ao descobrir que não havia nada nela para ser roubado. Ryokan voltou e o pegou.
- Você provavelmente veio de longe para me visitar. - disse ele ao gatuno.- E não deve voltar com as mãos vazias. Por favor, tome minhas roupas como um presente.

O ladrão ficou completamente desnorteado. Ele pegou as roupas e escapuliu.
Ryokan sentou-se nu, observando a lua.
-Pobre rapaz... -ele pensou. Eu gostaria de poder ter dado a ele esta bela Lua.


Olhando da Maneira Correta

Havia em uma aldeia uma senhora chamada de "mulher chorona" pois todos os dias, chovendo ou fazendo sol, ela sempre estava chorando. Ela vendia bolinhos na rua, e um monge sempre passava por ela quando ia ao templo para os ritos. Um dia, curioso, ele lhe perguntou:
- Sempre que passo seja em belos dias ensolarados, seja em suaves dias chuvosos, vejo a senhora chorando. Por que isso acontece?

- Tenho dois filhos, - ela respondeu - Um faz delicadas sandálias, o outro guarda-chuvas. Quando faz sol, penso que ninguém comprará os guarda-chuvas de meu filho, e ele e sua família vão passar necessidades. Quando chove, penso no meu filho que faz sandálias, e que ninguém vai comprá-las. Então ele também vai ter dificuldade para sustentar sua família.

O monge sorriu e disse:
- Mas... a senhora deveria ver as coisas da forma correta. Veja: quando o sol brilha, seu filho que faz sandálias venderá muito, e isso é muito bom! Quando chove, seu filho que faz guarda-chuvas venderá muito, e isso é também muito bom!

A velha olhou-o com alegria e exclamou:
- Tem razão!
Desde então a velha passou todos os dias, chovendo ou fazendo sol, sorrindo feliz.


A Mão de Mokusen

Mokusen Hiki vivia em um templo na província de Tamba. Um de seus seguidores falou da mesquinhez de sua própria esposa.
Mokusen visitou a esposa do seguidor e lhe mostrou seu punho cerrado diante de seu rosto.

- O que você quer dizer com isso? - Perguntou a mulher, surpresa.- Suponhamos que meu punho fosse sempre assim. Como você o chamaria? - Ele perguntou.
- Deformado. - Respondeu a mulher.

Então ele abriu sua mão completamente diante do rosto dela e perguntou:
- Suponhamos que fosse sempre assim. O que seria?
- Um outro tipo de deformação. - Disse a esposa.
- Se você compreende isso - Concluiu Mokusen - você é uma boa esposa.- Ele então partiu.

Depois de sua visita, essa esposa entendeu o erro que cometia.


Nas Mãos do Destino

Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo embora ele tivesse apenas um décimo do número de homens que seu oponente. Ele sabia que poderia ganhar mesmo assim, mas seus soldados tinham dúvidas. No caminho para a batalha ele parou em um templo Shintó e disse aos seus homens:

- Após eu visitar o relicário eu jogarei uma moeda. Se a Cara sair, iremos vencer; se sair a Coroa, iremos com certeza perder. O Destino nos tem em suas mãos.

Nobunaga entrou no templo e ofereceu uma prece silenciosa. Então saiu e jogou a moeda. A Cara apareceu. Seus soldados ficaram tão entusiasmados a lutar que eles ganharam a batalha facilmente.

Após a batalha, seu segundo em comando disse-lhe orgulhoso:
- Ninguém pode mudar a mão do Destino!
- Realmente não...- disse Nobunaga mostrando-lhe reservadamente sua moeda, que tinha sido duplicada, possuindo a Cara impressa nos dois lados.


Mente em Movimento

Dois homens estavam discutindo sobre uma flâmula que tremulava ao vento:
- É o vento que realmente está se movendo! - declarou o primeiro.
- Não, obviamente é a flâmula que se move! - contestou o segundo.

Um mestre Zen, que por acaso passava por perto, ouviu a discussão e os interrompeu dizendo:
- Nem a flâmula nem o vento estão se movendo, é a MENTE que se move.


Meditação e Macacos

Um homem estava interessado em aprender meditação. Foi até um zendo (local de prática meditativa zen) e bateu na porta. Um velho professor o atendeu:
"Sim?"
"Bom dia meu senhor," começou o homem."Eu gostaria de aprender a fazer meditação. Como eu sei que isso é difícil e muito técnico, eu procurei estudar ao máximo, lendo livros e opiniões sobre o que é meditação, suas posturas, etc... Estou aqui porque o senhor é considerado um grande professor de meditação. Gostaria que o senhor me ensinasse."

O velho ficou olhando o homem enquanto este falava. Quando terminou, o professor disse:
"Quer aprender meditação?"
"Claro! Quero muito!" exclamou o outro.
"Estudou muito sobre meditação?", disse um tanto irônico.
"Fiz o máximo que pude..." afirmou o homem.
"Certo," replicou o velho. "Então vá para casa e faça exatamente isso: não pense em macacos."

O homem ficou pasmo. Nunca tinha lido nada sobre isso nos livros de meditação. Ainda meio incerto, perguntou:
"Não pensar em macacos? É só isso?"
"É só isso."
"Bem isso é simples de fazer" pensou o homem, e concordou. O professor então apenas completou:
"Ótimo. Volte amanhã," e bateu a porta.

Duas horas depois, o professor ouviu alguém batendo freneticamente a porta do zendo. Ele abriu-a, e lá estava de novo o mesmo homem. "Por favor me ajude!" exclamou aflito "Desde que o senhor pediu para que eu não pensasse em macacos, não consegui mais deixar de me preocupar em NÃO PENSAR NELES!!!! Vejo macacos em todos os cantos!!!!"


Nada Existe

Yamaoka Teshu, um jovem estudante do Zen, visitava um mestre após outro para aprender os seus ensinamentos. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso:
- A mente, Buda, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é vazia. Não há realização, nenhuma desilusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber! A verdadeira iluminação é saber que nada existe!

Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando xingamentos.
- Se nada existe, - perguntou Dokuon, calmo - de onde veio toda esta sua raiva?


Não Morri Ainda

O Imperador perguntou ao Mestre Gudo:
- O que acontece com um homem iluminado após a morte?
- Como eu poderia saber? - replicou Gudo.
- Porque o senhor é um mestre... Não é? - respondeu o Imperador, um pouco surpreso.
- Sim Majestade, - disse Gudo suavemente - Mas ainda não sou um mestre morto.


Natureza

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:

"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"

"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza."

(Outra versão deste conto descreve uma raposa que concorda em carregar um escorpião em suas costas através de um rio, sob a condição que o escorpião não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque é minha natureza". A mesma história é encontrada na tradição indígena americana. No Brasil a raposa é substituída por um sapo).


A Natureza Pródiga

Um sábio estava se alimentando calmamente, ao lado de um lago. Aparece um assassino foragido da polícia, e lhe pede um pouco de alimento. O sábio o serve com toda a tranqüilidade. Um discípulo, que estava chegando ali no momento, corre em direção ao sábio, enquanto o assassino anda até o lago, onde vai buscar um pouco de água para acompanhar a refeição. O discípulo exclama ao mestre, de maneira a não ser ouvido pelo outro:
- Mestre! Esse é um assassino! Como podes lhe dar alimento?

O sábio aponta o lago e diz:
- Não vês? O lago está ali, e lhe fornece água; o sol que está ali, refletindo no lago, lhe concede luz. Por que eu não lhe brindaria alimento?


Não Tenho Nada

Um jovem monge aproximou-se de Chao-chou muito orgulhoso e eufórico, e disse:
- Me desfiz de tudo o que tinha! Minhas mãos estão vazias e vim à vós com o coração sereno!
- Então resta apenas desfazeres-te disso, e chegarás ao Zen.- Afirmou o mestre.
- Mas, - replicou o monge - não tenho mais nada. Do que mais posso me desfazer?
- Tudo bem, - comentou o sábio, - se tu queres manter o Nada que ainda carregas, fique com ele...


Onde Vais?

Em dois mosteiros vizinhos viviam dois jovens monges muito amigos. De manhã, sempre os monges se encontravam, cada um cuidando de seus afazeres. Certo dia, um dos monges estava varrendo o pátio de seu templo e, vendo aproximar-se o amigo, perguntou:
- Olá! Onde vais?

O amigo respondeu, feliz:
- Vou aonde meus pés me levarem...

O monge ficou intrigado com a resposta e comentou com seu mestre. Este lhe disse:
- Da próxima vez, diga-lhe: "E se não tivesse pés?"

Quando o jovem noviço viu o amigo de novo na manhã seguinte, fez a mesma pergunta já antecipando o momento em que pegaria o amigo de jeito, desta vez:
- Onde vais?

Mas o outro disse:
- Aonde o vento me levar!

O monge ficou frustrado. Voltou ao mestre e contou a nova resposta, e este, sorrindo, disse:
- Da próxima vez, diga-lhe: "E se o vento parasse de soprar?"

O jovem monge ficou encantado com a idéia:
- Sim, sim! Essa é boa! Agora ele não me escapa!

No dia seguinte, ao amanhecer, ele viu seu amigo aproximando-se de novo. Perguntou-lhe:
- Olá! Onde vais?

O amigo parou, sorriu-lhe, e falou suavemente:
- Simplesmente vou ao mercado, meu amigo...- e seguiu seu caminho.


O Silêncio Completo

Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou.

O primeiro monge disse:
- Oh, não! A vela apagou!

O segundo comentou:
- Não tínhamos que ficar em silêncio completo?

O terceiro reclamou:
- Por que vocês dois quebraram o silêncio?

Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso:
- Aha! Eu sou o único que não falou!


O Quebrador de Pedras

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida. Um dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante. Através do portal aberto, ele viu muitos objetos valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão.
"Quão poderoso é este mercador!" pensou o quebrador de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante.

Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importam quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem.
"Quão poderoso é este oficial!" ele pensou. "Gostaria de poder ser um alto oficial!"

Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo.
"Quão poderoso é o Sol!" ele pensou. "Gostaria de ser o Sol!"

Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele.
"Quão poderosa é a nuvem de tempestade!" ele pensou "Gostaria de ser uma nuvem!"

Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso.
"Quão poderoso é o Vento!" ele pensou. "Gostaria de ser o vento!"

Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha.
"Quão poderosa é a rocha!" Ele pensou. "Gostaria de ser uma rocha!"

Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado. "O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!?" pensou surpreso.
Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador de pedras.


Para que Servem as Palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre, que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da lua, com uma grande dúvida:
- Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitos de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?

O velho sábio respondeu:
- As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.
O monge replicou:
- Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?
- Poderia - confirmou o mestre - e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.
- Então - o monge perguntou - por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?
- Porque - completou o sábio - da mesma forma que ver a Lua todas as noites fazem com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.


Isso Passará

Um praticante foi até o seu professor de meditação, tristemente, e disse:
- Minha prática de meditação é horrível! Ou eu fico distraído, ou minhas pernas doem muito, ou eu constantemente fico com sono. É simplesmente horrível!!!
- Isso passará - o professor disse suavemente.

Uma semana depois, o estudante retornou ao seu professor, eufórico:
- Minha prática de meditação é maravilhosa! Eu sinto-me tão consciente, tão pacífico, tão relaxado, tão vivo! É simplesmente maravilhoso!!!
O mestre disse tranqüilamente:
- Isso também passará.


Pontos de Vista

Existia um mosteiro Zen, conduzido por dois irmãos. O mais velho era muito sábio, e o mais novo, ao contrário, era tolo e tinha apenas um olho. Para um forasteiro conseguir hospedagem por uma noite nesse mosteiro, tinha de vencer um dos monges, em um debate sobre o Zen.

Uma noite, um forasteiro foi pedir asilo. Como o velho monge estava cansado, mandou o mais novo confrontar-se com ele, com a recomendação de que o debate fosse em silêncio. essa forma, o monge tolo não cometeria enganos.
Algum tempo depois, o viajante entrou na sala do sábio monge e disse: "Que homem sábio é o seu irmão! Conseguiu vencer-me no debate e, por isso, devo ir-me".

O velho monge, intrigado, perguntou: "O que aconteceu?"
E escutou a resposta: "Primeiramente, ergui um dedo simbolizando Buda, e seu irmão levantou dois simbolizando Buda e seus ensinamentos. Então, ergui três dedos para representar Buda, seus ensinamentos e seus discípulos, e meu inteligente interlocutor sacudiu o punho cerrado, à minha frente, para indicar que todos os três vêm de uma única realização".
Pouco depois, entra o monge tolo, muito aborrecido, e é saudado pelo irmão, que lhe perguntou o motivo de sua chateação. E o caolho respondeu: "Esse viajante é muito rude. No momento em que me viu, levantou um dedo, insultando-me, indicando que tenho apenas um olho. Mas, como ele era visitante, eu não quis responder à ofensa e ergui dois dedos, parabenizando-o por ele ter dois olhos. E o miserável levantou três dedos, para mostrar que nós dois juntos tínhamos três olhos. Então fiquei furioso e ameacei dar-lhe um soco, com o punho cerrado. E, assim, ele foi embora".


O Samurai Idoso

Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que adorava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda que ele ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos contra-atacava com velocidade fulminante.

O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. E, conhecendo a reputação do velho samurai, estava ali para derrotá-lo, aumentando sua fama de vencedor.

Todos os estudantes manifestaram-se contra a idéia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos - ofendeu inclusive seus ancestrais.

Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho mestre permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados pelo fato do mestre ter aceito tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: Como o senhor pode suportar tanta indignidade ? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?

- Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente? - perguntou o velho samurai.
- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse o mestre - Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo.


O Som do Silêncio

Certa vez, um budista foi às montanhas procurar um grande mestre, que segundo acreditava poderia lhe dizer a palavra definitiva sobre o sentido da Sabedoria. Após muitos dias de dura caminhada o encontrou em um belo templo à beira de um lindo vale.

- Mestre, vim até aqui para lhe pedir uma palavra sobre o sentido do Dharma. Por favor, faça-me atravessar os Portões do Zen.
- Diga-me,- replicou o sábio,- vindo para cá vós passastes pelo vale?
- Sim.
- Por acaso ouvistes o seu som?

Um tanto incerto, o homem disse:
- Bem, ouvi o som do vento como um suave canto penetrando todo o vale.

O sábio respondeu:
- O local onde vós ouvistes o som do vale é onde começa o caminho que leva aos Portões do Zen. E este som é toda palavra que vós precisais ouvir sobre a Verdade.


Recitando os Sutras

Um fazendeiro pediu a um sacerdote que recitasse sutras para a sua esposa, que estava muito doente. Terminada a recitação, o fazendeiro perguntou:
- Você acha que a minha esposa obterá mérito disto?
- Não só a sua esposa, mas todos os seres sencientes se beneficiarão com a recitação de mantras - respondeu o sacerdote.
- Se você diz que todos os seres sencientes se beneficiarão - disse o fazendeiro - minha esposa poderá ficar muito fraca e outros tirarão vantagem dela, obtendo o benefício que deveria ser dela. Assim, por favor, recite os sutras apenas para ela.

O sacerdote explicou que era o desejo de um budista oferecer bênçãos e desejar mérito para cada ser vivo.
- Este é um belo ensinamento - concluiu o fazendeiro - mas, por favor, faça uma exceção. Eu tenho um vizinho que é grosso e mesquinho para comigo. Apenas exclua-o de todos aqueles seres sencientes.


Trabalhando Duro

Um estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente:
- Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para eu obter este prêmio e dominar este conhecimento?

A resposta do professor foi casual:
- Uns dez anos...

Impacientemente, o estudante completou:
- Mas eu quero entender todos os segredos mais rápidos do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras farei isso dez ou mais horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objetivo?

O professor pensou um pouco e disse suavemente:
- Vinte anos.


Talvez

Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens. "Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena",disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."


Não Conheço Títulos

Um dia, o grande general Kitagaki foi visitar seu velho amigo, o superior do templo Tofuku. Ao chegar, disse a um noviço de forma algo desdenhosa como comumente se dirigia às pessoas que considerava seus subordinados no exército:
"Diga ao Mestre que o grande general Kitagaki está aqui."

O noviço foi ao seu mestre e disse:
"Mestre, o Grande General Kitagaki está aqui."

O mestre respondeu:
"Não conheço Grandes Generais."

O noviço voltou à presença do militar com o recado enquanto o velho sábio observava do pórtico:
"Desculpe, o mestre não pode vê-lo. Ele não conhece nenhum Grande General."

O General inicialmente ficou surpreso, depois indignado, e finalmente compreendeu. Humildemente disse ao noviço:
"Desculpe minha arrogância. Por favor, diga-lhe que Kitagaki deseja vê-lo."

O monge assim o fez. Logo, o mestre aproximou-se com um sorriso e cumprimentou:
"Ah, Kitagaki! Há quanto tempo! Por favor, entre."


Transitoriedade

Certa vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não era igual às outras ondas e disse:
- Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e mais poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível e feia, sem força e inútil...

Outra onda do oceano lhe escutou e disse:
- Tu sofres porque não percebes a transitoriedade das formas, e não enxergas tua natureza original. Anseias egoisticamente por aquilo que não és, e mergulhas em autopiedade!

- Mas, - replicou a pequena onda - se não sou realmente uma pequena onda, o que sou?
- Ser onda é temporário e relativo. Não és onda, és água!

- Água? E o que é água?
- Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te à compreensão. Contemples a transitoriedade à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade em ti mesma. Tua essência é água, e quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer com tua egóica insatisfação...


Uma xícara de chá

Nan-in, um mestre japonês, recebeu um professor universitário que o visitou para fazer perguntas sobre o zen. O professor estava cheio de idéias, e fazia muitas perguntas. Nan-in serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante e depois continuou a servir mais chá nela. O professor observou o derramamento de chá até não poder mais se controlar.

- Já está derramando! Não cabe mais nada! - Falou o professor.
- Como esta xícara"- disse Nan-in. Você está cheio de suas própria opiniões e especulações.
Como posso lhe mostrar o zen a menos que você primeiro esvazie sua xícara?

 


 

 

 

 

 

 


Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil Aikikai.