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Nota
do prof. Wagner Bull:
"Muita gente pensa que o Aikido foi influenciado pelo
ZEN. Segundo minhas pesquisas isto está bem longe
da verdade. O Zen, parte do Vazio, (UM ), o Aikido da totalidade
(SU).
Embora , é verdade que o Zen influenciou enormemente
a arte da esgrima, e as artes nipônicas . Esta coletânea
de contos nos dá perolas de sabedoria e de lições
de vida."
O
Zen é uma forma de Budismo característica
do Japão; uma filosofia de vida que ainda hoje influência,
e muito, o povo japonês. Consiste na procura da iluminação
através do autoconhecimento; uma busca que ultrapassa
os obstáculos da mente lógica a fim de encontrar
a verdade em seu estado puro. Uma percepção
extra-sensorial das coisas. Um ensinamento especial que
não envolve palavras ou letras: apenas chama a atenção
para a verdadeira essência do homem, alcançando
a iluminação. O Zen também prega autocontrole,
disciplina e simplicidade no viver.
As
raízes do Zen estão na China e na Índia,
é uma variação do Budismo tradicional.
Houve uma época em que monges budistas acreditavam
que era preciso decorar livros e sutras budistas para se
atingir o Satori (iluminação). Assim, o conhecimento
intelectual era muito valorizado. Em oposição
a esse pensamento, surgiu uma nova corrente do budismo,
que pregava o desapego aos livros e às escrituras.
Essa nova forma de pensar ficou conhecida como Ch'an na
China, e foi estabelecida por Bodhidharma, que veio da Índia
no século VI.
O
Zen é impossível de ser descrito em palavras:
traz consigo muitos significados, nenhum deles inteiramente
definível. Se forem definidos, eles não são
Zens. Muito mais que simples teoria, o Zen só é
experimentado integralmente através da prática,
que faz o praticante vivenciar uma experiência. A
prática do Zen é feita através do za-zen,
que é a meditação Zen. Além
do za-zen, os praticantes costumam estudar também
os koans, que são pequenas frases, aparentemente
sem sentido, mas que possuem grande profundidade embutida.
A verdadeira análise do koan não deve contar
com o pensamento lógico; é uma análise
meditativa e intuitiva. Exemplo de koan típico: "Qual
o som de uma única mão que bate palmas?".
O
aprendiz do Zen deve contar com o apoio direto de um mestre,
que lhe transmitirá o caminho para a iluminação.
A independência de livros e textos sagrados para se
alcançar a iluminação: eis a diferença
básica entre o Zen e o Budismo tradicional. O Zen
foi trazido da China para o Japão no século
XII, pelo mestre Eisai (1141-1215). Lá, ele gozou
de grande popularidade entre a classe dos Bushi (samurais),
que já dominava o poder.
Foi
na área da preparação psicológica
que os samurais descobriram o Zen. Ora, não era suficiente
apenas a preparação física para ser
um samurai, era necessário cultivar também
a preparação espiritual. Obviamente, a capacidade
de manter a calma e a mente em ordem diante da morte foi
de grande utilidade para o samurai, e nisso consistia a
procura deles pelo Zen. Assim, surgiu uma nova forma do
Zen, que ficou conhecida como "Zen do Guerreiro".
Como os samurais não se familiarizaram com as histórias
clássicas do budismo chinês, no Zen do Guerreiro
os koans e os contos Zen eram decorrentes da experiência
diária dos próprios samurais.
Na
verdade, o Zen sempre esteve relacionado com a prática
de artes marciais. Isso porque era um método de aperfeiçoamento
pessoal que dava valor à experiência prática
e que estimulava o desenvolvimento de uma mente autoconfiante,
corajosa e desapegada das coisas materiais: atributos de
grande atrativo entre os guerreiros.
Apesar
da procura dos samurais pela filosofia ter, inicialmente,
caráter essencialmente prático, o Zen contribuiu
para a maturidade espiritual de muitos. O espírito
profundamente Zen de alguns samurais pode ser comprovado,
pela seguinte citação de Kimura Kyuho, mestre
de Kenjutsu (arte da esgrima), no século XVIII:
"O
espadachim perfeito evita discutir e brigar. Brigar significa
matar. Como pode um ser humano induzir a si próprio
a matar seu semelhante? Fomos feitos para amar uns aos outros,
não para matar... A espada é um instrumento
infausto, usado para matar em circunstâncias inevitáveis.
Mas pode também dar a vida, ao invés de tirá-la."
A
Beleza Natural
Um
jovem era o responsável pelo jardim de um famoso
templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava
as flores, arbustos e árvores. Próximo ao
templo havia um outro templo menor onde vivia apenas um
velho mestre Zen. Um dia, quando o monge estava esperando
a visita de importantes convidados, ele deu uma atenção
extra ao cuidado do jardim. Ele tirou as ervas daninhas,
podou os arbustos, cardou o musgo, e gastou muito tempo
meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando
as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho
mestre observava com interesse de cima do muro que separava
os templos.
Quando
terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.
-
Não está lindo? - ele perguntou, feliz, para
o velho monge.
-
Sim, - replicou o ancião - Mas está faltando
algo crucial. Ajude-me a pular este muro e eu irei acertar
as coisas para você.
Após
certa hesitação, o monge levantou o velho
por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente,
o mestre caminhou para a árvore mais próxima
ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com
força. Folhas desceram suavemente à brisa
e caíram por sobre todo o jardim.
-
Pronto! - disse o velho monge - Agora você pode me
levar de volta.
Ansiando por Deus
Um
sábio estava meditando à margem de um rio
quando um homem jovem, um tanto entusiasmado, o interrompeu.
"Mestre,
eu desejo ser seu discípulo!", disse o jovem.
"Por
quê?" Replicou o sábio.
O
jovem era uma pessoa que sempre ouviu falar dos caminhos
espirituais, e tinha uma idéia fantasiosa e romântica
deles. Em sua imaturidade, ele achava que ser "espiritual"
era algo como participar de um movimento, de uma crença,
de uma moda, sem grandes conseqüências. Ele então
pensou numa resposta bem "profunda" e disse:
"Porque
eu quero encontrar DEUS!"
O
sábio pulou de onde estava, agarrou o rapaz pelo
cangote, arrastou-o até o rio e mergulhou sua cabeça
sob a água. Manteve-o lá por quase um minuto,
sem permitir que respirasse, enquanto o terrificado rapaz
chutava e lutava para se libertar. Finalmente o mestre o
puxou da água e o arrastou de volta à margem.
Largou-o no chão, enquanto o homem cuspia água
e engasgava, lutando para retomar a respiração
e entender o que acontecera. Quando ele eventualmente se
acalmou, o sábio lhe perguntou:
"Diga-me,
quando estava sob a água, sabendo que morreria, o
que você queria mais do que tudo?
"Ar!",
respondeu o jovem, amuado.
"Muito
bem", disse o mestre. "Vá para sua casa,
e quando você souber ansiar por um Deus tanto quanto
você acabou de ansiar por ar, pode voltar a me procurar."
O
Aperfeiçoamento Pessoal
Um
praticante certa vez perguntou a um mestre Zen, que ele
considerava muito sábio:
-
Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento
pessoal?
-
Pessoas como eu - Comentou o mestre. O praticante ficou
algo espantado:
-
Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?
-
O aperfeiçoamento, - respondeu o sábio, -
nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se...
-
Mas, - replicou o praticante, - fazemos isso sempre! Imaginava
que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo
para um mestre.
-
O que achas que faço todos os dias? - retrucou o
mestre - A cada dia, buscando o aperfeiçoamento,
faço com cuidado e honestidade os atos comuns do
cotidiano. Nada é mais profundo do que isso.
Autopiedade
Dois
velhos amigos se encontraram, após muitos anos. Entretanto,
a vida tinha levado um a se tornar muito rico e o outro
miserável.
Eles
ficaram juntos muitas horas, trocando reminiscências
e bebendo saquê. O homem rico era muito generoso e
afável, mas seu amigo só sabia se entregar
à autopiedade. Após certo tempo, o homem miserável
adormeceu, e seu amigo, condoído com sua condição,
resolveu lhe dar uma dádiva e antes de partir introduziu-lhe
no bolso um belo diamante. "Se meu pobre amigo estiver
em dificuldades poderá conseguir uma boa soma com
a venda desta jóia", pensou o bom homem.
Anos
se passaram e os dois amigos de novo se encontraram. Mas
o homem miserável continuava assim, e ainda se lamentando.
-
Mas como ainda estás tão pobre depois de tantos
anos? - perguntou o rico, surpreso.
-
Pobre de mim! - lamuriou-se o outro - Sou inútil,
e ninguém se importa comigo! Sou incapaz de ganhar
dinheiro para sobreviver!
-
Tua autopiedade e egoísmo te fizeram um tolo! Não
fosse tua profunda cegueira auto-indulgente, poderias há
muito ter percebido o tesouro que deixei em teu bolso!
Caçando dois coelhos
Um
estudante de artes marciais aproximou-se de seu mestre com
uma questão:
-
Gostaria de aumentar meu conhecimento das artes marciais.
Em adição ao que aprendi com o senhor, eu
gostaria de estudar com outro professor para poder aprender
outro estilo. O que pensa de minha idéia?
-
O caçador que espreita dois coelhos ao mesmo tempo,
- respondeu o mestre - corre o risco de não pegar
nenhum.
Carroça
Um
Imperador, sabendo que um grande sábio do Zen estava
às portas de seu palácio, foi até ele
para fazer uma importante pergunta:
-
Mestre, onde está o Eu?
O
mestre então pediu-lhe:
-
Por favor traga-me aquela carroça que está
lá.
A
carroça foi trazida. O sábio perguntou:
-
O que é isso?
-
Uma carroça, é claro, - respondeu o Imperador.
O
mestre pediu que retirasse os cavalos que puxavam a carroça.
Então disse:
-
Os cavalos são a carroça?
-
Não.
O
mestre pediu que as rodas fossem retiradas.
-
As rodas são a carroça?
-
Não, mestre.
O
mestre pediu que retirassem os assentos.
-
Os assentos são a carroça? Não, eles
não são a carroça.
Finalmente apontou para o eixo e falou:
- O eixo é a carroça?
- Não, mestre não é.
Então o sábio concluiu:
- Da mesma forma que a carroça, o Eu não pode
ser definido por suas partes. O Eu não está
aqui, não está lá. O Eu não
se encontra em parte alguma. Ele não existe. E não
existindo, ele existe.
Dito isso, ele começou a se afastar do surpreso monarca.
Quando estava já afastado, voltou-se e perguntou-lhe:
Onde Eu estou?
A
Certeza e a Dúvida
Buda
estava reunido com seus discípulos certa manhã,
quando um homem se aproximou:
- Existe Deus? - perguntou.
- Existe - respondeu Buda.
Depois do almoço, aproximou-se outro homem.
- Existe Deus? - quis saber.
- Não, não existe - disse Buda.
No final da tarde, um terceiro homem fez a mesma pergunta:
- Existe Deus?
- Você terá que decidir - respondeu Buda.
Assim que o homem foi embora, um discípulo comentou,
revoltado:
- Mestre, que absurdo! Como o Senhor dá respostas
diferentes para a mesma pergunta?
- Porque são pessoas diferentes, e cada uma chegará
a Deus por seu próprio caminho. O primeiro acreditará
em minha palavra. O segundo fará tudo para provar
que eu estou errado. E o terceiro só acredita naquilo
que é capaz de escolher por si mesmo.
Certo
e Errado
Quando
Bankei realizava semanas de retiro de meditação,
estudantes de muitas partes do Japão compareciam.
Durante um desses encontros um estudante foi pego de surpresa
roubando. O assunto foi relatado a Bankei com a solicitação
de que o estudante fosse expulso. Bankei ignorou o caso.
Mais tarde o estudante foi pego em um ato semelhante, e
mais uma vez Bankei desconsiderou a questão. Isto
irritou os outros estudantes, que redigiram uma petição
pedindo o afastamento do ladrão, afirmando que caso
contrário eles iriam embora do grupo. Quando Bankei
leu o pedido, convocou todos para comparecer à sua
presença.
-Vocês
são sábios.- disse ele - Vocês sabem
o que é certo e o que é errado. Vocês
podem ir para algum outro lugar para estudar se quiserem,
mas este pobre irmão não sabe nem mesmo distinguir
o certo do errado. Quem lhe ensinará seu eu não
o fizer? Vou mantê-lo aqui mesmo que todos vocês
partam.
Uma
torrente de lágrimas limpou o rosto do irmão
que tinha roubado. Todo o desejo de roubar havia desaparecido.
Dar
e Receber
Um
professor de Zen, após anos como orientador de um
aluno particularmente sensível e sábio, resolveu
lhe dar um presente:
-
Estou ficando velho, em breve morrerei. Para simbolizar
sua sucessão a mim como mestre vou lhe dar este livro
valiosíssimo.
O
discípulo, entretanto, não estava interessado
em livros:- Não é necessário, obrigado,
mestre. Eu aceitei o seu ensinamento como o Zen que prescinde
a palavra escrita. Gosto de sua face original. Fique com
seu precioso livro.
O
professor insistiu, e afirmou, orgulhoso:
-
Este livro atravessou sete gerações, é
uma relíquia! Por favor, fique com ele como um símbolo
de sua aceitação do manto e da tigela!
O
outro apenas disse:
- Está bem, dê-me o livro.
Ao
recebê-lo, o discípulo simplesmente atirou
o livro no fogo próximo, queimando-o. O professor
ficou chocado. Gritou para o aluno, indignado:
- Como pôde fazer isso?! Era uma peça inestimável
de conhecimento!
Foi
a vez do sábio discípulo ficar indignado:
- Como podes dar mais valor a papel e couro do que àquilo
que me ensinastes diretamente, de forma pura? Ensinar uma
sabedoria que não se pode praticar é como
agir sem coração, e não ser nada mais
do que um repetidor de textos sagrados. Tu me deste um objeto,
e eu usufrui dele como considerei adequado. Como podes ficar
indignado com um simples 'dar e receber'?
Um
Discurso Muito Importante
O
Mestre Yao-shan há muitos meses que não dava
uma palavra de orientação aos seus discípulos.
Estes estavam confusos, e certo dia um discípulo
foi à sua presença e disse:
- Todos os discípulos anseiam sua orientação,
Mestre. Por que vós estais tão silencioso?
Yao-shan
replicou:
- Muito bem. Toqueis o sino e conclamais todos do Templo.
Farei um discurso muito importante.
O
sino foi tocado e todos foram alegres para o salão
de meditação, esperando pelo discurso de seu
mestre. Yao-shan entrou, sentou-se em frente à todos,
e permaneceu em silêncio. Passou-se dez minutos, vinte,
trinta minutos, uma hora. Em determinado momento o sábio
levantou-se e foi embora, encerrando a reunião.
O
discípulo foi atrás dele correndo, chamou-o
e perguntou:
- Mestre! Por que vais embora sem nos dizer uma palavra?!
Yao-shan
respondeu:
- Há intelectuais do Dharma para ensinar sutras,
disciplinadores que ensinam apenas proibições.
Mas sou um mestre Zen. Não adianta falar sobre isso,
pois o Zen está além das palavras. Portanto,
o que vós esperais de mim?
É
mesmo?
Uma
linda garota da vila ficou grávida. Seus pais, encolerizados,
exigiram saber quem era o pai. Inicialmente resistente a
confessar, a ansiosa e embaraçada menina finalmente
acusou Hakuin, o mestre Zen o qual todos da vila reverenciavam
profundamente por viver uma vida pura. Quando os insultados
pais confrontaram Hakuin com a acusação de
sua filha, ele simplesmente disse:
- É mesmo?
Quando
a criança nasceu, os pais a levaram para Hakuin,
o qual agora era visto como um pária por todos da
região. Eles exigiram que ele tomasse conta da criança,
uma vez que essa era sua responsabilidade.
- É mesmo? - Hakuin disse calmamente enquanto aceitava
a criança.
Por
muitos meses ele cuidou carinhosamente da criança,
conseguindo leite com os vizinhos e tudo o mais que o bebê
necessitava. Até o dia em que a menina não
agüentou mais sustentar a mentira e confessou que o
verdadeiro pai era um jovem da vila que ela estava tentando
proteger.
Os
pais imediatamente foram a Hakuin, constrangidos, para ver
se ele poderia devolver a guarda do bebê. Com profusas
desculpas eles explicaram o que tinha acontecido, enquanto
pediam o seu perdão.
Hakuin consentiu. Ao entregar a criança, tudo o que
ele disse foi:
- É mesmo?
Equanimidade
Durante
as guerras civis na China feudal, um exército invasor
poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle.
Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general
famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando
- todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado.
Quando
chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém
mais estava lá, além do monge. O general foi
então ao templo, curioso em saber quem era tal homem.
Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu
com a normal submissão e terror com que ele estava
acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general
à fúria.
-
Seu tolo! - ele gritou enquanto desembainhava a espada -
Não percebe que você está diante de
um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?
Mas
o mestre permaneceu completamente tranqüilo.
-
E você percebe,- o mestre replicou calmamente - Que
você está diante de um homem que pode ser trucidado
num piscar de olhos?
A Falsa Prisão
Em
um mosteiro Zen, um monge novato estava agindo de forma
rebelde às normas do local, causando um certo tumulto.
O mestre, percebendo o desconforto da comunidade dos monges,
resolveu chamar a atenção do monge rebelde
determinando-lhe que ficasse num alojamento a parte para
que refletisse sobre a sua conduta. Contrariado, mas obediente,
o monge aceitou a ordem e foi levado ao tal alojamento.
Passaram-se
algumas semanas e o monge ainda estava no mesmo aposento,
onde lhe levavam diariamente comida e água que eram
deixadas em uma abertura da porta. Todo esse tempo de enclausuramento
fez com que chegasse à conclusão que havia
de fato passado dos limites com aquela atitude de rebeldia.
Estava realmente arrependido.
O
tempo passava e já fazia alguns meses que o monge
estava lá, quando começou a se inquietar e
pensou, indignado: "Sei que abusei da minha liberdade,
mas não acho que minha atitude tenha sido tão
grave ao ponto de ficar tantos meses trancafiado nesta prisão.
Agora quem passou dos limites foram eles. Não vou
mais aceitar tamanho absurdo. Vou sair daqui imediatamente,
nem que eu tenha que arrebentar esta porta."
Neste
momento, o monge se aproxima da porta e, numa atitude enraivecida,
tenta forçar a tranca da porta para arrombá-la
logo em seguida. Ao fazer isso, a porta se abre sem qualquer
esforço de sua parte. Espantado, o monge nota que
a porta estava aberta durante todo o tempo em que permanecera
ali!
Garotas
Tanzan
e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta.
Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada.
Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida
com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.
"Venha,
menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus
braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.
Ekido
não falou nada até aquela noite quando eles
atingiram o alojamento do Templo. Então ele não
mais se conteve e disse: "Nós monges não
nos aproximamos de mulheres", ele disse a Tanzan, "especialmente
as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"
"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan.
"Você ainda a está carregando?"
Hora de Morrer
Ikkyu,
um mestre zen, era muito inteligente até quando era
apenas um menino. O seu instrutor possuía uma preciosa
xícara de chá, uma peça antiga e rara.
Ikkyu acabou quebrando essa xícara e ficou completamente
perplexo. Ouvindo os passos de seu instrutor, ele segurou
os pedaços da xícara atrás de si. Quando
o mestre apareceu, Ikkyu perguntou:
-Mestre,
por que as pessoas têm de morrer?
-
Isto é natural...- explicou o homem mais velho -
Tudo tem de morrer e tem um tempo determinado para viver.
Ikkyu, mostrando a xícara despedaçada, acrescentou:
- Era tempo de sua xícara morrer.
Impermanência
Um
famoso mestre Zen aproximou-se do portal principal do palácio
do Imperador. Nenhum dos guardas tentou pará-lo,
constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se aonde o
Imperador estava, solenemente sentado em seu trono.
"O que vós desejais?" perguntou o governante,
imediatamente reconhecendo o visitante.
"Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria,"
replicou o mestre.
"Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem",disse
o Imperador, divertido, "Este é o meu palácio."
"Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio
antes de vós?" perguntou o mestre.
"Meu pai. Ele está morto."
"E a quem pertenceu antes dele?"
"Meu avô," disse, já bastante intrigado,
"Mas ele também está morto."
"Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto
espaço de tempo e então partem - vós
me dizeis que tal lugar não é uma hospedaria?"
Jovem
Um
jovem monge foi até o mestre Ji-shou e perguntou:
- Como chamamos uma pessoa que entende uma verdade, mas
não pode explicá-la em palavras?
Disse o mestre:
- Uma pessoa muda comendo mel.
- E como chamamos uma pessoa que não entende a verdade,
mas fala muito sobre ela?
- Um papagaio imitando as palavras de uma outra pessoa.
O
Ladrão Que Virou Discípulo
Uma noite quando Shichiri Kojun estava recitando sutras
um ladrão com uma espada entrou em seu zendo, exigindo
seu dinheiro ou a sua vida. Shichiri disse-lhe:
"Não me perturbe. Você pode encontrar
o dinheiro naquela gaveta." E retomou sua recitação.
Um
pouco depois ele parou de novo e disse ao ladrão:
"Não pegue tudo. Eu preciso de alguma soma para
pagar os impostos amanhã."
O
intruso pegou a maior parte do dinheiro e principiou a sair
"Agradeça à pessoa quando você
recebe um presente," Shichiri acrescentou. O homem
lhe agradeceu, meio confuso, e fugiu.
Poucos
dias depois o indivíduo foi preso e confessou, entre
outras coisas, a ofensa contra Shichiri. Quando Shichiri
foi chamado como testemunha ele disse:
"Este homem não é ladrão, ao menos
tanto quanto me diz respeito. Eu lhe dei o dinheiro e ele
inclusive me agradeceu por isso." Após o homem
ter cumprido sua pena, ele foi a Shichiri e tornou-se um
de seus discípulos.
A lua não pode ser roubada
Ryokan,
um mestre zen, vivia o tipo mais simples possível
de vida em uma pequena cabana no sopé de uma montanha.
Uma noite, um ladrão visitou a cabana e surpreendeu-se
ao descobrir que não havia nada nela para ser roubado.
Ryokan voltou e o pegou.
- Você provavelmente veio de longe para me visitar.
- disse ele ao gatuno.- E não deve voltar com as
mãos vazias. Por favor, tome minhas roupas como um
presente.
O
ladrão ficou completamente desnorteado. Ele pegou
as roupas e escapuliu.
Ryokan sentou-se nu, observando a lua.
-Pobre rapaz... -ele pensou. Eu gostaria de poder ter dado
a ele esta bela Lua.
Olhando da Maneira Correta
Havia
em uma aldeia uma senhora chamada de "mulher chorona"
pois todos os dias, chovendo ou fazendo sol, ela sempre
estava chorando. Ela vendia bolinhos na rua, e um monge
sempre passava por ela quando ia ao templo para os ritos.
Um dia, curioso, ele lhe perguntou:
- Sempre que passo seja em belos dias ensolarados, seja
em suaves dias chuvosos, vejo a senhora chorando. Por que
isso acontece?
-
Tenho dois filhos, - ela respondeu - Um faz delicadas sandálias,
o outro guarda-chuvas. Quando faz sol, penso que ninguém
comprará os guarda-chuvas de meu filho, e ele e sua
família vão passar necessidades. Quando chove,
penso no meu filho que faz sandálias, e que ninguém
vai comprá-las. Então ele também vai
ter dificuldade para sustentar sua família.
O
monge sorriu e disse:
- Mas... a senhora deveria ver as coisas da forma correta.
Veja: quando o sol brilha, seu filho que faz sandálias
venderá muito, e isso é muito bom! Quando
chove, seu filho que faz guarda-chuvas venderá muito,
e isso é também muito bom!
A
velha olhou-o com alegria e exclamou:
- Tem razão!
Desde então a velha passou todos os dias, chovendo
ou fazendo sol, sorrindo feliz.
A
Mão de Mokusen
Mokusen
Hiki vivia em um templo na província de Tamba. Um
de seus seguidores falou da mesquinhez de sua própria
esposa.
Mokusen visitou a esposa do seguidor e lhe mostrou seu punho
cerrado diante de seu rosto.
-
O que você quer dizer com isso? - Perguntou a mulher,
surpresa.- Suponhamos que meu punho fosse sempre assim.
Como você o chamaria? - Ele perguntou.
- Deformado. - Respondeu a mulher.
Então
ele abriu sua mão completamente diante do rosto dela
e perguntou:
- Suponhamos que fosse sempre assim. O que seria?
- Um outro tipo de deformação. - Disse a esposa.
- Se você compreende isso - Concluiu Mokusen - você
é uma boa esposa.- Ele então partiu.
Depois
de sua visita, essa esposa entendeu o erro que cometia.
Nas Mãos do Destino
Um
grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu
atacar o inimigo embora ele tivesse apenas um décimo
do número de homens que seu oponente. Ele sabia que
poderia ganhar mesmo assim, mas seus soldados tinham dúvidas.
No caminho para a batalha ele parou em um templo Shintó
e disse aos seus homens:
-
Após eu visitar o relicário eu jogarei uma
moeda. Se a Cara sair, iremos vencer; se sair a Coroa, iremos
com certeza perder. O Destino nos tem em suas mãos.
Nobunaga
entrou no templo e ofereceu uma prece silenciosa. Então
saiu e jogou a moeda. A Cara apareceu. Seus soldados ficaram
tão entusiasmados a lutar que eles ganharam a batalha
facilmente.
Após
a batalha, seu segundo em comando disse-lhe orgulhoso:
- Ninguém pode mudar a mão do Destino!
- Realmente não...- disse Nobunaga mostrando-lhe
reservadamente sua moeda, que tinha sido duplicada, possuindo
a Cara impressa nos dois lados.
Mente
em Movimento
Dois
homens estavam discutindo sobre uma flâmula que tremulava
ao vento:
- É o vento que realmente está se movendo!
- declarou o primeiro.
- Não, obviamente é a flâmula que se
move! - contestou o segundo.
Um
mestre Zen, que por acaso passava por perto, ouviu a discussão
e os interrompeu dizendo:
- Nem a flâmula nem o vento estão se movendo,
é a MENTE que se move.
Meditação e Macacos
Um
homem estava interessado em aprender meditação.
Foi até um zendo (local de prática meditativa
zen) e bateu na porta. Um velho professor o atendeu:
"Sim?"
"Bom dia meu senhor," começou o homem."Eu
gostaria de aprender a fazer meditação. Como
eu sei que isso é difícil e muito técnico,
eu procurei estudar ao máximo, lendo livros e opiniões
sobre o que é meditação, suas posturas,
etc... Estou aqui porque o senhor é considerado um
grande professor de meditação. Gostaria que
o senhor me ensinasse."
O
velho ficou olhando o homem enquanto este falava. Quando
terminou, o professor disse:
"Quer aprender meditação?"
"Claro! Quero muito!" exclamou o outro.
"Estudou muito sobre meditação?",
disse um tanto irônico.
"Fiz o máximo que pude..." afirmou o homem.
"Certo," replicou o velho. "Então
vá para casa e faça exatamente isso: não
pense em macacos."
O
homem ficou pasmo. Nunca tinha lido nada sobre isso nos
livros de meditação. Ainda meio incerto, perguntou:
"Não pensar em macacos? É só isso?"
"É só isso."
"Bem isso é simples de fazer" pensou o
homem, e concordou. O professor então apenas completou:
"Ótimo. Volte amanhã," e bateu a
porta.
Duas
horas depois, o professor ouviu alguém batendo freneticamente
a porta do zendo. Ele abriu-a, e lá estava de novo
o mesmo homem. "Por favor me ajude!" exclamou
aflito "Desde que o senhor pediu para que eu não
pensasse em macacos, não consegui mais deixar de
me preocupar em NÃO PENSAR NELES!!!! Vejo macacos
em todos os cantos!!!!"
Nada Existe
Yamaoka
Teshu, um jovem estudante do Zen, visitava um mestre após
outro para aprender os seus ensinamentos. Ele então
foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto
já sabia, ele disse, vaidoso:
- A mente, Buda, e os seres sencientes, além de tudo,
não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos
é vazia. Não há realização,
nenhuma desilusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade.
Não há o Dar e tampouco nada a receber! A
verdadeira iluminação é saber que nada
existe!
Dokuon,
que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente
ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo
de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando
xingamentos.
- Se nada existe, - perguntou Dokuon, calmo - de onde veio
toda esta sua raiva?
Não Morri Ainda
O
Imperador perguntou ao Mestre Gudo:
- O que acontece com um homem iluminado após a morte?
- Como eu poderia saber? - replicou Gudo.
- Porque o senhor é um mestre... Não é?
- respondeu o Imperador, um pouco surpreso.
- Sim Majestade, - disse Gudo suavemente - Mas ainda não
sou um mestre morto.
Natureza
Dois
monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam
um escorpião que estava se afogando. Um dos monges
imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo
ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela
e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou
o escorpião e novamente foi picado. O outro monge
então perguntou:
"Amigo,
por que você continua a salvar o escorpião
quando você sabe que sua natureza é agir com
agressividade, picando-o?"
"Porque,"
replicou o monge, "agir com compaixão é
a minha natureza."
(Outra
versão deste conto descreve uma raposa que concorda
em carregar um escorpião em suas costas através
de um rio, sob a condição que o escorpião
não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica
a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto
a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela
lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha
condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque
é minha natureza". A mesma história é
encontrada na tradição indígena americana.
No Brasil a raposa é substituída por um sapo).
A Natureza Pródiga
Um
sábio estava se alimentando calmamente, ao lado de
um lago. Aparece um assassino foragido da polícia,
e lhe pede um pouco de alimento. O sábio o serve
com toda a tranqüilidade. Um discípulo, que
estava chegando ali no momento, corre em direção
ao sábio, enquanto o assassino anda até o
lago, onde vai buscar um pouco de água para acompanhar
a refeição. O discípulo exclama ao
mestre, de maneira a não ser ouvido pelo outro:
- Mestre! Esse é um assassino! Como podes lhe dar
alimento?
O sábio aponta o lago e diz:
- Não vês? O lago está ali, e lhe fornece
água; o sol que está ali, refletindo no lago,
lhe concede luz. Por que eu não lhe brindaria alimento?
Não
Tenho Nada
Um
jovem monge aproximou-se de Chao-chou muito orgulhoso e
eufórico, e disse:
- Me desfiz de tudo o que tinha! Minhas mãos estão
vazias e vim à vós com o coração
sereno!
- Então resta apenas desfazeres-te disso, e chegarás
ao Zen.- Afirmou o mestre.
- Mas, - replicou o monge - não tenho mais nada.
Do que mais posso me desfazer?
- Tudo bem, - comentou o sábio, - se tu queres manter
o Nada que ainda carregas, fique com ele...
Onde
Vais?
Em
dois mosteiros vizinhos viviam dois jovens monges muito
amigos. De manhã, sempre os monges se encontravam,
cada um cuidando de seus afazeres. Certo dia, um dos monges
estava varrendo o pátio de seu templo e, vendo aproximar-se
o amigo, perguntou:
- Olá! Onde vais?
O
amigo respondeu, feliz:
- Vou aonde meus pés me levarem...
O
monge ficou intrigado com a resposta e comentou com seu
mestre. Este lhe disse:
- Da próxima vez, diga-lhe: "E se não
tivesse pés?"
Quando
o jovem noviço viu o amigo de novo na manhã
seguinte, fez a mesma pergunta já antecipando o momento
em que pegaria o amigo de jeito, desta vez:
- Onde vais?
Mas
o outro disse:
- Aonde o vento me levar!
O
monge ficou frustrado. Voltou ao mestre e contou a nova
resposta, e este, sorrindo, disse:
- Da próxima vez, diga-lhe: "E se o vento parasse
de soprar?"
O
jovem monge ficou encantado com a idéia:
- Sim, sim! Essa é boa! Agora ele não me escapa!
No
dia seguinte, ao amanhecer, ele viu seu amigo aproximando-se
de novo. Perguntou-lhe:
- Olá! Onde vais?
O
amigo parou, sorriu-lhe, e falou suavemente:
- Simplesmente vou ao mercado, meu amigo...- e seguiu seu
caminho.
O Silêncio Completo
Quatro
monges decidiram meditar em silêncio completo, sem
falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela
começou a falhar e então apagou.
O
primeiro monge disse:
- Oh, não! A vela apagou!
O
segundo comentou:
- Não tínhamos que ficar em silêncio
completo?
O
terceiro reclamou:
- Por que vocês dois quebraram o silêncio?
Finalmente
o quarto afirmou, todo orgulhoso:
- Aha! Eu sou o único que não falou!
O
Quebrador de Pedras
Era
uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito
consigo mesmo e com sua posição na vida. Um
dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante.
Através do portal aberto, ele viu muitos objetos
valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam
a mansão.
"Quão
poderoso é este mercador!" pensou o quebrador
de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que
ele pudesse ser como o comerciante.
Para
sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante,
usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado,
embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos
poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do
governo passou à sua frente na rua, carregado em
uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes
e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar
a plebe. Todos, não importam quão ricos, tinham
que se curvar à sua passagem.
"Quão
poderoso é este oficial!" ele pensou. "Gostaria
de poder ser um alto oficial!"
Então
ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de
seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas
pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente,
e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada
liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso
no céu, indiferente pela sua reles presença
abaixo.
"Quão
poderoso é o Sol!" ele pensou. "Gostaria
de ser o Sol!"
Então
ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando
seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os
campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores.
Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e
a terra, e seu calor não mais pôde alcançar
o chão e tudo sobre ele.
"Quão
poderosa é a nuvem de tempestade!" ele pensou
"Gostaria de ser uma nuvem!"
Então
ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas,
causando temor a todos. Mas repentinamente ele percebeu
que estava sendo empurrado para longe com uma força
descomunal, e soube que era o vento que fazia isso.
"Quão
poderoso é o Vento!" ele pensou. "Gostaria
de ser o vento!"
Então
ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas
dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido
e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado
momento ele encontrou algo que ele não foi capaz
de mover nem um milímetro, não importasse
o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe
rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta
rocha.
"Quão poderosa é a rocha!" Ele pensou.
"Gostaria de ser uma rocha!"
Então
ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra
coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto
ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele
ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma
dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado.
"O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!?"
pensou surpreso.
Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador
de pedras.
Para
que Servem as Palavras?
Um
monge aproximou-se de seu mestre, que se encontrava em meditação
no pátio do templo à luz da lua, com uma grande
dúvida:
- Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório;
e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através
do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações
são feitos de palavras; que o ensinamento é
transmitido pela voz. Se o Dharma está além
dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?
O
velho sábio respondeu:
- As palavras são como um dedo apontando para a Lua;
cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe
com o dedo que a aponta.
O
monge replicou:
- Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que
algum dedo alheio a indique?
- Poderia - confirmou o mestre - e assim tu o farás,
pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras
são como bolhas de sabão: frágeis e
inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado
com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista.
O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras
não podem revelar o que já está revelado
desde o Primeiro Princípio.
- Então - o monge perguntou - por que os homens precisam
que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?
- Porque - completou o sábio - da mesma forma que
ver a Lua todas as noites fazem com que os homens se esqueçam
dela pelo simples costume de aceitar sua existência
como fato consumado, assim também os homens não
confiam na Verdade já revelada pelo simples fato
dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção.
Desta forma, as palavras são um subterfúgio,
um adorno para embelezar e atrair nossa atenção.
E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que
é necessário.
O
mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então,
de súbito, simplesmente apontou para a lua.
Isso
Passará
Um
praticante foi até o seu professor de meditação,
tristemente, e disse:
- Minha prática de meditação é
horrível! Ou eu fico distraído, ou minhas
pernas doem muito, ou eu constantemente fico com sono. É
simplesmente horrível!!!
-
Isso passará - o professor disse suavemente.
Uma
semana depois, o estudante retornou ao seu professor, eufórico:
- Minha prática de meditação é
maravilhosa! Eu sinto-me tão consciente, tão
pacífico, tão relaxado, tão vivo! É
simplesmente maravilhoso!!!
O mestre disse tranqüilamente:
- Isso também passará.
Pontos
de Vista
Existia
um mosteiro Zen, conduzido por dois irmãos. O mais
velho era muito sábio, e o mais novo, ao contrário,
era tolo e tinha apenas um olho. Para um forasteiro conseguir
hospedagem por uma noite nesse mosteiro, tinha de vencer
um dos monges, em um debate sobre o Zen.
Uma
noite, um forasteiro foi pedir asilo. Como o velho monge
estava cansado, mandou o mais novo confrontar-se com ele,
com a recomendação de que o debate fosse em
silêncio. essa forma, o monge tolo não cometeria
enganos.
Algum tempo depois, o viajante entrou na sala do sábio
monge e disse: "Que homem sábio é o seu
irmão! Conseguiu vencer-me no debate e, por isso,
devo ir-me".
O
velho monge, intrigado, perguntou: "O que aconteceu?"
E escutou a resposta: "Primeiramente, ergui um dedo
simbolizando Buda, e seu irmão levantou dois simbolizando
Buda e seus ensinamentos. Então, ergui três
dedos para representar Buda, seus ensinamentos e seus discípulos,
e meu inteligente interlocutor sacudiu o punho cerrado,
à minha frente, para indicar que todos os três
vêm de uma única realização".
Pouco depois, entra o monge tolo, muito aborrecido, e é
saudado pelo irmão, que lhe perguntou o motivo de
sua chateação. E o caolho respondeu: "Esse
viajante é muito rude. No momento em que me viu,
levantou um dedo, insultando-me, indicando que tenho apenas
um olho. Mas, como ele era visitante, eu não quis
responder à ofensa e ergui dois dedos, parabenizando-o
por ele ter dois olhos. E o miserável levantou três
dedos, para mostrar que nós dois juntos tínhamos
três olhos. Então fiquei furioso e ameacei
dar-lhe um soco, com o punho cerrado. E, assim, ele foi
embora".
O Samurai Idoso
Perto
de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso,
que adorava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar
de sua idade, corria a lenda que ele ainda era capaz de
derrotar qualquer adversário.
Certa
tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos
apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica
da provocação: esperava que seu adversário
fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência
privilegiada para reparar os erros cometidos contra-atacava
com velocidade fulminante.
O
jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta.
E, conhecendo a reputação do velho samurai,
estava ali para derrotá-lo, aumentando sua fama de
vencedor.
Todos
os estudantes manifestaram-se contra a idéia, mas
o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça
da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre.
Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu
em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos - ofendeu
inclusive seus ancestrais.
Durante
horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho mestre
permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se
já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados
pelo fato do mestre ter aceito tantos insultos e provocações,
os alunos perguntaram: Como o senhor pode suportar tanta
indignidade ? Por que não usou sua espada, mesmo
sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se
covarde diante de todos nós?
-
Se alguém chega até você com um presente,
e você não o aceita, a quem pertence o presente?
- perguntou o velho samurai.
- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse
o mestre - Quando não são aceitos, continuam
pertencendo a quem os carrega consigo.
O
Som do Silêncio
Certa
vez, um budista foi às montanhas procurar um grande
mestre, que segundo acreditava poderia lhe dizer a palavra
definitiva sobre o sentido da Sabedoria. Após muitos
dias de dura caminhada o encontrou em um belo templo à
beira de um lindo vale.
-
Mestre, vim até aqui para lhe pedir uma palavra sobre
o sentido do Dharma. Por favor, faça-me atravessar
os Portões do Zen.
- Diga-me,- replicou o sábio,- vindo para cá
vós passastes pelo vale?
- Sim.
- Por acaso ouvistes o seu som?
Um
tanto incerto, o homem disse:
- Bem, ouvi o som do vento como um suave canto penetrando
todo o vale.
O
sábio respondeu:
- O local onde vós ouvistes o som do vale é
onde começa o caminho que leva aos Portões
do Zen. E este som é toda palavra que vós
precisais ouvir sobre a Verdade.
Recitando
os Sutras
Um
fazendeiro pediu a um sacerdote que recitasse sutras para
a sua esposa, que estava muito doente. Terminada a recitação,
o fazendeiro perguntou:
- Você acha que a minha esposa obterá mérito
disto?
- Não só a sua esposa, mas todos os seres
sencientes se beneficiarão com a recitação
de mantras - respondeu o sacerdote.
- Se você diz que todos os seres sencientes se beneficiarão
- disse o fazendeiro - minha esposa poderá ficar
muito fraca e outros tirarão vantagem dela, obtendo
o benefício que deveria ser dela. Assim, por favor,
recite os sutras apenas para ela.
O
sacerdote explicou que era o desejo de um budista oferecer
bênçãos e desejar mérito para
cada ser vivo.
- Este é um belo ensinamento - concluiu o fazendeiro
- mas, por favor, faça uma exceção.
Eu tenho um vizinho que é grosso e mesquinho para
comigo. Apenas exclua-o de todos aqueles seres sencientes.
Trabalhando Duro
Um
estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente:
- Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir
a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para
eu obter este prêmio e dominar este conhecimento?
A
resposta do professor foi casual:
- Uns dez anos...
Impacientemente,
o estudante completou:
- Mas eu quero entender todos os segredos mais rápidos
do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia,
estudar e decorar todos os sutras farei isso dez ou mais
horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao
objetivo?
O
professor pensou um pouco e disse suavemente:
- Vinte anos.
Talvez
Há
um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou
em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao
saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na
manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele
três outros cavalos selvagens. "Que maravilhoso!"
os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte,
seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou
a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua
simpatia pela má fortuna.
"Que pena",disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo
dia, oficiais militares vieram à vila para convocar
todos os jovens ao serviço obrigatório no
exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o
filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o
dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela
forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."
Não
Conheço Títulos
Um
dia, o grande general Kitagaki foi visitar seu velho amigo,
o superior do templo Tofuku. Ao chegar, disse a um noviço
de forma algo desdenhosa como comumente se dirigia às
pessoas que considerava seus subordinados no exército:
"Diga ao Mestre que o grande general Kitagaki está
aqui."
O
noviço foi ao seu mestre e disse:
"Mestre, o Grande General Kitagaki está aqui."
O
mestre respondeu:
"Não conheço Grandes Generais."
O
noviço voltou à presença do militar
com o recado enquanto o velho sábio observava do
pórtico:
"Desculpe, o mestre não pode vê-lo. Ele
não conhece nenhum Grande General."
O
General inicialmente ficou surpreso, depois indignado, e
finalmente compreendeu. Humildemente disse ao noviço:
"Desculpe minha arrogância. Por favor, diga-lhe
que Kitagaki deseja vê-lo."
O
monge assim o fez. Logo, o mestre aproximou-se com um sorriso
e cumprimentou:
"Ah, Kitagaki! Há quanto tempo! Por favor, entre."
Transitoriedade
Certa
vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não
era igual às outras ondas e disse:
- Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e
mais poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível
e feia, sem força e inútil...
Outra
onda do oceano lhe escutou e disse:
- Tu sofres porque não percebes a transitoriedade
das formas, e não enxergas tua natureza original.
Anseias egoisticamente por aquilo que não és,
e mergulhas em autopiedade!
-
Mas, - replicou a pequena onda - se não sou realmente
uma pequena onda, o que sou?
- Ser onda é temporário e relativo. Não
és onda, és água!
-
Água? E o que é água?
- Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te
à compreensão. Contemples a transitoriedade
à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade
em ti mesma. Tua essência é água, e
quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer
com tua egóica insatisfação...
Uma xícara de chá
Nan-in,
um mestre japonês, recebeu um professor universitário
que o visitou para fazer perguntas sobre o zen. O professor
estava cheio de idéias, e fazia muitas perguntas.
Nan-in serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara
de seu visitante e depois continuou a servir mais chá
nela. O professor observou o derramamento de chá
até não poder mais se controlar.
-
Já está derramando! Não cabe mais nada!
- Falou o professor.
- Como esta xícara"- disse Nan-in. Você
está cheio de suas própria opiniões
e especulações.
Como posso lhe mostrar o zen a menos que você primeiro
esvazie sua xícara?
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