ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Yoshimitsu Yamada Shihan na Espanha
(Entrevista feita por Francisco Manchon - 3º Dan - e Michelle Feilen - 3º Dan da Associación
Cultural Feilen Aikido Central - Barcelona - Espanha)


Nota: Esta entrevista, conduzida pelos instrutores acima, durante o seminário anual de Barcelona,e foi originariamente publicada na edição da revista Budo International/Cinturón Negro, em maio de 2000.

Sensei, o que o levou a começar a praticar Aikido?

Meu tio, Tadashi Abe, era uchi-deshi do O-Sensei e, desde minha infância eu conhecia o Aikido. Eu mal podia esperar para começar a praticar. Quando o momento chegou, eu comecei a treinar e agora estou aqui. Devido aos laços familiares de meu tio com a família do O-Sensei, eu fui aceito como uchi-deshi. Minha situação foi atípica, piso meu primeiro dia como aluno foi também meu primeiro dia como uchi-deshi.

O senhor se recorda da primeira vez que viu o O-Sensei? O que o senhor poderia nos contar desse momento?
Foi numa demonstração particular para um determinado círculo de pessoas, em sua casa. Eu fui convidado graças ao relacionamento entre meu tio e a família do Fundador. Assim como todos os presentes, eu fiquei tão deslumbrado com a demonstração, que eu praticamente não conseguia pensar em outra coisa.

Qual foi o ensinamento mais importante que voce recebeu do O-Sensei?
Obviamente, depois da técnica, eu aprendi a ser uma pessoa boa, a ser generoso e gentil com os alunos.

O senhor acha que o Aikido de hoje é muito diferente do Aikido que o senhor praticava com o O-Sensei?
Definitivamente sim. Se o O-Sensei pudesse ver o Aikido de hoje, ele ficaria muito surpreso. Dentro do mundo do Aikido, existem muitos indivíduos de caráter diferente, e por isso, com muitos estilos diferentes. Isso é inevitável, devido a natureza criativa do Aikido. A coisa mais importante é definir-se por um estilo. O mundo todo é livre para seguir o que ele quiser, para escolher o que é bom para ele ou ela própria.

Existem muitas formas de Aikido. Ninguém deve dizer que certo estilo é o correto ou não. É como traduzir uma grande obra de arte. Cada um vai expressar as diferentes situações, baseadas em suas próprias interpretações. Existem muitos intérpretes do O-Sensei e, evidentemente, a única maneira de se conhecer o O-Sensei e sua obra, é através de seus intérpretes.

Quais personalidades do Aikido mais influenciaram seu desenvolvimento pessoal, tanto no nível técnico como no espiritual?
Bem, eu não gosto de copiar ninguém. Eu tento pegar partes de todos e integrar tudo dentro de meu corpo e digerir como uma boa refeição. Muitas pessoas pensam que meu estilo é muito ortodoxo, com movimentos circulares dinâmicos, seguindo o estilo de Kisshomaru Ueshiba. Isso é o que as pessoas pensam.


Como o senhor definiria sua técnica?

Dinâmica e elegante. Bem, pelo menos é o que eu acho!

O que o Aikikai Hombu Dojo representa em nosso tempo?
Basicamente, para nós, o Aikikai Hombu Dojo deveria ser um símbolo espiritual. Eu sinto muito ao dizer que esse tipo de relacionamento não existe entre o Aikikai Hombu Dojo e os aikidoístas. Hoje, é mais uma relação comercial (graduações, certificados, etc...). Eu percebo que o link espiritual está se perdendo. Mesmo assim, existem pessoas que sentem esse relacionamento, mas existem muitos que nem ligam para isso. No futuro, isso pode vir a representar um problema, especialmente quando as ligações unificadoras, ou intérpretes do O-Sensei não estiverem mais por aqui.

O que o senhor pensa sobre a proliferação das Federações e Associações pelo mundo, seguido diferentes Shihan? Em que essa situação poderia afetar a unidade e desenvolvimento do Aikido em um futuro próximo?
A situação ideal seria uma Federação que unifique tudo, mas isso é absolutamente impossível. È como os estilos de Aikido. É agora que percebemos claramente que isso é impossível, e deveria ser agora que deveríamos tomar decisões para enfrentar essa situação. Todos nós sabemos que nós não podemos unificar tudo, no entanto, algumas entidades ainda estão tentando, como por exemplo a IAF (International Aikido Federation). Todos deveriam ter o direito de ser membros da IAF.

Em sua organização, o Aikikai certifica todas as graduações fornecidas pelo senhor. Na Europa, existem Graduações Nacionais emitidas pelas Federações, Associações, e as do Aikikai. Qual é sua opinião quanto a essa separação de graduações?
Eu entendo que cada país tem sua própria administração (Ministérios diferentes, etc...). Alguns países não tem outra opção, mas eu acho que no que diz respeito as graduações de Dan, elas deveriam vir da fonte original, por terem um significado espiritual. Para isso, o Aikikai deveria compreender essas diferentes realidades, ajustar-se, e ser flexível. Isso se dá porque cada país tem diferentes situações econômicas e administrativas. Pessoalmente, eu penso que, se o Aikikai Hombu Dojo não fizer nada a respeito desse problema, qualquer país ou o mesmo Shihan irá emitir os certificados. E isso irá acontecer se o Aikikai não oferecer uma solução.


Felizmente, suas visitas à Europa, em especial à Espanha, são cada vez mais freqüentes. Como está evoluindo o Aikido na Europa, em nosso país?

A Europa, como um continente, tem uma longa história no Aikido, mas ao mesmo tempo, muito confusa. Existem muitos Shihan e professores. Obviamente, existem muitos pensamentos, estilos e filosofias. Atualmente, há mais informação, viajar é mais fácil, e as pessoa tem mais oportunidade de ver os Shihan, permitindo a eles o acesso a linhas diferentes de Aikido de todo o mundo. As pessoas tem mais oportunidade de ver o que está acontecendo no Aikido. Por exemplo, em meu país (USA), os alunos de Aikido não vêm somente a mim e outros Shihan que vivem na América, eles também tem oportunidades de ver o Sensei Tamura (que vive na Europa) ou encontrar alunos que viajam da Europa para a América.

Eu sei que não conheço bem a situação na Espanha, mas cada vez que eu venho aqui, eu aprecio muito dar aulas. Eu sinto que as pessoas daqui estão muito interessadas em aprender o Aikido.

Depois do que vimos pelo mundo, seus seminários são caracterizados pela presença de pessoas de outros países. O que o senhor sente quando vê alunos que moram muito longe, viajar para vir aos seus seminários para aprender sob sua tutela?
Naturalmente, isso me faz muito feliz. Para mim, isso significa que eu faço um bom trabalho. Isso não é só bom para mim, é bom também para meu Dojo e meus alunos, que pessoas de todo o mundo não vem somente para meus seminários, mas também vão para o meu Dojo. Isso cria amizades.

Como o senhor vê a evolução técnica e espiritual das pessoa mais graduadas em seus seminários e pelo mundo? O senhor gostaria de dar a eles algum conselho?

Todos eles estão seguindo o caminho certo, mas eu acho que, às vezes, eles deveriam voltar a fonte e ser mais humildes.

Durante esses anos (trinta e seis anos), o New York Aikikai se tornou um local de peregrinação de um grande número de Aikidoístas do mundo inteiro, que vêm ao seu dojo para aprofundar seu treinamento no Aikido. Que tipo de espírito o senhor gostaria de passar para esse praticantes?
Como eu já disse anteriormente, , me dá muito prazer ver pessoas de tantos países diferentes vindo ao New York Aikikai. Eu não acho que eles vem só para me ver, mas também para encontrar meus alunos, dos quais eu tenho muito orgulho. Meu dojo tem uma atmosfera especial, não sei como descrever isso, ou como explicar como criei isso. Bem, meu slogan é fazer de meu dojo um lugar em que uma pessoa possa praticar sinceramente e, ao mesmo tempo se divertir. Dessa maneira, eles criam laços de amizade duradouros. É muito bom ser capaz de amar e ao mesmo tempo sentir-se ser amado. Talvez, essa seja a atmosfera da qual estamos falando.

Quais objetivos o senhor gostaria de alcançar no Aikido?
Objetivos...hummm. Espero que um dia eu possa projetar as pessoas sem tocá-las!!. (Risos)

Defina em uma palavra e três segundos as seguintes personalidades do mundo do Aikido:
Ueshiba: um cavalheiro
Sensei Tohei: carismático
Sensei Osawa: compreensivo
Sensei Tamura: um trabalhador árduo
Sensei Kanai: um samurai
Sensei Chiba: apaixonado
Sensei Yamada: flexível


(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro -Instituto Takemussu Sorocaba)



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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