ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Yoshimitsu Yamada
Parte um: Os anos como uchideshi no Hombu dojo

Esta é a primeira parte da entrevista dada por Yamada Sensei ao Aikido On-Line, ministrada durante o Summer Camp de 1998, promovido pela Regional Leste da USAF, na Universidade de New Hampshire. Aqui, com seus modos coloridos e sua franqueza característica, Yamada Sensei recorda o período inicial como uchideshi no Hombu Dojo.

Sensei, a primeira que coisa gostaríamos de perguntar é sobre sua história no Aikidô. Sua história pessoal, por que você começou Aikidô e como as coisas aconteceram.

Eu comecei por causa de meu relacionamento com Tadashi Abe Sensei. Ele era uchideshi de Ô-Sensei quando comecei. Por ele eu soube sobre Ô-Sensei e o Aikidô. Pensava comigo: algum dia, quando tivesse um pouco mais de idade, iria praticar, iria estudar com Ô-Sensei. Assim, afortunadamente fui aceito como uchi-deshi, estudante-residente, por causa da ligação com Abe Sensei. Imaginava que isto seria uma bela mudança no meu modo de vida...uma chance para estabelecer meu caráter. Claro, como outros meninos jovens, você quer ser um herói, ser forte, sabe? Esta foi minha motivação para começar Aikidô.

Você podia dizer a nós mais sobre seu tio e seus colegas uchideshis? Como era a situação na época ?

Não me lembro de muitos detalhes, mas o pai de Abe Sensei respeitava Ô-Sensei e lhe dava suporte financeiro. O sr. Abe foi muito devotado a Ô-Sensei. Imagino que naquela época o Doshu era jovem. Abe Sensei e o Doshu tinham a mesma idade. Naturalmente, Koichi Tohei estava lá. Havia todo o tipo de gerações. Pessoas como Saito Sensei estavam ao redor, mas parece-me que ele era um pouco mais novo.

Pelo que sei, Abe Sensei foi o primeiro, antes até de Tohei, a ir para fora, para a França, para introduzir o Aikidô. Naquela época era muito difícil aos japoneses ir para fora. Nós estávamos ainda debaixo da ocupação americana e não era fácil viajar, mas usando os relacionamentos de seus pais, com certas pessoas VIP, ele pôde ir.

Imagino que para ele foram tempos difíceis, obviamente, porque ninguém sabia o que era Aikidô. Naqueles dias, como vários outros, ele teve que misturar um pouco de Judô para então mostrar o Aikidô. Seu princípio filosófico não era propagar o Judô, claro, mas ele provavelmente teve que usar judocas... como aconteceu comigo, tive que usar judocas e caratecas, no início, para fazer demonstrações. Não havia mais ninguém.

E...claro, Tohei e Abe Senseis, eles eram como irmãos, sabe? Eles treinavam como irmãos...como lutadores...não lutando exatamente, mas, sabe, eles tinham uma certa rivalidade.

Diga-nos algo que aconteceu entre eles...

Bem... sim... está bem, contarei a você. Você sabe que Tohei Sensei era muito forte, e sempre que podia, Abe Sensei o desafiava e sempre saía derrotado. Uma vez, quando eu estava no final do colégio, talvez um pouco antes, naquele tempo Tohei estava em Osaka, tomando a seus cuidados o dojo em Osaka, ou algo assim.. Isso foi um pouco antes de Abe Sensei ir para a Fran-ça, então Abe quis desafiar Tohei mais uma vez. Bem, Abe Sensei pensava que não havia nenhuma maneira de vencer Tohei usando o Aikidô, e também nenhuma maneira pelo Judô. Ele estava na universidade na época e juntou-se a um clube de luta greco-romana. Ele estudou um pouco das técnicas e disse para mim, "Agora posso conseguir." Então me levou para servir como testemunha.

Eu estava sentando no Osaka dojo, e lá estava Tohei Sensei de dogui e hakama no meio do tatame. Abe Sensei estava com sua roupa de treino e circulando Tohei. Ele estava gracejando com Tohei sobre seu treinamento de luta-livre, e então de repente ele saltou e tentou agarra-lo com seus braços ao redor dele, como um lutador greco-romano, sabe, arranhando, agarrando, mas nada funcionou ! (risos) Ele não conseguira mesmo. Depois disto, no trem, de volta para casa, eu disse para meu tio, "eu pensei que você era o homem mais forte no mundo".
Ele ficou fulo da vida (risos). Pouco depois ele foi para a França.

Quanto tempo ele ficou na França?

Não sei exatamente, mas um por tempo bastante longo. Mais ou menos uns 10 anos. Ele voltou quan-do eu ainda era uchideshi. Estava tão contente ao voltar e ver-me como uchideshi.

Antes de se tornar um uchideshi você considerava fazer outra carreira, ou sempre pensou em fazer Aikidô.

Não, eu nunca pensei sobre isto, eu nunca pensei sobre Aikidô como uma carreira para me sustentar. Ninguém pensava, nem Kanai Sensei, nenhum de nós pensava em fazer do Aikidô um meio de vida. Nós éramos suficientemente felizes simplesmente praticando.

Com qual idade você começou?

17 ou 18 anos, não estou certo. Provavelmente 18.

Você pode falar-nos um pouco sobre o Hombu dojo quan-do você começou?

Bem, o dojo então estava num edifício mais velho do que você vê hoje. Era agradável, tipicamente de madeira, um bom dojo, com só um piso. Era um dojo autêntico, era agradável. Era conectado à casa da família Ueshiba, e todos nós dormíamos no tatami, então obviamente todo dia você tinha que levantar cedo, porque dormíamos onde as pessoas tinham aulas. Na parte da família Ueshiba nós tínhamos um quarto minúsculo para que nós puséssemos nossos pertences; então era uma bagunça só.

Quando comecei, Arikawa Sensei e Tamura Sensei estavam lá. Também o Sr. Noro estava lá; agora ele tem seu próprio sistema. Éramos então eu mesmo, e também Chiba , Kanai e Sugano. Claro, existiam mais pessoas de dentro e de fora, mas era basicamente este grupo. Já Tada Sensei e Yamaguchi Sensei tinham uma classe regular para ensinar e acho que Tamura também. Algum senseis tinham uma ou duas classes. Naquela época Koichi Tohei era o instrutor principal e, depois que juntei-me, ele foi ao Havaí, ou juntei-me quando ele já estava no Havaí, não lembro exatamente. De qualquer maneira, era a época em que existia uma ligação com o Havaí.

Qual era o horário do Hombu Dojo naquela época ?

Isto eu me lembro claramente. As classes matutinas eram de 6:30-7:30, depois das 8 às 9, depois não haviam aulas até a tarde; depois das 3 até 4, 4 a 5 e por fim, 6:30-7:30 da noite. No período entre as classes regulares, haviam as aulas particulares para algumas pessoas que podiam pagar, aulas com alguém como o instrutor principal Koichi Tohei. Todos nós tínhamos que estar disponíveis para ser ukê para estas aulas, porque as pessoas ricas pagavam um bom dinheiro para as lições particulares. Naturalmente, todo o dinheiro ia para o sustento da sede.

Fale-nos sobre os estudantes em geral, não o uchideshi. Como eram as lições privadas. Quantos estudantes existiam naquele tempo? Que tipo de pessoas eram os praticantes?

Bem... mesmo no Japão, naquela época o Aikidô não era bem conhecido. Poucas pessoas conheciam. Não se anunciava, não existiam quaisquer demonstrações públicas. Agora nós temos o "All Japan Aikido Demonstration" todo ano. Ainda me lembro da primeira demonstração porque Ô-Sensei não havia dado permissão para o fazer.

Quem organizou ?

Depois de o Doshu assumir o comando, claro, vieram muitas pessoas. Sabe, tinha que haver uma mudança. Não estávamos mais nos velhos tempos. Eu acho que o Doshu convenceu Ô-Sensei que deveríamos mostrar ao público, mas ele não queria. Nos velhos tempos todos os artistas marciais não queriam mostrar suas técnicas aos outros... a maneira como empunhavam a espada, qualquer coisa... eles não queriam mostrar nada a ninguém. Eles ensinavam, mas somente a certos estudantes, eles não queriam que seus inimigos vissem. É por isso que, nos velhos tempos, se você selecionasse uma certa pessoa para estudar, você tinha que dar uma introdução primeiro. Mas isto mudou, justamente como aconteceu com nosso dojo, que era aberto para o público. Qualquer um podia juntar-se. Mas até então não se faziam demonstrações públicas. O Dojo não era tão organizado, não havia um escritório, nenhuma sala de inscrição. As pessoas que juntaram-se vieram e abriram as portas da casa da família Ueshiba. Sempre que nós ouvimos alguém entrar durante a aula, um de nós saltávamos do tatami e veríamos quem era e os saudávamos: "Posso ajudar você?" Existia só uma mesa minúscula onde se assinava a inscrição. Naquele tempo não se era tão organizado.

Ô-Sensei acabou se ajustando para a novidade de abrir para o público?

Eu acho...Penso que ele não teve escolha... tinha-se que viver...

Como era o treinamento com Ô-Sensei?

Ô-Sensei não ensinava em um horário regular. O Doshu ensinava para a classe matutina das 6:30. Sempre que Ô-Sensei estava por perto, sempre que ele sentia isto, ele interrompia a aula. Ele só entrava e dizia "Não se incomodem, não se incomodem, continuem praticando". Mas ele queria era fazer um discurso. Ele era esperto, sabe ? Ele simplesmente andava, enquanto nós praticávamos. Mas toda vez que quisesse ir ao banheiro teria que cruzar a entrada para o dojo. Ele apenas andava de um lado para outro, esperando que alguém o convidasse, entende? Ser ignorado ele não podia aguentar.. Ele iria entrar e dizer, "Bom dia para todos" e então dizia "Continuem, continuem ..."(Risos)...então nós responderíamos e continuaríamos... sabe... era engraçado.

A classe das 8 horas era ensinada por Tohei Sensei quando ele estava por lá; eram Tohei Sensei e Osawa Sensei, basicamente. Naquele tempo Tohei Sensei estava viajando para o Havaí, sabe. Ele foi por talvez um ano, então voltou.

Para a aula das 6:30 da manhã nós tínhamos que nos apressar. Tínhamos que limpar o dojo por dentro e por fora. Nós tínhamos meia-hora. Levantávamos às 6 e atirávamos o pó para bem longe, pois afinal era nosso dojo. Nos responsabilizávamos pelo lado de fora e pelo de dentro. Tínhamos que terminar antes de os estudantes chegarem. Na classe das 6:30 ainda tínhamos que ajudá-los, pois era uma turma de principiantes. Mas a classe das 8 horas era realmente treino para nós. Muitas crianças da escola vinham naquele horário, assim era bom para nós. A classe das 3 horas era ensinada por Tada Sensei que era muito popular entre os jovens meninos e era um bom treino para nós também.

Usualmente ficávamos fora com ou o Doshu ou Tohei durante as aulas noturnas porque eles tinham que sair para obter renda para o dojo. Assim tenho poucas lembranças sobre as classes noturnas. Além do mais, quando tinha tempo livre eu praticava gazeta: cabulava as aulas. Somente de vez em quando eu ia. Eu era um gênio quanto a gazetear...

Poderia nos mostrar algumas destas técnicas ? (risos)

Simples: só desapareça (mais risos).

Este é o segredo, apenas desaparecer?

Sim... naturalmente, quando comecei, não havia ninguém abaixo de mim. Haviam apenas Arikawa Sensei, Tamura Sensei e eu mes-mo, e Noro de vez em quan-do, mas eu era o mais jovem, assim eu tinha que fazer tudo.

O trabalho mais duro, mas para mim o mais fácil, era limpar a sala de banho e o banheiro; existiam dois banheiros, no estilo japonês. Como levava muito tempo para limpar, era uma boa desculpa para chegar atrasado para a aula (risos). Então me ofereci para o serviço. Com isto, você podia tirar um cochilo extra. Eu ficava no banheiro, ninguém me aborrecia, e era uma boa desculpa para chegar 10 ou 15 minutos atrasado.

Quando vemos os instrutores mais velhos, Osawa Sensei, Tada Sensei, Arikawa Sensei, cada um têm a sua individualidade. Como eles eram então? Como era naquele tempo ? Onde eles não mudaram ?

Tada Sensei nunca mudou. Vejo suas demonstrações em vídeos. Ele nunca mudou. Acho que se alguém mudou muito, é Arikawa Sensei, de ruim até bom. Ele era selvagem, mau...

Era assustador?

Sim. Era assustador ser seu ukê; ele costumava arranhar.

Parece que houve sempre uma relação especial com Osawa Sensei?

Sim. Eu era seu ukê favorito. Ele sempre gostou de mim, Acredite ou não, eu era um bom ukê. Era muito flexível e muito magro. Ele tinha um movimento condutor muito amplo, difícil de seguir. Sua técnica precisava de um bom ukê. Assim ele aparecia bem. Claro, todo mundo precisa de um bom ukê para parecer melhor. Exceto Arikawa Sensei, que não precisa de um bom ukê. Não importava...você não tinha nenhuma escolha (risos)!

Como era com Tohei Sensei?


Ser ukê em sua técnica... era um pouco difícil para algumas pessoas. Habituei-me em ser ukê em suas lições particulares porque eu falava inglês. Bem, não muito bom, mas naquela época ele tinha dificuldades em se comunicar por causa de seu inglês estropiado. Mas muitos americanos vinham receber lições particulares com ele, então eu tinha que ser seu ukê.

O que aconteceu com Tohei Sensei?

Bem, eu direi a você... Infelizmente, o que aconteceu, acon-teceu, mas ele era uma pessoa incrível. Personalidade forte, bom ukê, varonil, sabe... grande coração. Completamente oposto à personalidade do Doshu. O Doshu é mais como uma nota musical suave, baixa. Com Tohei Sensei você podia falar sobre tudo. Ele adorava beber. Para mim, era como um ídolo. Eu o respeitava como ele era. Sabe, quando você é jovem, você é impressionável. O sujeito foi ao Havaí e voltou com uma camisa havaiana nova agradável, cheirando a uma boa água-de-colônia e bebia uísque do mesmo modo como bebia água. Era como, "Deus", sabe? Sempre cercadas por mulheres, sabe? Nós éramos jovens, não tínhamos dinheiro, então ele realmente nos impressionava.

Como aconteceu de você começar a ensinar?

É porque eu falava um pouco de inglês. Isso é o porque eu acabei ensinando. Naquela época existiam muitas bases militares americanas ao redor Tóquio. Esta é outra razão pela qual eu não podia assistir as aulas noturnas. Eu era responsável pelo ensino de duas bases. Tinha que deixar o dojo às 4 ou 5 horas para ir para lá. Ficavam a uma hora de trem. Naquela hora todos os praticantes terminavam seu trabalho diário.

Foi uma boa época. Eu ia ao clube dos oficiais depois da aula, bebia um bom scotch. Que, claro, era impossível de se obter no Japão naquele tempo. Scotch? Esqueça isto! Mas lá você podia beber scotch como água. Eu tinha turmas na Universidade também, então todas os rapazes da Universidade quiseram vir me ajudar! Então, eu não sei como aconteceu, mas eu e Kanai fizemos uma equi-pe. Nós íamos juntos para Yokohama todo fim de semana.

Yokohama? Onde era o dojo americano ?

Sim. Estava em uma base militar.

Como os militares americanos souberam sobre Aikidô ?

Bem, eu não sei exata-mente, mas novamente, existiam informações de ligações de Tohei Sensei no Havaí. Foi naquele tempo que as pessoas começaram a saber mais sobre Aikidô, os americanos estavam lá, e alguns militares vieram para Hombu dojo. Naquele tempo, era uma bela renda para Hombu dojo. Quando eu saía e ensinava, cobrava pelas lições, juntava o dinheiro e voltava para a sede. Era uma grande quantia. Naquele tempo, o dólar era forte por causa do estado da economia japonesa. O iene não valia nada. Acho que quando juntei-me ao dojo, a mensalidade era de mais ou menos 500 ienes. 500 ienes naquele tempo era um valor satisfatório. Eu me lembro que uma tigela de lamen custava mais ou menos 25 ienes. Quando dei o preço ao GI, cobrei 2.500 ienes por pessoa para uma classe! Então, 10 ou 15 pessoas em uma classe era uma grande soma. Quase a renda média de um mês que meus colegas obtinham, eu conseguia em uma noite. Era bom para o dojo.

Você conseguiu bons amigos entre os uchideshi naquela época?

Sim. Eu não tive nenhum problema. Entendia-me com todo mundo. Nós éramos todos pobres. Nós não tínhamos muita chance de dar uma saída. De vez em quando, alguém nos convidava, algum aluno convidava a nós uchideshi para sairmos juntos. Mas principalmente, todos ficavam fora ensinando, então não tínhamos muito tempo para nos reunir. Não havia meios de nos reunirmos para comer e beber como existe hoje. Não havia maneira de fazermos por nós mesmos. Quando nós saíamos juntos, era porque alguém nos convidava e nos patrocinava.

Eu era muito amigo de Noro. Nós saímos muito juntos. Mais tarde, Kanai Sensei e eu fomos nos aproximando quando estávamos ensinando na base militar. Como disse, fazíamos uma boa equipe.

[Continua]

extraído do site http://aikidoonline.com/archive/f_yy2_998.html tradução de Bala &Satie



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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