ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Mestre Masaki Tani
Diretor Assistente do Departamento Internacional
do Aikikai do Hombu Dojo

que ensinou no Brasil

Aikido Journal: Sensei Tani, devido ao senhor estar tão envolvido na política Internacional do Aikikai Hombu Dojo, eu gostaria de começar com algumas perguntas que conseguimos obter de praticantes de Aikido de outros países.
A primeira pergunta é: Existe somente uma organização de Aikido por país, oficialmente reconhecida pelo Aikikai?

Sensei Tani: O Hombu Dojo tem uma série de "Regulamentos Internacionais" que foram estabelecidos para ajudar-nos a tratar com assuntos e problemas relativos ao Aikido fora do Japão. São regulamentos que nós usamos para tomar decisões sobre os vários casos que nos são apresentados. Organizações que receberam o "Hombu konin" (Reconhecimento Oficial do Hombu Dojo), baseadas nesses regulamentos, sã consideradas como "organizações oficialmente reconhecidas". Agora, para responder sua pergunta, a versão atual dos Regulamentos Internacionais, estipula que "deve haver uma organização reconhecida oficialmente por país".

"Reconhecimento Oficial" significa que a organização em questão é oficialmente reconhecida pelo Hombu Dojo como praticante do autêntico, legítimo Aikido praticado pelo Fundador Morihei Ueshiba e continuado pelo Segundo Doshu Kisshomaru Ueshiba e o atual Doshu Moriteru Ueshiba. Isso também quer dizer que, já que a organização está mantendo esse critério, ela tem a autoridade de examinar seus membros para kyu e dans, e emitir esses graus de dan para o Hombu para registro. Organizações sem reconhecimento oficial não tem autoridade para conduzir exames para kyu, e por isso, tais exames são conduzidos por pessoas enviadas pelo Hombu Dojo. Nesse sentido, mesmo organizações sem o reconhecimento oficial pode ter relacionamento sólido com o Hombu Dojo, por isso, seria um erro se interpretar essa estrutura dizendo que o Hombu Dojo não reconhece a prática do Aikido em tal país por qualquer outra organização que não seja "oficialmente reconhecida". Como se pode ver, não é o caso.

Eu também gostaria de dizer que as Regras Internacionais foram formuladas há vinte anos atrás e, em alguns aspectos, não condizem com a situação do Aikido no mundo atual. Estamos trabalhando em várias revisões, uma das quais chega no ponto do reconhecimento da existência de várias organizações no mesmo país, desde que essas organizações mantenham certos critérios. (Os Regulamentos Internacionais já haviam sido revisados para trazer essa idéia oficialmente).


AJ: Próxima pergunta: Devido a liderança do Aikido Ter sido agora passada às mãos do Doshu atual, o Sensei Moriteru Ueshiba, está acontecendo alguma mudança na política?

Sensei Tani: Em termos de disseminação do Aikido, tanto as idéias do Doshu como as do Hombu permanecerão essencialmente as mesmas. É claro que, com a popularização crescente do Aikido pelo mundo, existem mais convites para visitas do Doshu e outros instrutores do Hombu. O Hombu agora tem relações com muito mais pessoas do que anteriormente. Com isso em mente, sentimos a necessidade de reforçar e expandir o próprio Hombu de várias maneiras, incluindo progressos em sua liderança, ensinamentos e outras atividades.


AJ: O título Shihan (Mestre Professor) é usado para se referir a certa porção dos professores, mas como esse título é usado e aplicado no Hombu Dojo? Existem Shihan não Japoneses?

Sensei Tani: De acordo com as regras internas do Hombu Dojo, o termo "shihan" é aplicado a professores dentro do Departamento de Instrutores do Hombu que atingiram o sexto dan. Professores até quinto dan e quinto dan, tem o título de Shidoin (instrutor). Quanto a situação fora do Hombu Dojo, shihan é um dos graus de instrutores nas Regras Internacionais. Organizações Oficialmente Reconhecidas podem criar suas próprias secções de ensino (shidobu), comitês examinadores, e assim por diante, e três rankings possíveis são shihan, shidoin e fukushidoin (instrutor assistente). Organizações Oficialmente Reconhecidas tem a autoridade de apontar seus próprios shidoin ou fukushidoin, com acharem melhor. Já o ranking de shihan, por outro lado, é um título que o Hombu autoriza para o uso de uma parte dos instrutores que possuem o sexto dan ou maiores, nessas organizações.

Na verdade, entretanto, não existem professores não Japoneses ou não Japoneses autorizados sob os Regulamentos Internacionais a usar o título de shihan. Nenhum. Existem, na verdade, certos professores que viajaram para outros países, a pedido do Fundador ou do Segundo Doshu Kisshomaru, para ensinar Aikido em vários locais pelo mundo, e o Hombu os reconhece como "Shihan Despachados Pelo Hombu" (Hombu hakken shihan).

Entendo porque algumas pessoas acham estranho que não existam professores no estrangeiro que usem o título de shihan. Alguns até pensam que o professor deve ser Japonês para ser qualificado como shihan, mas a verdade não é essa. Nós achamos que no passar dos anos, vamos precisar dar certificados de shihan de acordo com os Regulamentos Internacionais.

Eu já falei sobre esse assunto em detalhes na Aikido Today Magazine há alguns anos atrás, e acho que as pessoas que lerem o artigo vão entender melhor a situação.


TANI EM AÇÃO NO BRASIL

AJ: Quais são suas idéias quanto aos rankings de dans?

Sensei Tani: Primeiro deixe-me mencionar os dois tipos de rankings de dan que são emitidos fora do Japão e outros emitidos pelo Hombu. Em primeiro lugar, existem dans emitidos pelo governo, dados por governos locais para reconhecer a importância do Aikido em seus países. Também existem rankings de dans que são dados por professores locais, não ligados ao Aikikai. O Hombu não tem controle sobre qualquer desses. No que diz respeito aos primeiros, governos nacionais são livres para conferir rankings de dans de acordo com sua própria política interna, se é isso que pretendem fazer. Mesmo assim, gostaríamos, a fim de manter um certo nível de qualidade, que os governos que quiserem graduar os rankings de dans, a fazê-lo de modo a que pelo menos seja consistente com o nosso próprio critério do Hombu para conferir rankings de dans, e que ao mesmo tempo fossem registrados no Aikikai.

Essencialmente, o Hombu não reconhece os rankings de dans que não são registrados junto ao Hombu (quer dizer, rankings que não estejam carimbados com o selo do Doshu). Por outro lado, recentemente existe um número de indivíduos que têm o ranking de dan, autorizados pelo governo Francês, que expressaram interesse em também receber rankings equivalentes do Hombu. Como o nível de Aikido na França é alto, o Hombu concordou em emitir rankings equivalentes para tais indivíduos, desde que preenchidos certos requisitos. Isso não quer dizer que, incondicionalmente, iremos converter qualquer ranking emitido fora do Japão para um ranking do Hombu equivalente. No caso dos rankings de dan Franceses, é o shihan despachado pelo Hombu Dojo que mencionei na entrevista, que conduzirá os exames para determinar a competência.

Ocasionalmente, praticantes de Aikido não Japoneses me perguntam porque os rankings de dans devem ser emitidos do Japão. Uma de minhas respostas é que é apropriado ser dessa maneira porque o Aikido é um pedaço da cultura Japonesa. Não como qualquer outro esporte de técnicas de combate. Observe o diploma de Aikido, por exemplo, os certificados escritos à mão, o tipo do papel usado para esses certificados, o processo tradicional para a fabricação desse papel, tudo é parte da cultura Japonesa. Nós gostaríamos de continuar o Aikido na forma em que ele se encontra agora, como algo que nasceu no Japão e que permanece fortemente conectado com suas origens culturais.

O próprio Doshu sempre menciona que, enquanto existem alguns aspectos do Aikido que podem ser mudados, também existem aqueles que não deveriam ser tocados. Por analogia, poderia se dizer, por exemplo, que mesmo se todos os países no mundo de repente se juntassem como uma união federada, eles ainda assim lutariam para manter seus aspectos regionais e identidades distintamente, talvez até mais fortemente do que o fazem hoje. Mesmo se toda a humanidade se tornar boa - que é um dos ideais do Aikido, como voce já sabe --- provavelmente não seria baseada numa união comum, mas sim como um tipo de coexistência harmoniosa, com raízes na apreciação mútua, aceitação e reconhecimento das diferenças. Expliquei dessa forma para algumas pessoas na Europa há um tempo atrás, e eles pareceram entender e aceitar esse ponto de vista.

De qualquer maneira, correndo o risco de ser repetitivo ou de ser insistente, afirmo aqui que o Hombu trata do Aikido como um artefato cultural do Japão e pretende preservá-lo assim indefinidamente. Olhando de um contexto mais amplo, poderia se dizer que, neste sentido, que o Aikido é parte de uma herança mundial ainda maior.


AJ: Sendo o Aikido um artefato cultural, receber os rankings de dan do Hombu provavelmente é uma dos atrativos do sistema iemoto *.

Tani: Existem aspectos do sistema iemoto que mesmo os Japoneses não entendem e criticam. Por outro lado, também é verdadeiro que o sistema iemoto tem obtido muito sucesso certificando que a continuidade de certas partes da cultura Japonesa que em alguns aspectos poderiam ter desaparecido. Que o Aikido tem sido mantido em uma peça única da cultura, sugere que ele tenha se beneficiado do sistema iemoto dessa forma. Esse "poder preservador" vem, é claro, dos tremendos esforços no que diz respeito a tradição tipicamente esboçada pelo líder da família. Em certa forma, todo filho nascido de um Doshu é na maioria da vezes obrigado a desistir da maioria dos seus sonhos e buscas pessoais para concentrar-se nos seus trabalhos para com a tradição. Isso requer muito sacrifício, mas, como eu disse, o sistema iemoto ajudou a muitos aspectos da identidade cultural do Japão serem mantidos e preservados até a época atual, e nesse sentido, acho que é um sistema que vale a pena ser mantido. Particularmente, em nossa civilização que progride mecanicamente, com a tecnologia avançando mais rápido a cada dia, é bom se manter instituições culturais como o sistema iemoto, que nos ajuda a continuar a viver como seres humanos.
* sistema iemoto - a família controla uma escola em particular ou tradição - por várias gerações contínuas.


ORGANIZAÇÃO & ESTRUTURA DO AIKIKAI HOMBU DOJO

AJ: Para continuar, eu gostaria de perguntar ao senhor uma coisa que eu nunca perguntei antes a nenhum professor de Aikido, que para explicar a organização e estrutura do Hombu Dojo.


Sensei Tani com Hiroshi Somemiya do Departamento Internacional
Tani:
O Hombu em si, tem trinta e nove pessoas empregadas. No topo da estrutura está o Doshu (que também serve como, diretor da Fundação Aikikai), e debaixo dele estão três departamentos incluindo o de Departamento de Assuntos Gerais, o Departamento de Instrutores e o Departamento Internacional. O Departamento de Assuntos Gerais é chefiado por Masatake Fujita e inclui onze empregados (alguns dos quais podem ser os mesmos do escritório do outro lado da janela do primeiro andar, quando se entra ou sai do prédio do Hombu Dojo). O Departamento de Instrutores é chefiado pelo Sensei Seijuro Masuda. O Departamento Internacional é encabeçado pelo Sr. Hideo Yonemochi (oitavo dan) - que também trabalha como Diretor do Aikikai - e também tem três Diretores Assistentes, incluindo a Sra. Teru Ikeda (quinto dan), o secretário da IAF - International Aikido Federation, Sr. Hiroshi Somemiya (sétimo dan) e eu. Como voce pode ver, o Departamento Internacional também compreende pessoas com alto nível de graduação, mas por não estarmos no Departamento de Instrutores, não somos chamados para ensinar Aikido.

O Departamento de Instrutores, que é formado de vinte e quatro professores, é o maior departamento. Dentro do Hombu também existem vários comitês formados de pessoas altamente graduadas, e também vários setores e pessoas responsáveis pelo contato com pessoas de fora e assim por diante. O próprio Hombu se tornou mais do que um dojo, é um tipo de entidade corporativa. Mesmo assim, o foco da maioria das atividades está no Departamento de Instrutores. Além de ensinar, muitos dos instrutores mais jovens também estão envolvidos na publicação do Jornal do Aikido (Aikido Shimbun), planejando e preparando para vários eventos, administrando o website do Aikikai e acompanhando o Doshu em suas viagens. Também existem vários pedidos para professores do Hombu ensinar em vários lugares pelo mundo todo, por isso alguns instrutores estão sempre fazendo isso também. Existem muitas coisas para se fazer no Hombu todos os anos, incluindo o Kagami Biraki (uma cerimônia do Ano Novo, geralmente no início de Janeiro), o "Grande Festival" (taisai) em Iwama, os cursos anuais do Aikido School, iniciando no outono e primavera, e o All-Japan Aikido Demonstration. O lugar sempre está muito agitado nos dias anteriores a esses eventos, e o Departamento Internacional tem suas mãos cheias fazendo tudo isso, e até o resto do ano também.


AJ: Devido a época verdadeiramente internacional em que vivemos hoje, eu penso que seria uma grande chance no momento e uma grande energia se houvessem alguns programas para Aikidoístas não japoneses treinarem lá por cinco ou dez anos, aprendendo a língua Japonesa também nesse processo, e em seguida serem enviados para ensinar Aikido pelo Hombu, tanto dentro como fora do Japão.

Tani: Sim, colocando de outra maneira, como seria se pudéssemos trazer talentos de outros países para dentro do Departamento de Instrutores do Hombu, independentemente de sua nacionalidade ou raça? Eu pessoalmente penso que é uma grande idéia, e acho que virá um tempo em que veremos isso acontecer. Uma das condições seria, é claro, como voce mencionou, aprender Japonês e desenvolver uma compreensão da cultura Japonesa. Pelo menos, nós do Departamento Internacional nos esforçamos muito para aprender e usar outras línguas; no momento conseguimos entender umas cinco diferentes entre nós!


DESPERTANTO PARA O AIKIDO COMO "UESHIBA BUDO"


AJ: Sensei, muito obrigado por responder as questões de nossos leitores internacionais. Agora eu gostaria de entrar na parte principal de nosso entrevista. Para começar, por favor, conte-nos como o senhor começou a praticar Aikido.

Tani: Na verdade, eu estava no colegial em minha escola, quando comecei no Aikido. Eu estava lendo uma revista de antes da guerra numa loja de livros usados, e uma das histórias tinha uma cena de Aikido. Envolvia soldados Russos e Japoneses - dentro dos quais um era um garoto Japonês - em ação na guerra. Numa cena, o garoto confronta o capitão do navio Russo, e quando os dois vão iniciar o combate, uma pessoa grita: "Mostre a eles o espírito do budo de Ueshiba!" . Assim que o capitão tenta atingí-lo com um soco, de repente o garoto já está atrás dele. Fiquei imaginando o que seria que aquele menino havia feito, e quando cheguei no ginásio, eu finalmente aprendi que aquela referência era ao Aikido! Depois disso o que eu mais queria era aprender Aikido!

Eu comecei a trabalhar na KDD [Kokusai Denhis Denwa Co. Ltd., uma prestadora de serviços da Telecom] em 1965. Nesse mesmo ano um clube de Aikido foi organizado lá pelo Sensei Ikuo Iimura, que vinha da Agência Japonesa de Defesa para ensinar no laboratório de pesquisas da KDD. Naturalmente, eu me juntei a eles na mesma hora. No quartel general da KDD onde eu trabalhava, tínhamos o Sensei Seijuro Masuda e Sensei Shizuo Imaizumi vindo dar aulas, duas vezes por semana. Com o passa do tempo, esses professores foram substituídos por outros, como o atual Doshu, Sensei Shiguenori Iwagaki (atualmente no Dojo Shimbukan na Prefeitura de Mie), e Sensei Shigueru Sugawara. Depois de uns dois anos, eu me tornei Shodan e comecei a ir também ao Hombu Dojo para treinar. Devido aos meus afazeres e responsabilidades diárias com funcionário de uma empresa, eu normalmente ia treinar às 6:30 da manhã. Me aposentei cedo da KDD e, há uns seis anos atrás me juntei ao quadro de funcionários do Hombu Dojo.


O AIKIDO NA AMÉRICA DO SUL

AJ: Ouvi dizer que o senhor já ensinou fora do Japão.

Tani: Sim, enquanto eu trabalhava na KDD, fui enviado para trabalhar no Brasil por quatro anos, para estudar na Argentina por um ano e em seguida para trabalhar por mais um ano no Paraguay. Passei um total de seis anos na América do Sul. No Brasil eu tinha meu próprio dojo onde eu ensinava. Em várias ocasiões, tive visitas ilustres em meu dojo, como o falecido Kisshomaru Ueshiba e Sensei Seigo Yamaguchi e o Sensei Ichiro Shibata, que hoje em dia está nos Estados Unidos. Eu tinha uns 100 alunos aproximadamente, com mais ou menos umas vinte pessoas por vez em meu dojo. Eu era quarto ou quinto dan nessa época. Isso foi há uns vinte anos atrás, por isso não sei dizer se as coisas ainda continuam as mesmas, mas naquela época o Aikido era bastante popular na América do Sul.

Um número enorme de alunos da América do Sul veio treinar no Hombu Dojo nesses anos. Em particular, sempre tem alguém da Argentina por aqui, frequentemente ficando por uns dois ou três anos, ou pelo menos por alguns meses. O Aikido na Argentina foi iniciado há uns trinta anos atrás por professores que incluem Sensei Katsutoshi Kurata e Sensei Kenzo Miyasawa. Me foi pedido para ajudar o Sensei Kurata por um ano, e após isso eu retornei ao Japão e quatro de seus alunos vieram comigo. Dois deles decidiram ficar por aqui. Outros professores como Sensei Yamaguchi e Sensei Yasuno também visitaram a Argentina em várias ocasiões, por isso acho que o nível de Aikido de lá é muito bom.

No Brasil acontece a mesma coisa, e o Aikido já está estabelecido há muito tempo lá, e vários professores de Aikido já passaram por lá nos últimos anos. No início, eu achava que as pessoas de países América do Sul não teriam muito interesse no budo Japonês, mas essa primeira impressão foi errônea. No Brasil, percebi que muitas pessoas haviam iniciado no Aikido por diversas razões, como por exemplo, para se tornarem fortes pois pensavam que não tinham muito boa aparência, mas os que continuaram, gradualmente vieram a compreender do que o Aikido realmente se trata. Quando retornei ao Japão, dois de meus alunos voltaram comigo, um dos quais ainda permanece aqui no Japão. Pessoas como ele e os dois Argentinos, se tornaram meus amigos íntimos, e suas amizades enriqueceram muito minha vida.

Depois da Argentina e do Brazil, o Aikido é muito popular em lugares como Chile e Uruguay, e esses países tem sua organização própria muito sólida. Existem também um grupo grande de pessoas treinando com o Sensei Yoshimitsu Yamada do New York Aikikai em vários países da América Latina, por isso, não importa onde voce vá na América do Sul que voce encontrará pessoas praticando Aikido.


AJ: O senhor passou a maioria de seu tempo no Brasil. Quais foram as maiores dificuldades que encontrou lá?

Tani: Existem várias organizações diferentes de Aikido, registradas nos vários estados dentro do Brasil, e a de São Paulo, onde eu estava trabalhando, veio a ser a Federação Paulista de Aikido, dirigida pelo Sensei Reishin Kawai. Primeiramente eu me dirigi ao dojo do Sensei Kawai. Mais tarde me pediram para abrir meu próprio dojo e comecei a ensinar sozinho. Me pediram para me juntar a Federação Paulista mas, como eu não me considerava um profissional e não queria ficar preso a regras e regulamentos, preferi fazer algo próprio. Essa era a situação existente até que completei meu trabalho e retornei ao Japão. Na verdade, passei a maior parte do tempo me dedicando ao meu Aikido, sem muito contato com o Sensei Kawai. Pode até parecer que eu fiz oposição a ele --- e muitas pessoas interpretaram assim --- mas isso não é verdade. A existência de qualquer oposição no meio do Aikido seria uma desgraça, e isso não era o que eu estava fazendo; é só que eu era jovem e não pensava claramente sobre essas coisas, como poderia estar parecendo eu fazendo as coisas sozinho daquela maneira e, olhando para o passado, eu me arrependo de não agido de outra maneira. Mesmo assim, atualmente, devido a minha posição no Departamento Internacional do Aikikai, o Sensei Kawai e eu temos mais oportunidade de nos comunicarmos hoje em dia.

Também havia o Sensei Ichitami Shikanai, que ensinava no Rio de Janeiro. Ele e eu tínhamos praticamente a mesma idade e graduação, e costumávamos levar nossos alunos para visitarem os dojos, e juntos também ensinamos numa organização Omoto-Kyo, nas proximidades de São Paulo. O Aikido dele é fantástico e ainda hoje eu me lembro das boas experiências que tivemos juntos.

Passei também seis meses na Mongólia ajudando a Ryiochi Tsuji da Japan Overseas Cooperation Volunteers (JOVC) ensinando Aikido. Não havia nenhum Yudansha (faixa preta) de Aikido lá., mas todos estavam entusiasmados com o treinamento. Para mim, só de viver na Mongólia foi uma experiência valiosa.


AJ: Ao voltar para casa após seis anos vivendo fora, o senhor teve alguma impressão de que o Japão havia mudado em alguma coisa?

Tani: Depois de viver por quatro anos no Brasil, me acostumei mais com o ritmo mais relaxado de vida de lá, por isso tive um pouco de coque cultural no início, quando voltei ao Japão. Foi um choque ver que todos em meu escritório estavam trabalhando feito loucos, com apenas uma semana para férias, e assim por diante. Eu fui em frente e tirei um mês de férias!! Todos estavam chateados comigo, mas não consegui entender qual era o problema deles (Risos). Como eu disse, choque cultural. Acho que todos a minha volta ficaram chocados com minha mudança. Também, eu me surpreendi ao perceber o quanto minha casa era minúscula no Japão. Em um mês eu a derrubei e construí uma nova com uma planta mais espaçosa e interior todo branco, com a que eu tinha no Brasil. (Risos)

Em termos de treinamento, quando voltei ao Hombu Dojo, me surpreendi ao ver que todos que treinavam lá haviam se tornado muito melhores do que eu, e tive dificuldades para me adaptar. Percebi que durante minha estadia no Brasil, eu me direcionei para um tipo de Aikido que dependia mais de força física, então resolvi recomeçar do zero. Acho que levou uns três ou quatro anos para chegar onde estou. Enquanto estive fora, eu não tive o tipo de parceiro para treino que poderia me ajudar a melhorar mais nas técnicas, por isso não progredi. Hoje em dia é diferente, é claro, já que o nível de Aikido praticado fora do Japão fica cada vez mais elevado.


O TATAMI COMO UM PALCO ABERTO


AJ: Por favor, conte-nos alguns de seus pensamentos pessoais sobre o Aikido.

Tani: Sempre me perguntam (e eu também sempre me pergunto) "Porque praticar Aikido?" Eu acho que é uma coisa natural pensar sobre isso, especialmente porque no Aikido não existe competição e treinamos quase exclusivamente usando técnica pura. Devo confessar, treinei por mais de trinta anos sem uma clara razão em minha mente. Nesse caso, acho que até é irresponsável de minha parte ensinar a outras pessoas. Mas ultimamente, consegui entender minhas metas e motivações de maneira mais clara do que nunca.

Eu estava no processo de organizar uma variedade de materiais depois da morte do Doshu Kisshomaru, e eu sempre estava vendo nas coisas a mesma frase que ele costumava mencionar todos os dias, para enfatizar que "O próprio treinamento diário é a coisa mais importante." Despertou em mim algo que me dizia que o treinamento em si --- simplesmente entrar no tatami e praticar todos os dias --- é a meta essencial do Aikido. Que isso é uma razão suficiente. Para um Aikidoísta, o tatami onde treinamos todos os dias é como uma montanha para um alpinista. Nada mais do que isso, pelo menos para mim.

Usando a analogia, o tatami do Hombu Dojo no qual praticamos todos os dias, é como um palco para um ator. Por isso eu escalo todos os dias (na verdade um dia sim outro não) até o topo da "montanha", que é treinar, e fico no topo dessa montanha, nos tatamis do Hombu, e quando treinamos ficamos treinados o suficiente para irmos para casa satisfeitos. E isso acontece de uma maneira que não preciso de mais nada. Não tenho interesse nem nas demonstrações, mesmo assim gosto de ver outras pessoas treinando.

Isso quer dizer, é claro, que hoje em dia gosto de treinar mais do que nunca, e no Hombu há um grande número de pessoas que são mais fortes, melhores aikidoístas do que eu, mas mesmo cerrando meus dentes e tentando dar o melhor possível para ter um bom nível, acho que é um desafio sadio e parte da diversão do treino.

Provavelmente, minha atitude e abordagem não sejam ideais. O Aikido se espalhou tanto e por tantos lugares, e existem tantos pedidos de vários lugares, que eu acho que poderia estar fazendo algo mais para contribuir. Se me pedem para dar aula, eu teria um certo grau de responsabilidade para fazê-lo. Reconheço o mérito desse ponto de vista, mas como indivíduo, eu também acho que devo continuar buscando o Aikido mais livremente, numa maneira adequada para mim.

O Doshu sempre diz, "Tudo bem, existem vários tipos de busca; vamos nos deliciar no que estamos fazendo agora". Algumas pessoas dizem que estão no Aikido por hobby e não há nada de errado com isso, na verdade, existem inúmeras razões para praticá-lo. Se o Aikido enriquece sua vida e a faz mais agradável de alguma maneira, isso já é o suficiente.


AJ: Eu acho que existem muitos praticantes não japoneses que praticam Aikido o fazem não somente porque é agradável, mas por terem a meta de atingir o ideal estabelecido pelo Fundador.

Tani: Sim, o Aikido ideal deveria ser capaz de contribuir com alguma coisa para a sociedade, e nesse sentido existe algo faltando nas pessoas como eu, que enfocam mais em treinar para si mesmo. Mesmo assim, para mim é a única conclusão que cheguei em termos de me sentir confortável com o Aikido e achando meu próprio significado dentro dele. Existem ainda muitas coisas boas que resultam da prática do Aikido, mesmo se voce não proclama necessariamente qualquer meta a atingir nele.


AJ: Sim, eu acho que as pessoas acham no que aplicar o Aikido em sua vida cotidiana a toda hora. Por exemplo, a prática do Aikido por muitos anos, lhe dá a habilidade de "ler" o "kokyu" de um atacante, quer dizer, sua intenção e atitude, desde os estados iniciais de um conflito, e acho que isso é uma coisa que pode-se aplicar a várias situações da vida.

Tani: Sim, o Aikido cultiva uma variedade de aspectos psicológicos e espirituais. Eu penso que tenho sido capaz de aplicar as coisas que aprendi no Aikido em meu trabalho, por exemplo, e amaciar meu relacionamento com outras pessoas.

Existem muito mais benefícios práticos e concretos: na Mongólia, eu fui arremessado de um cavalo que tropeçou quando descia uma rampa. Eu estava com minha máquina fotográfica na mão direita e as rédeas em minha mão esquerda, e acabei rolanda com um mae ukemi. O mais engraçado foi que, eu estava voando no ar e a única coisa que me vinha a cabeça era, "Não quebre a máquina!" . O Mongoliano que estava comigo disse, "Voce não é muito bom andando à cavalo, mas é muito bom caíndo deles!" (Risos).

Eu caí do cavalo, derrubei minha motocicleta, bati com asa delta e para-glider, e muito mais, mas nunca tive nenhum ferimento mais sério, por isso eu acho que o Aikido deve Ter me ajudado nessas situações também!


(Traduzido por Paulo C. G. Proença -INSTITUTO TAKEMUSSU -Dojo Kokoro - Sorocaba)



 

 

 

 

 








 

 










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