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Aos
60 anos, Tadamitsu Tanaka é o instrutor do Kodokan
Dojo em Okazaki, Japão.
Sensei,
seu pai estudou com O-Sensei, não estudou?
Sim, meu pai me disse que conseguiu ser uchi-deshi de O-Sensei
por uns 8 anos. Meu pai tinha 18, ou 20 anos - antes de
eu nascer - quando foi para Ayabe (um centro Omoto Kyo).
Lá, ele trabalhou muito - em tudo aquilo que lhe
era solicitado. Ele conheceu Morihei Ueshiba e começou
a estudar Aikido com ele. Naquela época, O-Sensei
estava no final de seus trinta anos ou começo dos
quarenta.
Onisaburo Deguchi (um fundador do movimento Omoto Kyo) tinha
duas pessoas estudando consigo: meu pai e Morihei Ueshiba.
Em casa, eu tenho um rolo de pergaminho escrito por Onisaburo
Deguchi. É uma das coisas da qual mais me orgulho.
Ele escreveu somente dois rolos iguais àquele, e
ninguém sabe aonde o segundo deles se encontra. O
que eu tenho é um tesouro precioso.
Seu
pai tinha a reputação de ter sido um professor
muito severo. Após o seu seminário, as pessoas
diziam que acharam seus ensinamentos impregnados de paz
e alegria, e comentaram sua abertura e calor humano. Como
você conseguiu isso de um ambiente áspero?
Ah! Meu pai era uma pessoa de outra época, uma época
muito diferente. Sua severidade resultou do seu meio ambiente.
Eu consegui ver os dois lados do meu pai, omote e ura. Todos
nós temos um omote e um ura. Omote
é o que você mostra ao mundo, e ura
é o que você é, mas não mostra
ao mundo.
Meu pai era também muito inteligente, muito sábio.
Depois de estudar com O-Sensei e Deguchi Sensei, quando
meu pai ainda era jovem, ele foi para a guerra na Manchúria
e aprendeu muitas línguas. Como resultado disso,
ele foi capaz de ascender nos postos da carreira militar.
Ao invés de se tornar um guerreiro, ele se tornou
um tradutor, e com isso conseguiu voltar ao Japão
antes de muita gente. Como muitas pessoas morreram na guerra,
havia muito poucos professores no Japão. Disseram
ao meu pai: "Ok, você agora é um professor".
Depois que a guerra acabou, as pessoas começaram
a voltar. Como então havia mais professores disponíveis,
ele entrou no Chunichi Newspaper em Nagoya. Foi aí
que ele começou a praticar Aikido novamente.
Meu pai era rigoroso e severo tanto físico quanto
espiritualmente - o instrutor mais cheio de cicatrizes do
Hombu Dojo, o mais temido. Ele não deixou muitas
aberturas para contato humano. Os alunos jovens não
se lembram dele, mas sim aqueles que hoje estão com
70 ou 80 anos.
O túmulo de meu pai é próximo ao de
Onisaburo Deguchi e Morihei Ueshiba.
Onde
você estava durante a guerra?
Todas as crianças foram levadas para a zona rural,
onde havia templos e santuários e lavouras de arroz.
Minha casa ficava na base dos morros, protegida das bombas.
Eu era tão novo que não entendia o que era
a guerra. Eu achava as bombas bonitas, como fogos de artifício.
Eu vi a cidade de Okazaki em chamas.
Na
sua opinião, as pessoas apreciam a conexão
do Aikido com o Omoto Kyo?
A filosofia do Omoto Kyo é extremamente complicada,
moldada a partir de vários princípios diferentes.
Quando O-Sensei Morihei Ueshiba estava estudando com Onisaburo
Deguchi, uma das coisas que estava estudando era Aikido.
Nos EUA, há muitas divisões diferentes de
Aikido. Algumas pessoas não sabem do Omoto Kyo. A
maioria nunca esteve em Kyoto ou Ayabe, porque eles não
sabem sobre a conexão. No Japão, também,
muitos grandes instrutores de Aikido não sabem que
o Aikido está conectado com o Omoto Kyo.
Qual
foi a atitude de Onisaburo Deguchi perante a guerra?
Ele era contra a guerra - especialmente a mundial. Mas ao
final da II Guerra, ele passou a limpo o espírito
do mundo.
Onisaburo Deguchi ensinou muitas pessoas "não
muito poderosas". E as pessoas no poder ficaram chateadas
com isso. Antes da guerra, as pessoas importantes - os poderosos,
os políticos - eram maus. Muitas pessoas sofreram
nas mãos desses políticos.
Aikido
é às vezes chamada "A arte da Paz".
Você acha que a ênfase do Aikido na paz pode
de alguma maneira ser atribuída a Deguchi Sensei?
Deguchi Sensei disse que nós temos que nos livrar
da competição, vitória e derrota.
Antes da guerra, o objetivo era tornar-se tão forte
para jamais perder. Artes marciais competiriam umas contra
as outras, e um iria ganhar enquanto outro iria perder.
Então o perdedor prometeria derrotar o vencedor.
Onisaburo Deguchi insistia para quebrarmos esse círculo
sem-fim da competição - para criarmos uma
arte marcial sem competição.
Quando Morihei Ueshiba foi para Tóquio, ele conversou
muito com Jigoro Kano (o fundador do Judô) e Hakudo
Nakayama, um Sensei de Kendo e Iaido. Ele era capaz de discutir
Budo com estes grandes instrutores. Por causa disso é
que, no Aikido, há Judô e Iaido. Estas artes
se aproximaram com esse contato.
Sob essas influências, o espírito, o coração
do Aikido nasceu. Aikido não usa apenas potência
e força, e não é só treino,
treino, treino. Envolve contato com tipos diferentes de
pessoas. É através desse contato que nós
adquirimos o espírito do Aikido. O termo "Budo"
não descreve um sistema de luta, mas a arte de treinar
seres humanos melhores através de treino.
Em
que sentido O-Sensei mudou como resultado do contato com
Onisaburo Deguchi?
Depois de conhecer Onisaburo, ele mudou todo o seu ser.
Antes, ele fazia Aikido por razões próprias
- para si. Depois de conhecer Deguchi, ele praticava Aikido
de tal modo a considerar as outras pessoas importantes,
ver o valor delas. Ele ensinava para os outros, não
para si.
A influência de Onisaburo Deguchi foi muito importante.
Ele nasceu e cresceu na pobreza. À medida que crescia,
suas condições não melhoravam. Ele
teve uma vida difícil. Não foi capaz de estudar,
mas era incrivelmente intuitivo.
Quando Deguchi tinha 13 anos, ele passou por um momento
de confusão e tormento emocional. Coisas inacreditáveis
aconteceram. Ele conseguia ler difíceis caracteres
Kanji - os que os escolares tinham dificuldade - na primeira
vez que os via. Andando, sabia exatamente quando ia chover.
Ele estava preparado para essas coisas. Não importava
quem vinha contra, políticos ou um acadêmico,
ele sabia responder à altura. Sua filosofia era que,
fortes ou fracas, pessoas eram pessoas. Se você cultivar
o mesmo sentimento, consegue os mesmos resultados.
É
de amor que você está falando?
Esse termo não foi na verdade usado. Foi Kishomaru
Ueshiba (filho de O-Sensei e segundo Doshu) quem começou
a falar de "amor".
Onisaburo Deguchi ensinava a se centrar e também
a mover-se em direção ao centro das pessoas,
a estar lá, a se conectar. Ele conseguia fazer isso,
mas é muito difícil para pessoas comuns. Deguchi
não chamava de "amor". Era mais um estado
de espírito: centralização.
O
que no Aikido keiko remete a essa idéia?
No Aikido, você não é bem sucedido ao
fazer técnicas se você não estiver fazendo-as
com o seu centro. Então, você pode aprender
o que é estar centrado fazendo as técnicas
apropriadamente. E, se uma pessoa estiver um pouquinho fora
de centro, pode ser muito má. Então a técnica
nos dá uma metáfora assim como um embasamento
do espírito. Centralização é
a chave tanto em ser humano quanto em fazer Aikido.
Embora eu ouvisse o que meu pai dizia, eu não entendia
completamente os seus métodos. O que eu digo vem
da minha própria experiência. Para mim,
é mais importante que todos pratiquem com um sorriso
no rosto - que as pessoas gostem da experiência do
Aikido. (risos)
Treinar, dentro e fora do tatame, é difícil
para mim, assim como é para todo mundo. Eu uso minha
cabeça, meu coração e meu centro juntos.
Eu jogo meus problemas da minha cabeça para o meu
coração, e pego minha força do meu
centro. Quando eu chego no escritório e encontro
um conflito (risos), eu converso com todos e tento sorrir.
Eu sou um ser humano. A minha cabeça, assim como
a de todo mundo, é uma bagunça. Mas eu tenho
que incorporar as lições que aprendi do Aikido.
Eu não posso descontar minhas frustrações
na minha mulher e família. No Aikido, eu posso.
Então,
é uma libertação para você ir
ao dojo?
É uma libertação - sim. As pessoas
lá me compreendem, e praticamos, e fazemos Chinkon,
e conversamos depois da aula. A experiência toda me
ajuda a me livrar daquilo que aconteceu durante o dia, e
eu posso ir para casa e me divertir com minha família.
Você
usa o Aikido no trabalho?
Sim. O presidente da companhia e eu usamos. Eu digo a ele
o que estou realmente sentindo e ele então devolve
rapidamente! (risos). Nós não necessariamente
concordamos. Depois de alguns minutos ambos reconsideram.
Depois de mais ou menos uma hora, ele vem até mim,
e eu digo, com um sorriso e um aperto de mão, que
falei demais. Interações desse tipo são
comuns, e o Aikido me ajuda com os obstáculos dos
relacionamentos interpessoais.
No trabalho muitas pessoas vêm até mim com
seus problemas. É muito difícil para mim,
mas, com um sorriso no rosto, eu falo de meus colegas de
trabalho, minha casa, amigos e problemas familiares. Eles
vêm até com problemas financeiros! (risos)
Conversar sobre esses problemas é difícil,
mas conversar difunde a situação, alivia a
tensão.
Na
sua opinião, qual a coisa mais importante de se ter
em mente ao comandar um dojo?
Integridade é importante. Dizer às pessoas
para fazer isso ou aquilo é uma coisa, mas estar
centrado e liderando através do exemplo é
outra. Este é o nível por trás do treinamento
verbal. Você pode ensinar não-verbalmente -
com todo o seu ser. Palavras são superficiais.
Um círculo de harmonia circunda o seu dojo; Eu posso
senti-lo. Mas, se você olhar direito, verá
alguns cantos vivos. Você não os quer. Você
quer cantos circulares, redondos. Você quer uma atmosfera
acolhedora, não uma fria. Nessa, todos se dispersam.
Quando você tem muitas pessoas envolvidas, com algumas
treinar é divertido, enquanto que com outras, não.
No Japão, há um monte de gente difícil
(risos).
Quem
é a melhor pessoa para treinar?
Você não deve sempre executar a mesma técnica
com a mesma pessoa. Vá com pessoas diferentes. Tenha
certeza de às vezes fazer o seu waza com pessoas
que você não quer treinar. E, enquanto pratica,
tenha uma pequena conversa. É bom para você
e é bom para o seu parceiro.
Como
instrutor de Aikido, como lidar com pessoas difíceis
no dojo?
Lidar com pessoas difíceis requer coragem. Eu sugiro
conversar com elas. Comece a conversa ao invés de
esperar que elas o procurem. Fale com um sorriso no corpo,
no rosto e nos olhos - e não apenas nas palavras.
Olhe nos olhos.
Algumas pessoas não falam muito. Algumas não
me cumprimentam, e eu não fico com uma boa impressão
delas. Eu me forço a puxar conversa com elas. "Como
vai?", eu digo. Quando chega a hora de ir embora, falo
"Vamos tomar um chá?" Isso é difícil
de fazer; você tem que trabalhar isso. Eu estou sempre
trabalhando isso.
Sensei,
no seu seminário o senhor falou dos três pontos
do triângulo...
Sim, os três suportes: técnica, coração
e linguagem ou etiqueta. Harmonia entre esses elementos
é a chave do equilíbrio.
É difícil transformar um triângulo em
um círculo. Mas, no meio do triângulo, há
uma pessoa central: o professor. Aproveite os pontos positivos
do professor para transformar seu triângulo em um
círculo.
Em Okazaki, eu estou no centro. E eu tenho algumas pessoas
lá. À medida que essas pessoas aproveitam
a força um do outro, o círculo se forma.
Como
o senhor resumiria sua filosofia de Aikido?
Essa é uma pergunta difícil. Eu procurei em
livros, mas não consegui encontrar uma boa resposta.
A resposta está em trabalhar duro para encontrá-la;
é na tentativa que você a adquire.
Aikido é um caminho que comecei a trilhar junto com
meu pai, quando era pequeno. Apesar de ter sido uma estrada
muito difícil, me sinto extremamente afortunado.
Eu tenho muitos bons amigos no Japão, e eles me ensinam
muitas coisas. E eu tento estudar, entender e ensinar os
outros.
Participaram desta entrevista vários membros do Greensboro,
NC, Kodokan Dojo: John Grinnell, Jay Speetjens, Gerald Hutchinson,
Elisabeth Link, Leslie Kausch, Susan Dalton e David Sears.
Miyama Satoshi, um dos alunos de Tanaka Sensei de Okazaki,
também estava presente (assim como seu filho, Carter,
de três semanas de idade).
Traduzido
por: João Vicente Sparano- Instituto Takemussu Dojo
Central
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