
|
|
ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
|
|
|
|
Entrevista
com Yamada Sensei
|
Uma entrevista do Aikido East
AE - Nós sabemos que os leitores
do Aikido East apreciam as entrevistas com o senhor. O senhor
se importaria em responder algumas perguntas?
YY - Bem, eu também aprecio
dar entrevistas, embora eu sempre acabe falando de uma forma
muito espontânea, o que acaba me trazendo alguns problemas
mais tarde. Mas eu acho que as entrevistas são assim mesmo.
Além do mais, agora eu tenho mais de sessenta anos e eu
decidi que vou me expressar de uma forma mais enérgica.
AE - Sensei, o senhor tem sido
o líder da USAF (Federação Norte-Americana de Aikido) por
muito tempo. O senhor poderia nos falar algo sobre a sua
filosofia de liderança e se o senhor sente alguma dificuldade
neste cargo?
YY - Não há dúvida de que este
é um trabalho muito difícil e, às vezes, eu questiono se
sou capaz de exercer esta função. Quando eu era um jovem
uchideshi, eu questionava algumas das decisões tomadas pelo
Doshu. Agora, eu estou em uma posição semelhante - muito
embora em uma escala diferente - e estou entendendo o Doshu
de uma maneira mais clara. A forma como penso a respeito
de ser um líder é a seguinte: eu devo ser honesto, o tempo
todo, com as pessoas e comigo mesmo. Segundo, as pessoas
ao meu redor não tem medo de me dizer "não". Não é bom cercar-se
de pessoas que só falam "sim" para você. Eu tenho consciência
de minha força e de minhas fraquezas. E você deve estar
pronto para receber e aceitar críticas.
Se qualquer um de vocês ficassem um dia em meu lugar, vocês
ficariam surpresos com a quantidade de telefonemas, cartas
e faxes que recebo, com pessoas pedindo para que eu tome
decisões. Algumas vezes são problemas extremamente simples,
mas mesmo assim eu preciso tomar as decisões. E quando eu
faço isso, a decisão tomada pode deixar algumas pessoas
insatisfeitas. Mas, o que eu posso fazer? Meu trabalho é
o de tomar decisões.
Apesar destas dificuldades, eu aprecio muito o que faço
e ainda estou satisfeito em ser o líder de vocês.
Agora eu sei que o Doshu deu o melhor de si naqueles dias
em que eu ainda era um jovem uchidechi. É como tornar-se
pai e compreender melhor os nossos próprios pais. Todas
as vezes em que eu tomo uma decisão, mesmo que esta decisão
possa deixá-lo descontente, lembrem-se que existe uma razão
pela qual eu tomei uma determinada conduta. Mas, como se
diz, não se pode acertar sempre.
AE - Sensei, o que o senhor
pensa quando está ministrando uma aula?
YY - Primeiro de tudo, quando
eu dou uma aula, quero ver que todos estão apreciando o
que estão fazendo. Eu detesto ver pessoas aborrecidas. Assim,
algumas vezes, eu troco de técnica. Eu também escolho as
técnicas de acordo com quem está assistindo a minha aula.
Eu me imagino um maestro de uma sinfonia quando eu estou
dando uma aula e tento criar uma música com harmonia. Eu
considero cada aluno como um indivíduo. Eu tento tirar de
cada aluno o máximo de si. Então, é óbvio que detesto ver
alguém quebrar a harmonia que estou tentando criar.
Eu sempre tento dar uma atenção especial aos principiantes,
quer seja pessoalmente ou designando algum aluno mais experimentado
para trabalhar com eles, em separado.
Algumas vezes, eu me sinto como um guarda de trânsito tentando
controlar o fluxo de carros e tentando evitar algum acidente
desnecessário. E, algumas vezes, sinto-me como um juiz de
futebol prestando atenção naqueles que violam as regras.
É estranho, mas eu consigo, não importa o quão grande seja
a turma, observar tudo que acontece ao meu redor. Eu tenho
um olho de águia para detectar criadores de problemas. Portanto,
tomem cuidado!
Embora você possa estar praticando com um excelente professor,
o progresso depende exclusivamente de você mesmo. As pessoas
que treinam de uma forma positiva, séria e com garra progridem
de uma maneira rápida. É tão simples quanto parece.
Certa ocasião, eu recebi uma carta dizendo que eu precisava
explicar mais as técnicas durante as minhas aulas. Para
piorar ainda mais, a pessoa que escreveu a carta mencionou
o nome de outros professores, que ele preferia. Antes de
mais nada, eu fico me perguntando se ele freqüentou regularmente
as minhas aulas ou se ele baseou o seu julgamento em um
só dia em particular. Eu explico as técnicas quando acho
necessário. A minha idéia é que as correções e explicações
são mais úteis quando são feitas individualmente, pois cada
pessoa é diferente. Após dar uma explicação geral, eu caminho
entre os alunos, corrigindo e explicando, de acordo com
cada um deles. Eu acredito que estou fazendo um bom trabalho
por uma razão simples - eu vejo um bom progresso entre os
meus alunos.
Cada shihan tem uma forma diferente de ensinar e todos eles
são bons no que fazem. Logo, não os incomodem. Se você não
gosta deles, fique em casa.
Além do mais, no Aikido, que se constitui num exercício
físico, você tem que aprender fazendo. Algumas aulas teóricas
são úteis, mas você pode dominar uma habilidade somente
lendo um livro a respeito? Se isso fosse verdade, não haveria
necessidade de ir ao dojo.
AE - Existem muitos shidoin
e fukushidoin na federação atualmente. O senhor está satisfeito
com isso?
YY - Eu já disse que o meu
lema é ser honesto. Logo, embora esta pergunta seja muito
delicada, eu vou te dizer a verdade. A resposta é "não".
Você pode me odiar por dizer isto, mas existem alguns instrutores
que simplesmente não deveriam estar lecionando.
Apesar do fato de eu ter encorajado as pessoas a abrirem
dojos, muitas pessoas estão estabelecendo dojos cedo demais.
Quando eu originalmente incentivei as pessoas a abrirem
os seus dojos, eu esperava que eles continuassem a se desenvolver,
indo a seminários e se esforçando para se tornarem melhores
professores.
Infelizmente, em muitos casos, eu não tenho visto isso acontecer.
Muitos destes instrutores pararam de freqüentar os seminários.
Outros continuam tentando se aperfeiçoar, o que eu aprecio
muito.
Voltando ao passado, eu encorajei as pessoas a estabelecerem
dojos pois nós estávamos tentando promover o Aikido e havia
a necessidade de se ter escolas em lugares mais isolados.
Entre estes primeiros instrutores, alguns continuam tentado
se aprimorar e, como resultado, tornaram-se instrutores
muito bons. E há também aquelas pessoas que pensam que dominaram
a arte do Aikido e se estagnaram no conhecimento adquirido
até então. São estes instrutores que eu considero ruins.
E os seus alunos refletem a sua estagnação. Por favor, lembrem-se
que os alunos refletem os seus professores. Se o professor
é meio louco, preguiçoso, tecnicamente pobre e sem uma postura
satisfatória (ou qualquer destas características isoladamente),
os seus alunos serão iguais.
As técnicas de cada shihan estão sempre melhorando e mudando
com o passar dos anos. É assim que o Aikido é. Às vezes,
você tem de seguir o seu instinto. Mesmo O Sensei mudou
durante o curto período em que estive com ele. Logo, você
sempre deve aproveitar as oportunidades de voltar ao seu
mestre para refrescar a memória e renovar as suas técnicas.
Certa ocasião, um de meus alunos que esteve longe por aproximadamente
vinte anos, retornou em uma de minhas aulas. Ironicamente,
ele estava totalmente perdido e desajeitado durante a aula.
Eu achei que era um bom sinal que ele estivesse se mostrando
desajeitado, pois isso significava que ele ainda se importava
consigo mesmo. Eu mesmo ainda aprendo quando vou a seminários
de um outro shihan. Eu sempre posso encontrar algo novo
ou diferente que eu não conseguia observar quando era um
4° dan. Às vezes eu aprendo e tenho idéias quando vejo os
meus próprios alunos ensinando.
A razão pela qual eu respondi "não" à esta pergunta foi
devido às pessoas que pararam de tentar aprender.
Voltemos aos problemas que vem à minha mesa todos os dias
e de onde eles vêm. Estes problemas vem destes instrutores
que pararam de desafiar a si mesmos. O cenário pode ser
montado da seguinte forma - em uma pequena cidade, existem
dois dojos rivais, um deles bom e o outro não tanto. O mau
professor não quer, obviamente, admitir que ele não é bom,
muito embora ele saiba disso em seu íntimo. Então, ele diz
a seus alunos a ficarem em seu dojo e não irem a nenhum
outro lugar.
Não é segredo para ninguém que a habilidade de cada um é
diferente. Não há nada errado com isso. O professor tem
de ter a coragem suficiente para dizer a seus alunos irem
procurar algo diferente de outros instrutores. Um outro
professor sempre tem algo a oferecer. Está certo lembrar
aos alunos quem é o seu mestre, mas, é melhor ainda encorajá-los
a descobrir e absorver a vasta gama de talentos que temos
a felicidade de ter no Aikido, na atualidade.
Se o instrutor tem este tipo de sentimento no seu coração,
tudo está bem.
Infelizmente, aqueles que tem uma mente-fechada estão sempre
usando a palavra "respeito". Para mim, o respeito não vem
obrigando as pessoas a fazerem algo. O respeito deve vir
naturalmente, você não pode impô-lo. Pessoalmente, eu não
me importo se as pessoas me respeitam ou não, desde que
eles me entendam e gostem de mim.
AE - O seu dojo tem o maior
número de mulheres praticantes em relação a qualquer outro
dojo do mundo. O senhor poderia dizer o que o senhor pensa
sobre a mulher americana em geral e sobre o Aikido delas?
YY - Se eu fosse julgar as
mulheres americanas pelo que elas são nas novelas, eu as
acharia horríveis. Tudo que elas fazem é gritar e chorar
durante uma hora inteira. Obviamente, eu não vou me basear
nisto.
Eu sei que existe um tabú sobre falar a respeito das mulheres,
neste país. Eu sei que as minhas opiniões podem me colocar
em problemas. Mas, se você está realmente interessado na
minha opinião, aí vai.
Deixe-me começar com uma história que aconteceu comigo quando
vim pela primeira vez na cidade de New York, há trinta anos.
Eu costumava tomar os ônibus da Greyhound para dar aulas
em outras cidades tais como Boston e Filadélfia. Certo dia,
eu vi uma mulher com uma enorme bagagem na rodoviária de
Port Authority e eu fui ajudá-la. Ela me disse para tirar
a @#$% das minhas mão de sua mala. Eu fiquei muito chateado
com aquilo, imaginando em que tipo de cidade eu estava morando,
onde as pessoas não podiam confiar uma nas outras.
Um outro dia, também há muitos anos, nós estávamos fazendo
alguns reparos neste dojo. Eu pedi a um homem para que fizesse
um pequeno reparo de carpintaria e pedi a uma mulher que
passasse uma cortina. Esta mulher considerou o meu pedido
um insulto. Eu imagino que ela tenha se sentido insultada
por não saber passar à ferro.
Eu sei que algumas mulheres são hábeis em trabalhos que
são considerados de domínio masculino e vice-versa. Não
tenho qualquer problema quanto a isto. Mas, ainda assim,
nós somos homens e mulheres e somos diferentes.
Há algumas coisas nas quais os homens são especialistas,
e as mulheres idem. Eu acho o máximo ver as mulheres fazendo
kata em uma competição de Karate. Mas eu não consigo imaginar
em algo mais feio do que ver duas mulheres lutando em um
ringue de boxe. Eu acho que o boxe é um esporte muito bonito,
mas assistir duas mulheres arrancando sangue do rosto, uma
da outra, é muito feio. Você chama isso de esporte? Eu não.
Eu chamo de briga.
Particularmente, a minha esposa parece-me mais bonita quando
está na cozinha fazendo uma boa comida para mim. Eu sei
que ela fica feliz quando digo o quanto ela fica bonita
quando está cozinhando. Ela toma isso como um elogio. É
por esta razão que ela é minha esposa.
Para mim, as mulheres americanas são muito agressivas e
muito confiantes no que elas são capazes de fazer. Se isto
está bom para os homens americanos, então está bom para
mim também. E se as mulheres americanas estão felizes, eu
creio que está tudo bem também. Eu sou de uma cultura diferente
e o comportamento das mulheres americanas não é da minha
conta.
Quando falamos de Aikido, eu acho, com muita convicção,
que as mulheres americanas são as melhores do mundo. Elas
são corajosas e algo agressivas e isto funciona no tatami.
Eu também acho que as mulheres americanas devem se sentir
afortunadas em terem oportunidades iguais tanto para praticar
como para ensinar Aikido. Mas, não deixem que a minha afirmação
as tornem confiantes demais.
Existem também mulheres que são instrutoras nos Estados
Unidos que eu acho que não deveriam estar ensinando. Elas
são tão culpadas quanto os homens, aos quais me referi anteriormente,
que estabeleceram dojos e se estagnaram.
Como sempre, ao final de uma entrevista, sinto que falei
demais. Desta vez, entretanto, eu espero que tenha provocado
alguma resposta nos leitores. Se você não concorda comigo,
escreva. Eu aguardo ansiosamente pelo que você tem a dizer,
no próximo número desta revista.
tradução - S. M. Keira
|
 |
|


|
|
Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil
Aikikai.
|
|
|