ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES

Entrevista com Mitsugi Saotome Shihan
Samurai do Século 21


A seguinte entrevista foi realizada em 12 de Setembro de 1999 na residência de Mitsugi Saotome Shihan, diretor do Aikido Schools of Ueshiba. O sensei Saotome foi uchi deshi (aluno interno) do fundador do aikido, Ueshiba Morihei, e instrutor dos instrutores no Aikikai Hombu Dojo em Tóquio durante muitos anos. Ele já escreveu vários livros sobre aikido e viaja pelo mundo ministrando seminários. Eu pensei ser de grande valia ter a perspectiva de um professor Japonês de artes marciais sobre a presença de Ocidentais treinando em dojos no Japão. Eu inclui uma transcrição de toda a entrevista para mostrar que um sensei de budo possui um pensamento abrangente e que grande parte de suas respostas se relacionam com a necessidade de uma visão clara, educação e sensibilidade.

Jones: Que conselho o Sr. daria aos Ocidentais que desejassem ir ao Japão estudar artes marciais?

Saotome: A cultura Japonesa é muito antiga, milhares de anos. Esta é uma sociedade muito complicada, mais que muitas outras sociedades. Em ilhas muito pequenas. As pessoas vivem em pouco espaço. Por isso os Ocidentais que para ali se dirigem, para estudar algo, precisam se perguntar qual o motivo. Precisam ser objetivos. Precisam ter um motivo muito claro em mente. Um foco bem direcionado. Isto porque cada área do Japão - Kyushu, Osaka, Kyoto - são bem diferentes. O Japão é uma sociedade tradicional complexa em muitas e muitas maneiras.

O que o Sr. diria aos Ocidentais, sobre treinar no Japão, para ajudá-los manterem o foco e não come-terem erros?

As pessoas vão estudar no Japão por diferentes motivos. Algumas pessoas vão para estudar arte marcial Japonesa. Talvez estejam procurando autoridade. Muitos estudantes de artes marciais vão para o Ja-pão estudar. Eles retornam aos Estados Unidos dizendo: "Escuta, eu estudei no Japão durante muitos anos. Eu sou uma autoridade porque estudei no Japão". Mesmo assim, qual é a sua real capacidade? Não é impor-tante de onde veio o ensino. Que tipo de professores tiveram? São professores sérios?

Como que um Ocidental pode saber se um professor Japonês é realmente capacitado?

Isso é um problema. Mas eu acho que o ponto crucial é: Qual o seu motivo para ir ao Japão? Uns diriam que para estudar uma arte marcial séria enquanto que outros para curtir. Tudo se resume a atitudes individuais. Eu não acredito que muitos Ocidentais vão para lá com o firme propósito de estudar. Eu tenho muita experiência com Ocidentais no Japão. Já vi muitos alunos irem para o Hombu em Tóquio. Alguns são realmente muito esquisitos.

Esquisitos? O Sr. está se referindo a motivos diferentes? Diferentes razões para estudar?

Estou.

Pela sua experiência, o que de errado os Ocidentais procuraram ao virem treinar no Japão?

Quantas pessoas eu vejo que são sérias? Pessoas que vem ao dojo treinar todos os dias? No Hombu Dojo eu vejo pessoas que aparecem uma vez por semana e depois saem dizendo que estudaram no Ja-pão. Coisa nenhuma! Não são sérios! Durante o resto do tempo... aonde vão? Dando uma de playboy, talvez. Eles não são sérios. Correndo atrás de mulheres, talvez. Mas algumas pessoas são muito serias. Todos tem diferentes motivos para ir ao Japão estudar artes marciais.

Qual é o melhor motivo?

Ser sério. Ir ao dojo todos os dias para treinar. Não seja um playboy. Eu vejo tanta gente estraga-da. Americanos ou Franceses ou Japoneses... muita gente estragada. Eles vem ao dojo só uma vez na semana ou uma vez no mês. É só uma desculpa para ficar no Japão. "Ah, eu sou um estudante da arte Japonesa", dizem. Ou estão atras de um certificado para levar para casa. Mas eu só os vejo um dia ou outro. Durante o restante do tempo, aonde vão? Talvez bancar o playboy ocidental por aí. Quantas pessoas são sérias? Algu-mas pessoas são bem direcionadas, mas não todas.

Um sensei de budo Japonês dará alguma atenção à um iniciante Ocidental?

Depende. É pessoal. Já fazem muitos anos que eu tomo conta de alunos no Hombu. Mas eu não dou a mínima bola para os playboys ... aqueles sem uma atitude séria. Eles vem ao Japão, lecionam inglês, francês. Eles não levam a sério seu treinamento nas artes marciais. Estão sempre à procura de uma festa. Levam uma vida mole. É preciso trabalhar! Ninguém dá a mínima que você esteja estudando algo Japonês. Os Japoneses já conhecem ou não estão nem aí.

Se um Ocidental ingressa em um dojo, o que ele ou ela deve fazer para ter um comportamento correto?

Depende, mas é importante saber que é algo com aquela pessoa. Não se trata de ser Americano. Tampouco Francês ou pessoas de fora. A pessoa vem como aluno. A pessoa. Não o Americano. Não o Francês. Não o Japonês. Mesmo porque, o professor Japonês de budo esta sempre observando tudo. Eu observo a qualidade do ser humano, não do Americano ou do Japonês. Ser humano.

Então o Sr. diria que se um estudante Ocidental ingressar num curso de arte marcial, este aluno pode ter a certeza de estar sendo observado atentamente?

Certamente! Um sensei observará com muito cuidado. O aluno talvez nem perceba.

Que conselhos o Sr. daria a um Ocidental quanto a etiqueta no dojo? E sobre a reverência?

Isto não é um problema relacionado aos Ocidentais. É um problema geral. É preciso mostrar respeito. Alguns dizem: "Sou um Americano, não dou importância". Mas alguns alunos japoneses também não se importam. Tem a ver com o indivíduo. Alguns alunos são bem sinceros. Alguns não tem o mínimo respeito. Isto não tem nada que ver com nacionalidade. É uma questão do caráter de cada um. Mostre res-peito. Mostre inteligência. Mostre que possui respeito próprio. É preciso Ter seriedade. Ser sincero para aprender. Eu não penso em Ocidental e Oriental. No fundo se trata sobre o indivíduo, não sua nacionalidade.

Então para o Sr., falar sobre Ocidente e Oriente não leva a nada?

Não. Vivemos e morremos sendo nós mesmos... e não sendo Franceses, Americanos ou Japoneses.

Portanto, como exemplo, alunos Japoneses ou Americanos cometeriam os mesmos tipos de erros?

Sim. Eu não gosto de alunos arrogantes. Alunos insolentes. Alunos muito vaidosos. Atitude pes-soal. Não Ocidente, Oriente. Alguns Americanos podem dizer que são do Texas, são cowboys. Não interes-as. Cada um é um indivíduo. Um sensei Japonês de budo não liga se você é um cowboy ou um Francês. Ë um aluno. É um bom aluno? É um aluno arrogante? É sincero? É sério? Durante muitos, muitos anos, no Japão, eu vi muitos e muitos alunos Americanos.

Então é possível que um aluno Ocidental de artes marciais seja melhor que um aluno Japonês?

Certamente! O aluno tem que ser muito sincero para aprender. Só isso. Não Ocidental... Oriental. Não acho que seja isso. É uma questão de qualidade pessoal. Você tem? Não tem? Deseja ter? Tem a ver com educação também. Quando pessoas educadas vem treinar, elas estudam. Elas sabem como estudar. Elas sabem mostrar respeito. Só que algumas vezes bagunceiros aparecem. Americanos bagunceiros. Japoneses bagunceiros. Não interessa. Os bagunceiros nunca aprendem nada, independente da nacionalidade.

Assim sendo, alunos Ocidentais deveriam ter atitudes sinceras, demonstrar respeito, manter a humildade ...

Saotome: Isso! Humildade... boa virtude.

Que tipo de erro os Ocidentais cometem quando vem treinar no Japão?

Não diria erros. É muito difícil compreender a estrutura de uma outra cultura. É preciso algum tempo para se situar. O aluno necessita de tempo para se adaptar ao novo ambiente. Para se ajustar. Os Japo-neses sabem disso. Um sensei Japonês de budo sabe disso. O simples fato de morar no Japao é confuso para a pessoa. Aonde se compra comida? Onde ficar? Como chegar ao dojo? É preciso pesquisar bastante sobre a sociedade Japonesa, sua historia - adquirir conhecimento. Não é bom viajar para o Japão sem conhecimento algum sobre a historia do povo Japonês. Por que agem desta ou daquela maneira? Faça algum estudo antes de ir ao Japão. O nível de educação é importante para se aprender com novas experiências. O mesmo é válido para um Japonês que vai para a América ou para a Europa. Em qualquer sociedade as pessoas deveriam respeitar a educação e o que há por trás dela - trabalho honesto, aprendizagem. Eu vi que alunos com boa educação levavam o aprendizado com mais seriedade.

Quando estive no Japão vi vários tipos de dojo mas um em particular me deixou confuso. Alguns eram para universitários. Uns para famílias. Mas outros pareciam ter apenas Japoneses jovens, fortes e com os cabelos bem curtos. Estas pessoas não gostavam de treinar com estrangeiros e mulheres. Quem são eles?

Algum tipo de anti-social - membros de gangues que praticam artes marciais. Estes tipos não se importam de machucar as pessoas. Igual algumas gangues de motoqueiros. Estes tipos são quase que bandi-dos - ruins. Mas todas as sociedades tem os seus. E nem só nas artes marciais. São muito isolados - marginais. Alguns se assemelham aos red-necks (como são chamados os Americanos ultranacionalistas ). Talvez os nacionalistas Japoneses não gostem de mais ninguém. Mas existem grupos de todos os tipos e dojo de todos os tipos.

Se, por exemplo, um Ocidental for para uma cidade em Shikoku e quiser achar um dojo para treinar, não sabendo ler ou falar Japonês, o que deveria fazer?

Esta é uma pergunta bem difícil. Existem alguns tipos de associações e organizações para ajudá-los nos estudos de artes marciais. Vá para um budokan. Quase todas as cidades tem um. É possível que tenham até uma biblioteca, ou escritórios. Alguns budokan são nacionais, alguns locais. São centros admi-nistrativos para o budo. Eu acredito que a maioria tem o suporte dos governos locais.

Seria correto eu achar que os professores dos budokan são de alto nivel?

Sim, acho que sim. Vá ao budokan. Não vá para um dojo das gangues. Estou falando muito sério! Tenha muito cuidado! Alguns Japoneses detestam os gaijin (estrangeiros). Algumas pessoas tem a mente muito pequena. Estes grupos existem em todos os países.

O Sr. disse que é preciso ter um motivo sério para aprender. Como poderia um Ocidental, que não fala Japonês, explicar o seu propósito?

Não é preciso explicar. Precisa mostrar. E é bom ter uma carta de recomendação de algum profes-sor. Cartas são importantes. Se te dou uma carta para você entregar no Hombu todos o acolherão. Não fala Japonês, não interessa. Você é meu aluno. Os alunos que vão para o Japão com a minha recomendação não enfrentam problemas. Nunca tem problemas.

Se eu for treinar no Japão e sou um faixa preta, devo usar esta faixa ou uma faixa branca?

Alguns diriam para usar a preta e outros diriam para usar a branca. Eu não ligo. Uma faixa é uma faixa. Alguns faixas pretas agem como faixas brancas enquanto que alguns faixas brancas se comportam melhos que faixas pretas. Observe os costumes locais - diferentes regiões do Japão tem costumes diferentes sobre essas coisas.

E sobre os doguis que tem símbolos costurados neles? Um Ocidental deveria usar este tipo de dogui no Japão?

Para min não há problema algum. Tudo que você faz demonstra quem você é. O que você acha? Os dojo Japoneses usam símbolos para mostrar de onde vem. Use o bom senso. Seria respeitoso? No Japão é muito importante quem o seu professor é. Existem faixas pretas destas e daquelas organizações, o que significa faixa preta? Depende de quem é o professor.

Se um Ocidental for estudar artes marciais no Japão não sabendo falar o idioma, o Sr. teria alguma sugestao de frases para que ele se comunicasse com os professores ou os alunos mais graduados?

Procure estudar o básico da língua de qualquer lugar que você vá. Os Ocidentais acham que todos falarão inglês no Japão. Negativo. E aprenda, também, a linguagem cortês. É muito importante dizer obriga-do, com licença e olá. Mostrar respeito. Mostrar gratidão. As vezes os Americanos são estranhos. Alguns pensam que o mundo todo fala inglês. Geralmente os Americanos vão para outros países e já saem indagando se as pessoas falam inglês. Pessoas de outras nacionalidades não agem assim. Os americanos - da costa Oeste à costa Leste - falam a mesma língua. Mas fora dos EUA, quantas pessoas falam Inglês? Só os Ameri-canos forçam a barra perguntando se os outros falam Inglês. É de muita arrogância. Você não acha?

Nunca vi a questão por este ângulo.

Se eu vou para a França peço perdão por não falar Francês, não saio perguntando se os outros falam Japonês. Percebe a diferença? O Inglês não é a língua oficial do mundo. Tome cuidado para não ser arrogante. De uma cultura à outra, é preciso ser um diplomata.

Parece que o Sr. está dizendo que se os Ocidentais não aprenderem um pouco que seja dos costumes japoneses se passam por arrogantes ou desrespeitosos?

É. É o que penso. Quantas pessoas de outros lugares vem aos EUA e saem perguntando: Você fala Francês? Não. Talvez seja uma coisa boba, só que estas coisinhas são importantes. Os Americanos, com toda a certeza, dirão: "Você fala Inglês?".

Por que você acha que isto acontece?

Não sei. Talvez falte um pouco de sensibilidade para ... na maioria das vezes eles não tem com quem conversar. No país todo falam o Inglês. É uma grande surpresa quando não falam. Não se trata apenas sobre a língua. Ë sobre comunicação. As artes marciais tem muito a ver com comunicação. Forçar a barra não é bom. A América é um grande país, sim. Todos a respeitam. Não é preciso arrogância.

Mudando de assunto, como deve reagir um Ocidental que treina no Japão às provocações dos Japone-ses no dojo?

Esta é uma questão muito difícil. As vezes é só um mal-entendido. Na sociedade americana estão todos no mesmo nível, são todos iguais. Em outras sociedades também. Mas no Japão a cultura tradicional esta bem estruturada: sensei, sempai, kohai... os americanos tem dificuldade para aprender isso. Quem está acima? Quem está abaixo? Professores e alunos tem posições bem definidas. Tem que ser assim. Talvez não seja provocação. Pode ser um sempai dentro de suas atribuições. Contudo, eu compreendo 'provocação'. Covardes. Eu não preciso deles no meu dojo.
E também, a América e a Europa são bem diferentes uma da outra. São Ocidentais distintos. Os Europeus entendem melhor que os Americanos as artes marciais porque tem consciência de classes. Reis, cavaleiros. Os EUA e a Europa são completamente diferentes um do outro - do meu ponto de vista, como Japonês. A maioria dos Americanos não compreendem que posições dentro de uma sociedade podem ser bem definidas. Os Americanos tem dificuldades em seguir regras de autoridades. Eles falam: "Ah, o sensei ensina desta maneira, mas minhas idéias são diferentes". Os Europeus não protestam tanto. Você compre-ende? Eu acho que é mais fácil um Europeu ir para o Japão e entender, do que para um Americano. Muito dificil para os Americanos. Muitos alunos Americanos agem como cowboys.

Isto é um preconceito normal...

Não é preconceito...

Dizer que os Americanos são cowboys...

Eu não acho que é preconceito.

Não é preconceito...

Não é. Na realidade, os Japoneses vêem os alunos Ocidentais - Americanos, Australianos, Euro-peus - da mesma forma. Mas as atitudes dos alunos Americanos são as de um cowboy.

E quando o Sr. ensina na América do Sul? Eles se parecem mais com os Europeus ou com os Ame-ricanos?

Europeus! Eu sinto que eles tem uma tradição... uma sociedade mais bem estruturada. Os EUA tem apenas duzentos anos. Tem uma constituição. Todos são iguais. Para outros países fica difícil de com-preender. Não existe um sistema hierárquico como o sempai-kohai. Não há tradição. Os Americanos tem pouca tradição de classes sociais, que facilitaria a aceitação destas classes dentro da sociedade. Muito difícil. Os Sul-americanos ainda tem a influência européia - Espanhóis, Portugueses, Alemães, estão todos lá.

Algum dia a cultura Americana conseguirá sustentar sua própria tradição nas artes marciais sem a idéia de divisões sociais encontradas no Japão?

Uma pergunta muito difícil. É isto que eu me questiono. É um paradoxo. Os Americanos detes-tam igualdade.

O que?

Todos dizem: "Eu sou diferente dos outros". Mas a constituição diz que todos são iguais. Mas os Americanos parecem detestar a igualdade. Este é um paradoxo da consciência. "Eu sou único. Sou diferente dos outros". Na minha opinião esta é a típica mentalidade Americana.

As pessoas Japonesas não se sentem como sendo únicas?

Sim. Eles se sentem pessoas únicas - individualmente. Mas valorizam a cooperação e a harmonia. Ambas as coisas.

Os Americanos tem basicamente as mesmas idéias, não tem?

Eu não acho. Os Americanos detestam igualdade. Aí é que esta o grande problema. Ser diferente -como a bandidagem. Qual o melhor comportamento? Ser diferente ou ser igual? Os EUA são a sociedade mais bem organizada do mundo. Eles tem que ser, por causa do paradoxo. Atitude de um fora da lei. Atitude de um cowboy. Fantasia. Mas aonde está a organização? Percebe? Eles dizem: "Eu sou um fora da lei. Eu tenho liberdade".

Mas do Japão os Ocidentais assistem filmes de samurais onde o espadachim solitário sempre vence. É a mesma velha idéia do cowboy pistoleiro do velho oeste.

É. O jeito samurai é muito parecido com as idéias Americanas. Por isso os Americanos gostam dos filmes sobre samurais, filmes sobre a yakuza.

A imagem do samurai solitário no Japão parece...

Não são solitários. Estão agindo para a sociedade. O motivo é para a sociedade, justiça, ordem. As sociedades mais bem organizadas - o Japao e os EUA. Ambas sociedades gostam de algum tipo de fora da lei e a yakuza é a mais bem organizada de toda a sociedade Japonesa. Bandidos! As gangues, geralmente, tem leis bem severas. É outro paradoxo. Nos EUA você tem o Jesse James - fora da lei. Os Americanos adoram alguns tipos de fora da lei. O Japão também. Porem, os foras da lei são heróis para os jovens, não para pes-soas maduras. Ilusão. Junte-se a uma gangue. Não há liberdade. Você tem que usar tipo de camisa, um esti-lo de corte de cabelo e cores especificas. Não há liberdade, mesmo para os proscritos - especialmente para estes. Muitos alunos de artes marciais se fantasiam de bandidos. Jovens, não pessoas maduras. Estão brincando de foras da lei. Eles querem liberdade. Impossível. Não ligo para organização, mas preciso de organização. Querem liberdade. Como ter liberdade? Se há liberdade, quem protege esta liberdade? O governo dos EUA. Sendo um Americano, dirá: "Eu tenho minha liberdade". Eu acho que não. São todas as pessoas livres para matá-lo? Não. Muitas pessoas não compreendem isso. Você tem liberdade para viajar pelo mundo todo? Não se perder o seu passaporte. Somos mesmo livres? Podemos ser livres em outro país se não infringirmos as leis deste país. Será que temos total liberdade? Quem está por trás da sua liberdade?

As pessoa tem liberdade nas artes marciais no Japão? Em um estilo especifico, existe liberdade?

Quando o treino é natural, a liberdade é limitada. Não podemos voar no céu. Não podemos respirar embaixo d'água. Ao estudar a liberdade é preciso entender a não-liberdade. Os americanos tem uma ideia de liberdade como uma fantasia da realidade.

Dentro da escala de graus nas artes marciais Japonesas, existe, dentro do sistema, uma época em que a pessoa devesse ser livre para criar?

Não pode haver liberdade! A escala de graus nunca é sobre liberdade. É sobre responsabilidade. Se você não tem capacidade, não tem habilidade - do que estaria livre?.

Um aluno de budo deve aceitar o fato de que nunca será livre?

O que é liberdade? Você é uma pessoa inteligente - mas o que é liberdade? Liberdade tem um ou-tro lado que é sobre limitações. O físico é limitado. Sua biologia é limitada.

Então, o Sr. quer que eu aceite que a liberdade não existe?

Não existe liberdade! As pessoas realmente livres entendem que não há liberdade. Liberdade é ter um rumo.

Em uma sociedade especifica talvez encontremos escravos. Ele não tem liberdade alguma. Será que todas as pessoas desta sociedade são como o escravo?

Todos que tem limites na liberdade são um tipo de escravo.

Mas, o Sr. disse...

Jones! Você é livre? Quer voar como um pássaro? Vá em frente. Você é livre para tentar. Liber-dade compreende que o físico é limitado - não necessariamente o mental.

Uma pessoa que tenha experimentado o satori (iluminação), é livre?

A minha liberdade está no tempo ou espaço? O conhecimento da liberdade ou o conhecimento da falta de liberdade é a mesma coisa.

Então, mesmo o Budha não é livre?

Sem liberdade. As pessoas que experimentaram satori melhor compreendem que não há liberdade. Tudo tem que se conectar com tudo mais. Saber isso e viver isso é liberdade.

Por que os Americanos tem tanto interesse pelo conceito de liberdade? Para os Americanos, esta é a principal maneira que nos auto-definimos. Gostamos de pensar que somos pessoas livres.

Qual liberdade? Fantasia. Não são somente regras políticas. Tais regras não são biológicas, físicas. A sua lei diz que você é livre. Verdade. Se você é livre, de verdade, assalte um banco. Me mate. Bata as asas e voe como um pássaro. Você é livre? Se quer fazer tal afirmação - mesmo não tendo impor-tância alguma - diga que é livre dentro de limitações que lhe são impostas.

Mas um guerreiro, em combate, tem que ser livre...

Não! Um guerreiro em batalha não pode estar numa fantasia! É muito importante entender isto. Liberdade e limitações são a mesma coisa. Não há diferença. Não se pode escolher. Não se pode voar como um pássaro. Não se pode mergulhar como uma baleia. Todas as sociedades guerreiras - Apache, Árabe - sa-bem que não há liberdade. Lutar com o inimigo parece liberdade mas, de fato, nem tanto. Se eu o ataco, e exagero, não estou livre do que possa me acontecer.

Então, um professor de budo deveria ensinar liberdade e limitações como parte da mesma coisa...

Sim. Isso é filosofia militar. Isso é educação militar.

Quais seriam outros aspectos básicos da lei militar?

Não mate o próprio povo. A arte marcial pode ensinar como matar o inimigo, só que inimigo é inimigo do seu próprio povo. Nunca mate o próprio povo. Isto é uma lei biológica de todas as criaturas: nunca mate o seu próprio povo. Todas as leis do budo são biológicas. Uma extensão das leis biológicas. Isto é o bushido. Tudo se refere sobre a proteção do próprio povo.

Quando que este comportamento se torna espiritual?

Ele é espiritual! A lei militar é biológica. Quando agimos dentro das leis da natureza, leis de Deus, estamos agindo espiritualmente. O budo é uma extensão das leis naturais. Não seria real se não fosse - não teria significado. As pessoas falam sobre raças - branca, amarela, vermelha, negra - mas são todas pessoas iguais. Enxergar a mesma verdade naquilo que parece ser diferente é interessante.

De que maneiras os senseis de budo...

Os senseis de budo não são pessoas realmente importantes. Talvez sejam peritos em artes marciais. Mas, comparados com médicos que salvam vidas todos os dias ou com cientistas que descobrem novos alimentos para populações famintas - o professor de artes marciais, sendo apenas um professor de artes marciais, não é muito importante. Não é este o caminho. Machucar outras pessoas porque se é mais forte ou possuir mais conhecimento sobre técnicas de artes marciais - não devemos ter orgulho disso. Eu não tenho orgulho disso. Eu não respeito o Musashi. Ele é um bom matador. Muitos Japoneses respeitam o Musashi. Eu não respeito. Talvez tenham uma imagem de mim quebrando os ossos de outra pessoa - mas e o meu lado espiritual? Eu teria vergonha.

Como o Sr. percebe quando seus alunos estão desenvolvendo um entendimento espiritual das técni-cas? O Sr. vê ou sente isso?

Primeiramente, eu sei como matar outras pessoas. Mas o mais difícil é saber como ajudar outras pessoas sobreviver. É muito difícil. Saber como curar outras pessoas. É fácil machucar os outros, mas como fazer para curar outras pessoas?

Como é que alguém aprende isso?

É o mesmo poder mas aspecto diferente - curar e machucar. O mesmo poder com uma diferença mental.

Como é que eu aprendo a curar os outros?

Isto é satori ! Uma mensagem de Deus.

Todas as técnicas de artes marciais deveriam levar em consideração o bem estar das outras pessoas?

Depende da sua mente. Alguns talvez possam e outros não - ainda. Você deseja machucar ou curar? Faça uma escolha, mas isso é só o começo. Está no seu caráter. Se você carrega ódio, destrói outras pessoas e a si mesmo. O ensinamento do budo é sobre refinamento... mudar o ódio pelo bem. A raiva é importante. O ódio é importante.

Importante como?

Aonde está a diferença? Você tem ódios, Jones?

Eu...

Você seria capaz de me dizer que não tem ódios?

Não, eu tenho ódios.

É logico, porque tem um grande amor. Você detesta pessoas arrogantes? Detesta pessoas que fazem mal aos outros? Você os detesta.

Eu não gosto dessas pessoas...

Por que?

Eu...

Pense sobre liberdade e limitações. Pense sobre grande amor e grande ódio. O que acha?

Eu entendo o que está dizendo mas gostaria de pensar que...

Você gostaria de pensar que é livre também.

E quanto a Hitler? Ele tinha grande ódio, porém, o Sr. está dizendo que ele possuía grande amor?

Não se trata de certo ou errado. Hitler possuía grande amor. Em sua mente, amava o seu país, amava sua família, amava sua posição no poder. Um amor estreito. É lógico. É ingênuo pensar que o gran-de amor existe aparte do grande ódio. Isso cria confusão no pensamento. Podemos odiar por motivos morais e amar por motivos imorais. É sobre equilíbrio. É como a sombra. Eu respeito profundamente Jesus Cristo mas seu livro, a Bíblia, é responsável pela morte de muitas pessoas. Verdade?

Eu teria que concordar com isso.

Eu tento enxergar a realidade.

Mudando de assunto, o Sr. notou alguma mudança nos alunos de artes marciais Ocidentais nos últimos dez ou vinte anos?

Eles se interessam mais pelo assunto, hoje em dia. Estão melhor educados para isso do que vinte anos atrás. Isso dificulta e facilita o meu trabalho ao mesmo tempo. As pessoas vêem mais possibilidades nas artes marciais hoje que vinte anos atrás. Antes, era muito sobre a luta. Eu vejo cada vez mais alunos Ociden-tais compreendendo que as artes marciais não se tratam de lutas. O conceito das pessoas está se expandindo. Este é o resultado da educação.

O Sr. acha que as artes marciais estão em melhor situação hoje que vinte anos atrás?

Acho. As pessoas estão procurando mais. Eles esperam mais. Hoje há mais. Eu concordo com isso. Porém - uma coisa, filosofia gera confusão. Budo não é filosofia. Ë verdade universal. As pessoas criam filosofia em seus cérebros. O universo não cria filosofia - apenas realidade. A filosofia é o que separa esta arte marcial daquela. A realidade enfrentada pelas duas é universal. Lidemos com a realidade universal.

Sensei, muito obrigado pelo seu tempo.

Saotome: Mais uma coisa. Procure ajudar as pessoas e nunca estará errado.

 



 

 

 

 

 

 


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