ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com o novo Doshu Moriteru Ueshiba
(Por Stanley Pranin - traduzido para o Inglês por Derek Steel)

O filho do falecido Doshu, Kisshomaru Ueshiba e neto do Fundador Morihei Ueshiba fala sobre sua fundação e sua vida como o novo líder do mundo do Aikido.

Moriteru Ueshiba se tornou o sucessor à liderar o Aikido mundial, em seguida a morte de seu pai, Kisshomaru Ueshiba, em 4 janeiro de 1999. Nos seus 48 anos de idade, o novo Doshu assumiu o manto da liderança da rede mundial da organização Aikikai Hombu Dojo. Dentre suas maiores responsabilidades estão as longas viagens tanto dentro como fora do Japão e servir de figura chave no processo das decisões para os assuntos da organização. Aqui o Doshu fala sobre seus encargos presentes, seu relacionamento com seu pai e avô e suas idéias sobre o futuro do Aikido.

Quando voce começou a seguir no Aikido, com olhos no futuro, sabendo que seria um dia o herdeiro da tradição?
Isso aconteceu somente quando me tornei um estudante universitário, foi daí que comecei a seguir com uma consistência maior. Eu tinha que ir para a escola, e por isso eu só podia praticar durante umas
duas horas por dia, de manhã ou à tarde, dependendo de como era meu calendário escolar. Acho que era mais ou menos por duas horas diárias mais ou menos. Durante minhas férias (na primavera) ou quando tinha mais folga, eu praticava por mais uma hora, por exemplo, eu praticava por uma hora de manhã e duas à tarde, ou vice-versa. Mesmo após eu me graduar na escola, o passa se manteve o mesmo até eu fazer trinta anos. Por volta de 1979, meu pai adoeceu por um tempo, e desse ponto em diante, as responsabilidades com as aulas começaram mudar meu caminho gradualmente.

Voce diria que seu pai, Kisshomaru, foi quem mais te influenciou?
Ela dava aulas todas as manhãs e nas sextas-feiras à tarde, e eu estava sempre nessas aulas. Eu freqüentava as aulas de outros mestres também, mas eu tinha que viver sob o mesmo teto que meu pai, por isso o treinamento que recebi dele, com certeza foi o que mais me influenciou.

Havia alguma coisa que seu pai sempre enfatizava, quando falava a voce sobre a história do Aikido?
Ele não falava muito sobre esse tipo de coisas comigo. A maioria das coisas que ouvi ele dizer foram coisas que eu mesmo escutei após treinar regularmente por muito tempo com ele como meu professor, e quando eu o acompanhava em seminários, demonstrações e palestras. Ele nunca se sentou comigo quando estávamos em casa e disse: "Moriteru, é assim..." ou "Moriteru, essas são as coisas que quero que voce saiba..." De qualquer forma, desde a época em que eu nasci eu morava junto com meu avô, o Fundador do Aikido, e meu pai, o 2º Doshu, por isso, tenho certeza de que fui influenciado por ambos em muitas maneiras, mesmo eles nunca falando comigo especificamente sobre certas coisas. Eu nasci e fui criado no meio onde o Aikido se desenvolvia, em todos os aspectos, sendo eles técnicos ou outros qualquer.

Que tipo de treinamento seu pai te deu especificamente?
Eu treinava junto com todos os outros, por isso não havia tempo para ele me chamar de lado e me dar algum tipo de instrução particular. Ele sempre fazia questão de enfatizar alguns pontos enquanto eu estava treinando no tatami, como por exemplo, para sempre fazer a técnica cuidadosamente e livremente, para manter meus quadris baixos e manter os movimentos amplos. Mas em termos de como fazer nikyo ou sankyo ou o que voce esta fazendo, eu tenho visto e experienciado essas técnicas desde que eu era muito pequeno e já as entendia desde então, então eu nunca recebi nenhuma instrução especial detalhada sobre elas. Em suma, o que me ensinavam tinha a ver mais com os pontos principais mais amplos, como os que eu mencionei.
Também tenho que dizer que, mesmo meu pai sendo também meu professor, quando íamos para casa à noite, acho que nosso relacionamento era igual ao que existe entre qualquer outro pai e filho. (Risos)

Isso incluía o mesmo tipo de estado de "rebeldia" pelo qual alguns jovens passam durante uma época ou outra?
Bem, não, na verdade eu nunca fui contra meu pai dessa maneira, mas aparentemente eu fui um aluno infernal, durante o período de escola ginasial. (Risos) Eu entrava em todo o tipo de confusão, e minha mãe sempre era chamada n escola para contarem o que eu havia aprontado.
Por isso, acho que o ataques de rebelião que tive aconteceram fora de casa, ao invés de contra meu pai.

Como voce vê o desempenho de seu pai na história do Aikido?
O Aikido existe por que alguém o criou, mas o fato dele existir na sua forma atual, é em grande parte devido aos resultados cumulativos de esforços feitos por meu pai durante toda sua vida, baseados nem sua compreensão das intenções do Fundador. Eu penso que é devido imensamente àqueles esforços que o Aikido tomou a forma que tem hoje, e por isso se tornou tão popular e bem visto no mundo atual.

Olhando um pouco mais para trás, no processo de formulação do Aikido, o Fundador viajava sempre e adquiriu vários tipos de treinamento, e ele foi capaz de fazer isso graças ao grande apoio e entusiasmo de meu bisavô Yoroku, que o deixou andar em seu próprio caminho e o ajudou a fazê-lo. Minha avó também o apoiava, de seu modo, como sua esposa. Então, quanto ao Aikido que temos hoje, devemos uma grande parte aos esforços cumulativos de muitas pessoas diferentes. Ao mesmo tempo, existiram também muitas condições favoráveis, por exemplo, o fato de o Hombu Dojo haver escapado da destruição durante a Segunda Guerra.

Eu também mencionaria os esforços daqueles que trabalharam para o Aikido do Hombu Dojo a ser reconhecido legalmente como uma Fundação sem fins lucrativos (zaidan hojin) mesmo antes da guerra. Foi inicialmente reconhecido como tal em 1940, como a Zaidan Hojin Kobukai, e baseado nisso, foi mais tarde reconhecido elo Ministério da Educação como Zaidan Hojin Aikikai (Aikikai Foundation), em 1947. Assim o Aikido de hoje existe por uma combinação de todos esses fatores: sua criação pelo Fundador, os esforços de meu pai como Doshu, a sobrevivência do dojo durante os tempos de guerra, o estabelecimento do Aikido como uma Fundação sem fins lucrativos, assim como o apoio que o Fundador recebeu de seus pais, esposa e muitos outros.

Ouvi histórias sobre os esforços desesperados feitos por seu pai Kisshomaru, a fim de salvar o dojo dos inc6encios que tomaram grande parte de Tóquio durante a guerra.

Acho que só uns outros cinco edifícios nas redondezas conseguiram sobreviver. Até mesmo o edifício vizinho não resistiu e se queimou, por isso formaram também uma brigada de baldes, num esforço frenético para manter as chamas de consumirem o dojo.

Tudo teria que ser iniciado da raíz novamente, se o dojo tivesse sido destruído naquela época, por isso foi tão significativo para o desenvolvimento do Aikido que ele foi salvo.
Sim , acho que sim. Eu me lembro que quando eu era pequeno, ainda não havia muita atividade no Hombu Dojo. Durante um tempo ele estava em Iwama. Ele se casou lá, e por volta de 1949, ele trabalhou por uns sete anos numa compania chamada Osawka Shoji. Ele não teve escolha. Mesmo que se tivesse um dojo, voce não sobreviveria se ninguém viesse treinar, o que foi o mesmo o caso no pós guerra.

Por isso, ele achou um emprego como um funcionário comum numa compania durante o dia e dava aulas somente de manha cedo e à noite. Assim que as coisas começaram a se estabilizar um pouco, ele foi sendo influenciado gradualmente por várias pessoas a deixar a compania e a abraçar o Aikido em período integral. Penso que era muito apropriado para o filho do Fundador assumir uma posição de liderança, especialmente por isso ajudar a estimular o aumento na freqüência de novos membros.

Acabamos de fazer nossa 37ª Apresentação Anual de Aikido (no Nippon Budokan), mas as demonstrações naquela época eram dadas em locais como o telhado da Loja de Departamentos Takashimaya. Eu me recordo de Ter ido lá com minha avó para assistir uma delas. Acho também que meu pai encorajou entusiasticamente muitos dos alunos universitários que treinavam no Hombu Dojo a formarem clubes de Aikido em suas escolas, e assim, gradualmente foram aparecendo novos dojos de Aikido em muitas partes do país quando os alunos se graduavam e voltavam para as suas cidades de origem.

Encorajas a formação de clubes de Aikido parece ter sido um elemento importante na disseminação do Aikido. Voce chegou a treinar num desses clubes universitários?
Não, eu estava ocupado treinando no Hombu Dojo, por isso não tinha nenhum interesse em particular em treinar num clube universitário. É claro que isso também tinha a ver com o fato de que eu estava ocupado me divertindo fazendo outras coisas.

Ouvi dizer que ao invés de treinar Aikido, voce era membro do clube de caligrafia da universidade.
(Risos) Ah, isso eu era... eu queria melhorar minha escrita, mas confesso que não me dediquei muito seriamente. Eu estava no clube de caligrafia, mas passava meu tempo mais com meus amigos fazendo outras coisas do que estudando lá, como qualquer aluno universitário. (Risos).

Quando voce começou a viajar para o exterior para ensinar Aikido?
A primeira vez foi em 1975, quando fui com o Shihan Mamoru Suganuma para acompanhar o Doshu pela Europa. A atmosfera de treinamento em cada local era diferente em cada lugar em que estivemos, dependendo do professor que nos recebia. De qualquer maneira, era minha primeira vez no exterior, e tudo era novidade para mim. Me lembro de ficar impressionado por exemplo que nosso hotel em Roma, havia sido edificado de uma maneira que ele incorporava algumas ruínas antigas. Também me lembro de como o mar de Cannes era lindo. Para falar a verdade, a maioria de minhas memórias e impressões dessa viagem tiveram a ver por ser minha primeira viagem para o exterior, do que com o treinamento de Aikido. Nós estivemos fora somente por vinte e cinco dias, mas ainda assim com uma agenda bem lotada.

Me disseram que seu Inglês é muito bom...

Eu não diria bem isso! Eu costumava falar um pouco, mas ultimamente eu acho que ele está piorando! (Risos)

Existem aqueles que dizem que as técnicas com as mãos vazias (Taijutsu) são a base do Aikido, enquanto que outros dizem que o Aikido é chamado de "budo-compreensivo" (sogo budo) que inclui o uso de armas. Qual é a sua opinião?
É certamente verdade que o Fundador sempre treinava com armas como o ken (espada) e jo (bastão) e explicava que esse eram o Aikido; mas a maioria de meu treinamento foi sob a tutela de meu pai, o prévio Doshu, por isso estou mais inclinado a aceitar a interpretação que ele teve durante sua vida, que é a de que as técnicas com as mãos vazias são a fundação do Aikido. Isso não quer dizer que haja algo errado com treinos com ken e jo, e as pessoas que são interessadas neles devem continuar a praticá-los.

Não há razão para proibi-los. É perfeitamente aceitável que as pessoa queiram incluí-los em seu treinamento, mas eu acho que seria um erro insistir que eles são (a base do) Aikido.

Voce chegou a ter a oportunidade de treinar com o Fundador?
Muitas pessoas me perguntam isso. Eu sei que soaria e cairia muito bem para minha imagem se eu dissesse: "Sim eu tive muitos treinos especiais com o Fundador", mas não foi esse o caso. (Risos) Eu estava por preto dele quando eu ainda era muito pequeno, então eu o assistia bastante. Eu vivia sob o mesmo teto com ele e freqüentemente eu o via treinando, e também freqüentava suas aulas matinais, mas eu não acho que havia alguma coisa especial sobre meu treinamento com ele. Às vezes o Fundador ensinava a classe toda, mas haviam horas também em que meu pai estaria ensinando e o Fundador entrava um pouco e acrescentava seu ponto de vista geral sobre u que a classe estava fazendo. Isso foi meu treinamento com ele. Às vezes durante as aulas da manhã, ele me chamava para conversarmos como amigos, como um avô com seu neto, mas ele nunca me disse para entrar no tatami e treinar.

Voce o achava um pouco amedrontador?
Não. Posso imaginar que seus alunos podem tê-lo achado isso, devido ao relacionamento professor-aluno, mas eu era somente seu neto e ele nunca perdeu o controle comigo da maneira que pode ter perdido com os outros. Na verdade, ele nuca ficou nem bravo sobre alguma coisa comigo, mesmo quando eu era pequeno e costumava sentar lá e bater na cabeça dele me divertindo. Eu não me lembro, mas dizem que eu sempre fazia isso! (Risos).

O tempo de relacionamento da família Ueshiba com a religião Omoto chega a quase oitenta anos. Que significado tem a Omoto para a família atualmente?
Obviamente, meu avô sofreu muita influencia da seita Omoto no processo de criação do Aikido, e particularmente pelo Sensei Onisaburo Deguchi. Meu pai cresceu nesse meio, mas eu não acho que ele chegou a ser influenciado por ela na proporção em que meu avô foi. Ele sempre foi consciente a ponto de se manter e observar os vários ritos e funções associados, mas ele não visitou a Omoto muitas vezes da maneira que meu avô visitava, e eu também não.

O próprio Fundador tinha um templo Omoto que construiu, e quando ele veio a falecer, um cacho de seu cabelo foi depositado lá na maneira tradicional. Sempre que fazemos a cerimônia do Taisai ("Grande Festival" uma cerimônia anual que comemora o falecimento do Fundador), nós temos os pastores da Omoto associados com aquele templo vem executar os rituais, mas essa tradição está baseada no relacionamento do Fundador com a Omoto, não a família Ueshiba. Na verdade, o templo da família Ueshiba ainda é Kozanji, na cidade de Tanabe, Província de Wakayama, e lá é que as cinzas do Fundador estão depositadas.

O próprio Morihei Ueshiba foi profundamente influenciado pela Omoto no processo de formulação do Aikido, então esse relacionamento se mantém até um certo ponto; mas acho que o relacionamento com Kozanji como templo dos ancestrais da família ainda é o mais profundo dos dois.

Durante os anos 70 houveram várias pessoas que deixaram a organização do Aikikai por diferentes razões, mas que mais tarde quiseram voltar e foram permitidos de volta. Me parede que esse tipo de mentalidade aberta na aceitação foi algo que o Doshu passado achava ser extremamente importante. Como pessoa muito próxima dele, eu acho que voce poderia nos contar alguma coisa sobre a concepção dessa atitude por parte dele?
O Fundador sempre dizia: "não existe expulsão (hamon)do Aikido". Existem aqueles que deixaram o Aikikai, mas nunca foi porque alguém pediu para eles saírem. Meu pai teve a mesma atitude. Se as pessoas que deixaram a organização eventualmente quiserem retornar, não há razão para não aceitá-los de volta. O único dilema que pode ocorrer é que aqueles que deixaram a organização por um certo tempo e retornaram, inevitavelmente terão alguma influência sobre os que ficaram por todo o tempo. Mas o Aikido não é sobre eliminar ou remover os outros, é sobre construir a harmonia, sobre aproximar as pessoas. Esses são os fundamentos básicos do Aikido, e esse é incontestavelmente o tipo de pensamento que formou a resposta de meu pai como Doshu em tais situações.

Até hoje, o Aikido tem sido praticado fora do Japão por mais de quarenta anos, e dentre esses participantes no exterior, existem uns poucos que iniciaram seus estudos com professores do Aikikai no Japão, mas que acabaram por formar grupos independentes. Mas também existem aqueles que vieram ao Japão querendo desenvolver laços mais fortes com o Aikikai. Como voce acha que essa situação deve ser encarada? Sob a maneira tradicional de pensar Japonesa, a aproximação mais correta seria passar pelo professor Japonês que originariamente o ensinou, mas para alguns grupos, circunstâncias passadas tornaram isso impossível.
O Aikikai agora inclui um departamento de Assuntos Internacionais. Pessoas que desejam desenvolver ou re-desenvolver relações com o Aikikai devem enviam seus pedidos, juntamente com a documentação e informação necessária, para esse departamento, o qual será capaz de analisar o que pode ser feito. Em cada caso é diferente, é claro, mas contanto que o processo adequado seja obedecido, penso que a maioria dos grupos poderá retornar ao Aikikai.

Qual é o significado da International Aikido Federation, criado em 1975, para o Aikikai?
As pessoas que organizaram o International Aikido Federation ainda estão por aí, então voce deveria perguntar a eles e não a mim, mas, no geral eu acho que o propósito mais óbvio era o de assistir o sutil desenvolvimento do Aikido no exterior. Isso foi há 24 anos atrás, e o mundo do Aikido é consideravelmente maior agora, do que era então. Nesse ínterim, a facilidade com que podemos trocar informações hoje, por exemplo, usando a Internet, assim como o desenvolvimento de uma rede mais acessível de transportes, fizeram do meio social de hoje, completamente diferente do meio social que existia naquela época.

A International Aikido Federation é organizada num modelo Ocidental de democracia, e enfatiza a importância dos relacionamentos bilaterais. Em contraste a isso, o Aikikai é uma fundação sem fins lucrativos baseada mais no tipo familiar tradicional - ou no sistema de linhagem iemoto, com uma forte estrutura vertical. Como voce acha que essas duas organizações diferentes --- uma estruturada horizontalmente e outra verticalmente --- podem se reconciliar de modo que pudessem trabalhar juntas com sucesso?
As diferenças mencionadas realmente apresentam algumas dificuldades, mas mesmo se existirem algumas discórdias no relacionamento, eu acho que as coisas poderiam ir muito bem entre as duas e não existiriam na verdade muitas disputas sérias entre as duas.

Existem não Japoneses que tem a idéia de que uma organização "democrática" é um tipo onde todos podem votar no processo de formar decisões sobre os assuntos mais importantes. Mas não seria mais correto entender a International Aikido Federation com se estivesse sob o guarda chuva do Aikikai, e devido ao sistema de graduação de Dan são vistos não pela Federação mas pelo Aikikai, é na verdade o iemoto que serve como fundamento e tem controle sobre tudo?

O Aikikai é, claramente, o fundamento a base, mas isso não quer dizer que ele toma todas as decisões por todo o tempo, não se importando com o que o outro lado possa querer. Essencialmente, o Aikikai é um grupo de pessoas que originariamente veio crescendo junto, baseado na sua interpretação comum do Aikido, como foi criado por Morihei Ueshiba, pessoas que eram membros da organização e que se desenvolveram com ele. Esse grupo de pessoas foi durante o processo de formação, reconhecido pelo governo Japonês como a entidade legal chamada de Aikikai.
As atividades do Aikikai incluem atividades no exterior, e a International Federation representa um estabelecimento dentro dessa estrutura horizontal, com suas próprias regras, regulamentos, e oficiais. Naturalmente, as decisões dentro de uma organização horizontal são feitas pela regra da maioria, e de fato seu regimento prevê especificamente isso. Quer dizer que existem instâncias inevitáveis nas quais as coisas não são encaradas da maneira que o Aikikai acha que deveriam ser. Se voce cria uma organização e dá a ela suas próprias regras, isso naturalmente irá acontecer. No entanto, como eu já expliquei anteriormente, o Aikikai ainda é essencialmente uma organização que compreende pessoas que concordam com o Aikido criado pelo Fundador e se juntaram de maneira a preservá-lo e respeitá-lo.

O Aikido é um dos poucos Budo modernos que ainda mantém o sistema iemoto. Também é um dos poucos em que o sucessor oficial ainda continua a praticar a arte. O que significa para o Aikido esse sistema iemoto ainda ser usado?
O Aikido não é o tipo de arte marcial em que existe uma competição para determinar a superioridade, pelo contrário, é uma arte que luta para criar a idéia essencial de forjar o respeito entre as pessoas. A questão é, como é que vamos nos organizar e expandir para conseguir esse ideal de maneira coordenada? A resposta --- e isso não é uma coisa que eu decidi pessoalmente --- é que a aproximação mais natural é basear essa organização no sistema iemoto que tem uma longa tradição no Japão. Eu duvido que existam muitos Japoneses que questionariam isso ou achariam estranho; isso é porque nós achamos isso tudo muito natural. Mesmo quando uma pessoa que não é Japonesa me pergunta o porque disso, o que posso dizer é que tudo parece ser uma parte de nossa herança, algo que é uma parte de nós, como um DNA. Eu acho que existem coisas que não são muito fáceis de se explicar muito bem. (risos)

Sim, como voce diz, isso parece natural, e a maioria dos Japoneses parece aceitar isso dessa maneira. E seu filho mais velho? Ele tem interesse de eventualmente sucedê-lo um dia como Doshu?

Ele nasceu e foi criado no mesmo meio ambiente que eu fui, e na verdade, ele até participou do 37º Demonstração Anual de Aikido de todo o Japão, que neste ano, incluiu uma celebração em memória ao falecimento de meu pai. No momento ele ainda está em seu terceiro ano escolar, mas eu acho que ele se tornou muito mais interessado no Aikido do que eu fui nessa idade, e ele parece estar fazendo um bom trabalho em seu treinamento. (risos)

Olhando para a história do Aikido, além de ter sido fortemente influenciado pela Omoto-kyo, o Aikido aparenta ter sido grande apoio de muitos indivíduos com alto status na sociedade. Enquanto o Fundador residia em Ayabe ele tinha contato com pessoas como o Almirante Seikyo Asano e o Almirante Isamu Takeshita e, mais tarde, através dessas amizades, com pessoas como Gombei Yamamoto e outros líderes políticos daquela época. Muitos desses contatos pré-guerra continuaram no pós-guerra até certo ponto, com pessoas como Kenji Tomita e Kin'Ya Fujita se tornando diretores do Aikikai logo após o final da guerra. O ex-Primeiro Ministro Toshiki Kaifu seria outro. Fale-nos por favor, seu ponto de vista no tipo de papel que essas pessoas desempenharam no desenvolvimento do Aikido.
Os períodos de pré e pós-guerra foram eras diferentes no Aikido. Particularmente antes da guerra, o Aikido mal era conhecido no mundo e foi somente devido ao tipo de apoio que voce descreveu que o Fundador conseguiu vir a Tóquio. Acho que o fato de que pessoas como essas apoiaram Morihei Ueshiba tão veementemente, atesta fortemente suas opiniões de que ele na verdade tinha algo maravilhoso para oferecer. Como voce disse, esses relacionamentos ainda continuaram no pós-guerra, o Senhor Kaifu foi iniciado no Aikido através de um contato entre meu pai e o Senhor Yoshimasa Miyasaki.

O Sr. Kaifu chegou a praticar o Aikido?
Sim, durante os dias em que ainda tínhamos o antigo dojo em madeira. Obviamente, hoje em dia ele esta muito ocupado com seu envolvimento com o governo, por isso eu acho que seria mais difícil para ele treinar agora. Tanto antes como depois da guerra, Mitsujiro Ishii (um antigo chefe da organização Asahi News, ativo na promoção do aiki budo e do Dayto ryu aikijujutsu antes da 2ª Guerra Mundial) estava encarregado da diretoria do Aikikai, e Sunao Sonoda, um ex Ministro de Gabinete, vinha treinar todos os dias de 1955 até o final doa anos 60.

Eu creio que ele também serviu como primeiro presidente da All-Japan Aikido Federation. Se voce der uma olhada nas programações de eventos e demonstrações antigas, voce vai encontrar os nomes de pessoas como Sensei Ishii e Sensei Sonoda. O neto de Ishii também treinou aqui por um longo tempo. O fato de que o Aikido teve esse tipo de apoio foi claramente devido a maravilhosa personalidade de Morihei Ueshiba e o Aikido que ele criou. Essas relações levaram a muitas coisas positivas e eventualmente, eu acho, para influenciar positivamente na sociedade. Eu também mencionaria que foi devido aos esforços para compreender e disseminar a vontade do Aikido que o ajudou a continuar adiante, e eventualmente ser adotado por tantas pessoas como é hoje em dia.

O Shihan Shigenobu Okumura uma vez disse em uma entrevista de uma edição antiga do Aikido Joural que, as três maiores contribuições de Kisshomaru Ueshiba para o Aikido, forma sua organização, transmissão e teorização.


Eu concordo, o Aikido existe hoje não somente devido a pessoa que o criou, mas pelo esforço mútuo durante todos esses anos de outras pessoas que o ajudaram a se desenvolver. É por isso que meu pai foi até honrado com um prêmio pelo Governo Japonês, por seus serviços como Doshu nesses assuntos.

Que tipo de aspirações voce tem como terceiro sucessor da tradição do Aikido? Quais os sonhos para o futuro do Aikido que voce espera realizar?

Ah, me perguntam muito sobre isso! (Risos). O Aikido foi criado por um homem, daí desenvolvido e disseminado por outro; então o que é que eu vou ser para o Aikido? Minha resposta é que o que eu farei pelo Aikido não será em escala tão grande. Penso que meu papel estará mais ligado com criar e manter um caminho que as muitas pessoas que têm ajudado a trazer o Aikido até esse ponto --- assim como aqueles que estão acabando de descobrí-lo --- possam continuar a caminhar juntos, um caminho que permita a eles continuar praticando juntos, com o espírito de amizade e solidariedade.

Quando eu era menor, o Aikido era muito desconhecido para a maioria das pessoas, mas isso mudou, e agora existem consideravelmente muito mais pessoas que pelo menos ouviram falar dele. Por ele ter vindo tão longe, a meta gora é continuar a levá-lo de maneira clara e ordenada, que reflita realmente a essência do que ele realmente é. Por isso, ao invés de ficar dizendo que eu farei isso e aquilo com o Aikido, acho que é mais importante que eu simplesmente ajude a manter um meio no qual possamos continuar a fazer o que já estamos fazendo tão bem.

Seu estilo de vida mudou alguma coisa quando voce assumiu a posição de Doshu?
Não muito. Antes da saúde de meu pai declinar, costumávamos dividir as tarefas de ensino tanto no Japão como no estrangeiro, ma durante os últimos dois anos de sua vida, ele ficou incapacitado de viajar para fora do Japão, então comecei a ir em seu lugar. Nesse sentido não mudou muito para mim, porque eu já estava assumindo algumas dessas tarefas. Mesmo que as coisas que eu fazia não tenham mudado, o sentimento de responsabilidade que vem ao ser Doshu é com certeza mais pesado, então me sinto completamente diferente nesse respeito.

Posso imaginar. Mas devido a sua personalidade, eu duvido que voce será o tipo de líder que se senta numa nuvem, pelo contrário, será o tipo amigável e fácil de se conhecer.

(Risos) Sim, espero que sim! O rosto de meu pai com quarenta e oito anos era muito mais séria do que o meu hoje, com a mesma idade. É claro que, ele era mais fácil de se lidar do que sua expressão facial aparentava, mais porque ele cresceu numa era diferente, mais severa.

A época durante os anos de guerra devem ter muito a ver com isso. Parece que existe uma diferença entre as pessoas que passaram por essa época e as que não passaram.
Certamente, as pessoas da geração de meu pai tendem a ter um pouco mais de austeridade sobre si mesmos. Bem, eu suponho que não consegui dar o tipo de respostas que voce esperava. Existem pessoas que provavelmente esperavam que eu dissesse coisas como: "Sim, como neto do Fundador, eu sempre treinei com ele desde a época em que eu era pequeno!", mas infelizmente eu nunca conseguiria fazer colocações como essas. (Risos) Pelo contrário, eu aprecio sua franqueza, porque tenho certeza de a maioria de nossos leitores e outras pessoas da comunidade do Aikido também irão apreciar. Muito obrigado por ter gasto seu tempo e expressado suas idéias conosco.

(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro -Instituto Takemussu Sorocaba)
Texto extraído do Aikido Journal nº 03 - Vol 26 - 1999



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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