ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES

Entrevista com Lou Perriello 7 Dan
por Mark Binder

 

Mark Binder é um novelista e um escritor profissional freelance. Além dos seus artigos sobre Aikido, ele escreveu para Home office computing, Eating well, Pizza Today e Beer - a revista. Suas estórias foram publicadas em jornais e revistas por todos os E.U.A. e Canada. No ,momento ele está trabalhando em um livro chamado "At the still point - Meditações sobre a técnica Alexander" Ele é 2º Dan em Aikido e prática no Northeast Aikikai, Chelmsford, Massachusetts.

"Nosso entrivistado fala manso e parece com o tio de alguém, cabelo prateado, porte grande e óculos de aro dourado, quando
ele não está no tatame. As aparências enganam: Lou Perriello tem 35 anos de prática de Aikido e extensa experiência no ensino de táticas policiais de defesa pessoal. Como um dos primeiros alunos de Aikido da Costa Leste dos Estados Unidos ele ajudou a fundar a Federação de Aikido dos Estados Unidos. Mais recentemente ele assumiu a responsabilidade pelas divisões de Aikido de ambas a Associação de Judo dos Estados Unidos e da Associação de Artes Marciais dos Estados Unidos. Nós falamos com ele no Northeast Aikikai , o dojo de Massachusetts que ele fundou em 1978."

AJ: O Aikido era virtualmente desconhecido nos Estados Unidos nos anos 60. Como você se envolveu?

Perriello: Em 1962 eu estudava Judo quando Hatanaka Sensei começou a ensinar Aikido em Boston. Eu vi e não fiquei impressionado; parecia que as pessoas caiam porque isso tinha sido combinado.Na primeira aula da qual eu participei, Hatanaka Sensei demonstrou o nikyo mais brutal que eu jamais senti em minha vida e me fez acreditar. Em 1965, o Doshu veio à Boston com Yamada Sensei. Nós literalmente arrastamos todos os artistas marciais que tinham um dogi para dentro do dojo para a aula. Nós tinhamos 80 pessoas no tatame e o Doshu, obviamente achou que eles eram todos alunos de Aikido. Após a aula, Fred Newcomb, o líder do dojo, persuadiu Yamada Sensei a pedir ao Doshu para nos enviar um instrutor japonês. Em
outubro de 1966, o Hombu Dojo enviou Kanai Sensei para Boston.

Quantos alunos praticavam Aikido em Boston nesta época?

Os primeiros anos foram realmente difíceis para Kanai Sensei. Ele veio esperando 80 alunos mas apenas de 6 à 8 praticavam regularmente. O primeiro dojo em que nós treinamos era no andar de cima de um clube de striptease. Nós pagavamos o aluguel
e tentávamos sustentar Kanai Sensei da melhor maneira possível.

E haviam os problemas com a língua?

Quando Kanai Sensei chegou , ele não sabia falar Inglês então nós apenas ficávamos olhando e imitando as técnicas. Ele gostava de bater em Fred Wagstaff. Ele sempre atirava Wagstaff muito forte, Fred olhava pra ele, sorria e o xingava. Kanai sempre sorria de volta e dizia "arigato" ( obrigado) . Cinco anos depois, Fred estava sentado na saleta uma noite e Kanai entrou. Seu rosto estava vermelho. Ele estava furioso. Ele andou até Wagstaff e bateu nele com força dizendo,". Após todos estes anos eu finalmente sei do que você me chamava no tatame".

Você sentia que o shihan estava batendo em vocês?

Não, nós praticávamos muito mais forte e rápido nos anos 60 e princípio dos 70 do que se faz hoje. As técnicas eram mais duras, os ataques mais fortes.

Porque você acha que a intensidade do Aikido mudou?

Acho que é uma questão econômica. Para se estabelecer e sobreviver ensinando uma arte marcial como o Aikido, você não pode bater nas pessoas, você perde alunos.

Como você se envolveu na fundação da Federação de Aikido dos Estados Unidos?

A USAF consolidou o Aikido como uma organização no fim dos anos 60, filiando-se ao Hombu Dojo, estabelecendo diretrizes para graduação e promover o Aikido pelos Estados Unidos. Eu trabalhei com Frank Regan criando diretrizes e tentando organizar uma constituição e normas. Eu me ofereci para estabelecer a organização da forma que o Shihan queria.

Como foi?

Foi muito divertido (sorri). Eu sinto falta da camaradagem e das pessoas; o Aikido não era político, não havia muito controle. É uma pena que todas as pessoas que começaram treinando comigo em Boston não pratiquem mais.

Porque você deixou a USAF e se uniu à Associação de Aikido da América?

Após me tornar um instrutor profissional de Aikido, Eu tive que enfrentar obstáculos, com as pessoas me dizendo onde eu podia dar aulas e onde meus alunos podiam dar aulas. Isto era inaceitável. Por 15 anos, enquanto o Northeast Aikikai e meus alunos apoiavam a USAF , era impossível pra eu conseguir um Shihan ou instrutor para vir ao meu dojo para ministrar um seminário. O único instrutor que vinha ao dojo regularmente era Sekiya Sensei. Seu estilo não era exuberante, mas muito poderoso. Ele enfatizava mais a energia interior do que a força bruta. Haviam objeções à suas visitas à outras escolas na área. Ele não estava tentando estabelecer nenhuma organização ou levantar bandeiras. Tudo que ele queria era dividir seu conhecimento e técnica com todos nós. Depois de tentar sem sucesso resolver estes problemas, eu fui forçado a renunciar da USAF.

Você acha que questões políticas conflituam com a filosofia do Aikido?

Eu vou lhe dar uma resposta curta e suave. As questões políticas são questões econômicas e todas giram em torno de dinheiro: quem vai fazer dinheiro e quem não vai. Quem tem o poder tem o controle. Eu penso que o Aikido se resume em Shu-Ha-Ri , os três estágios no ciclo de treinamento. Shu, o primeiro estágio, consiste em construir a fundação técnica da arte, a lealdade a um único instrutor ; Ha , o segundo estágio, quando você deve refletir no sentido e objetivo de tudo que você prendeu; Ri significa ir além ou transcender. No estágio Ri, a arte torna-se realmente criação do praticante. Infelizmente, nós agora temos uma situação onde os alunos alcançam um nível e então começa a filosofia de "balançar a cenoura". Não importa o quanto eles cheguem perto, nunca vão alcançá-la. Shihan parece um clube privado e exclusivo ; você tem que ter nascido no Japão, estudado com o fundador ou treinado no Hombu Dojo. Não se deixe ficar preso no estágio Shu do ciclo de seu treinamento de Aikido. É por isso que novas organizações eclodem a todo momento. Elas percebem que batendo cabeça contra a parede não vão chegar a lugar nenhum. Então elas procuram outra organização ou se tornam completamente independentes.

De que forma as divisões da Associação de Judo dos Estados Unidos ou da Associação de Artes Marciais dos Estados Unidos são diferentes?

O objetivo da divisão de Aikido da USJA é disseminar o Aikido para os milhares de artistas marciais fora do Aikikai. Minha missão é gerar o mesmo Aikido de qualidade com estas pessoas que os Shihan tentaram criar através de suas associações. Existem 150 ou 200 artistas marciais para cada praticante de Aikido. Muitas destas pessoas querem praticar Aikido. Existem também muitas pessoas que não estão satisfeitas com organizações sediadas no Japão; eles preferem promoções através de
organizações nacionais. Isto acontece em muitos países europeus onde o desejado certificado de dan vem de organizações nacionais que são geralmente preferidas aos Aikikai. Em outros países você vai encontrar muitos indivíduos que possuem o 7º Dan dado por organizações nacionais enquanto que o grau no Aikikai é apenas 5º. Isto não significa necessariamente que a qualidade de seu Aikido seja melhor ou pior que a de um 7º Dan treinado no Hombu. Antes da pessoa receber um nível na USJA ela tem que fazer um exame. Se desejar ser examinada deve apresentar credenciais de uma instituição genuína de Aikido. Se um aluno da USJA ou USMA quiser, ele pode tornar-se membro de uma organização filiada ao Aikikai - USJA, ASU, AAA, etc., - e após satisfazer os requisitos e passando no exame ele pode receber o certificado do Aikikai.

Você se uniu à USJA a USMA para receber sua promoção a 7º Dan?

Não, a graduação não era a questão. Você não precisa de um número na frente ou atrás de seu nome para treinar e desenvolver-se no Aikido. O verdadeiro inimigo que você enfrenta é você mesmo. Você batalha pelo aprimoramento através da filosofia e da técnica. Algumas pessoas se perguntaram se Toyoda Shihan me ofereceu algum incentivo. Quando eu me uni à AAA, eu senti que o Aikido de Toyoda Sensei era igual ao dos outros Shihan, no entanto seu grau era 5º Dan, o mesmo que eu. Quando ele me entrevistou, ele me perguntou o que eu estava procurando, Minha resposta foi: "Respeito e reconhecimento para meus alunos e apoio para o Northeast Aikikai". O 7º Dan que a USJA e a USMA me concederam, é o que eles consideram o grau de um instrutor sênior. Os diretores destas organizações insitiram que eu precisava deste grau para dirigir os programas de Aikido. Ele é dado para indivíduos que treinaram e ensinaram Aikido por mais de 30 anos. Geralmente um instrutor treinado pelo Hombu dojo que esteja treinando por mais de 30 anos teria recebido o mesmo grau em menos tempo.

Há um conflito entre sua participação na AAA e seus papéis na USJA e USMA?

Antes de eu me envolver, eu tive uma longa conversa com Toyoda Shihan. Sua missão é a de disseminar o Aikido e ensiná-lo para quem deseje aprender por todo o mundo. Ele disse, "Não há regra que diga que você só pode pertencer a uma organização. Se você não assumir a responsabilidade por estas organizações, outro o fará. Esta é uma oportunidade de divulgar o Aikido para pessoas que normalmente não tomariam contato com ele através de um Aikikai. Se você assumir a responsabilidade por estas organizações, você estará se comprometendo a estabelecer padrões comparáveis com os do Aikikai. Vá à luta".

Que tipo de Aikido você ensinará a estes outros artistas marciais?

Enquanto o Aikido cresce em popularidade por todo o mundo, a interpretação individual da arte varia. Nós estamos tentando enfatizar que o Aikido é uma arte marcial efetiva. Nós ensinaremos todos os conceitos básicos, tais com centro, postura baixa, alavanca, usar o movimento do corpo do outro contra eles mesmos, ligação. O mais difícil de ensinar é o tai sabaki (girar o corpo). A maioria das outras artes marciais depende de confronto e enfrentamento com golpes. Nós priorizamos sair da linha de ataque e o movimento junto com a outra pessoa, redirecionando sua força para uma técnica de controle. Nós não tentamos vencer. Nós tentamos controlar a situação através de primeiramente atitude e depois técnica. Ainda é Aikido, mesmo que você o chame Aikido USJA , Aikido USMA, Aikido USAF ou Aikido AAA.

Qual a diferença entre ensinar policiais comparado a ensinar alunos normais de Aikido?

Em um seminário do qual eu participei em 1978, Saito Sensei enfatizou que no aikido, as vezes nós precisamos instigar para produzir uma resposta. Quando a pessoa reage nós ligamos e usamos nossa técnica de Aikido. Na força policial você não usaria atemi. É tão simples como se você se oferecesse para um aperto de mão. "Olá , meu amigo, me dê sua mão" e então você parte para uma técnica de controle. Desde o caso Rodney King em Los Angeles, a polícia tem enfatizado táticas de controle. Eu utilizo três ou quatro técnicas básicas que são muito eficazes e nas quais você pode entrar à partir de várias situações. Através da repetição e da prática de troca de papéis, eles aprenderão o suficiente para se lembrarem delas quando precisarem. Isto não muda atitudes apenas lhes dá outra ferramenta para desempenhar seu trabalho. A não ser que eles se tornem alunos permanentes, virtualmente tudo que eles fazem é feito com o uso de muita força física. Eles não aprendem nenhum dos conceitos de energia interna, mas funciona. Eu recentemente recebi um relatório de uma guarda de prisão que conseguiu mover uma detenta usando uma técnica básica de sankyo: outro guarda de uma prisão de segurança máxima foi capaz de controlar várias situações usando nikyo.

Você continuou a desenvolver seu Aikido?

Eu dou aulas seis dias por semana. Antes de começar a treinar com Sekiya Sensei, minha técnica sempre foi muito poderosa mas eu sentia que era mais força física do que energia interna. Após treinar com ele, eu tendo a baixar meu corpo duas ou três polegadas a mais enquanto faço as técnicas.

É difícil mudar suas técnicas depois de praticá-las por tanto tempo?

Eu tentei roubar tudo que pude de cada instrutor com o qual eu treinei. Talvez roubar não seja uma boa palavra: eu tento fazer a técnica da forma que o instrutor que a demonstrou descreveu e descobrir se ele funciona bem para mim. Quando eu ensino, eu tento mostrar a variedade de formas para se alcançar o mesmo resultado. A forma como você entra e a extensão podem ser diferentes. Isto dá aos alunos uma oportunidade para experimentar e desenvolver a técnica por eles mesmos sem clonagem. Eu não digo: "Você tem que fazer desta forma e se você não fizer então está errado".

Um dos detalhes que você enfatiza é trabalhar a pressão ou relaxamento entre o polegar e o indicador?

Quando você quer forçar a extensão, que é muito importante para superar a força da parte superior do corpo da pessoa, a forma como você deve fazer isto, em qualquer tipo de pegada no pulso, é fazendo alavanca contra o polegar e o indicador, indo de encontro ao ponto mais fraco na mão. O uke é forçado ou a estender seu braço ou a soltar, porque você vai quebrar a pegada. Você deve aplicar pressão suficiente contra o polegar e o indicador para forçar a extensão do braço da outra pessoa e fazê-lo mover-se sem soltar. Isto controla o centro do outro, controla seu ki.

Eu notei uma certa reticência por parte dos instrutores da Nova Inglaterra em falar sobre ki.

Meu entendimento de ki é basicamente o conceito de energia interna, uma combinação de centro, movimentar-se com uma postura baixa, relaxamento, deslocar seu peso em uma postura baixa em seus joelhos. De um lado para o outro , de cima para baixo, ligar com o oponente através da extensão. A maioria das pessoas que tem praticado por muito tempo tiveram a experiência de quando o uke ataca e o nage se liga completamente com aquela pessoa. Tudo está perfeitamente certo; eles se movem com o uke como engrenagens girando, eles acabam jogando aquela pessoas em esforço. Meu entendimento é que quando você vive uma técnica como esta, você está experienciando o ki, o fluir da energia interna, força e completa união com um oponente. Isto é algo que todos nós buscamos. Eu uma vez perguntei a Osawa Sensei, "Como você consegue isto o tempo todo?" Ele parecia jogar as pessoas sem esforço sem nem se dar conta. Eu nunca esquecerei sua resposta. Ele apenas sorriu e disse "Prática". Eu ainda não consegui fazer luzes mágicas e raios saírem de meus dedos, mas estou trabalhando nisso (ri). É claro que em algumas ocasiões alguns de meus alunos mais graduados viram flashes de luz quando caíram no tatame. (ri novamente)

Nos diga o que você mais gosta sobre os ensinamentos no Northeast Aikikai?

Ver as pessoas se crescendo e aprendendo. É um sentimento recompensador tirar uma técnica da minha cabeça - algo que talvez tenha levado anos para desenvolver e refinar - e colocá-la dentro da cabeça de outra pessoa. Eu mostrei sutilezas a meus alunos graduados centenas de vezes sem que eles pegassem o sentido delas. E de repente, iluminação! Depois de centenas e possivelmente milhares de repetições eles entendem o conceito. Eles o colocaram em sua técnica e subiram mais um degrau. Não importa o quanto você ache que você sabe, sempre há algo mais. Você pode aprender observando os iniciantes tanto quanto observando os outros instrutores, não importando o nível. Nunca pense que você sabe tudo. Um verdadeiro praticante de Aikido é um aluno até o dia que morre. Você está aprendendo para sempre.

 




 

 

 

 

 

 


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