ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Kyoichi Inoue 9 Dan
YOSHIKAN HOMBU DOJO-CHO
Por Stanley Pranin

Kyoichi Inoue é o Instrutor Chefe do Yoshikan Aikido Hombu Dojo em Tóquio. Inoue era um dos instrutores iniciantes no sistema, tendo iniciado seu treinamento em 1955. Nesta entrevista, Inoue Dojo-cho fala sobre o desenvolvimento da metodologia de ensino de Yoshikan durante os anos quando Gozo Shioda Kancho era o "Líder" da arte. As características particulares do programa Yoshikan vieram em grande parte da adequação para necessidade de ensino de grandes grupos de iniciantes ao mesmo tempo. Inoue Sensei também explica a finalidade do novo Manual de Técnica Bilingüe para facilitar a tarefa de instrutores de Yoshikan Aikido no mundo inteiro.

AJ: Através do Aiki News você teve recentemente publicado um Manual Técnico de Ensinamento. Que tópicos especificamente você tinha na mente quando preparou aquele livro em particular?
Inoue Dojo-cho: Uma importante coisa que queria levar era que budô - e neste caso Aikidô - não é algo misterioso. Tentei escrever o texto de modo que deixasse claro que ninguém pode fazer budô, a não ser que treine muito, coloque em mente, e faça o maior esforço para treinar corretamente. Keiko (treinamento) é u meio ou processo para trazer o potencial inerente em cada indivíduo, e neste livro tentei descrever e explicar que desta maneira este processo é tão fácil de entender quanto possível.

AJ: Você usou o Manual de Treinamento publicado pelo último sensei, Gozo Shioda, como base ou fundamento?
Sim, Shioda Sensei era meu professor, então era muito natural que escrevendo meu próprio livro sobre aikido, deveria me referir não somente as coisas que ele me ensinou na visão dele do aikido, mas também, opiniões e pensamentos sobre como fazer vídeos e escrever livros e assim por diante. Se você estivesse procurando, a influência dele pode, provavelmente, ser encontrada através de livros e em formas variadas.

AJ: Além disso, ele (o livro) também contém perspectivas que são unicamente suas?

Diria que sim. Shioda Sensei vinha de uma era diferente e antiga e, desse modo, acho que minha forma de pensar é provavelmente mais moderna que a dele. Tentei incluir maneiras atualizadas de pensar ordenadamente para fazer as coisas fáceis de entender. Muitos livros antigos e manuais de treinamento são escritos de uma forma que as fazem difíceis de entender. Parcialmente aquele estilo era usado para ajudá-lo a ter senso de autoridade, mas nesta época acho que é simplesmente melhor fazer as coisas mais claras para se começar. Claro que mesmo sendo o livro didático, fácil de entender, faz-se necessário controlar as habilidades e ter tempo para se esforçar durante o treinamento.
Você também notará que o texto é fornecido em japonês e inglês. Senti que até um formato bilingüe ajudaria instrutores japoneses que querem saber com expressar coisas para seus estudantes que falam inglês. Também, tendo o inglês equivalente, pode algumas vezes ajudar profissionais japoneses a melhor entender o significado de algumas das mais elevadas especialidades da terminologia budô até agora conhecida.
E, é claro, os estudantes de aikidô que falam inglês podem usar o livro para saber como conversar sobre o que eles estão estudando em japonês e estudar termos japoneses com significado e nuanças que não podem ser expressas facilmente em inglês. Em qualquer caso, o fato de que o livro tem muitas seqüências de fotos e explicações claras, faz dele um progressivo e extraordinário livro, que espero ser largamente usado no Japão e internacionalmente.

AJ: O livro parece trazer muita aproximação orientada do budo e ajuda a preservar os sentimentos de Shioda Sensei sobre o Aikido, sua maneira de fazer as coisas e a satisfação de suas técnicas. Desse modo acho que é um importante documento que preserva muito das técnicas e o aspecto espiritual do Aikido que ele aprendeu do fundador antes da guerra. Também enquanto livros em linguagem européia tendem a ser traduzidos para o inglês muito rapidamente, as barreiras que a língua impõe parecem impedir que o mesmo aconteça com os livros escritos em japonês. O formato bilingüe deste livro o faz internacionalmente conhecido, como um documento, preservando as técnicas de Shioda Sensei em japonês e inglês. Comovido, gostaria de perguntar a você sobre aspectos do sistema de treinamento Yoshikan. Começando com: Noto que há varias técnicas que são praticadas de acordo com o comando de voz do instrutor. Como e porquê estas maneiras de treinamento se expandiram?

Voltando, quando estava treinando sob o comando de professores como Shioda Sensei, Kiyoyuki Terada Sensei, Tadataka Katsuo Sensei, mas mesmo assim as instruções eram melhores conduzidas pelo Sensei Morihei Ueshiba; em outras palavras o professor simplesmente demonstrava a técnica e então induzia os estudantes a prática sobre o que eles acabavam de ver. Eles (estudantes) algumas vezes discutiam detalhes do treinamento. Mas essencialmente eles apenas demonstravam o que seria a técnica, e então diziam: "Ok, vamos praticar".
Entrei no Yoshikan em novembro de 1955, cerca de meio ano após Tsukudo Hachiman-cho dojo ter sido feito. Tornei-me um dos primeiros kenshusei a participar no programa de treinamento intensivo que começou na primavera seguinte, e tendo sido enviado mundo afora para ensinar as organizações tais como a academia de treinamento de polícia, o batalhão de polícia e as forças internas japonesas.
Freqüentemente encontrava-me tendo que ensinar a um largo número de estudantes de uma só vez, então tive que desenvolver várias maneiras para dar o treinamento com eficácia. Uma vez quando estava ensinando tai no kenko para a Associação Educacional da Juventude da Força de Defesa de Kinugasa, um dos estudantes perguntou-me quantos graus exatamente ele deveria dobrar seu corpo. Eu disse a ele, "Bem, depende de quanta força seu adversário está aplicando, mas sobre este ângulo ..." e mostrei a ele.
Peguei de volta a questão para Shioda Kancho e nós decidimos que deveríamos ser hábeis para dar respostas claras para tais perguntas. Nós demos ênfase a este pequeno tópico e achamos que voltando somente 90º deixaríamos o adversário ainda em posse de seu poder (equilibrado), enquanto virando 100º fecharia muito o maai. Então decidimos fazer 95º. Somente como regra geral, é claro; obviamente depende da situação específica.
Fizemos a mesma coisa com outros aspectos de treinamento, por exemplo, como ensinar a postura hamni. Quando começamos, fomos ensinados da maneira "fique deste modo" e é como nós temos ensinado nossos alunos, mas não havia nenhuma descrição específica, por exemplo, distribuição de peso na frente e parte detrás dos pés. Então, nós os kenshusei, nos reunimos e decidimos que a mais exata descrição parecia ser mais ou menos 60% do peso na perna da frente, 40% na perna detrás. Levamos isso para Shioda Kancho e ele disse que parecia certo, então é o que constava no livro didático.

AJ: E sobre o método de prática dos movimentos chamados "passo a passo", colocando todos na prática dojo em harmonia?
O que originou por volta de 1963 quando estava ensinando na academia de polícia onde algumas vezes tive que ensinar tantas quanto 300 estudantes ao mesmo tempo. Primeiramente eu pegaria o mais forte garoto e o usava para demonstrar técnicas como shihonage e só então explicava a todos a prática do que eles acabaram de ver. Não demorou muito para descobrir que isto não funcionava bem.
Em um grupo numeroso, ninguém parece ser hábil para entender claramente suficiente o que eles estavam supondo estar fazendo, e consequentemente algumas pessoas estariam praticando muito, mas muitas outras terminavam apenas brincando com o treinamento, e eu estava desperdiçando todo meu tempo correndo tentando corrigir e ensiná-los individualmente. Poderia dizer que não estávamos chegando em lugar algum.
Comecei usar o método de "comandos", permitiu-me ensinar todos de uma vez e quebrar cada técnica em relação aos movimentos de uma maneira fácil de entender. A única dificuldade era certificar-se que não dei os comandos em momentos que causassem uma parada repentina no meio do caminho.
Por exemplo: diria a todos: - peguem uma certa postura hamni! E então corrigir o que estava errado, como por exemplo: "Suas mãos estão muito baixas.. Não, muito altas .. Hei, abram seus olhos!" Ou quando ensinando alguma coisa como katatemachi shihonage, os mostraria algumas vezes explicando como o adversário deveria segurar a mão do outro, então como o defensor faria passo 1, então passo 2, então passo 3, então passando pelo 4, então executa um golpe no passo 5 então se levanta e retorna para posições iniciais nos passo 6 7. Depois eles pareciam ter "pego" a idéia geral, agiria desta maneira por várias vezes para depois recomeçar apenas com os números. Depois de cinco ou seis vezes os deixaria aplicar a técnica de uma só vez e logo após trabalhar aos pares alternando entre ataque e defesa e finalmente mandá-los praticarem sozinhos, era a única maneira do professor conduzir 300 alunos.

AJ: Eu posso imaginar como deve ser difícil ensinar Aikido para 300 iniciantes.
Sim, muito difícil. Uma desvantagem de realizar técnicas com comandos, todavia, era a tendência de torná-las pessoas rígidas, então as técnicas se tronariam muito "para - começa". Para compensar isto, uma pessoa tinha realizado a ordem de shodan, nós começamos a deixá-las praticar um tipo de técnica mais livre que fazia com que as técnicas fluíssem mais livremente.
Ensinando e praticando técnicas com comandos, era um método muito educacional. Mas professores como Ueshiba Sensei e Shioda Kancho, deveriam sentir algumas restrições sobre este método, desde que eles sentiram que as técnicas deveriam ser de qualquer maneira que você tenha que fazer algo para quebrar o equilíbrio do adversário baseado no grau de força que ele está usando; mas ainda acho que é uma boa maneira de dirigir grandes grupos de iniciantes e tronar as coisas mais fáceis para os professores, assim sendo.
Tendo desenvolvido este sistema para técnicas de ensinamento, nós decidimos aperfeiçoa-la ensinando o kihon dosa (movimentos básicos). Nós o dividimos em seis tipos, incluindo duas versões de cada tai no henko (giro do corpo) , hiriki no yosei (cultivo do poder do cotovelo) e shumatsu dosa (movimentos finais), então nós adicionamos movimentos avançados de técnicas do centro de gravidade, movimentos de desvio e movimentos finais, todas designadas para mostrar os vários relacionamentos entre shite e uke. Todos estes foram trabalhados durante minha geração de kenshusei.
Shioda Kan-cho assistiria o que estávamos fazendo e nos diria se o que ele pensava estava ok ou não e também nos dava várias recomendações e conselhos, o resultado era o método de instrução que é ainda usado no Yoshinkan hoje.

AJ: Se estivéssemos de volta no período Edo que é o tipo de sistema que teria sido escrito em um secreto pergaminho de transmissão (Nokuroku).
Provavelmente sim. Obviamente não há necessidade para ocultar tal tipo de conhecimento em um pergaminho. Mesmo se você lê-las, não há maneira de entender o que na verdade significam, e somente pessoas que já são muito hábeis poderiam entender seus contentos.

AJ: Como você veio ensinar no Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio?
Inoue Dojo-cho: Shioda Kancho tinha um velho conhecido chamado Sr. Takahashi que foi o diretor do departamento de segurança no Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio. Por volta de 1960 ele perguntou para Shioda Kancho se ele poderia arranjar alguém para ensinar aikido para o batalhão de choque sob jurisdição.
Primeiro Kancho, ele mesmo foi ensinar, mas depois das aulas, ele começou enviando pessoas como Takashi Kushida, e eu mesmo, no seu lugar. Depois de cerca de 1 ano ele estava decidido selecionar um certo número de pessoas dessas calasses para serem treinadas como instrutores eles mesmos.
Cerca de 25 (depois reduzido para 10) deles - quase já instrutores práticos profissional de judô ou kendo, foram enviados para o Yoshikan (inicialmente por nove meses, mas mais tarde estendido para um ano) ser treinados como instrutores de Aikido. Estava começando o programa para iniciar membros da polícia de choque para o Yoshikan Dojo, e este liderou eventualmente para o estabelecimento formal em 1964, da força da polícia de choque o programa de treinamento da polícia. Devido a este programa ser usado largamente para treinamento especial da polícia de segurança no começo tentamos limitar a escolha para treinar os tinham mais ou menos 1,75 m (5'9'') de altura e tivesse mais ou menos 3º DAN em judô ou kendo.
Uma vez certificado como instrutores estas pessoas iriam retornar para o Departamento de Polícia para ensinar a outros, nos seus departamentos e começar programas para prover instruções de aikido para oficiais da polícia feminina e assim por diante. Em 1970, eu oficialmente juntei o staff da seção de treinamento do departamento de polícia metropolitana. Habitualmente teria sido difícil para um professor de aikido mostrar em cada organização, começar ensinando lado-a-lado aos instrutores de kendo e judô já estabelecidos, mas o fato era que eu já tinha ensinado na polícia de choque por 10 anos, fazia isso muito mais fácil para eu ser aceito lá, especialmente desde que já conhecia mais que mais que assistentes e os instrutores chefe de judô e kendo.

AJ: Acredito que o Yoshikan tinha envolvimento com profissionais estrangeiros desde muito cedo e já tinha membros das forças de ocupação que vinham para o Dojo.
Sim, havia estrangeiros vindo praticar mesmo ... nos dias de Tsukido Hachiman Dojo.

AJ: Próximo outubro haverá um seminário Yoshinkan na Filadélfia, Estados Unidos. Juntando-se a você mesmo e outros instrutores japoneses, o grupo de ensino tem relacionado instrutores não-japoneses como o americano Amos Parker e Jacques Payet da Franca. Acho a inclusão de não-japoneses entre o grupo de ensino, em um seminário, é um tanto único e demonstra a visão internacional da Yoshikan.
É que eles estão qualificados para participar de tais atividades no nível Shihan, tem o fato que eles tem gastado considerável tempo treinando como uchideshe (viver como estudante) no Yoshikan dojo no Japão.
Pessoas como Jacques Payet tem vivido no Japão por muitos anos e tem feito um profundo estudo não somente do currículo técnico de Yoshikan, mas também da cultura japonesa em geral e lês tem sido hábeis para trazer profundo entendimento posterior de países nativos. Naquele senso eles estão muito qualificados para representarem papel nas atividades nível. Há outras que não tem gastado muito tempo treinando aqui no Japão, e de quem o estímulo tem principalmente sido recompensado no exterior.
Pessoas como estas não devem ter tido uma oportunidade para obter um grande entendimento do espírito japonês, e eles podem somente tentar, o melhor que eles podem fazer para inserir o aikido em suas próprias culturas e fora do contexto sócio cultural japonês, como manusear tais casos é algo que teremos muito que pensar a partir de agora.

AJ: Como você sugere, acho que internacionalização do Aikido continuará de modo lento tão logo os instrutores não japoneses envolvidos gastem tempo recebendo instruções no Yoshikan e tendo continuado um entendimento da cultura e língua japonesa e também se o lado japonês em questão fizer esforços para entender e realmente prepara-los. Seria ideal se a comunicação e a troca de informações entre os quartéis generais japoneses do Yoshikan e os praticantes afora pudessem mantê-las, do modo mais direto possível
.
Concordo, se você compara o aikido Yoshikan com um automóvel, o Hombu Dojo é o motor, e por isso tem obrigação de se esforçar e convergir todos.

Tradução Livre: Fernando Coutinho.

KYOICHI INOUE, Yoshinkan Aikido Hombu Dojo-cho.
Nasceu em 1935. Entrou no Yoshinkan Aikido Dojo em 1955 e mais tarde tornou-se instrutor Junior e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do método de sino do Yoshinkan Aikido. Tornou-se instrutor da Academia de Polícia Metropolitana em 1970.
Retirando-se desse posto na Academia de Polícia em 1970 após 25anos de serviço. Assumiu a posição de Do-cho do Yoshinkan Aikido Hombu Dojo em Maio de 1996.
Atualmene é 9º Dan.Yoshinkan Hombu Dojo, Kami Ochiai 2-28-8, Shinjuku-ku,
Tokyo 161-0034, 03-3368-5556



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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