ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Diálogo entre Doshu Kishomaru Ueshiba e Isamu Kurita.

Nesse artigo, o Doshu explora os pensamentos sobre a antiga filosofia Shinto do Fundador, do autor, filósofo e educador, Isamu Kurita. Muitos se encontram preocupados hoje no Japão pela perda gradual do que faz do Japão um país sem igual, e essa conversa entre dois praticantes de espada e caneta, nos enche de reflexões.

Circunstâncias em comum quanto a doenças

Kurita: Já li vários de seus livros e percebi que voce foi afligido por várias doenças quando voce era criança. Eu também não tive saúde muito boa quando criança, e até foi dito por um médico na época, que eu não sobreviveria até a metade do ginásio na escola.

Doshu: Tem razão. Agora, pensando dessa maneira, vejo que nós realmente temos algo em comum com nossas doenças na juventude. Posso sentir que há uma ligação comum entre nós. (risos)

Kurita: Perdoe-me (risos). Mas devo confessar que, para uma pessoa com seu tipo de fraqueza, iniciando-se na prática das artes marciais e continuar sendo como o chefe de uma organização de Aikido com mais de um milhão de integrantes é, no mínimo estranho e milagroso.

Doshu: Com certeza há um grande papel de meu pai e muitos outros fatores, mas o resultado final foi que eu resolvi me dedicar completamente ao Caminho do Aikido. A coisa mais interessante é que, uma vez que tomei essa decisão de me dedicar completamente ao Aikido, eu me esqueci da fraqueza de minha constituição física, de estar doente e outras coisas. Pode-se dizer que tornei-me uma Mente Única e Imóvel. Foi nessa época que também adquiri o gosto pelo álcool. Foi me dito por vários jovens que iam e vinham nessa época, que voce não discutir assuntos mundiais e política se não souber beber, e minha reação imediata foi eu vou mostra a eles, e após isso comecei a beber sozinho. Comecei a me sentir confiante na minha habilidade de saber beber bastante, mas um dia um lutador de Sumo chamado Tenryu, que morava no Dojo nessa época, me disse: Voce pode ser capaz de beber bem, mas a quantidade que voce consegue beber não é nada, se comparada ao que estamos acostumados a beber. Depois de observar três ou quatro lutadores de Sumo beberem duas garrafas de Saquê uma noite, tive que confessar que ele tinha razão. Desse dia em diante, não me orgulhei mais de conseguir beber muito, Desde que minha doença se agravou, quando eu tinha uns sessenta anos de idade, me tornei uma pessoa ainda mais reclusiva.

Kurita: Certamente esse não é o caso (risos). Eu também tive que pagar pelos meus atos, nessa mesma época dos sessenta anos de idade, sofrendo uma virada para pior nessa mesma idade. Meu médico até me disse, voce está exibindo sinais de envelhecimento, e não ficaria surpreso se voce morresse amanhã. No sentido espiritual eu também me senti um pouco encurralado e comecei a ler algumas biografias de monges Budistas famosos e outros. Lendo sobre os monges mudando de Zen para seitas Esotéricas devido a emoção causada pela morte de seu professor, me fez compreender que, mesmo entre os mais graduados sacerdotes Budistas, é impossível que se chegue a uma morte ideal, somente com o treinamento espiritual. Pessoalmente, não sou particularmente interessado em atingir um final perfeito, mas meramente interessado em uma morte sem dor. Bem, nesse sentido, sem dor, pode significar ideal. Desse modo, comecei a entender que, se coisas como medicina e treinamento espiritual são realmente necessários, mas também é necessário o treinamento prático, físico. Foi então que me deparei com Kokyuho (Poder de Respiração). Conversei um outro dia com alguém sobre a transição do Controle da Mente para o Controle do Corpo, e me lembrei da inseparabilidade do corpo e do espírito. Estudei uma variedade de coisas relacionadas com Kokyuho e, ao descobrir o conceito de que A mente não pode controlar a mente sozinha; A mente deveria ser controlada pela respiração, aí comecei a aplicar uma rotina salutar simples, baseada somente em respiração abdominal. Os resultados tem sido muito positivos.

Doshu: É um prazer ouvir isso.

Kurita: Existe uma variedade de filosofias e escolas de pensamento que surgiram durante o Período Meiji, que foram baseadas no Ki. Avançando ainda mais na história antiga do Budismo, os sistemas baseados no Ki parecem existir desde há muito tempo e em várias formas, como as práticas ascetas do Monte Fuji e a Seita Tendai. O termo Kokyu não apareceu nessas práticas antigas, mas pode-se traçar seus conceitos físicos. A Yoga na Índia, por exemplo, é parte dessa continuação. É uma outra maneira de se expressar esse controle da mente e corpo, eu suponho.

Doshu: Sim, a idéia do Ki já anda por aí desde há muito tempo. Ki e Kokyu são coisas que começam a ser percebidas e sentidas através da prática do Aikido. Eu sempre uso a palavra Movimento, mas parece que essa palavra muitas vezes não é entendida corretamente. Isso não se refere meramente ao acúmulo de práticas físicas baseados em pensamentos relativistas de ganhar ou perder, mas pelo contrário, em tornar-se um com a natureza, removendo todos os elementos desnecessários. Dessa maneira, a energia flui de todo o corpo, é o resultado da mente e do corpo físico sendo um só. Isso não é possível apenas por aproximações intelectuais. Esse é o tipo de pessoa que eu acredito ser realmente qualificada para falar sobre Ki, esse é o tipo de pessoa que é capaz de fazer um Kokyu verdadeiro.
Isso é o que eu digo aos jovens com quem convivo hoje no dia a dia.

Kurita: Esse é um dos resultados de nossa tendência de ser pegos no mundo das palavras. Quando tentamos explicar Ki com palavras, soa meio amórfico, sem uma definição concreta e até suspeito. Na realidade, o Ki é algo que não deveria ser tão explicado, pois ele simplesmente se mostrará quando estiver aparente.

Doshu: Quando voce pensa sobre isso, ninguém deve ser atirado voando, simplesmente pelo fato de alguém estar gritando um Iyya!, com o Ki. Os atributos do Ki são milagrosos. O treinamento combina tanto o treino físico quanto o espiritual e é, de fato, possível primeiramente por essa combinação. Temo que, ao apelar por uma aproximação somente mental se obteria um resultado bem diferente. Acho que suas experiências descobrindo o Ki, Kurita-san, nascido ao se ter chegado ao limite extremo, é uma experiência muito valiosa.

Kurita: Em qualquer dos casos, eu não cheguei no KI como resultado de se buscar uma maneira de me manter saudável ou de crescimento pessoal. Minha aproximação, ao contrário, foi a fim de descobrir uma maneira de morrer sem dor. Percebi com tudo isso, que para se ter um final de vida satisfatório, deve-se estar vivendo bem. Foi aí então que o Ki me atraiu.


O Fundador como Gênio espiritual

Kurita: Existe uma história interessante que ouvi uma vez de um médico que diz que, quando ele fez sua primeira cirurgia em um humano, ele se surpreendeu ao ver que o interior do corpo não era lotado de órgãos internos, mas que havia muito espaço vazio. Em outras palavras, o corpo é Vazio. Esse médico sentiu que é esse mesmo vazio que, de fato, conecta o homem com o Universo. Isso é um tipo de forma ondulada (esse médico usou o termo ondulação de vida), é por essas ondas que o homem e o Universo se interconectam. Essa lembrança do médico cirurgião sobre sua primeira experiência cortando um corpo humano me impressionou, por essa nova perspectiva. Há uma tendência das pessoas se introverterem quando elas se concentram somente em seu próprio Ki. Nas palavras do monge Zen Hakuin, Isso é focalizar o Ki no Tanden do baixo abdome. É claro que, ao concentrarmos o Ki no baixo abdome, não significa nada mais do que focalizar um ponto no Universo inteiro. Foi então que compreendi a necessidade de se relembrar da conexão entre nosso ponto (Tanden) com todo o Universo. Sem dúvida, isso é uma coisa fácil de se errar no início.

Doshu: Certamente, quando estamos falando sobre a distância entre o nosso ser e o Universo. Se pensássemos primeiro no Universo, tendemos a parecer cada vez mais minúsculos.

Kurita: Lendo vários livros que voce escreveu, particularmente me deparei com as várias referências feitas pelo Fundador às frases e conceitos antigos da religião Shinto. Recentemente tem se dado muito enfoque aos assuntos da filosofia oriental e questões como quem realmente são os Japoneses? e qual é atualmente o centro da cultura Japonesa?. Por esse processo, se torna claro que a origem do pensamento e cultura Japoneses estão contidos nos mitos Japoneses sobre a criação do Universo. Isso nos levou, por sua vez, a renovação do estudo dos mitos Kojiki e Nihon Shoki, não como mitos para serem louvados e reverenciados como foram previamente, mas para serem analisados com uma aproximação mitológica, a fim de entendermos melhor a origem do pensamento Japonês.
Através desse processo, tem se dado muita atenção no tópico da origem da vida, ou Musubi. Na língua Grega antiga, há uma palavra similar chamada Pusis, que significa aparição da Vida e da Natureza, vindas do Nada. É o mesmo conceito de Musubi, na língua Japonesa antiga. Colocando de outra maneira, penso que a Natureza não é estática, não é uma força inanimada, mas pelo contrário, ela contém o poder de fazer nascer a energia.
Esse conceito não está originariamente incluído no que se refere a filosofia ocidental, e acredito que foi contra essa deficiência que Heidegger fez suas críticas ao pensamento ocidental. Isso é, por outro lado, uma das atrações que distinguem a filosofia oriental da ocidental.
A Vida como sua própria Criadora recentemente as pessoas tem se dirigido ao fato de que essas mudanças para estar em harmonia com a Natureza são, na verdade, movimento também. Acho interessante que o Fundador tenha se adentrado nessa área também.

Doshu: Os escritos de meu pai são muito difíceis e extremamente complicados de se ler. Mas, enquanto são difíceis de se ler, no entanto, as pessoas parecem ser atraídas por eles mesmo assim. Claramente, uma dos aspectos de Morihei Ueshiba é a necessidade dele ser compreendido por, como posso dizer..., um sentimento total do corpo físico ou pela aura que o envolve. Por exemplo, meu pai frequentemente usava a palavra ‘Kami’ (Deus) mas, como isso é muito difícil para as pessoas entenderem, ao invés dele eu geralmente uso a palavra ‘Natureza’, hoje em dia. Ao fazer essa conversão, devo dizer que hoje sinto estar faltando alguma coisa. É um problema de contexto.
Através de meu pai, tive a oportunidade de conhecer um grande número de pessoas de formações religiosas diversas, incluindo Onisaburo Deguchi. Não preciso dizer que essas indivíduos eram muito interessantes, que tinham sua própria filosofia e que, tomando saquê, nos relatavam seus métodos pessoais de exploração e pesquisas a fim de descobrirem a origem do pensamento Japonês. Eu aprecio muito na verdade, porque nessa época eu era uma pessoa que buscava descobrir a origem e o significado do Aikido, associando todos aqueles pensamentos.

Kurita: Voce não diz, por exemplo, que tudo é baseado no relacionamento entre o Homem e a Natureza, quando explica aos estrangeiros, as características que fazem do Japão um país único, diz? Mesmo assim, tudo que começa com a 'Natureza' parece sempre caminhar para o lado ecológico e dos assuntos sobre proteção ecológica do meio ambiente, não parece? (risos).

Doshu: As coisas sempre tendem a ir para um lado diferente quando surgem questões e discussões sobre isso.

Kurita: Pesquisando a origem da palavra Japonesa para Natureza (Shizen), tudo indica que foi primeiramente traduzida do Inglês por Amane Nishi, filósofo da era Meiji. Essa tradução Japonesa, entretanto, contém ambos os sentidos, o da palavra Inglesa 'Nature' e o da palavra Budista 'Jinen'. Originariamente, somente a palavra Budista existiu na língua Japonesa, hoje usada em frases, como ainda se escrevia. Não consegui achar uma maneira exata de se explicar esse significado, mas nos trabalhos do poeta famoso, Matsuo Basho, há a frase 'to o gênio (poder criativo) do Japão está ligado por um'. Esse 'um', aqui se refere ao conceito de 'retornar à Criação e seguir junto com os quatro tempos'. O termo 'Criação' (zoka), vem da filosofia chinesa de Lao Tsu, e contém o significado do Céu e da Terra, do Universo e da natureza, tudo dentro nessa mesma palavra. Os 'quatro tempos' que aparecem aqui, referem-se às quatro estações climáticas. Em outras palavras, Basho está nos dizendo que toda a arte e filosofia Japonesas são conectadas pela criação e pelas mudanças que ocorrem nas quatro estações. Originariamente, 'natureza' no Japão, era uma palavra como 'musubi', que descrevia a energia que produz a vida. Desde o Período Meiji, esse termo vem se modificando referindo-se, hoje em dia, mais a um fenômeno material.
Ainda é possível de se diferenciar entre esses dois sentidos na vida cotidiana Japonesa, mas é muito difícil de se explicar a estrangeiros.

Doshu: Eu concordo.

Kurita: Quando digo que o homem está dentro da Natureza, os Franceses não conseguem entender facilmente u que quero dizer. Isso acontece porque, para eles natureza se refere ao mundo material natural em nossa volta, como as árvores, a grama, e o meio ambiente. Ao mesmo tempo que é muito fácil de se entender somente com a cabeça, é muito difícil de se entender o significado completo desse conceito, vindo de países tão diferentes.

Doshu: Certamente, por a religião Japonesas ser basicamente uma religião natural, que precede a chegada dos ensinamentos Budistas.

Kurita: Correto.

Doshu: Por essa razão, nós Japoneses nos sentimos bem à vontade com o conceito de Natureza que estamos discutindo aqui. Não Japoneses, no entanto, teriam que se aproximar mais via um processo cerebral, que por si mesmo torna o conceito da natureza mais complexo. Meu pai costumava dizer que 'Aikido é o círculo de Musubi'. Nessa época eu era ainda muito jovem e confesso que em mesmo eu consegui entender o sentido de 'musubi', da maneira que meu pai usou-o na frase.

Kurita: Contido no 'musubi', quer dizer, o conceito da vida sendo gerado pela interação do Yin e do Yang. Assim como o mato no chão, ele é uma força de vida gerada de si próprio naturalmente. Quando se pensa nisso dessa maneira, a 'interação' aqui, soa muito similar ao 'Ai' do 'Aikido'. Ao chegarmos no final do que chamamos de pontos de vista universal -, vital- e mundial- , e pensarmos sobre a dificuldade de se expressar isso em palavras, percebo que o Fundador foi, por um lado, um gênio religioso por ter enfocado no 'Aiki' que é feito para o corpo.

Doshu: Bem, ele certamente foi um gênio em vários aspectos. Seus pensamentos nos conduzem a impulsos que geram o nascimento de idéias incríveis, que a maioria não nos dá. Subseqüentemente, isso seria então juntado a uma outra teoria, é verdadeiramente impossível de se imitar a sua teoria dos movimentos circulares e unidade com o Universo. A respiração de Kokyu também foi desenvolvida em um sistema regular de preparo físico. E quanto a mim, mesmo tendo uma constituição muito fraca desde pequeno, tive como aproveitar cinqüenta e oito anos de uma vida muito sadia. (risos)


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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