ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Shihan Kazuo Chiba
para a FIGTHING ARTS


O texto a seguir foi publicado primeiramente na revista FIGHTING ARTS INTERNATIONAL,
número 70.

O entrevistador é Arthur Lockyear.


Sensei, por favor nos conte como o senhor veio a estudar Aikidô?

Bem, eu era um entusiasta das artes marciais quando jovem, e decidi muito cedo pelo treinamento sério em, ao menos, uma delas. Eu comecei com o Judô e permaneci por quatro anos. Após isto eu mudei para o Karatê.

Você treinou no quartel general Shotokan, eu acredito. Como foi o treinamento lá?

Oh, eu realmente adorei aquilo, tinha um espírito duro de treinamento, muita satisfação. Eu gostei muito daquilo. Sensei Nakayama era o instrutor chefe, mas eu vi o mestre, Funakoshi Gichin, em algumas ocasiões. Eu me juntei à Associação Japonesa de Karatê um ano antes de o mestre Funakoshi falecer. Eu me lembro que houve uma grande cerimônia para marcar a sua passagem.

Estavam presentes alguns dos mestres do Shotokan naquele momento?

Sim: sensei Nishiyama, sensei Okazaki e sensei Kanazawa. Sensei Kanazawa era primeiro Kyu então, ou talvez primeiro Dan, eu não estou certo. Sensei Asano era terceiro Kyu e sensei Kase também.

Houve algo em particular que o converteu para o Aikidô?

Bem, quando eu era primeiro Kyu (o nível imediatamente abaixo da faixa preta) em Judô, eu entrei em uma competição e aconteceu de estar empatado o combate com meu instrutor no dojô - um segundo Dan, eu acho. Então eu o acertei e, após isto, ele veio a mim e disse: "Você desprezou meu judô, mas eu ainda tenho o Kendô." Ele me fez um desafio. Então fomos para fora. Ele me deu um bokken (espada de madeira) e tomou para si um shinai de kendô (espada de bambu). Uma vez começado o combate, eu não consegui acertá-lo uma só vez. Ele me bateu sonoramente e eu fiquei todo preto e azul de hematomas. Após isto eu refleti profundamente sobre o significado do Budô.
Eu procurei a arte marcial que fosse efetiva em qualquer situação, esteja o oponente armado ou não. Então eu eventualmente decidi que iria me tornar um aluno do mestre Ueshiba - o fundador do Aikidô. Eu fui direto ao Hombu (quartel general) mas eu não tinha nenhuma carta de recomendação, a qual era um requerimento necessário então. Eu cheguei ao Hombu e solicitei uma audiência com O'Sensei (mestre Ueshiba). Eles me disseram que ele não estava lá, e que eu deveria ir embora. Eu estava tão determinado a ser um aluno de O'Sensei que resolvi esperar pelo seu retorno. Então eu sentei no jardim do dojô e esperei. No final do terceiro dia O'Sensei retornou, e disseram a ele que um garoto louco estava à sua espera lá fora.
Bem, O'Sensei disse a eles para trazer-me para dentro. Eu fiquei aguardando do lado de fora de sua sala. Quando o painel se abriu, lá estava mestre Ueshiba. Seus olhos me fitaram pela primeira vez: foi um momento que eu nunca vou esquecer! Eu não sabia o que fazer, então eu me curvei tanto quanto eu pude. O'Sensei disse-me: "Artes marciais são muito duras, você pode agüentar?" Eu apenas disse: "Sim sensei." Então foi assim que fui aceito e me tornei uchideshi (aluno interno, ou aprendiz especial) de mestre Ueshiba.

Você começou a treinar Aikidô logo no início?

Não, não me foi permitido praticar diretamente. Eu tinha que limpar o dojô e todos os outros quartos do Hombu, além de lavar, fazer a limpeza, compras, encargos administrativos e servir toda a família do mestre. Também tive de trabalhar nos campos. Eventualmente me era permitido assistir às aulas e, então, após algum tempo, treinar. Ninguém me disse nada no início. Eu tive de ser autodidata. Afortunadamente eu já sabia fazer ukemi (quedas), então foi tudo bem. Eu decidi dar o melhor de mim para ser um bom uchideshi para O'Sensei, e aprender tudo o que me fosse ensinado. Este foi o melhor período da minha vida! Eu me lembro que O'Sensei também tinha uma forte presença... havia uma atmosfera muito especial quando ele estava por perto. Isto vinha de sua postura física - a maneira que ele sentava, a maneira que ele andava, a maneira como ele se movia - eram muito bonitas. Eu nunca pude ver nenhuma abertura na postura de O'Sensei... nunca. Seus olhos sempre estavam dourados, não escuros como é usual nas pessoas japonesas.

Seu período como uchideshi deve ter sido muito rigoroso.

Por um lado foi como um campo de batalha. Nós acordávamos todo dia muito cedo para trabalhar e treinar, e muitas noites eu tive que ficar acordado até tarde para esperar por Waka sensei (filho de O'Sensei, Kisshomaru - o atual Doshu, ou líder do Aikidô) até que ele retornasse de seu trabalho no escritório. Foi muito duro e intensivo, tanto que muitas vezes eu fiquei próximo de uma crise nervosa. Eu estava acostumado a ver coisas estranhas: toda noite um fantasma vinha até mim. Eu não sabia se era um homem ou uma mulher. Naquele tempo eu não imaginava quão próximo eu estava de um colapso, mas agora eu percebo. Toda noite um pouco antes de adormecer eu sentia que aquilo se aproximava de mim, e isto era realmente amedrontador. Eu podia sentir sua presença. Isto tudo acontecia de forma repentina e era como se um peso de uma tonelada fosse colocado sobre mim, e eu não podia me mover. E então eu achei uma solução para isto. Eu peguei meu bokken e coloquei-o na cama comigo e quando eu sentia sua presença eu segurava meu bokken fortemente... e aquilo tudo passava. Isto foi devido à exaustão, eu acredito.

Há muitos anos atrás você me contou sobre seu encontro com sensei Tamura. Você poderia repetir isto para os leitores da Fighting Arts, por favor.

Bem, foi um dia, depois da aula, e alguns dos alunos estavam praticando randori (prática de luta) no tatame. Eu estava em pé no corredor assistindo a isto, e um deles fez um convite para juntar-me a eles, e eu aceitei. Eu fiquei surpreso de ver como eles eram fracos, e eu arremessei repetidamente um homem o qual era Sandan (faixa preta terceiro grau) em Judô e Aikidô. Então o sensei Tamura me chamou e convidou a praticar com ele. Então "bang", sensei Tamura golpeou-me duramente no abdômen. Eu aprendi muito com aquilo, foi uma boa lição sobre ficar atento, distância e postura para mim. Eu acredito que sensei Tamura seja um dos melhores alunos do O'Sensei. Eu aprendi uma grande lição com ele no passado.

Existe algo mais que você gostaria de falar sobre... talvez sensei Saito?

Sim, ele é um grande mestre. Uma vez visitando os Estados Unidos eu o convidei a ensinar no meu dojô. Sensei Saito foi um discípulo especial do O'Sensei. Ele ficou com O'Sensei após a guerra para cuidar dele e gerenciar a fazenda no dojô de Iwama. Eu pude ver a responsabilidade que ele tomou para si, e ninguém mais poderia ter feito aquilo melhor do que sensei Saito o fez. Eu realmente estimo o trabalho do sensei Saito.

E sobre o Doshu... o sucessor do O'Sensei?

O professor diretamente responsável pelo meu treinamento foi sensei Kisshomaru Ueshiba. O'Sensei já havia se retirado para o lado montanhoso de Iwama, e somente vinha até o Hombu dojô ocasionalmente. O crescimento e desenvolvimento do moderno Aikidô, desde a guerra, é devido ao trabalho duro do Doshu. O seu Aikidô é muito bonito.

E sobre o mestre Koichi Tohei da Sociedade Ki?

Sim, sensei Tohei é muito bom. Ele é pequeno mas muito poderoso. Eu vi como ele encarou um desafio de luta livre uma vez.

Sumotori ou estilo ocidental?

Estilo ocidental. Dois irmãos - alemães, eu suponho da Argentina - e eles eram enormes! Eles tiveram que se abaixar para não baterem suas cabeças no alto da porta do Hombu. Esta foi à única vez em que O'Sensei aceitou um desafio para o Hombu. Estas pessoas estavam viajando o mundo com uma equipe de filmagem e desafiando diferentes mestres de artes marciais. Eles tinham ido ao Kodokan (quartel general do Judô), mas não foi dada permissão aos judocas de lá lidarem com eles. Então eles desafiaram o Aikidô no Hombu. Quando eles chegaram, eu os recebi e fiz com que entrassem. Dentro do dojô estavam O'Sensei, sensei Kisshomaru e sensei Tohei, o qual era então o instrutor-chefe da Fundação Aikidô. O'Sensei nomeou o sensei Tohei para ir primeiro, e ele era muito forte. Então o lutador ficou abaixado em uma postura baixa, com suas mãos estendidas para frente, e começou a mover-se em círculos em torno do sensei Tohei por um longo tempo. Sensei Tohei estava muito relaxado e apenas seguia seus movimentos e, eventualmente, o encurralava em um canto. Quando o lutador começou a se mover, sensei Tohei saltou sobre ele, arremessou-o ao chão e bateu violentamente com sua cabeça nele. Sensei Tohei então o segurou em baixo com seu braço em tegataná, o qual, como você já deve ter ouvido falar, era muito poderoso. Aquele homem não conseguiu mais se mover, e seu irmão recusou a tentar com sensei Tohei, e foi assim. Aparentemente no Kodokan os judocas aconselharam a eles a não se agarrarem com um mestre de Aikidô. Por isso que ele circulava ao redor do sensei Tohei.

Com amigos como estes quem precisa de inimigos! Como nós estamos falando sobre desafios você poderia me contar sobre seu confronto com o Sr. Wang, o mestre Tai Chi da China?

Quem contou isto a você... talvez o Sr. Cottier?

Talvez seja melhor não dizer...

(risos)

O.K. então. Eu estava em uma grande demonstração de artes marciais em Tókio no começo dos anos 60, e o Tai Chi Chuan estava sendo apresentado pelo Sr. Wang. Ele era de Taiwan e ele era muito grande. Mais tarde ele se tornou muito famoso no Japão. Bem, no final da apresentação ele ficou à frente de uma fila de karatecas, e cada um deles golpeou-o no abdômen. Os golpes não tiveram efeito sobre ele. Eu não fiquei impressionado. Eu tinha feito algo parecido (Sensei demonstrou um chute na virilha e um soco na face enquanto dizia isto).
Então dois dos meus alunos foram também estudar Tai Chi com o Sr. Wang, e eles ficaram impressionados com ele. Eles me convidaram a ir com eles e conhecê-lo. Eventualmente eu aceitei e fui assistir sua aula. No dojô, meus alunos me apresentaram e ele, educadamente perguntou-me se eu poderia mostrar um pouco de Aikidô. Ainda que suas palavras fossem calmas isto foi uma espécie de desafio! Bem, nós nos olhamos frente a frente, e mestre Wang assumiu algo como uma postura de Sumô com suas mãos estendidas. Eu esperei por uma abertura. Isto durou alguns minutos, até que ele se moveu para frente para me empurrar. Então eu me aproximei, executei um Tai Sabaki (esquiva de corpo) e peguei seu pulso com um Kote Gaeshi (torção no pulso)... seu pulso fez um barulho alto de estalo quando eu apliquei-lhe o Kote Gaeshi. Apesar de eu ter-lhe aplicado um forte e contundente Kote Gaeshi, ele não caiu. Mestre Wang soltou seu pulso de mim e, imediatamente, continuou o ataque. Ele me empurrou com ambas as mãos na altura de meu abdômen, me arremessando a uma longa distância através da sala. Eu caí, mas não desisti. Isto foi muito emocionante. Meus alunos, então, se colocaram entre nós, e foi só isto.

Como você foi mandado para a Inglaterra?

Bem, em 1964 quando os jogos Olímpicos foram realizados em Tókio, o famoso mestre em Judô, sensei Kenshiro Abbe veio ao Hombu dojô para prestar reverência a O'Sensei. Ele pediu ao O'Sensei para mandar um jovem e espirituoso instrutor para a Inglaterra para desenvolver o Aikidô junto ao BJC, Conselho Britânico de Judô. Eu estava supondo ir para New York para auxiliar sensei Yamada, mas O'Sensei concordou em mandar-me para a Inglaterra.

Por que você decidiu pelo nordeste da Inglaterra?

Meu responsável, Sr. Logan, tinha negócios em Newcastle, então eu fui para aquela região. Entretanto, durante minha viagem do Japão algo aconteceu no BJC, e não foi permitido a eles trabalharam comigo. Então o Sr. Logan teve de pagar meu salário - foi um tempo difícil. Eu estava no nordeste e promovi meus primeiros alunos britânicos com o primeiro Dan, o Sr. Pat Butler, o Sr. Fred Jenkins e o Sr. Ron Myers.

Sim sensei, eu treinei com todos os três por uns anos, particularmente com o Sr. Ron Myers. Sobre sua viagem do Japão eu ouvi dizer que houve um incidente?

Ah sim, nós tivemos uma festa no navio quando cruzamos a linha do equador, e eu fui convidado a dar uma demonstração. Então eu aceitei, entretanto não havia ninguém a bordo que soubesse Aikidô para servir como meu parceiro.

Ou se existiam, eles ficaram bem quietos sobre isto!

(risos)

Sim, talvez. Então um dos marinheiros se ofereceu para me assistir, e ele me atacou com uma faca. No Hombu dojô, quando treinamos com facas, nós fazíamos um ataque frontal e sincero, com uma Tantô (espécie de adaga). Mas este marujo fez um golpe baixo, movendo-se em torno de mim e passando a faca de mão em mão. Isto foi difícil, e quando ele fez o ataque eu não podia saber em qual das mãos estava a faca. Quando ele veio para mim eu fiz Gedan Barai (bloqueio baixo) com ambos os braços, e eu pude defender seu ataque. A ponta da faca atravessou meu Obi (cinto) e tocou levemente minha pele. Depois do Gedan Barai, eu me movi com uma técnica de torção e quebrei seu braço.

Com qual técnica?

Katekatame, eu acho.

Técnicas de bloqueio como Gedan Barai não são muito usuais no Aikidô. Preferencialmente a parte lateral da mão é usada para defletir movendo...

Sim, mas não é sempre possível mover-se, então eu acredito que você deva estar apto a fazer um bloqueio forte quando necessário.

Você poderia relembrar sua última conversa com O'Sensei antes de partir para a Inglaterra?

Meu irmão e eu fomos com um táxi até o Hombu dojô antes de irmos para o meu navio. Nós nos atrasamos devido ao trânsito de Tókio, e eu cheguei tarde ao Hombu dojô. Isto foi muito ruim. Como alunos uchideshi nós devemos estar sempre preparados para receber e encontrar com nosso professor. De qualquer forma quando eu cheguei O'Sensei estava esperando por mim, e disse o quanto estava feliz por poder dizer-me adeus. Meu professor deu-me chá, e disse que eu tinha cuidado bem dele por todos os anos, e desejou-me boa sorte. Ele também disse que eu não me preocupasse com ele, e que ele viveria até os 126 anos de idade.

O'Sensei estava brincando com você?

Não, ele estava muito sério. Ele tinha me dado um Koan (um enigma Zen) e somente agora eu posso entender.

Sensei, em 1976 você retornou ao Japão. Na verdade eu sou o último Shodan que você promoveu antes de deixar...

Sim, foi por isto que eu fui para casa! (risos)

Como estavam as coisas no Hombu quando do seu retorno?

Bem, o Aikidô padrão estava bem, é claro, mas muito havia mudado no Japão e eu não gostei do que havia acontecido. Eu estava no cargo de secretário internacional no Hombu dojô e não estava feliz com isto. Serviço burocrático o dia todo, sem tempo para treinar. Não foi um período bom para mim. Eu sou um artista marcial, não um escriturário. Então eu deixei Tókio e fui para o campo. Eu trabalhei na terra e pratiquei Zazen (meditação) por um tempo. Depois eu fui convidado a mudar para San Diego pela Federação Americana de Aikidô.

Posso perguntar sobre seu treinamento de Iaidô?

Eu gosto muito de Iaidô (arte de sacar a espada). Eu realmente gosto de manejar o kataná (a mais longa dentre as espadas samurai) e sinto uma afinidade por espadas japonesas. Eu pratico Muso Shinden Ryu, o qual foi fundado por sensei Nakayama Hakudo, na virada do século. O'Sensei sempre teve um bom relacionamento com Hakudo. Seus alunos usualmente praticavam no Kobukan.

É por isso que o Hombu dojô é usualmente chamado...

Sim, isso mesmo. Houve um bom intercâmbio de alunos. Atualmente, o aluno mais antigo do sensei Hakudo é casado com a filha do O'Sensei. Ele foi o campeão de todo o Japão em Kendô durante um tempo.

Eu sempre percebi uma grande concentração no treino de Iaidô, sempre um movimento zen.

Sim, de fato este é um ponto positivo. Isto é muito bom para desenvolver Zanshin. Eu sempre combinei zazen com Iai no meu dojô. Algo como 20 minutos de meditação sentado e, então, 10 minutos de saque com espada, e novamente para o zazen.

Eu tenho ouvido que agora você tem tocado uma música de fundo durante o zazen no seu dojô... isto é verdade?

Bem, nem sempre. Meu mestre Zen costumava usar Bach ou Beethoven. Muito agradável. Você pode realmente ir fundo na meditação nestas sessões, dependendo do tipo de música, é claro. Eu não acho que jazz faria isto. Meu dojô tem uma das faces voltada para uma avenida em San Diego, então uma música de fundo ajuda a cortar o som da rua.

Durante os últimos vinte anos eu tenho tido o prazer de treinar com alguns alunos diretos do O'Sensei - você mesmo, é claro - também Sekiya, Tamura, Kanai... e vocês são todos tão diferentes: Você gostaria de comentar?

Bem, Eu acho que Aikidô é muito mais amplo que qualquer outra arte marcial. Aikidô permite a todos treinarem juntos. A comunicação que toma lugar no tatame é somente uma parte disto.

Você acha que cada um de vocês expressa uma faceta diferente do Aikidô do O'Sensei na sua prática individual?

Sim, eu penso que sim.

Algumas pessoas dizem que O'Sensei era muito gentil e cavalheiro, enquanto outras se referem a ele como sendo direto e de atitudes severas. Qual é a verdade?

Eu acho que era muito natural para ele ser muito cavalheiro, gentil e calmo com os alunos comuns, mas com o uchideshi ele era muito severo e rígido às vezes.

Por que você enfatiza o treinamento com armas no seu Aikidô?

O Aikidô é baseado na esgrima tradicional do Japão. Então no Aikidô nós nos movemos como um espadachim sem a espada. Armas são particularmente importantes na parte ofensiva, ou treino realista tal como randori no Judô e jiyu kumite no Karatê. Isto nos ajuda a desenvolver o espírito marcial e outros aspectos como tempo, distância, centro, etc. Também podemos relacionar diretamente as técnicas básicas com os cortes do bokken, respiração, uso do quadril, etc.

Talvez possamos falar um pouco sobre a história do Aikidô: O'Sensei foi convidado uma vez para ensinar no Kodokan pelo fundador do Judô, Dr. Jigoro Kano: ele aceitou?

Foi na época que sensei Kano tentou consolidar as artes marciais japonesas, para ajudar a preservá-las. Foi por isso que ele falou com O'Sensei para ir ao Kodokan para ensinar. Mas O'Sensei recusou: ele sentiu que o Aikidô e o Judô eram tão diferentes que não poderiam ser ensinados juntos. Então Dr. Kano mandou três dos seus alunos mais antigos para estudar com O'Sensei - mestre Mochizuki e mestre Murashige, e outro. Eu não me recordo do nome dele. Eles estudaram com O'Sensei mas retornaram para o Kodokan para reencontrar o Dr. Kano.

O outro mestre era o sensei Tomiki?

Não. Sensei Tomiki veio depois. Ele combinou Aikidô e Judô: ele usava o Aikidô para maiores distâncias no combate e Judô para um Ma-ai (distância crítica) menor. Eu não concordo totalmente com essa idéia, mas sensei Tomiki era um artista marcial muito bom... e um verdadeiro cavalheiro.

Eu ouvi em algum lugar que existe um primo do O'Sensei, um artista marcial, ainda vivo no Japão!

Sim, é o mestre Hogen Inoue. Sua semelhança com O'Sensei é espantosa. Ele, é claro, é muito velho agora, mas seu Aikidô era o segundo depois de O'Sensei, por um tempo. Ele chama a forma de seu budô de "Taiwa Shindô" agora.

O mestre Shotokai de Karatê, o professor do sensei Harada, mestre Shigeru Egami, era um aluno do sensei Inoue... eu ouvi sobre um encontro interessante entre estes dois grandes mestres quando da primeira vez!

Você deve estar se referindo sobre o incidente com sensei Harada. Sensei Harada e eu somos bons amigos: ele é um intelectual e um grande mestre de Karatê.

Algum outro confronto além daquele no navio e com mestre Wang exigiu de você suas habilidades fora do dojô?

Bem, uma vez no Japão um gangster me atacou com uma faca. Ele me estocou na barriga, então eu fiz um bloqueio com Gedan Barai, e quebrei seu braço com Kata Katamae.

Em uma outra ocasião eu estava em Paris com sensei Noro, e nós fomos visitar um clube noturno. Eu estava tomando um drink numa sala e sensei Noro estava jogando cartas, ou outra coisa assim, em uma outra sala. Repentinamente houve um grande tumultuo vindo da sala onde sensei Noro estava, então eu fui até lá para ver o que estava acontecendo. Era uma briga. Um senhor idoso estava no chão e um jovem estava chutando-o. Foi terrível - havia muito sangue no chão. Eu pensei que ele havia morrido, então foi quando sensei Noro me disse "Chiba, vamos cair fora." Ele não queria se envolver. (risos).
Eu segurei aquele homem, impedindo seu ataque, e perguntei-lhe se ele sabia o que estava fazendo. Ele me respondeu em francês, e nenhum de nós entendeu. Então ele me empurrou para longe... e algo aconteceu. Meu corpo reagiu e eu o joguei ao chão com um O Soto Gari (golpe de projeção) das técnicas de Judô. Ele bateu contra o chão muito forte e eu pude ouvir um barulho de metal. Foi quando eu percebi que ele possuía uma faca. Meu estado de atenção era tal que eu reagi àquela situação inconscientemente. Aquele homem era um gangster de Pigalle, e foi por isso que ninguém o parou. Ele era bem conhecido aparentemente... mas não para mim! Não fez nenhuma diferença para mim quem ele era.

Algo mais sensei?

Quando eu retornei da Inglaterra para o Japão, em 1978, um homem solicitou um confronto entre nós. Mas o Hombu dojô recusou, a despeito da insistência dele.

Ele era um Karateca?

Ninguém sabia. Como eu disse, ele era persistente, e por várias semanas ele veio ao Hombu para o desafio. E cada vez eu tinha que explicar que não nos havia sido permitido aceitar. Eu acho que aquele homem não era totalmente certo da cabeça. De qualquer forma, eu pessoalmente já estava farto dele e aceitei o desafio. Nós marcamos um encontro. Eu insisti que nós concordássemos em limitar a agressividade para não ocasionar lesões sérias e colocássemos tudo isso em papéis. Eu disse a ele que, como professor de artes marciais, eu estava preparado para matar, caso fosse necessário. Bem, nós nos encontramos e eu iniciei com a ofensiva movendo diretamente contra ele, e eu acertei-o primeiro com um soco. Isto o arremessou de volta contra a parede, e como eu fui na sua direção, ele salto sobre mim: ele era como um tigre. Eu então finalizei com um Nikkio (segunda imobilização). Ele teve o bastante então. Houve muito sangue e ele estava no chão. Aquele foi o último desafio que ele nos fez - ele não esperava que um Aikidoista iniciasse o ataque.

Para concluir nossa conversa, posso perguntar sobre duas coisas separadas: atemi e competição no Aikidô?

Bem, eu acredito que o atemi (ataque em pontos vitais) é muito importante nas técnicas de Aikidô. Isto não é usualmente ensinado nas classes... mas eu pessoalmente treino atemi, é claro. Não existe competição no Aikidô porque isto eliminaria muitas pessoas da prática do Aikidô. O propósito do Aikidô é permitir tanto quanto possível um grande número de pessoas diferentes - homens e mulheres, jovens e idosos, pessoas fortes e franzinas - desenvolver seus potenciais através da prática em grupo.

O que você considera ser a mais importante qualidade em um bom Aikidoca?

Sinceridade.

Sensei Chiba, eu gostaria de agradecer ao senhor em nome dos leitores da Fighting Arts por conceder um tempo seu para conversar comigo.


Nota aos leitores:
No texto, por várias vezes, fatos são mencionados como sendo atuais, tal como as menções ao sensei Kisshomaru Ueshiba como sendo o atual Doshu. Isto é devido a esta entrevista ter sido realizada na época em que sensei Kisshomaru ainda estava à frente do Hombu dojô.

 



 

 

 

 

 








 

 










Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil Aikikai.