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O
texto a seguir foi publicado primeiramente na revista FIGHTING
ARTS INTERNATIONAL,
número 70. 
O entrevistador é Arthur Lockyear.
Sensei, por favor nos conte como o senhor veio a estudar
Aikidô?
Bem, eu
era um entusiasta das artes marciais quando jovem, e decidi
muito cedo pelo treinamento sério em, ao menos, uma
delas. Eu comecei com o Judô e permaneci por quatro
anos. Após isto eu mudei para o Karatê.
Você
treinou no quartel general Shotokan, eu acredito. Como foi
o treinamento lá?
Oh, eu
realmente adorei aquilo, tinha um espírito duro de
treinamento, muita satisfação. Eu gostei muito
daquilo. Sensei Nakayama era o instrutor chefe, mas eu vi
o mestre, Funakoshi Gichin, em algumas ocasiões. Eu
me juntei à Associação Japonesa de Karatê
um ano antes de o mestre Funakoshi falecer. Eu me lembro que
houve uma grande cerimônia para marcar a sua passagem.
Estavam
presentes alguns dos mestres do Shotokan naquele momento?
Sim: sensei
Nishiyama, sensei Okazaki e sensei Kanazawa. Sensei Kanazawa
era primeiro Kyu então, ou talvez primeiro Dan, eu
não estou certo. Sensei Asano era terceiro Kyu e sensei
Kase também.
Houve
algo em particular que o converteu para o Aikidô?
Bem, quando
eu era primeiro Kyu (o nível imediatamente abaixo da
faixa preta) em Judô, eu entrei em uma competição
e aconteceu de estar empatado o combate com meu instrutor
no dojô - um segundo Dan, eu acho. Então eu o
acertei e, após isto, ele veio a mim e disse: "Você
desprezou meu judô, mas eu ainda tenho o Kendô."
Ele me fez um desafio. Então fomos para fora. Ele me
deu um bokken (espada de madeira) e tomou para si um shinai
de kendô (espada de bambu). Uma vez começado
o combate, eu não consegui acertá-lo uma só
vez. Ele me bateu sonoramente e eu fiquei todo preto e azul
de hematomas. Após isto eu refleti profundamente sobre
o significado do Budô.
Eu procurei a arte marcial que fosse efetiva em qualquer situação,
esteja o oponente armado ou não. Então eu eventualmente
decidi que iria me tornar um aluno do mestre Ueshiba - o fundador
do Aikidô. Eu fui direto ao Hombu (quartel general)
mas eu não tinha nenhuma carta de recomendação,
a qual era um requerimento necessário então.
Eu cheguei ao Hombu e solicitei uma audiência com O'Sensei
(mestre Ueshiba). Eles me disseram que ele não estava
lá, e que eu deveria ir embora. Eu estava tão
determinado a ser um aluno de O'Sensei que resolvi esperar
pelo seu retorno. Então eu sentei no jardim do dojô
e esperei. No final do terceiro dia O'Sensei retornou, e disseram
a ele que um garoto louco estava à sua espera lá
fora.
Bem, O'Sensei disse a eles para trazer-me para dentro. Eu
fiquei aguardando do lado de fora de sua sala. Quando o painel
se abriu, lá estava mestre Ueshiba. Seus olhos me fitaram
pela primeira vez: foi um momento que eu nunca vou esquecer!
Eu não sabia o que fazer, então eu me curvei
tanto quanto eu pude. O'Sensei disse-me: "Artes marciais
são muito duras, você pode agüentar?"
Eu apenas disse: "Sim sensei." Então foi
assim que fui aceito e me tornei uchideshi (aluno interno,
ou aprendiz especial) de mestre Ueshiba.
Você
começou a treinar Aikidô logo no início?
Não,
não me foi permitido praticar diretamente. Eu tinha
que limpar o dojô e todos os outros quartos do Hombu,
além de lavar, fazer a limpeza, compras, encargos administrativos
e servir toda a família do mestre. Também tive
de trabalhar nos campos. Eventualmente me era permitido assistir
às aulas e, então, após algum tempo,
treinar. Ninguém me disse nada no início. Eu
tive de ser autodidata. Afortunadamente eu já sabia
fazer ukemi (quedas), então foi tudo bem. Eu decidi
dar o melhor de mim para ser um bom uchideshi para O'Sensei,
e aprender tudo o que me fosse ensinado. Este foi o melhor
período da minha vida! Eu me lembro que O'Sensei também
tinha uma forte presença... havia uma atmosfera muito
especial quando ele estava por perto. Isto vinha de sua postura
física - a maneira que ele sentava, a maneira que ele
andava, a maneira como ele se movia - eram muito bonitas.
Eu nunca pude ver nenhuma abertura na postura de O'Sensei...
nunca. Seus olhos sempre estavam dourados, não escuros
como é usual nas pessoas japonesas.
Seu
período como uchideshi deve ter sido muito rigoroso.
Por um
lado foi como um campo de batalha. Nós acordávamos
todo dia muito cedo para trabalhar e treinar, e muitas noites
eu tive que ficar acordado até tarde para esperar por
Waka sensei (filho de O'Sensei, Kisshomaru - o atual Doshu,
ou líder do Aikidô) até que ele retornasse
de seu trabalho no escritório. Foi muito duro e intensivo,
tanto que muitas vezes eu fiquei próximo de uma crise
nervosa. Eu estava acostumado a ver coisas estranhas: toda
noite um fantasma vinha até mim. Eu não sabia
se era um homem ou uma mulher. Naquele tempo eu não
imaginava quão próximo eu estava de um colapso,
mas agora eu percebo. Toda noite um pouco antes de adormecer
eu sentia que aquilo se aproximava de mim, e isto era realmente
amedrontador. Eu podia sentir sua presença. Isto tudo
acontecia de forma repentina e era como se um peso de uma
tonelada fosse colocado sobre mim, e eu não podia me
mover. E então eu achei uma solução para
isto. Eu peguei meu bokken e coloquei-o na cama comigo e quando
eu sentia sua presença eu segurava meu bokken fortemente...
e aquilo tudo passava. Isto foi devido à exaustão,
eu acredito.
Há
muitos anos atrás você me contou sobre seu encontro
com sensei Tamura. Você poderia repetir isto para os
leitores da Fighting Arts, por favor.
Bem, foi
um dia, depois da aula, e alguns dos alunos estavam praticando
randori (prática de luta) no tatame. Eu estava em pé
no corredor assistindo a isto, e um deles fez um convite para
juntar-me a eles, e eu aceitei. Eu fiquei surpreso de ver
como eles eram fracos, e eu arremessei repetidamente um homem
o qual era Sandan (faixa preta terceiro grau) em Judô
e Aikidô. Então o sensei Tamura me chamou e convidou
a praticar com ele. Então "bang", sensei
Tamura golpeou-me duramente no abdômen. Eu aprendi muito
com aquilo, foi uma boa lição sobre ficar atento,
distância e postura para mim. Eu acredito que sensei
Tamura seja um dos melhores alunos do O'Sensei. Eu aprendi
uma grande lição com ele no passado.
Existe
algo mais que você gostaria de falar sobre... talvez
sensei Saito?
Sim, ele
é um grande mestre. Uma vez visitando os Estados Unidos
eu o convidei a ensinar no meu dojô. Sensei Saito foi
um discípulo especial do O'Sensei. Ele ficou com O'Sensei
após a guerra para cuidar dele e gerenciar a fazenda
no dojô de Iwama. Eu pude ver a responsabilidade que
ele tomou para si, e ninguém mais poderia ter feito
aquilo melhor do que sensei Saito o fez. Eu realmente estimo
o trabalho do sensei Saito.
E sobre
o Doshu... o sucessor do O'Sensei?
O professor
diretamente responsável pelo meu treinamento foi sensei
Kisshomaru Ueshiba. O'Sensei já havia se retirado para
o lado montanhoso de Iwama, e somente vinha até o Hombu
dojô ocasionalmente. O crescimento e desenvolvimento
do moderno Aikidô, desde a guerra, é devido ao
trabalho duro do Doshu. O seu Aikidô é muito
bonito.
E sobre
o mestre Koichi Tohei da Sociedade Ki?
Sim, sensei
Tohei é muito bom. Ele é pequeno mas muito poderoso.
Eu vi como ele encarou um desafio de luta livre uma vez.
Sumotori
ou estilo ocidental?
Estilo
ocidental. Dois irmãos - alemães, eu suponho
da Argentina - e eles eram enormes! Eles tiveram que se abaixar
para não baterem suas cabeças no alto da porta
do Hombu. Esta foi à única vez em que O'Sensei
aceitou um desafio para o Hombu. Estas pessoas estavam viajando
o mundo com uma equipe de filmagem e desafiando diferentes
mestres de artes marciais. Eles tinham ido ao Kodokan (quartel
general do Judô), mas não foi dada permissão
aos judocas de lá lidarem com eles. Então eles
desafiaram o Aikidô no Hombu. Quando eles chegaram,
eu os recebi e fiz com que entrassem. Dentro do dojô
estavam O'Sensei, sensei Kisshomaru e sensei Tohei, o qual
era então o instrutor-chefe da Fundação
Aikidô. O'Sensei nomeou o sensei Tohei para ir primeiro,
e ele era muito forte. Então o lutador ficou abaixado
em uma postura baixa, com suas mãos estendidas para
frente, e começou a mover-se em círculos em
torno do sensei Tohei por um longo tempo. Sensei Tohei estava
muito relaxado e apenas seguia seus movimentos e, eventualmente,
o encurralava em um canto. Quando o lutador começou
a se mover, sensei Tohei saltou sobre ele, arremessou-o ao
chão e bateu violentamente com sua cabeça nele.
Sensei Tohei então o segurou em baixo com seu braço
em tegataná, o qual, como você já deve
ter ouvido falar, era muito poderoso. Aquele homem não
conseguiu mais se mover, e seu irmão recusou a tentar
com sensei Tohei, e foi assim. Aparentemente no Kodokan os
judocas aconselharam a eles a não se agarrarem com
um mestre de Aikidô. Por isso que ele circulava ao redor
do sensei Tohei.
Com
amigos como estes quem precisa de inimigos! Como nós
estamos falando sobre desafios você poderia me contar
sobre seu confronto com o Sr. Wang, o mestre Tai Chi da China?
Quem contou
isto a você... talvez o Sr. Cottier?
Talvez
seja melhor não dizer...
(risos)
O.K. então.
Eu estava em uma grande demonstração de artes
marciais em Tókio no começo dos anos 60, e o
Tai Chi Chuan estava sendo apresentado pelo Sr. Wang. Ele
era de Taiwan e ele era muito grande. Mais tarde ele se tornou
muito famoso no Japão. Bem, no final da apresentação
ele ficou à frente de uma fila de karatecas, e cada
um deles golpeou-o no abdômen. Os golpes não
tiveram efeito sobre ele. Eu não fiquei impressionado.
Eu tinha feito algo parecido (Sensei demonstrou um chute na
virilha e um soco na face enquanto dizia isto).
Então dois dos meus alunos foram também estudar
Tai Chi com o Sr. Wang, e eles ficaram impressionados com
ele. Eles me convidaram a ir com eles e conhecê-lo.
Eventualmente eu aceitei e fui assistir sua aula. No dojô,
meus alunos me apresentaram e ele, educadamente perguntou-me
se eu poderia mostrar um pouco de Aikidô. Ainda que
suas palavras fossem calmas isto foi uma espécie de
desafio! Bem, nós nos olhamos frente a frente, e mestre
Wang assumiu algo como uma postura de Sumô com suas
mãos estendidas. Eu esperei por uma abertura. Isto
durou alguns minutos, até que ele se moveu para frente
para me empurrar. Então eu me aproximei, executei um
Tai Sabaki (esquiva de corpo) e peguei seu pulso com um Kote
Gaeshi (torção no pulso)... seu pulso fez um
barulho alto de estalo quando eu apliquei-lhe o Kote Gaeshi.
Apesar de eu ter-lhe aplicado um forte e contundente Kote
Gaeshi, ele não caiu. Mestre Wang soltou seu pulso
de mim e, imediatamente, continuou o ataque. Ele me empurrou
com ambas as mãos na altura de meu abdômen, me
arremessando a uma longa distância através da
sala. Eu caí, mas não desisti. Isto foi muito
emocionante. Meus alunos, então, se colocaram entre
nós, e foi só isto.
Como
você foi mandado para a Inglaterra?
Bem, em
1964 quando os jogos Olímpicos foram realizados em
Tókio, o famoso mestre em Judô, sensei Kenshiro
Abbe veio ao Hombu dojô para prestar reverência
a O'Sensei. Ele pediu ao O'Sensei para mandar um jovem e espirituoso
instrutor para a Inglaterra para desenvolver o Aikidô
junto ao BJC, Conselho Britânico de Judô. Eu estava
supondo ir para New York para auxiliar sensei Yamada, mas
O'Sensei concordou em mandar-me para a Inglaterra.
Por
que você decidiu pelo nordeste da Inglaterra?
Meu responsável,
Sr. Logan, tinha negócios em Newcastle, então
eu fui para aquela região. Entretanto, durante minha
viagem do Japão algo aconteceu no BJC, e não
foi permitido a eles trabalharam comigo. Então o Sr.
Logan teve de pagar meu salário - foi um tempo difícil.
Eu estava no nordeste e promovi meus primeiros alunos britânicos
com o primeiro Dan, o Sr. Pat Butler, o Sr. Fred Jenkins e
o Sr. Ron Myers.
Sim
sensei, eu treinei com todos os três por uns anos, particularmente
com o Sr. Ron Myers. Sobre sua viagem do Japão eu ouvi
dizer que houve um incidente?
Ah sim,
nós tivemos uma festa no navio quando cruzamos a linha
do equador, e eu fui convidado a dar uma demonstração.
Então eu aceitei, entretanto não havia ninguém
a bordo que soubesse Aikidô para servir como meu parceiro.
Ou
se existiam, eles ficaram bem quietos sobre isto!
(risos)
Sim, talvez.
Então um dos marinheiros se ofereceu para me assistir,
e ele me atacou com uma faca. No Hombu dojô, quando
treinamos com facas, nós fazíamos um ataque
frontal e sincero, com uma Tantô (espécie de
adaga). Mas este marujo fez um golpe baixo, movendo-se em
torno de mim e passando a faca de mão em mão.
Isto foi difícil, e quando ele fez o ataque eu não
podia saber em qual das mãos estava a faca. Quando
ele veio para mim eu fiz Gedan Barai (bloqueio baixo) com
ambos os braços, e eu pude defender seu ataque. A ponta
da faca atravessou meu Obi (cinto) e tocou levemente minha
pele. Depois do Gedan Barai, eu me movi com uma técnica
de torção e quebrei seu braço.
Com
qual técnica?
Katekatame,
eu acho.
Técnicas
de bloqueio como Gedan Barai não são muito usuais
no Aikidô. Preferencialmente a parte lateral da mão
é usada para defletir movendo...
Sim, mas
não é sempre possível mover-se, então
eu acredito que você deva estar apto a fazer um bloqueio
forte quando necessário.
Você
poderia relembrar sua última conversa com O'Sensei
antes de partir para a Inglaterra?
Meu irmão
e eu fomos com um táxi até o Hombu dojô
antes de irmos para o meu navio. Nós nos atrasamos
devido ao trânsito de Tókio, e eu cheguei tarde
ao Hombu dojô. Isto foi muito ruim. Como alunos uchideshi
nós devemos estar sempre preparados para receber e
encontrar com nosso professor. De qualquer forma quando eu
cheguei O'Sensei estava esperando por mim, e disse o quanto
estava feliz por poder dizer-me adeus. Meu professor deu-me
chá, e disse que eu tinha cuidado bem dele por todos
os anos, e desejou-me boa sorte. Ele também disse que
eu não me preocupasse com ele, e que ele viveria até
os 126 anos de idade.
O'Sensei
estava brincando com você?
Não,
ele estava muito sério. Ele tinha me dado um Koan (um
enigma Zen) e somente agora eu posso entender.
Sensei,
em 1976 você retornou ao Japão. Na verdade eu
sou o último Shodan que você promoveu antes de
deixar...
Sim, foi
por isto que eu fui para casa! (risos)
Como
estavam as coisas no Hombu quando do seu retorno?
Bem, o
Aikidô padrão estava bem, é claro, mas
muito havia mudado no Japão e eu não gostei
do que havia acontecido. Eu estava no cargo de secretário
internacional no Hombu dojô e não estava feliz
com isto. Serviço burocrático o dia todo, sem
tempo para treinar. Não foi um período bom para
mim. Eu sou um artista marcial, não um escriturário.
Então eu deixei Tókio e fui para o campo. Eu
trabalhei na terra e pratiquei Zazen (meditação)
por um tempo. Depois eu fui convidado a mudar para San Diego
pela Federação Americana de Aikidô.
Posso
perguntar sobre seu treinamento de Iaidô?
Eu gosto
muito de Iaidô (arte de sacar a espada). Eu realmente
gosto de manejar o kataná (a mais longa dentre as espadas
samurai) e sinto uma afinidade por espadas japonesas. Eu pratico
Muso Shinden Ryu, o qual foi fundado por sensei Nakayama Hakudo,
na virada do século. O'Sensei sempre teve um bom relacionamento
com Hakudo. Seus alunos usualmente praticavam no Kobukan.
É
por isso que o Hombu dojô é usualmente chamado...
Sim, isso
mesmo. Houve um bom intercâmbio de alunos. Atualmente,
o aluno mais antigo do sensei Hakudo é casado com a
filha do O'Sensei. Ele foi o campeão de todo o Japão
em Kendô durante um tempo.
Eu
sempre percebi uma grande concentração no treino
de Iaidô, sempre um movimento zen.
Sim, de
fato este é um ponto positivo. Isto é muito
bom para desenvolver Zanshin. Eu sempre combinei zazen com
Iai no meu dojô. Algo como 20 minutos de meditação
sentado e, então, 10 minutos de saque com espada, e
novamente para o zazen.
Eu
tenho ouvido que agora você tem tocado uma música
de fundo durante o zazen no seu dojô... isto é
verdade?
Bem, nem
sempre. Meu mestre Zen costumava usar Bach ou Beethoven. Muito
agradável. Você pode realmente ir fundo na meditação
nestas sessões, dependendo do tipo de música,
é claro. Eu não acho que jazz faria isto. Meu
dojô tem uma das faces voltada para uma avenida em San
Diego, então uma música de fundo ajuda a cortar
o som da rua.
Durante
os últimos vinte anos eu tenho tido o prazer de treinar
com alguns alunos diretos do O'Sensei - você mesmo,
é claro - também Sekiya, Tamura, Kanai... e
vocês são todos tão diferentes: Você
gostaria de comentar?
Bem, Eu
acho que Aikidô é muito mais amplo que qualquer
outra arte marcial. Aikidô permite a todos treinarem
juntos. A comunicação que toma lugar no tatame
é somente uma parte disto.
Você
acha que cada um de vocês expressa uma faceta diferente
do Aikidô do O'Sensei na sua prática individual?
Sim, eu
penso que sim.
Algumas
pessoas dizem que O'Sensei era muito gentil e cavalheiro,
enquanto outras se referem a ele como sendo direto e de atitudes
severas. Qual é a verdade?
Eu acho
que era muito natural para ele ser muito cavalheiro, gentil
e calmo com os alunos comuns, mas com o uchideshi ele era
muito severo e rígido às vezes.
Por
que você enfatiza o treinamento com armas no seu Aikidô?
O Aikidô
é baseado na esgrima tradicional do Japão. Então
no Aikidô nós nos movemos como um espadachim
sem a espada. Armas são particularmente importantes
na parte ofensiva, ou treino realista tal como randori no
Judô e jiyu kumite no Karatê. Isto nos ajuda a
desenvolver o espírito marcial e outros aspectos como
tempo, distância, centro, etc. Também podemos
relacionar diretamente as técnicas básicas com
os cortes do bokken, respiração, uso do quadril,
etc.
Talvez
possamos falar um pouco sobre a história do Aikidô:
O'Sensei foi convidado uma vez para ensinar no Kodokan pelo
fundador do Judô, Dr. Jigoro Kano: ele aceitou?
Foi na
época que sensei Kano tentou consolidar as artes marciais
japonesas, para ajudar a preservá-las. Foi por isso
que ele falou com O'Sensei para ir ao Kodokan para ensinar.
Mas O'Sensei recusou: ele sentiu que o Aikidô e o Judô
eram tão diferentes que não poderiam ser ensinados
juntos. Então Dr. Kano mandou três dos seus alunos
mais antigos para estudar com O'Sensei - mestre Mochizuki
e mestre Murashige, e outro. Eu não me recordo do nome
dele. Eles estudaram com O'Sensei mas retornaram para o Kodokan
para reencontrar o Dr. Kano.
O outro
mestre era o sensei Tomiki?
Não.
Sensei Tomiki veio depois. Ele combinou Aikidô e Judô:
ele usava o Aikidô para maiores distâncias no
combate e Judô para um Ma-ai (distância crítica)
menor. Eu não concordo totalmente com essa idéia,
mas sensei Tomiki era um artista marcial muito bom... e um
verdadeiro cavalheiro.
Eu
ouvi em algum lugar que existe um primo do O'Sensei, um artista
marcial, ainda vivo no Japão!
Sim, é
o mestre Hogen Inoue. Sua semelhança com O'Sensei é
espantosa. Ele, é claro, é muito velho agora,
mas seu Aikidô era o segundo depois de O'Sensei, por
um tempo. Ele chama a forma de seu budô de "Taiwa
Shindô" agora.
O mestre
Shotokai de Karatê, o professor do sensei Harada, mestre
Shigeru Egami, era um aluno do sensei Inoue... eu ouvi sobre
um encontro interessante entre estes dois grandes mestres
quando da primeira vez!
Você
deve estar se referindo sobre o incidente com sensei Harada.
Sensei Harada e eu somos bons amigos: ele é um intelectual
e um grande mestre de Karatê.
Algum
outro confronto além daquele no navio e com mestre
Wang exigiu de você suas habilidades fora do dojô?
Bem, uma
vez no Japão um gangster me atacou com uma faca. Ele
me estocou na barriga, então eu fiz um bloqueio com
Gedan Barai, e quebrei seu braço com Kata Katamae.
Em uma
outra ocasião eu estava em Paris com sensei Noro, e
nós fomos visitar um clube noturno. Eu estava tomando
um drink numa sala e sensei Noro estava jogando cartas, ou
outra coisa assim, em uma outra sala. Repentinamente houve
um grande tumultuo vindo da sala onde sensei Noro estava,
então eu fui até lá para ver o que estava
acontecendo. Era uma briga. Um senhor idoso estava no chão
e um jovem estava chutando-o. Foi terrível - havia
muito sangue no chão. Eu pensei que ele havia morrido,
então foi quando sensei Noro me disse "Chiba,
vamos cair fora." Ele não queria se envolver.
(risos).
Eu segurei aquele homem, impedindo seu ataque, e perguntei-lhe
se ele sabia o que estava fazendo. Ele me respondeu em francês,
e nenhum de nós entendeu. Então ele me empurrou
para longe... e algo aconteceu. Meu corpo reagiu e eu o joguei
ao chão com um O Soto Gari (golpe de projeção)
das técnicas de Judô. Ele bateu contra o chão
muito forte e eu pude ouvir um barulho de metal. Foi quando
eu percebi que ele possuía uma faca. Meu estado de
atenção era tal que eu reagi àquela situação
inconscientemente. Aquele homem era um gangster de Pigalle,
e foi por isso que ninguém o parou. Ele era bem conhecido
aparentemente... mas não para mim! Não fez nenhuma
diferença para mim quem ele era.
Algo
mais sensei?
Quando
eu retornei da Inglaterra para o Japão, em 1978, um
homem solicitou um confronto entre nós. Mas o Hombu
dojô recusou, a despeito da insistência dele.
Ele
era um Karateca?
Ninguém
sabia. Como eu disse, ele era persistente, e por várias
semanas ele veio ao Hombu para o desafio. E cada vez eu tinha
que explicar que não nos havia sido permitido aceitar.
Eu acho que aquele homem não era totalmente certo da
cabeça. De qualquer forma, eu pessoalmente já
estava farto dele e aceitei o desafio. Nós marcamos
um encontro. Eu insisti que nós concordássemos
em limitar a agressividade para não ocasionar lesões
sérias e colocássemos tudo isso em papéis.
Eu disse a ele que, como professor de artes marciais, eu estava
preparado para matar, caso fosse necessário. Bem, nós
nos encontramos e eu iniciei com a ofensiva movendo diretamente
contra ele, e eu acertei-o primeiro com um soco. Isto o arremessou
de volta contra a parede, e como eu fui na sua direção,
ele salto sobre mim: ele era como um tigre. Eu então
finalizei com um Nikkio (segunda imobilização).
Ele teve o bastante então. Houve muito sangue e ele
estava no chão. Aquele foi o último desafio
que ele nos fez - ele não esperava que um Aikidoista
iniciasse o ataque.
Para
concluir nossa conversa, posso perguntar sobre duas coisas
separadas: atemi e competição no Aikidô?
Bem, eu
acredito que o atemi (ataque em pontos vitais) é muito
importante nas técnicas de Aikidô. Isto não
é usualmente ensinado nas classes... mas eu pessoalmente
treino atemi, é claro. Não existe competição
no Aikidô porque isto eliminaria muitas pessoas da prática
do Aikidô. O propósito do Aikidô é
permitir tanto quanto possível um grande número
de pessoas diferentes - homens e mulheres, jovens e idosos,
pessoas fortes e franzinas - desenvolver seus potenciais através
da prática em grupo.
O que
você considera ser a mais importante qualidade em um
bom Aikidoca?
Sinceridade.
Sensei
Chiba, eu gostaria de agradecer ao senhor em nome dos leitores
da Fighting Arts por conceder um tempo seu para conversar
comigo.
Nota aos leitores:
No texto, por várias vezes, fatos são mencionados
como sendo atuais, tal como as menções ao sensei
Kisshomaru Ueshiba como sendo o atual Doshu. Isto é
devido a esta entrevista ter sido realizada na época
em que sensei Kisshomaru ainda estava à frente do Hombu
dojô.
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