ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com o Sensei Mitsunari Kanai
por Robert Whelan

Na segunda parte desta entrevista, Kanai Sensei, partilha os seus pensamentos sobre como começou no Aikido, assuntos como ética, filosofia e relações entre alunos e Sensei.

Conta-nos, também, as suas expectativas sobre os alunos, relacionadas com a prática de armas, as atitudes com o treino em geral, assim como as relacionadas directamente com exames e promoções. A visão do Sensei no que respeita às qualidades apropriadas dos alunos parece ser generosa e compreensiva. Isto indica, pelo menos para mim, que talvez pudéssemos todos ser um pouco mais tolerantes e aceitar as mais variadas razões que as pessoas têm para treinar Aikido. Em contraste com isto, talvez sejamos demasiado tolerantes e compreensivos conosco próprios, e seria melhor que reavaliássemos o nosso próprio nível de prática e empenhamento, em vez de julgarmos os outros.

Parece demasiado fácil cair na ratoeira de uma mente rígida, a qual assume que "só existe uma verdadeira maneira de praticar, e eu sei qual é". Uma mente mais aberta e uma atitude mais equilibrada permitem reconhecer que o Aikido oferece algo de especial para todos, muito mais coerente com o verdadeiro e autêntico lema da arte da filosofia da harmonia.

Kanai Sensei é muito claro através da sua expressão "alcance e profundidade" do Aikido, que como arte marcial, é mais do que capaz de oferecer algo diferente para todos.

P - Sensei, quando se começa a ensinar principiantes no Aikido, é preferível começar pelo ataque de Katatetori?
K - Sim, porque é simples, básico e aplica-se a todos os outros ataques. À medida que o aluno começa a captar cada vez mais rapidamente, então torna-se quase como um "Tsuki". Passa a ser a mesma coisa.

P - Quais as expectativas do Sensei em relação aos alunos?
K - Todas. (risos) Espiritualmente ... tudo.

P - Pode o Sensei dar aos alunos alguma sugestão ou esclarecimento sobre atitude, compromisso, empenho?
K - Sobre essa pergunta em especial eu não posso dizer nada. Não posso dar aos alunos sugestões sobre compromisso, empenho. Todas as pessoas são diferentes, têm diferentes motivações e razões para praticar Aikido. Algumas vêm apenas uma vez por semana praticar. Outros alunos querem, se possível, fazer três aulas por dia! Existe também o factor idade. Devido a ela os estudantes têm condições diferentes e um Sensei não pode dizer especificamente que tipo de atitude ou compromisso eles devem ter. Fico satisfeito que eles pratiquem com sinceridade e tenham bom espírito na prática do Aikido. O que não gosto é quando os alunos praticam sem seriedade, ou quando simplesmente não sentem o que estão a fazer. Alguns alunos que já praticam há muito tempo e sentem que já praticaram que chegue. Assim, por vezes ... esquecem-se que existe uma certa linha ... atravessam essa linha e tornam-se desleixados na matéria. Começam a esquecer tudo o que o Aikido é. Começam ... não a brincar, mas a não fazer Aikido. Não é uma atitude correcta. Uma boa expressão para descrever é "muito casual". Quando um aluno pratica há cerca de 10 ou 15 anos, por vezes esquece essa linha e desenvolve uma espécie de apatia devido a praticar a mesma coisa vezes sem conta, mas sem pensar no que está a fazer. É muito fácil as pessoas caírem na rotina.

P - Isto leva a uma nova pergunta, Sensei. Assumindo que os alunos têm condições diferentes, tais como, horário de trabalho, distância a que vivem do Dojo, que conselho daria a alguém que não tem possibilidade de ir ao Dojo? Como pode ele praticar Aikido diariamente?
K - Sozinho? Percebo o que quer dizer, mas é muito diferente da prática num Dojo. Existem coisas que se fazem no Dojo e coisas que se fazem fora do Dojo. Embora eu entenda as razões por que faz essa pergunta, é o mesmo que perguntar "O que pode substituir a prática no Dojo?" Devido a ser tão diferente não existe nada que a substitua.

P - Que espécie de características ou que atitudes gostaria de ver nos alunos quando eles vêm para as promoções? Do seu ponto de vista, qual a atitude que devem ter? Como é que o aluno se apercebe que está pronto para a promoção?
K - Primeiro que tudo existe um mínimo de condições para exame. Ter praticado as horas necessárias e saber as técnicas pedidas. No entanto, se possível, o aluno deve possuir mais do que isso. Mesmo que o aluno consiga fazer todas as técnicas e tenha as horas necessárias, deverá conseguir fazer mais. Ele deve conseguir executar as técnicas sem pensar e sem demonstrar cansaço. Claro que todas as técnicas exigidas devem sair a 100% ... mas ele deve ter algo mais ... qualquer coisa "extra".
Quando vejo os exames, penso que muitos alunos ainda não estão preparados e sobretudo não estão confiantes

P - O aluno deverá então realizar o teste com um à vontade que demonstre confiança? Uma reserva extra que permita ao aluno não estar precisamente no limite da sua capacidade?
K - Confiança ... sim, confiança, assim mostra que é capaz de mais. Exactamente.
Algumas vezes sinto que os alunos não deviam passar no exame ... mas é claro eu sou humano e assim sendo sinto alguma simpatia por eles e eles passam. Sempre que existem exames eu não me sinto bem no papel do juiz. Se são alunos meus, sinto mais liberdade para os passar ou não. Mas quando são alunos de outros Dojos, uma vez que eles treinam programas diferentes e praticam de maneira diferente, eu tenho que ser um pouco mais generoso na sua apreciação, embora eu saiba que isto é mau, que vai fazer baixar o nível do Aikido. Como tudo isto faz declinar a qualidade do Aikido, eu não me sinto muito bem nestes dias de exames.

P - Na última entrevista, o Sensei falou sobre os instrutores que são muito bons a explicar as coisas, que os alunos rapidamente aprendem os movimentos. Devido a isto o senhor disse que os alunos "não aprenderam a essência". Eles não têm nada "dentro". Se houvesse mais erros, os alunos teriam que lutar mais e assim estariam mais aptos a aprender a "essência"?
K - Primeiro que tudo não vi ninguém tecnicamente bom mas cuja "atitude" ou algo assim não fosse boa e falhasse. Isto não existe. As pessoas que se tornam tecnicamente boas têm boa atitude. Porque se a pessoa pratica com regularidade e intensidade por um longo período de tempo a prática influenciará a sua atitude.

P - Na sua ultima entrevista falamos de pessoas que tendo a "filosofia" do Aikido, mas prosseguem com uma prática diferente. Estes aspectos não parecem coordenados. Mas se alguém realmente investir no treino necessário para adquirir capacidade técnica, a filosofia da atitude, o DO aparece automaticamente?
K - Não estou certo sobre o DO ou o TAO. Não tenho a certeza se o aluno o terá ou não. Mas se os alunos
praticarem muito e muito, e muito, e conseguirem perfeição em muitas técnicas, depois de muitas horas de esforço eu penso que pelo menos os alunos entenderão o que é o Aikido.

P - Sensei, acha que para os alunos de Aikido, a prática de armas será indispensável para eles em alguma altura do seu percurso no Aikido?
K - (Risos) A sua maneira de fazer a pergunta perde o ponto principal. Por exemplo, se a sua pergunta fosse "Aprender armas será vantajoso para a aprendizagem do Aikido?" isto mostra um conceito errado. Se entendermos o que é o Aikido, isto não é o caminho de como as coisas devem acontecer. Se nos guiarmos pelos princípios que aprendemos no Aikido ... relacionados com a maneira de movimentar o corpo, como fazer "Sabaki" movimentar-nos-emos da mesma forma com ou sem arma. Se movimentarmos o corpo de acordo com os princípios do Aikido, então é lógico que podemos aplicar isto ao trabalho com armas. É assim que eu penso.

P - Sensei, qual é o ponto essencial no Aikido? O que é mais importante? Qual é a essência?
K - Primeiro que tudo não posso dizer o que é a essência do Aikido numa palavra. Não posso resumir numa palavra a essência do Aikido porque ela reside em muitos factores, em muitos aspectos. Outra dificuldade é que se, pegarmos num factor e o examinarmos isolado, do início ao fim, torna-se quase "acadêmico". Por exemplo, quando no Aikido dois indivíduos colidem um com o outro ... como é que vamos analisar isto? Temos que ir para o que chamamos "dinâmica", o princípio da física que descreve como é que a força se movimenta, por isso é que eu digo "acadêmico". É preciso estudar mais fundo para entender a física desta situação. É parte deste campo, certo? Existem muitos exemplos. Se começarmos a pensar sobre "maneiras" no Aikido, podemos pensar em "maneiras" no Dojo. No que respeita a maneiras, comportamento, para o Sempai, do instrutor, etc.. Estamos agora no campo sociológico. E estamos a começar a pensar sobre a sociedade ... e mais uma vez é "acadêmico". Então, através das artes marciais, se começarmos a pensar ou estudar sobre modéstia, humildade ... então estamos a pensar em religião, e a entrar no aspecto religioso. Assim o Aikido é a junção destes factores num sistema. Isto é o Aikido. É por isto que o Aikido é muitas vezes chamado de "sogo budo"... isto é "arte marcial total" ou "arte marcial universal" ou ainda "arte marcial fundamental". É por isto que eu não posso pôr simplesmente numa palavra a essência do Aikido. Aikido tem tantos aspectos e cada aspecto pode levar a um campo inteiro. O Aikido é difícil de aprender, porque requer "perfeição" em todos os seus aspectos. Assim, é uma arte marcial muito difícil. Quando aprendemos Aikido, tornamo-nos muito sérios, e naturalmente à medida que estudamos a maneira de compreender e fazer Aikido, percebemos que não pode ser de uma maneira banal. Assim as minhas palavras para os estudantes que praticam Aikido há alguns anos são "não se tornem complacentes ... não sintam que já lá estão" porque há sempre mais.

P - Falando das expectativas do Sensei em relação aos alunos, quais são as expectativas em relação aos instrutores?

K - Eu quero que os instrutores pensem mais profundamente ... porque agora no Aikido existem mais alunos que já praticam há muito tempo. O nível do Aikido também está a crescer, assim os alunos podem impulsionar o crescimento dos instrutores. Os instrutores devem estar certos de que não são ultrapassados. Os instrutores têm que treinar-se a eles próprios mais e pensar mais. O Aikido está sempre em crescimento, se pensarem que está estagnado então param. Há sempre alguém à procura de técnicas novas no Aikido. Por isso é que eu digo que se os instrutores param de pensar ou de trabalhar a técnica e os alunos os ultrapassam, não apenas no Aikido, mas em tudo, se pararmos de pensar as coisas deixam de crescer.
O Aikido está em crescimento porque há sempre alguém que pensa. É isto que é o Aikido ... alguém sempre à procura.
Desde que as pessoas realmente pensem que cresce, o Aikido cresce.

P - Tendo estado na América durante algum tempo está satisfeito com o desenvolvimento do Aikido nos Estados Unidos?
K - Com algumas condições, eu penso que neste momento o nível dos Estados Unidos é o melhor do mundo. Mas, não estou satisfeito com isto.

P - Que metas nos põe?

K - Não posso dizer isso, porque ainda estou a estudar e trabalhar esse assunto. Não posso dizer apenas qual o objectivo.

P - Quais seriam algumas das condições que gostaria que nós examinássemos mais profundamente e avaliássemos de modo a podermos melhorar?
K - Existem tantas diferenças e extremos. Até nos Estados Unidos existem talvez 10 organizações diferentes de Aikido, a nossa federação e outras. Mas mesmo nos que fazem parte desta federação, nos seus diferentes Dojos, as diferenças existem, devido à localização geográfica, diferentes níveis de prática e também porque os instrutores têm características diferentes uns dos outros. Um instrutor é bom num aspecto mas outro é melhor noutro aspecto, assim existe a diferença nesta estrutura. Ainda não se tornou una. Assim talvez seja esta a meta, o objectivo.

P - Sensei, pode partilhar alguns pensamentos, sentimentos ou idéias sobre "padrão ético" que gostaria de ver nos instrutores?
K - Se eu tivesse expectativas éticas para com os instrutores e se eu falasse sobre elas poderia causar
problemas. É muito difícil falar sobre esse assunto. Mas direi desta maneira, se os alunos pensarem no tipo de instrutor que querem ter, então naturalmente definir-se-á a ética correcta do instrutor nesse momento. Por outras palavras, se os alunos pensarem seriamente no tipo de instrutor que querem, então saberão qual a ética que esse instrutor deve ter. Se o instrutor tentar perceber o que os alunos querem, o que procuram nele, então o instrutor descobrirá que tipo de instrutor deve ser.
Ficará mais consciente daquilo que deve ser. É uma questão de senso comum, uma consciência daquilo que se deve ser.

P - Por exemplo, se eu for dono de um "health club" onde as pessoas vêm para levantar pesos, não estou a oferecer uma filosofia, não há um caminho a seguir. Mas um Dojo implica uma filosofia. Alguns instrutores podem assumir-se eles próprios como mentores, e eu não estou muito certo que alguns instrutores vão ser sinceros interessados o suficiente para ouvir os alunos e dar-lhes o que precisam. Podem mesmo aproveitar-se dos alunos. Assim, Sensei de um modo geral pode fazer algum comentário sobre o que espera dos instrutores?

K - É uma pergunta muito difícil. Porque se alguns alunos olham o instrutor como um mentor e ele corresponde, estamos a falar de uma responsabilidade para com outro ser humano. Se o aluno se deixa influenciar pelo instrutor, Sensei, então é um assunto muito sério, porque temos uma pessoa influenciada por outra. Um assunto muito importante. Por exemplo, se um aluno se interessa realmente pelo Aikido, e se se concentra completamente nele, então a sua vida torna-se Aikido, e ele pode abandonar a sua vida real. Uma vez que isto é possível, é uma coisa muito importante esta influência de um sobre o outro. Não precisa ser o instrutor, qualquer pessoa tem responsabilidade sobre outra quando a influencia. Por esta mesma razão eu não posso dizer como os instrutores devem ser ou como deverá ser o verdadeiro instrutor. Tudo isto são razões que me impedem de o dizer. Penso também que são limites que os alunos devem esperar do instrutor. É um assunto muito sério. Ensinar Aikido não é uma ciência exacta. Não é matemática. Na matemática existem certezas, respostas definitivas. Mas se os alunos perguntarem ao Sensei sobre os seus problemas ele responderá que não há certezas. Porque não é como a matemática. Um ser humano é uma coisa viva. Por isso, como ser humano só tem certeza de uma coisa, o instinto. Para os seres humanos sobreviverem no mundo precisam de instinto. Isso é a única certeza para um ser humano. E na longa história da humanidade os seres humanos já quase perderam o instinto. Tentaram substituir essa perda com alternativas como, "amor" ou "religião" ou "moral" ou "competição física", etc. Bushido ou Budismo é a mesma coisa. É tudo uma ilusão. As pessoas procuram uma ilusão quer seja Bushido, Budo, ou qualquer outra coisa. Por isso mesmo o instrutor também vive na sua ilusão ... na sua idéia. Ninguém pode dizer ou forçar outro a viver a sua própria ilusão. É a idéia de cada um e é por isso que eu digo que o Aikido não é uma certeza. Não existe como uma coisa absoluta. No mundo em que vivemos não existem certezas absolutas. Se os alunos procuram um mentor, isso é muito é demasiado para um instrutor assumir esse papel, pois força-o a ter uma responsabilidade perante outro ser humano.

P - Sensei, que razões iniciais o atraíram no Aikido? Porque escolheu o Aikido?
K - No meu caso é muito simples, eu simplesmente não poderia ficar satisfeito com outra arte marcial e também porque não esperava muito do Aikido. Poderia ter sido qualquer outra arte naquela altura.

P - Foi mais o momento na sua vida do que a arte em si ?

K - Sim, aconteceu ser o Aikido que encontrei naquele momento.

P - Quando é que tomou consciência do Aikido?
K - Vi na televisão. O-Sensei e Tamura Sensei faziam uma demonstração.

P - O-Sensei era aquilo que você esperava como professor?
K - Foi isso que me atraiu para o Aikido naquele momento e actualmente é por isso que após receber ensinamentos do O-Sensei ainda continuo no Aikido. Por outras palavras encontrei o meu "shisho", o meu professor.

P - Que encontrou no O-Sensei que o fez decidir a ficar com ele?

K - Apenas a sua maneira de ser. Eu simplesmente gostei dele. Por isso não existe uma coisa ... eu apenas gostei muito dele.

P - Qual a parte mais difícil no seu treino?
K - A parte mais difícil foi o "Keiko" ... prática. A prática foi o mais difícil.

P - Era austera?
K - Para mim foi. Todos os dias eu pensava em desistir. Todas as manhãs eu acordava e dizia "vou praticar apenas hoje ... mas amanhã vou decididamente desistir".(risos)

P - Outra pergunta sobre o O-Sensei , o Doshu escreveu que o O-Sensei disse "O Aikido é mais rápido do que a luz". O que isto quer dizer?

K - Não sei o contexto em que o Doshu escreveu isso, mas o O-Sensei disse-me que não importa quem se move primeiro. Outra interpretação pode ser que quando fazemos algo não devemos pensar "quando eu faço isto eu tenho essa ou aquela vantagem" e depois ajo. Devemos tomar a decisão imediatamente e agir, devemos faze-lo mais rápido do que a luz, no momento exacto. As decisões devem ser tomadas no exacto momento, no "timming" certo.

P - Então existe a situação e sem hesitação, sem pensar, sem impedimento movemo-nos em harmonia com a situação e já está?
K - É precisamente isso. Quando nos vencemos a nós próprios. Quando fazemos algo que não pensamos "se eu fizer isto acontecerá aquilo...perderei dinheiro ou ganharei uma posição melhor" ou qualquer coisa no gênero. Não devemos fazer isto. A maneira correcta de agir é o mais importante. De acordo com esta filosofia. Se agirmos acontece certo. Então isto é mais rápido do que a luz, não se trata de técnica.

P - Sensei, há mais alguns instrutores ou professores que o tenham influenciado antes do O-Sensei?

K - Antes de começar no Aikido? Sim, muitas pessoas. Um deles foi o meu professor de escola primária, e também um excelente professor da escola secundária.

(Tradução Amália Farinha - Instituto Takemussu de Portugal).



 

 

 

 

 








 

 










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