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ENTREVISTAS
COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Isoyama Shihan-8 Dan
Antigo aluno do Fundador
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Entrevista
concedida à Stanley Pranin para o Aikido Journal Magazine
- nº 119
Hiroshi
Isoyama iniciou-se na arte do Aikido ainda criança,
aos 12 anos de idade, no Dojo do Fundador Morihei
Ueshiba, em Iwama. Ele é um dos poucos e raros indivíduos
--- sendo o outro Morihiro Saito --- a ter tido contato
com o Fundador durante seu período de "amadurecimento"
do Aikido moderno. Isoyama é apaixonado por seu estudo
do Aikido, e seu dinamismo é refletido em sua técnica
explosiva. Hoje em dia aposentado após uma longa e
distinta carreira na Força Aérea, Isoyama se dedica
em tempo integral ao seu treinamento e a ensinar.
Ele tem se tornado cada vez mais conhecido internacionalmente
e tem freqüentemente viajado a outros países nos últimos
anos.
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O
Aikido em Iwama, após a guerra.
Aikido Journal:
Por favor, diga-nos como o senhor se iniciou no Aikido.
Isoyama Sensei:
Foi lá pelo ano de 1949, que como você sabe, foi
uma época muito difícil no Japão. Minha família dirigia
uma hospedaria. Diferentes tipos de pessoas se hospedavam
lá, incluindo membros da Yakuza e, devido a isso, achei
que seria estupidez se eu não soubesse algum tipo de arte
marcial. Aconteceu que o aiki Dojo (ainda não existia o
nome Aikido, e o Dojo viria a se chamar "Aiki Shuren Dojo")
acabara de iniciar aulas para crianças, por isso fui até
lá com outras crianças da vizinhança para me inscrever.
Eu tinha doze anos nessa época.
O O-Sensei
ainda vivia em Iwama?
O-Sensei dava
aulas todos os dias à tarde para as crianças.
Os ensinamentos
eram os mesmos utilizados no Hombu Dojo em Tóquio?
Eu não sei como
eram os treinos em Tóquio naquela época, mas ele costumava
ir um a um a cada aluno e segurar em seus pulsos, e ensiná-los
dessa maneira. Ele mesmo não fazia ukemis, mas ele fazia
qualquer técnica que fosse, shomenuchi ikkyo por
exemplo, para cada pessoa individualmente no tatami, enquanto
os outros assistiam. Ele nunca deu explicações detalhadas
Não haviam tatamis
nesse dojo, por isso os treinos eram muito doloridos. Por
essa razão era muito difícil conseguir pessoas querendo
treinar. Depois de muitos anos eles finalmente puseram tatamis
no dojo, mas já estávamos treinando no chão de madeira por
tanto tempo, que por um tempo tivemos problemas para nos
ajustarmos a eles. Se você bater sua cabeça no chão
de madeira fazia um barulho alto, mas a dor nunca penetrava
a cabeça toda. Depois de colocarmos tatamis, a dor chegava
completa. Naturalmente, a maneira de fazermos ukemi mudou
quando passamos da madeira para os tatamis.
Quem estava
no dojo nesse tempo, além de Sensei Saito?
Haviam pessoas
como Takeo Murata, Sakae Shimada (hoje diretor da Federação
da Prefeitura de Ibaragi), e Sachio Yamane. De qualquer
modo, como eu disse, não existiam muitas pessoas treinando
lá naquele momento. Também, Kunio Oyama, que mais tarde
se tornou aluno do lutador profissional Rikidozan, e outras
pessoas assim que estavam lá como uchideshi.
Eu vejo que
você acabou se alistando na Força de Defesa Pessoal
Japonesa.
Sim , eu me juntei
a Força de Defesa Aérea Japonesa, e fui enviado a Chitose
em 1958.
Você
formou algum clube de Aikido em Chitose?
Sim, no início
todos os meus alunos eram membros da Polícia Militar Americana,
mas com o tempo foi me pedido pelo comandante do posto a
ensinar aos membros da Força de Defesa Aérea Japonesa também.
Lá eu também aprendi o Inglês, devido a necessidade.
Durante sua
visita recente a Los Angeles, você ensinou em inglês?
Sim, inteiramente
em inglês! Em que outra língua eu poderia?! [Risos].
Devido a muitos de seus alunos da Polícia Militar Americana
serem fisicamente muito maiores que o senhor, o senhor teve
que adaptar novas maneiras de fazer suas técnicas funcionarem
neles?
Certamente. Praticar
com pessoas assim é completamente diferente do que com pessoas
comuns que são menores que você. Fazendo até mesmo
Ikkyo contra um oponente muito maior é muito difícil,
especialmente em termos de como se deve entrar e do timing
que se deve usar. Treinar com pessoas assim era uma grande
experiência, com a qual eu aprendi muito.
Minhas técnicas
de kataguruma e gansekiotoshi, por exemplo,
começaram quando eu tentava ensinar koshinage. Quando
eu tentava fazer koshinage em algumas das pessoas
mais altas, percebi que eles passavam por cima de mim; não
importando como eu fizesse a técnica, eu não conseguia projetá-los
porque não importava o que eu fizesse, com a diferença de
altura, meu koshi não ficava numa posição adequada
na frente deles. Então, eu tive a idéia de colocá-los em
cima de meus ombros ao invés de em cima de meus quadris,
e foi assim que eu comecei a fazer essas técnicas. Eu não
estava tentando ser bruto ou exibicionista, eu estava somente
tentando fazer as técnicas funcionarem. A necessidade
é a mãe da invenção!
Lá em Chitose,
haviam muitos lutadores e boxeadores e afins, que vinham
rir do que estávamos fazendo. Devido ao alistamento para
a guerra, havia todo tipo de pessoas diferentes entre os
militares Americanos. Normalmente, durante as aulas de Aikido,
você entra e aplica sua técnica no oponente assim
que ele está atacando, mas quando eu fazia isso, muitos
deles reclamavam que ainda não estavam prontos; eles queriam
que eu os deixasse que segurassem bem firme ou que me estrangulassem
para daí eu ver se eu conseguia tentar aplicar alguma técnica.
Normalmente nos treinos, o oponente vem atacar pela frente
e em seguida se move em volta do nage até chegar
por trás do uke, para assim impedi-lo e não dar chance
para que ele lance um ataque completo. Mas isso não os convencia,
por isso eles queriam primeiro me agarrar bem firme para
poder me desafiar para eu tentar me livrar deles.
Em outras palavras,
o senhor tinha que praticar sob as mais difíceis circunstâncias
possíveis.
Havia um rapaz,
um lutador de luta livre, que havia conseguido o sexto lugar
nas Olimpíadas de Helsinki, que caía no chão e me agarrava
por trás e me abraçava, de maneira que eu não conseguia
mover minhas mãos e pés, e dessa posição me desafiava a
tentar me mover. A única parte do meu corpo que estava livre
era minha cabeça, então dei uma cabeçada para trás, quebrando
a cartilagem de seu nariz com a minha nuca. Isso é proibido
na luta livre, é claro, mas tais regras não se aplicam ao
Budo. Ao atingir seu rosto, eu gritei e consegui uma abertura
momentânea para sair. Eu disse a ele, "É assim que o Budo
é!", e ele se convenceu. Esse tipo de coisa acontecia todos
os dias...
Você
conta aos seus estudantes Americanos sobre o Fundador, Morihei
Ueshiba?
Sim. Eu até levei
alguns deles até Iwama para conhecê-lo. Eles não acreditavam
quando me viram sendo arremessado para todos os lados do
tatami pelo O-Sensei. Eles diziam, "Como é que pode alguém
como o senhor, que arremessa a todos nós tão facilmente,
ser arremessado assim por um velhinho?!". Eu respondi, "Isso
é o que eu queria saber!!" [risos]. Expliquei que
o Aikido não tinha nada a ver com a idade da pessoa. Eles
me perguntaram se eles próprios poderiam tentar segurar
o O-Sensei, e um dos mais ávidos tentou e, no momento em
que se levantou para a tentativa, foi imediatamente derrubado
e imobilizado. Não conseguiam imaginar como puderam ser
controlados daquela maneira; eles só sabiam que havia acontecido!.
A última vez que
fui aos Estados Unidos, eu me encontrei com um daqueles
antigos militares que haviam sido meus alunos. Eu não o
via há mais de quarenta anos. Depois de chegar a Shodan
ele voltou aos Estados Unidos, se formou pela Universidade
de Boston e mais tarde foi oficial na Guerra do Vietnam.
Após tudo isso, se juntou ao FBI onde, por vários anos,
esteve envolvido com estudos das técnicas de domínio e imobilização,
o que chamamos no Japão de "taihojutsu". Ele usou
a Internet para me ajudar a procurar os outros que também
haviam sido meus alunos naquela época. É maravilhoso que
o Aikido construa relacionamentos dessa maneira. Mesmo que
estejamos afastados por algum tempo, ainda existem maneiras
para que eles voltem a você novamente.
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Budo
como uma corrente que flui sob o Aikido
Como
você diria que sua ênfase na importância do Budo
no Aikido se desenvolveu?
Por eu estar numa
posição de ensino do Aikido, eu sinto que devo me manter
orientado numa direção consistente. As pessoas praticam
o Aikido por uma série de razões --- para se manterem em
forma ou saudáveis --- mas é claramente o "Budo"
que é a corrente fluente que existe por debaixo do Aikido.
Não há problemas com as pessoas praticando Aikido por uma
simples razão de os manter em boa forma, mas eu acho que
eles deveriam ainda cultivar o tipo de vigilância constante
que se deve Ter para se evitar dar aberturas aos potenciais
oponentes. Esse é um aspecto oculto no Budo e de
suma importância, e eu penso que ao se negligenciar ou dar
pouca importância a isso em seu treinamento, resultará em
uma grande divergência com o verdadeiro espírito do Aikido.
O pensamento do
Fundador se modificou ao correr dos anos em que começou
a ensinar o Aikido até o final de sua vida, por isso, naturalmente
os tipos de movimentos que ele utilizava também se modificaram.
Existem pouquíssimas pessoas que tiveram direto contato
com ele durante essas várias décadas e, devido a isso, em
muitos aspectos é como estória dos três homens cegos que
apalpavam três partes diferentes de um elefante, dando descrições
diferentes entre si sobre o que era um elefante. Nesse sentido,
eu imagino se existe alguma pessoa capaz de entender a grandeza
do O-Sensei em sua totalidade.
Algumas pessoas
tiveram contato com o O-Sensei durante o tempo em que ele
difundia o Aikido puramente como um Budo; outros
somente começaram a aprender com ele quando seu pensamento
evoluiu e ele enfatizava o Aikido como "um caminho para
a harmonia"; outros ainda, estiveram com ele durante outros
períodos de sua vida. Todos eles terão pontos de vista e
interpretações diferentes, e eu acho que é impossível dizer
que qualquer uma das interpretações seja a melhor que as
outras.
Eu também acho
que existem diferenças de acordo com e a idade do aprendiz.
As pessoas mais jovens naturalmente procuram um tipo mais
forte de Aikido, enquanto que os mais velhos podem Ter sido
atraídos aos aspectos mais espirituais e harmônicos, e assim
sendo, isso é o que cada um absorve dos ensinamentos do
O-Sensei. Assuntos como esse tornam muito difícil de se
falar do Aikido de uma maneira mais definitiva.
Como você
sabe, o O-Sensei nunca escreveu muito sobre Aikido em livros,
mesmo assim, algumas de suas técnicas estão gravadas no
livro "Budo". Algumas vezes penso no porque de ele
não Ter escrito mais sobre o Aikido, mas por outro lado,
acho que compreendo: eu pensamento gradualmente foi evoluindo,
e ele pode Ter sentido que qualquer coisa que ele escrevesse
em seus anos de juventude, poderia acabar sendo potencialmente
contraditório com seus pensamentos mais tarde. A mesma verdade
existe em sua técnicas: se ele houvesse dito alguma coisa
definitiva sobre elas em qualquer época, ele poderia acabar
se contradizendo mais tarde em sua vida, devido a sua evolução.
Outra dificuldade
que existe é a de diferentes pessoas que tendem a querer
interpretar as palavras do O-Sensei em maneiras diferentes,
mesmo que ele, na verdade, tenha dito a mesma coisa para
todas elas. As pessoas então, tendem a expressar suas próprias
interpretações como se tivessem absorvido tudo o que ele
queria dizer e, por isso, os levam a outras variações, o
que acaba causando eventuais desentendimentos.
Quando o O-Sensei
ensinava, ele nunca dava nenhuma explicação detalhada em
particular. Uma das razões era que muitas das pessoas que
vinham treinar Aikido com ele, eram sempre pessoas de alto
nível social, como oficiais militares, políticos, pessoas
altamente graduadas de outras artes marciais, pessoas do
setor financeiro, administradores de grandes empresas, e
muitas outras pessoas importantes e respeitadas em seus
ramos de negócio. Dar detalhes demais para pessoas assim,
por exemplo, ensiná-los coisas como: "essa é a maneira correta
de se curvar ao se cumprimentar" e coisas do tipo, seriam
consideradas como humilhantes e ofensivas.
Durante o treinamentos,
O-Sensei sempre se dirigia em linguagem respeitosa e educada
aos indivíduos de alto nível na sociedade e a nós alunos
comuns. Eu ficava muito comovido por essa atitude de interagir
com as pessoas.
Um exemplo
pode ser o debate sobre o atemi, que quase
não existe mais como parte da maioria das técnicas de Aikido.
Qual é o seu pensamento sobre o uso do atemi,
de um ponto de vista de combate?
Fazer o atemi
somente por fazer, resulta em nada mais do que uma forma
vazia. Não há necessidade de se dar um atemi, a não
ser que seu golpe é o tipo de golpe que terá um efeito real.
Um atemi não tem que necessariamente resultar em
um golpe fatal, mas deve ser capaz de causar um certo estrago
real. Também, se você quiser pensar seriamente sobre
atemi, você terá que pensar também sobre os
chutes.
Karate, por exemplo,
tem excelentes técnicas de chute e socos. Eu diria que a
maioria dos movimentos do Karate é predominantemente em
linha reta, enquanto que no Aikido tende-se a enfatizar
os movimentos mais circulares ou esféricos. Ambos tem seus
pontos fortes e deficiências, e eu não acho que você
pode dizer incondicionalmente, que um é melhor do que o
outro. Em todo caso, se você vai usar socos ou chutes
como atemi no Aikido, você precisa pensar constantemente
em como deve incorporá-los, de maneira que seja considerado
o timing e outras características dos movimentos do Aikido.
A
controvérsia das Armas
O uso de armas
no Aikido é outro assunto em que existem diversos pontos
de vista diferentes. O senhor acha que as armas fazem têm
algum papel no treinamento do Aikido?
Eu definitivamente
acho que elas têm. Técnicas como tachitori (técnicas
de desarmamento de espadas) e jodori (técnicas de
desarmamento de bastão), são incluídas como parte dos testes
de dan, e as pessoas que somente fazem as técnicas
com as mãos vazias, não serão capazes de demonstrar, serão?
Também, se você
não tiver um forte comando das técnicas com armas, de maneira
nenhuma você conseguirá responder corretamente se
seu oponente estiver com uma arma. você acha que terá
sucesso se um expert em kendo te desafiar a fazer
o tachitori do Aikido contra a espada dele? Ou se
um praticante de Muso-ryu jo te dar a chance de tentar
tirar o jo dele e desarmá-lo, você será capaz de fazer
isso facilmente? Eu duvido.
Eu acho que as
técnicas com armas são extremamente importantes, mas também
acho que é perigoso praticá-las somente superficialmente;
se você vai praticar técnicas com armas, deve praticar
seriamente e por completo. Essa é uma das razões porque
eu acho que não há necessidade de se praticar coisas como
tachitori e jodori em tantas variações. Tantotori
(técnicas de desarmamento de faca), também, é algo que eu
pratiquei contra uma lâmina real, mas somente com algumas
variações. Tudo o que você precisa é uma ou duas técnicas,
e se você realmente as domina bem, daí eu acho que
você estaria o melhor equipado que se poderia estar,
para se defender contra tais coisas. É claro que, sempre
que a situação envolver armas, sempre existirá um elemento
de perigo.
Já que não podemos
praticar com armas reais no dojo, nós usamos espadas de
madeira (bokuto), mas se você quer tornar seu
treino o mais eficiente possível, é necessário que você
pense que a lâmina do bokuto é real, e não somente
como um pedaço de pau. Isso inclui fazer seus ataques rápido
e decisivos, cheios de intenção. você não será capaz
de cultivar o grau correto de seriedade se você estiver
cortando de maneira a facilitar o seu ukemi. É uma
coisa muito boa manter esse tipo de coisa no fundo de sua
mente, quando estiver treinando com armas.
Se diz freqüentemente
que não existem confrontos no Aikido. Eu acho que existem
várias dimensões de significado nisso, mas o O-Sensei disse
uma vez, "A Vitória e a derrota são meramente relativos,
no entanto o Aikido busca a força absoluta, e não relativa.
Por isso, o Aikido é o treinamento diário de "vencer antes
da luta começar".
Qual era a
visão do Fundador em relação as técnicas com armas, em sua
percepção? Por
exemplo, de acordo com o Sensei Morihiro Saito, o Fundador
treinava bastante com armas e consequentemente o Aikido
do Sensei Saito contém muitas técnicas com armas. Por outro
lado, outros apontam dizendo que o Fundador não ensinava
com armas no Hombu Dojo, e até se zangava se alguém praticava
com elas.
Eu acho que provavelmente
seja verdade que o O-Sensei não ensinava com armas no Hombu
Dojo. Isso pode ter acontecido porque ele não tinha muito
tempo para treinar lá. Quando ele estava em Iwama, ele tinha
bastante tempo para fazer coisas desse tipo, e nós que estávamos
lá realmente fomos ensinados com armas como o ken
e jo. Então, o que o Sensei Saito diz é correto,
e também o é o comentário de que o O-Sensei se zangava se
alguém praticava com armas no Hombu Dojo. De fato, eu mesmo
vi o O-Sensei ficar zangado, mas isso foi porque as pessoas
que estavam praticando se enfrentar com as espadas (kumitachi)
não sabiam nem treinar o básico com as espadas (suburi)
muito bem ainda. Eu acho que o O-Sensei sentia que se os
alunos iam praticar com espadas, eles deveriam fazê-lo corretamente,
e se zangava se os via somente balançando suas espadas,
como se estivessem em algum filme de samurai.
Uma vez, numa
demonstração com o Sensei Saito --- acho que eu era sandan
na época --- eu pedi ao O-Sensei se eu poderia usar uma
lâmina real na demonstração de tantotori, mas ele
rejeitou a idéia. Acho que ele tinha uma boa idéia de minha
real habilidade na época, e sabia que não seria uma boa
idéia. Um tempo mais tarde eu usei uma lâmina real numa
demonstração em que o O-Sensei não pode comparecer e, é
claro que acabei me machucando. Me senti um tolo, e percebi
que eu tive que me machucar para perceber porque ele negou
meu pedido na primeira vez.
Existem pessoas
que praticam outras artes marciais juntamente com o Aikido,
por exemplo, misturam com iaido e
karate. Alguns estudam karate
para aprender maneiras de se lidar com os socos e chutes,
enquanto que outros fazem kendo para aprender
mais sobre os cortes e ataques.
Eu acho que isso
não tem problema até certo ponto, mas também acho que se
você vai longe demais levando isso em seu treinamento,
você vai acabar tornando o Aikido em uma luta qualquer.
No final, o que irá acontecer, é que irá se tornar uma atitude
de desafiar outras formas de Budo, pensando somente em como
ser o melhor em cada um ou como vencer aos outros.
Eu acho que é
mais importante se lembrar do conselho do O-Sensei para
"vencer antes de a luta começar". Ele ficou conhecido por
dizer que "nem as bombas atômicas me aterrorizam", baseado
no pensamento de que você simplesmente deve em primeiro
lugar, evitar que seu oponente as jogue, que é o que é mais
importante. Essa falta de medo não vem de se saber o poder
de retaliação dos outros num conflito, mas sim de uma orientação
espiritual que leva você a soluções que evitam conflitos,
em primeiro lugar. As armas são desnecessárias em locais
onde não existe conflito, e nem você vai ser atacado
em um lugar assim. O-Sensei dizia, "Nosso treinamento diário
é uma verdadeira batalha". Ele também dizia, "Nunca tema
outros estilos (ryuha), não importa o quanto seja
grande ou bom; mas também nunca despreze ou ignore outro
estilo, não importa o quanto seja pequeno". E também, "O
Aikido tem suas próprias coisas boas, e existem coisas boas
em outros estilos também".
É verdade que,
após a guerra, a maioria das pessoas que ensinavam Aikido,
incluindo o O-Sensei, pararam de ensinar armas, mas eu acho
que o assunto importante é tentar ver como o próprio O-Sensei
avaliava e entendia sobre a prática com armas.
Eu acho que ele
provavelmente sentiu que havia uma necessidade das técnicas
com armas. É por isso que ele se juntou a Kashima Shinto-ryu
e estudou outros estilos também. Isso nada mais é do que
minha própria opinião, mas eu acho que o O-Sensei tinha
as armas como um elemento essencial do Aikido, se for para
ser praticado como um Budo.
Na verdade,
no passado, quando as pessoas pensavam em Budo, elas tendiam
a pensar nele como Budo "composto" ou "compreendido" (sogo
Budo), que naturalmente incluiria o estudo de armas.
Sim, mas também
é importante que nós pensemos sobre como entendemos o propósito
de nosso treinamento. Se seu treinamento almeja somente
ficar forte no nível superficial, as armas se tornam meros
objetos para matar. Eu acho que é muito mais importante,
se você está usando uma espada ou jo ou outra
coisa, que você siga em seu treinamento de maneira
a ajudar a você mesmo como pessoa e cultivar um senso
de humanidade melhor. Em outras palavras, as metas de seu
treinamento são assuntos mais importantes quando se leva
em consideração o papel das armas.
Para o O-Sensei,
a meta parecia ser usar as armas como um canalizador ou
condutor, através do qual ele buscaria a energia do Universo.
Eu acho que esse tipo de coisa foi uma parte importante
em como ele usava as armas.
Ele sempre fazia
um exercício chamado nijuhappogiri (cortar vinte
e oito vezes) na qual ele cortava sete vezes em cada uma
das quatro direções, como uma maneira de dispersar a fraqueza
e o mal (jaki) pelo espaço à sua volta e também cortar tal
fraqueza de seu próprio coração e espírito. Eu acho que
é bom se balançar a espada se você está fazendo com
esse sentido.
Em seus últimos
anos, o O-Sensei parecia estar "possuído" por uma divindade
(kami). Por exemplo, ele é conhecido por dizer
aos alunos que, quando ele reprimia alguém, dizia que "esse
não é o Ueshiba que está reprimindo você, é o Kami!"
Sim, eu sempre
ouvia isso, mas eu acho que o que ele queria dizer, é que
ele pessoalmente não estava chamando a atenção do aluno
por raiva, mas que ao invés disso, ele chamava sua atenção
num ponto de vista mais amplo ---- o "grande olho" se você
preferir ---- do Kamissama, de maneira a ajudá-lo
a crescer. Nesse sentido, não estou certo que seria correto
dizer que ele estava "possuído pelos Deuses"; eram mais
as pessoas que estavam ao redor dele que interpretavam seus
atos daquela maneira. Isso é o que eu acho.
Outra coisa que
eu mencionaria da grandeza do O-Sensei, é que, enquanto
ele era um ardente seguidor da fé Omoto, ele nunca disse
para que seus alunos que deveria se tornar seguidores também.
Isso mostra como era o seu verdadeiro calibre. Praticantes
de Budo nos velhos tempos, eram pessoas que não estudavam
uma só coisa, mas muitas. O próprio O-Sensei sentia que
sua missão em vida seria montar seu estilo sem igual de
arte marcial, assim, naturalmente ele era muito entusiasmado
para estudar as coisas.
É impossível
de se criar alguma coisa nova sem que se esteja muito inspirado,
não é?
Existiram várias
tentativas para se criar um novo tipo de Budo após a guerra,
mas a maioria delas não durou mais do que uma geração após
sua fundação. Existem pouquíssimos que se mantiveram firme
como o Aikido se manteve. Mesmo o Judo que hoje temos, é
completamente diferente do que o que foi deixado por seu
fundador, Jigoro Kano.
Eu acho que
é difícil de se compreender profundamente a originalidade
do O-Sensei sem estudar a base fundamental dos seus estudos,
particularmente o Budo que ele aprendeu e seu envolvimento
com a religião Omoto.
Sim, não importa
o quão superficial você se aproxima. Por exemplo,
nós tendemos a imaginar que o O-Sensei se envolveu na religião
Omoto porque ele sentiu atraído a ela devido a ter atingido
o ápice em seu treinamento de Dayto-Ryu Aikijujutsu, mas
essa idéia é muito mais simples do que eu realmente acho
que foi, mas na realidade tudo foi muito mais profundo.
Eu acho que o Aikido é uma peça da cultura tradicional,
na forma de Budo, que vale a pena ser passado para as futuras
gerações. E porque o que é valioso nele é a sua espiritualidade
inerente, seria um erro limitar nosso treinamento somente
nos aspectos técnicos. É importante treinar de maneira a
se levar em conta o lado espiritual e técnico em conjunto.
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Aprender
se machucando
Eu soube que
o senhor se machucou há alguns anos atrás.
É verdade, foi tanto
que eu fiquei sem poder me mover. Eu tive um problema no joelho,
mas ignorei e, ao forçá-lo demais, acabei lesionando também
minhas costas.
Se reabilitar
depois de uma lesão como essa deve ter sido muito difícil
sem uma enorme força de vontade.
Havia um famoso
especialista em joelhos no Tokio Women's Medical College perto
do Hombu Dojo que me disse que eu provavelmente não me recuperaria,
e que a única coisa que eu poderia fazer era mexer minhas
costas o mínimo possível para evitar que a lesão piorasse.
Eu acreditei no que ele me disse e fiz o que pude para evitar
mexer essa parte de meu corpo, mas gradualmente essa condição
piorou e, por eu não estar usando essa parte, uma de minhas
pernas ficou mais fraca e mais fina. Eu não conseguia nem
chegar ao banheiro sem uma bengala.
Depois de continuar
assim por uns dois anos, comecei a pensar que se eu continuasse
a seguir as ordens médicas eu não acabaria completamente desabilitado.
Foi aí que decidi que eu deveria assumir as coisas eu mesmo,
e começar a trabalhar de outras maneiras para me curar, incluindo
achar modos de colocar pesos nos músculos para ajudar a construí-los
novamente. Eu me mantive nesse processo repetitivo durante
dois anos. Eu acreditei em mim mesmo e em minha capacidade
de recuperação de meu corpo se alto-curando.
O senhor ainda
continua fazendo algum exercício especial?
Sim, porque eu sei
que tudo se acabará se um dia eu não tiver mais nada para
fazer. O Aikido é a mesma coisa, na verdade; se você
atinge um ponto em que está satisfeito com o que já fez, onde
você pensa que ninguém poderá ultrapassá-lo, e aí que
você para de progredir. O-Sensei sempre dizia que "Treinar
(Shugyo) continua até o dia em que você morre."
Acho que essa é uma atitude importante a ser tomada, e que
pode ser aplicada em qualquer coisa.
Também é importante
perceber que, por exemplo, não importa o quanto famoso ou
bem conhecido o médico seja, ele não tem a experiência pessoal
sua condição de doente, por isso não sabe tudo sobre a doença,
não compreende a natureza real da dor. É por essa razão que,
de fato, assim que eu melhorei um pouco e consegui andar um
pouco mais, eu gostaria de usar minha experiência para ajudar
as pessoas que estão passando pelo mesmo tipo de dor.
International
Aikido Federation
Durante a era
do falecido Doshu Kisshomaru Ueshiba, o Aikido foi amplamente
disseminado fora do Japão, e foi há vinte e três anos atrás
que a International Aikido Federation (Federação Internacional
de Aikido) foi criada. Eu sei que o senhor foi um dos que
esteve ativo nisso, por isso gostaria que nos passasse os
sentimentos sobre o assunto e sobre a importância dessa organização.
Eu acho que o Japão
demonstra não ter o mínimo interesse na IAF, quando deveria
ser o país a Ter maior interesse. Uma razão pode ser que somos
muito abençoados com o Aikido em nosso país, com isso eu quero
dizer que você pode treinar Aikido sem ter que fazer
muito esforço para entrar tal federação. Pode ser por sermos
pretensiosos nesse aspecto. No entanto, o que devemos nos
lembrar é que existem muitos países no mundo, onde as pessoas
não tem acesso tão fácil a professores de Aikido e a locais
de treinamento. Eu penso que nossa meta número um deveria
ser construir uma organização de maneira que ele possa suprir
as necessidades dessas pessoas para treinar Aikido, sem que
se gaste muito dinheiro.
A organização
do Aikido no Japão é muito vertical, com o Zaidan Hojin Aikikai
e o Doshu no topo, e depois os vários shihan no próximo degrau
abaixo. A IAF, por outro lado, é organizada mais horizontalmente,
num modelo mais democrático. Conseguir com que os dois se
integrem bem, deve apresentar algumas sutis dificuldades de
tempo em tempo.
É verdade. Devido
a organização Japonesa ser fortemente vertical, o modo de
pensar tende a ser completamente diferente. No Japão parece
existir alguns grandes professores que são confiantes e independentes
e pensam que podem se manter praticando sem que tenham que
se tornar membros de tal organização. Isso seria normal se
fosse só no Japão, mas dada a natureza internacional do Aikido,
eu penso que há uma necessidade de se fortalecer gradativamente
o papel do que é hoje uma organização fraca, para que se tenha
um lugar para atividades que possam contribuir com a compreensão
do Aikido entre as pessoas que o praticam pelo mundo inteiro.
Não há razão e nada para ganhar se somente o número de praticantes
de Aikido aumenta enquanto nós deixamos a compreensão do lado
espiritual do Aikido se enfraquecer cada vez mais. Se deixarmos
isso acontecer, o Aikido se tornará algo muito diferente do
que o O-Sensei tinha em sua visão. O que precisamos não é
uma organização que restringirá ações individuais através
de uma estrutura hierárquica ou outra qualquer, mas pelo contrário,
uma que promova relacionamentos de amizade mútua entre seus
membros.
Quanto mais o Aikido
se difunde maior será o número de grupos que existirá e que
terá que ser associado a ela. Agora mesmo a organização que
tem o maior envolvimento é o World Games (Jogos Mundiais),
um evento atlético que acontece a cada quatro anos para várias
atividades olímpicas, que não é incluído nos Jogos Olímpicos
(Olimpíadas), organizado pelo GAISF, iniciado em 1985. Existem
várias categorias para os membros da World Games, e já que
não seria bom que o próprio Aikikai se tornasse membro dele,
a IAF se tornou.
Se você está
falando somente sobre Aikido, então é verdade que existe pouca
necessidade para organizações extras se colocarem entre o
dojo e o contato direto com o Hombu Dojo. Mas, pensando sobre
as coisa que acabei de mencionar, talvez tal organização realmente
seja necessária.
Especialmente
na Europa, onde há maior tendência de o Governo se envolver.
Sim, na França é
assim. Por exemplo, somente indivíduos reconhecidos pelo governo
Francês estão autorizados a graduar dan e kyu.
As coisas parecem
tomar um certo teor político em tais casos.
Isso essencialmente,
não tem nada a ver com o Aikido, já que o Aikido não tem competições
e é claramente diferente dos outros vários esportes. No entanto,
se você começar a enfatizar o fato de que o Aikido é
diferente, ele se tornará isolado, e assim parará de crescer
e, finalmente começará a se decompor.
Minha idéia seria
ter alunos estrangeiros de Aikido vindo ao Japão para passar
de dois a cinco anos no Hombu Dojo, praticando e aprendendo
Japonês, e em seguida despachá-los para ensinar em vários
dojos locais (como acontece com muitos instrutores japoneses),
e depois de uns oito anos no Japão, fazê-los retornar a seus
países de origem. Isso lhes daria a chance de entender o modo
de pensar do Hombu Dojo, seus objetivos, e maneira de fazer
as coisas, e também fazê-los se tornar pontes sobre a barreira
da língua estrangeira, quando retornassem para casa. De uma
perspectiva internacional, se existissem tais pessoas, seria
mais fácil de as pessoas colocarem sua confiança no lado Japonês
e as coisas correriam mais levemente nos vários países onde
o Aikido é praticado. Hoje em dia as barreiras da língua e
cultura são consideráveis.
Nenhum dos não-japoneses
atualmente praticando no Hombu Dojo são ushi-deshi, mas moram
fora e tem que pegar condução para ir ao dojo (exceto para
aqueles que treinam com Sensei Saito em Iwama, onde ainda
existe o real sistema de ushi-deshi). Em parte isso pode parecer
simples, porque o Hombu Dojo é precário e não tem acomodações.
Seria ideal que houvesse mais empenho do Hombu Dojo para ampliar
e melhorar as acomodações lá, para que assim as pessoas que
vem de outros países para treinar Aikido possam viver mais
barato.
É relativamente
fácil de se dirigir um dojo como um professor de Aikido profissional
estrangeiro, por isso temos que criar um sistema que possa
ajudar a cultivar as pessoas que querem fazer isso; senão
correremos o risco de sermos ultrapassados no tempo.
A chave parece
ser fortalecer o relacionamento entre o Hombu Dojo e as pessoas
de outros países, especialmente porque, já que a Europa, olhando
de uma perspectiva organizacional, será dominante devido a
suas habilidades políticas. Cultivar as pessoas e os recursos
humanos é muito importante.
Eu me lembro de
ter lido em algum lugar e há muito tempo atrás, a idéia de
que "a comunicação é o controle", e que quem dominar a comunicação,
dominará tudo. Nesse sentido, eu imagino que, se despacharmos
informações do Hombu Dojo diretamente a outros dojos por todo
o mundo, sem ter que passar pelo filtro das várias organizações,
ajudaria a fortalecer o Hombu Dojo organizacionalmente.
Uma
linhagem inquebrável
Agora que nós
chegamos a terceira geração de Doshu, quais são seus pensamentos
sobre a sucessão no Aikido, na linhagem do sistema Iemoto?
Diferentes pessoa
tem pontos de vista diferentes sobre isso, por isso é difícil
de se generalizar. Isso pode ser um modo de pensar Japonês,
mas há um esforço para se manter a linhagem inquebrável, para
manter e proteger algo que serve como um ponto central. O
sistema iemoto é uma coisa que existe em todos os tipos de
tradições Japonesas, desde a cerimônia do chá., até o teatro
Kabuki, e representa a transmissão das coisa por um caminho
único e consistente. E, já que o Budo também é um caminho,
eu acho que termos esse tipo de sistema, pode ser muito importante
para sua transmissão.
Também, existem
aqueles que vêm o Aikido como um sistema de combate e sentem
que, por essa razão, ele deveria ser sucedido por alguém que
seja tecnicamente mais forte. Mas, ser mais forte tecnicamente
não é tudo para se ser um sucessor de uma tradição como o
Aikido. O sucessor também tem que ter um pensamento sólido
e claro, e mesmo que ele seja relativamente jovem, ele deve
estar apto para servir como um centro forte e vigiar fortemente
com uma visão clara de seu ponto vantajoso que é o topo. Ele
também tem ser capaz de ensinar eficientemente. Essas qualidades
são muito importantes, porque se o centro se torna abalado,
toda a tradição se abala. Pessoas como eu e outros que foram
estudantes originais do O-Sensei, sentimos que nossa função
e obrigação, tanto para o Fundador quanto para o Segundo Doshu,
de darmos e fazermos o melhor que pudermos para apoiar esse
Terceiro Doshu, para que assim ele possa fazer seu papel suavemente.
Quais são seus
pensamentos quanto a contribuição feita pelo Segundo Doshu,
Kisshomaru Ueshiba, ao Aikido?
Perdoem-me por cair
numa expressão que sempre é usada mas, como muitos outros
diriam, o O-Sensei foi quem foi o pioneiro e criou o Aikido
e Kisshomaru Ueshiba foi quem o espalhou e o promoveu pelo
mundo afora. Enquanto o O-Sensei tendia a ensinar somente
certos indivíduos selecionados, foi Kisshomaru Sensei quem
trabalhou para tornar o Aikido mais amplamente acessível,
conhecido, e quem internacionalizou e o organizou. Foi também
devido a esses grandes esforços, que ele recebeu a Terceira
Ordem do Mérito do governo Japonês. O que é importante agora,
é ver que tipo de esforços o Terceiro Doshu irá fazer para
consolidar a tradição. O Aikido provavelmente continuará a
se espalhar mesmo se não houverem maiores esforços para espalhá-lo,
então o assunto agora é como a tradição poderá ser consolidada
e como continua a crescer.
Parece que o
Aikido sofreu certas mudanças técnicas sob a liderança do
falecido Doshu Kisshomaru...
Esse é outro assunto
sobre o qual não se pode generalizar. Pois, mesmo o O-Sensei
mudou consideravelmente desde o tempo em que era mais jovem
até seus últimos anos. Mesmo o Sensei Kisshomaru era bem vigoroso
em seus anos de juventude e, somente mais tarde, após sofrer
cirurgia, que ele passou a executar movimentos menos extenuantes.
Eu mesmo sou desse jeito, minha técnica agora é consideravelmente
diferente das técnicas que eu fazia quando era mais jovem.
Sempre que faço demonstrações hoje em dia, todos os rapazes
com quem pratiquei há tempos atrás, costumam brincar comigo
dizendo que me tornei muito mais leve e sutil!! Acho que as
mudanças técnicas sob Kisshomaru Ueshiba foram pelo mesmo
caminho. O que é mais importante é que você sempre tem
que dar se inteiro, fazer o seu melhor e colocar todo seu
espírito nisso, seja em seu treinamento diário ou dando alguma
demonstração. As diferenças são prováveis de aparecer, dependendo
de como você visualiza o Aikido --- se você o
vê como Budo, ou um caminho para condicionamento físico
e a saudável, ou simplesmente como uma forma de movimento.
Naturalmente, em meu dojo, nós seguimos o Aikido de acordo
com a minha visão dele.
Uma parte disso,
é que eu tenho como meu lema a frase "Aikido prático", na
qual quero dizer que penso no Aikido como algo que não é somente
praticado no dojo, mas que ele deve ser estendido e usado
na vida diária. O que por sua vez, levará a uma atitude de
viver cada sai como se ele fosse precioso. O Aikido que é
praticado somente no dojo, tende a ser algo que leva a se
analisar somente quem é mais ou menos melhor tecnicamente,
quem é mais forte ou mais fraco. O que é mais importante é
que tipo de pessoa você é e como você age como
membro da sociedade. Pois, mesmo que você seja um Yudansha
ou seja qual for a graduação, se você não contribuir
com alguma coisa para a sociedade, então seu treinamento de
Aikido terá pouco significado. Se você não colocar o
espírito de harmonia do Aikido em prática em sua vida cotidiana
--- seja em seu estudos, com sua família ou em seu trabalho
--- então eu acho que você não poderá dizer que está
praticando realmente o verdadeiro Aikido.
Para concluir,
o que o Aikido significa para o senhor hoje?
Provavelmente o
que eu sinto mais prazer quando pratico Aikido é que ele permite
a tantas pessoas abrir seus corações e se engajarem em verdadeiras
amizades. Eu penso em todos aqueles que se foram antes de
mim, e sobre aqueles que ainda são jovens, e penso no quanto
tem sido maravilhoso encontrar tantas pessoas e fazer tantas
amizades. Eles todos são de caminhos tão diferentes da vida,
que aprendi muito com eles. Eu acho que provavelmente é uma
das coisas mais importantes que me mantém praticando Aikido.
O-Sensei era rodeado por tantas pessoas impressionantes, porque
ele mesmo era uma grande pessoa. Dificilmente poderei dizer
o mesmo de mim mesmo, acho que ainda tenho muitas falhas,
mas tenho a esperança de poder continuar a interagir com muitas
pessoas e, através do Aikido, eu terei a oportunidade de melhorar
a mim mesmo pouco a pouco. Também espero que meus esforços
possam ajudar o maior número de pessoas possível vir a compreender
a bondade do Aikido, e a viver mais feliz devido a isso. Assim,
eu penso, é uma maneira de pagar meu débito de gratidão que
devo ao O-Sensei e a Kisshomaru Ueshiba.
Traduzido
para a língua inglesa por Derek Steel - Aikido Journal 2000
nº 119- Volume 27 - nº 01
Traduzido
por Paulo Proença - Dojo Kokoro - Sorocaba.
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