ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Hiroshi Ikeda

Aikido Journal: Sensei, em que tipo de atividades o senhor está envolvido atualmente?
HIROSHI IKEDA: Eu dirijo um dojo em Boulder, Colorado. Ainda, dois ou três finais de semana por mês eu faço seminários em diferentes locais, por todo os Estados Unidos, como Califórnia, Seatle, Montana e outros. Eu vou ao San Rafael Summer Camp (acampamento de verão) co-patrocinado por Robert Radeau Sensei e Frank Doran Sensei, na Califórnia e o D.C. Summer Camp patrocinado por Mitsugi Saotome Sensei, e ainda ao meu próprio acampamento de verão em Rocky Monatain. Estas são minhas três principais atividades de verão.

Além do seu dojo, eu creio que o senhor dirige uma companhia de acessórios de artes marciais chamada Bu Jin.
Sim, eu iniciei a Bu Jin cerca de quatorze anos atrás. Nós fazíamos itens como sacolas para jo e bokens e hakamas. Eu mesmo desenvolvia a maioria dos produtos, daí que não eram coisas que podiam ser compradas em qualquer loja de acessórios. Nossos hakamas eram os mesmos feitos no Japão, embora a confecção deles fosse um pouco mais robusta. Eles se tornaram populares em função da durabilidade deles.

Você tem uma loja ou trabalha apenas com encomendas?
São todos feitos por encomenda. Nós temos negócio por todo os Estados Unidos, assim como Canadá e México. Nós também temos algumas encomendas da Europa e outros locais, mas realmente não trabalhamos em larga escala ainda. Ocasionalmente também aparecem pedidos do Japão.

Aikidoistas profissionais geralmente estão ligados a massagem e treinamento para policiais, mas dirigir uma empresa como a Bu Jin é algo diferente.
Sim, eu suponho que seja. O fato é que, pensando bem, é muito difícil para as pessoas como nós que deixaram o Japão para ganhar a vida, se encontrar ensinando budo. É claro que quando eu comecei a Bu Jin eu percebi que poderia fazer a vida, mas isso só porque eu queria equipamentos de treinamento duráveis.

O que o trouxe aos EEUU?
Bem, isso começou com meu professor, Mitsugi Saotome Sensei. Ele era o instrutor no meu clube de aikido, quando eu era estudante na Universidade Kokuzakuin. Eu acho que foi a cerca de 27 anos atrás, e eu tenho estado com ele desde então. Antes de ele vir para os EEUU ele me perguntou se eu consideraria vir também. Isso foi há 19 anos atrás, 1976. Eu fui direto para a Flórida, e Saotome Sensei foi para Washington DC. Eu fiquei na Flórida praticando por 2 anos, então vim para Boulder.

A maioria das pessoas preferem grandes metrópoles para construir dojos de sucesso, mas você escolhe Boulder, que é uma cidade relativamente pequena. Por que?
Como você sabe, Boulder é uma cidade de estudantes. A Universidade do Colorado fica aqui, daí que existem muitos jovens. Em contrataste, a população da Flórida apresenta uma porcentagem grande de idosos, pessoas aposentadas que vão para lá para descansar e desfrutar da vida. Muitos jovens saem uma vez que ficam adultos. É muito difícil construir corpos de aikidoístas nestas condições. Eu fiquei impressionado por todos os jovens em Boulder e pensei, "É onde eu preciso ficar".

Você teve momentos difíceis quando estava estabilizando seu dojo?
Não, não realmente. Eu fico mais ou menos feliz tanto quanto posso treinar, até mesmo se não tem muitas pessoas em volta. Para mim é suficiente se duas ou três pessoas podem treinar juntas. Quando eu cheguei em Boulder, eu aluguei um espaço numa escola de massagem. Não haviam tatamis, então eu coloquei carpetes. Gradativamente, mais e mais pessoas chegavam e eu fui capaz de construir um dojo. Quando eu me mudei para cá vários dos meus amigos aikidoístas se mudaram comigo de outros estados. Eles realmente me ajudaram num grande negócio.

Você dirigiu a Bu Jin e o dojo ao mesmo tempo?
Durante o dia eu ganhava algum dinheiro trabalhando num restaurante japonês, à tarde eu fazia aikido. Eu cuidava de tudo que era preciso para fazer a Bu Jin quando eu ia para casa à noite. Quatorze anos atrás não havia muitos pedidos, daí que eu podia entregá-los trabalhando cerca de duas a três horas por noite.

NO TREINAMENTO

Por favor, fale-nos a respeito do seu treinamento.
A primeira coisa é que é importante treinar com o seu corpo, não com a cabeça. É bom fazer muitos ukemis para você mesmo perceber o que é o treinamento. Se você usa muito sua cabeça, seu aikido se torna muito intelectual e irá impedir os movimentos do seu corpo. Eu enfatizo o aprendizado e o entendimento do aikido com o corpo. Usualmente começamos a praticar com irimi-tenkam. Ao invés de ir diretamente nas técnicas, eu acredito que é melhor para facilitar o corpo num treinamento natural, começando com irimi-tenkam para aquecer, daí ir gradativamente para ushiro ukemi, e então para o resto do treinamento.
Ao contrário de apenas ensinar ou apenas treinar, é importante que , também procurem oportunidades de aprender e crescer e cultivar meu próprio aikido, então eu tento várias formas, vários caminhos. Praticar compreendendo eu agarrar e ser agarrado é necessário num certo estágio, mas eu penso que você tem que mudar e tentar coisas diferentes quando você progride, por exemplo, praticando como ser agarrado ou como permitir que você seja agarrado de maneira apropriada. A prática de qualquer equilíbrio é outra possibilidade.
Atualmente estou trabalhando no conceito de centro (chushin), especificamente em como manter mais próprio o centro enquanto tiro o equilíbrio de meu companheiro.

A QUALIDADE DO TREINAMENTO

Você foi influenciado por Saotome Sensei?
Sim, para ser sincero. Olhando o que Saotome Sensei tem feito durante anos, eu vejo que o aikido não pode ser somente aikido. Como budo, ele tem a capacidade completa de responder qualquer coisa. Em outras palavras, ele tem valor fora dos seus próprios confins. Saotome Sensei enfatizou isso enormemente por muitos anos. Como eu acredito que estiveram próximas por algum tempo sabem, as demonstraçõ0es de Saotome Sensei, são sempre diferentes, na sua intensidade explosiva e na sua seriedade. As demonstrações de Saotome Sensei mostram não somente que existe fluidez; eles apontam claramente para uma maneira de treinamento que compreende uma habilidade para responder a qualquer coisa. Era o que algumas vezes eu tentava manter como um aspecto importante no meu próprio treinamento. Eu quero perseguir o aikido como um budo que vai até os confins do aikido, aperfeiçoando formas de movimentos eu Saotome Sensei vem desde o centro. A maneira como o corpo se move é extremamente importante.

Você usa atemi no seu aikido?
Não muito, especialmente não bato em áreas como o rosto. Nós podemos, entretanto, tocar as pessoas com batidas fracas se eles se colocam em posições perigosas quando agarram, só para que eles saibam que eles não poderiam estar lá de uma forma que os fazem vulneráveis a ataques. Mas essas batidas são como claras pancadinhas. Não são tanto batidas, mas sim pancadinhas vem definidas. É tudo o que é necessário para eles perceberem que precisam se posicionar melhor. Dando ao seu companheiro indicações desse tipo, ajuda-o a estar atento aos vários aspectos que envolvem o ato de agarrar. Desta forma, a pessoa que ataca ou que agarra também pode se beneficiar do treino. Em outras palavras, ambos podem considerar as suas posições. Assim, eu escolhi uma forma de treinar onde ambos, uke e nague, podem aprender.

Como você se sente com outros tipos de treinamento?
Nos dias de universidade nós tínhamos o costume de nos aproximar das facilidades do departamento de atividades atléticas com pessoas que faziam outras artes marciais como shorinji kempo, judo e sumô. Eu me lembro de brincadeiras que fazia com eles mostrando como um aikidoísta responderia a este ou aquele tipo de técnica. De outro modo, nós freqüentemente tínhamos sessões de treinamento coletivos com outras universidades. A minha universidade era em SHIBUYA, e nós treinávamos com grupos de outras universidades, na área de AOYAMA GAKVIN e Universidade de KOKUSHIKAN por exemplo. Havia um rapaz na KOKUSHIKAN que podia fazer movimentos muito bonitos com o corpo (tai sabaki) contra ataques de faca. Olhar e treinar com ele foi muito instrutivo. Eu penso que é importante estudar com vários tipos de professores. Provavelmente é melhor se você pode extrair bons elementos que você acha útil, de um número variado de professores e use-os para criar algo que seja ideal para o seu próprio corpo.

Se o treinamento de armas é essencial ao treinamento de aikido ou não, é um tópico muito em discussão atualmente. No seu ponto de vista, a essência do aikido está inserida apenas no taijutsu, ou ela inclui técnicas de armas?
Eu penso que em ambos. Entretanto, habilidades com boken ou jo são realmente secundárias. Como eu mencionei anteriormente, eu tenho treinado com o conceito de se "centralizar" na mente. Eu tenho práticas de movimentação com boken para meus alunos porque previnem que as mãos deles saiam do centro de seus corpos. Se as mãos se deslocam para os lados fica difícil conseguir fazer técnicas com algum poder. Então, eu acho que treinamento com armas são benefícios no sentido de ajudar os estudantes conseguirem estabilidade e manter seus próprios centros dentro dos movimentos do aikido.
Aprender outro budo além do aikido pode ter algumas vantagens, apesar de que para dizer a verdade eu realmente não sei se praticar outras artes como kendo, judo ou iaido trarão alguma influência direta no seu aikido.
Como YOSHIO KUROIWA SENSEI ensinava, é importante tentar usar o ken e o jo de uma maneira que seja o mais consistente quanto possível, como se você estivesse se movimentando com as mãos vazias.

Eu creio que o senhor treinou com KUROIWA SENSEI?
Sim. Ele se movimenta completamente a partir do seu centro. As técnicas dele tem uma qualidade muito "tranqüilas". Não há movimento perdido. Cada movimento emana de seu centro. Ter aprendido isso dele me deu uma grande vantagem agora. Em treinamento com armas também, ao contrário de simplesmente balançar o ken ou o jo, você tem que praticar segurando-os com movimentos que tem origem no seu centro. Isso é muito mais difícil do que parece.

E sobre treinar com Saotome Sensei?
Saotome Sensei sempre tem oponentes que confrontam com bastante intenção e intensidade, enquanto que é uma estocada (tsuki) ou golpe à cabeça (shomen uti) ou qualquer outro, ele dirige o ataque decididamente. Mesmo quando você ataca com muita intenção ele pode responder com um tipo de técnica que te deixa um tanto quanto atordoado. Ainda, as atitudes de Saotome Sensei é que se acontece do uke fazer contato, então é por própria falta do sensei, não do uke. De volta ao Japão, na demonstração anual do aikido ou kobudo, ele usa sempre faixas pretas de karate ou kendo como ukes.
Meu amigo e professor de aikido, YASUNORI KUWAMORI, sempre recebe ukemi de Saotome Sensei. Ele é 4º dan de karate e é extremamente forte. Uma vez ele perguntou para Saotome Sensei como ele deveria atacar durante uma demonstração, o que Saotome Sensei respondeu, "o mais violento que você puder". Não há nenhuma "tramóia" ou combinação prévia nas demonstrações. Seus ukes atacam com força suficiente para machucar ou até mesmo matá-lo, se ele fizer maus julgamento ou se ele se deslocar de forma rápida errada. As demonstrações de Saotome Sensei sempre tem um ar diferente pela grande intensidade que ambos, ele e seus ukes, desenvolvem no contato.

DIRIGINDO UM DOJO DE AIKIDO COM SUCESSO

Nos EEUU existem centenas de dojos especializados em aikido. No Japão o número é menor, inclusive em Tókio. Os preços altos provavelmente, contribuem para isso. Ainda, em relação ao número deles, parece haver vários problemas associados em dirigir um dojo profissional de aikido nos EEUU.
É surpreendentemente fácil iniciar um dojo nos EEUU. Por outro lado o fato é que é muito fácil Ter problemas de baixa qualidade do aikido sendo praticado. Um tipo de problema reside quando o instrutor dedica muito de seu tempo ensinando e com isso acaba esquecendo ou até negligenciando o próprio treino. Estudantes sérios, que estão realmente trabalhando duro em seus treinos, progridem rapidamente e começam a alcançar o nível do instrutor. Quando isso acontece. O dojo não tem elementos suficientes para manter esses alunos, daí eles vão para um outro dojo ou, em outros casos, dão início em uma nova direção ou então em um novo estilo.
Assim, eu penso que ter um dojo bem sucedido, uma das coisas mais importantes é para o instrutor dar continuidade no seu próprio treinamento. Isso é algo que eu vim a entender vendo a situação nos EEUU.

Não é incomum para as pessoas executar muitos ukemis quando eles são jovens, mas uma vez que eles estão com seus cinqüenta anos eles usam a maior parte de seu tempo viajando e ensinando.
Sim, mas não estou me referindo a professores que tornaram incapazes de se movimentar por qualquer razão relacionada ao fato de ficarem mais velhos, mas aos jovens professores nos seus trinta e quarenta anos que abriram dojos e dedicaram seus tempos exclusivamente em ensinar e esqueceram do próprio treinamento. Isso não tem muito a ver com a idade. Você pode continuar bem seu próprio treinamento aos quarenta e cinqüenta , se você tiver vontade de fazê-lo.
Outro perigo em potencial é: se os instrutores estão contando totalmente com o rendimento de seu dojo eles podem inadvertidamente estar comprometendo seus treinamentos e aulas. Para incrementar seu rendimento, você precisa parar de afagar seus alunos para que eles fiquem, e isso torna impossível qualquer tipo de ensinamento. Se é esse o caso, a qualidade dos treinos e ainda mais, a qualidade das técnicas são prejudicadas.
Uma diferença entre nossa idade moderna e o passado é que no passado, a linha entre vida e morte era maior e mais imediata. Negligenciar seu treino podia significar sua morte, então, treinar o mais sério possível era uma necessidade e uma dádiva. Nos dias de hoje nossas vidas realmente não dependem se nós praticamos budo ou não.
Para se alcançar um nível elevado no budo, ou em muitos outros aspectos da vida, as pessoas precisam ter uma certa margem de liberdade material tanto quanto espiritual. Se você não tem dinheiro suficiente para sustentar sua família, por exemplo, então você tem que dar prioridade a isso.

O próprio MORIHEI UESHIBA veio de uma família estável e provavelmente viveu dos fundos da família dele até mais ou menos quarenta anos de idade. O pai dele YOROKU sustentava-o financeiramente enquanto ele estudava com SOKAKU TAKEDA e mais tarde ele sempre contava com o suporte de várias pessoas influentes.
Sim, é verdade, se você não tem problemas particulares de se sustentar então você pode se dar ao luxo de entregar-se inteiramente numa atividade. Se for este o caso, então naturalmente você irá progredir de qualquer forma. Entretanto, esta é uma situação difícil, de criar nos dias de hoje, então as pessoas geralmente acabam tendo outro tipo de trabalho além do aikido.
Fazer seu dojo ter sucesso, simplesmente, tornando o treinamento fácil é definitivamente um erro. Me parece que, se você estabelecer padrões altos e se esforçar ao máximo para tornar-se a si mesmo um bom modelo, o melhor possível, então as pessoas irão naturalmente participar do seu dojo.

Se eu puder mudar de assunto, eu acredito que Boulder tem relativamente poucos problemas de violência comparada com muitas outras cidades, mas que valor o senhor pensa que o aikido tem em termos de resposta à violência?
Eu tenho ouvido inúmeras histórias sobre praticantes de aikido, que tem sido atacados. Um aikidoísta de Boulder relatou como sua experiência praticando o aikido, levou-o a manter-se calmo numa dada situação. Quando alguém se aproxima com uma face é natural tentar resistir ou reagir de alguma maneira. Mas, de acordo com esse aluno, ele foi capaz de manter a cabeça fria durante o acontecimento e sentiu que isso ajudou a salvar a sua vida no final; tivesse ele resistido ele poderia muito bem Ter morrido.
O praticante de uma arte marcial com "ataques mais bem dirigidos", estão mais inclinados a se sentirem "OK, vamos nessa"., quando em confronto com um mau caráter. Mas então, eles precisam ter uma arma contra quem, até o maior campeão de karate no mundo, provavelmente não tem muita chance. Então, numa análise final, parece que a habilidade está em manter uma presença de espírito quando frente a uma situação perigosa é uma necessidade primária.

Para terminar, que tipo de esperanças o senhor tem do futuro?
Eu espero manter-me treinando o mais duro do que eu seja capaz. Eu sempre treinei com a esperança de que eu seria capaz de continuar treinando com todo mundo, não importando0 o quão velho eu sou. Eu quero continuar aprendendo o máximo que eu puder, de vários professores e ver quanto mais o meu próprio aikido pode crescer e se desenvolver. Eu também quero mostrar tudo o que eu tenho aprendido durante meus anos de faculdade e enquanto eu treinava no Hombu dojo, com professores como SAOTOME SENSEI e KUROIWA SENSEI, na esperança de que todo o mundo goste de treinar tudo isso muito melhor, enquanto suas maneiras de treinar sejam gentis, severas ou algo nesse sentido.

Sensei, muito obrigado.


(Tradução: Fernando Sanchez - Instituto Takemussu Michi Dojo - Revisão: Rodrigo Aranha)



 

 

 

 

 








 

 










Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil Aikikai.