ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Degushi - Shintoísmo e Aikido.

"Um espírito, quatro almas" - trazendo orientação positiva para a humanidade.

Instintos físicos e espirituais

Entrevista com Yasuaki Deguchi, neto do fundador da religião Omoto, Onisaburo Deguchi.
Por Ikuko Kimura

AJ: Em nossa última conversa, o senhor falou sobre dois tipos de "instintos" humanos, o espiritual e o físico, e se referiu à importância de mantê-los em uma relação que chamou como "espiritual-primário - físico-secundário." Gostaríamos de pedir ao senhor que se aprofunde nos conceitos de espírito e alma com mais detalhes. Morihei Ueshiba sempre explicava seu aikido em termos como "um espírito, quatro almas." Qual o exato significado desta expressão?

Deguchi: A espiritualidade humana é composta de um espírito e quatro almas. O espírito é aquele ao qual nos referimos como naohi (lit. espírito direto). As quatro almas são chamadas de aramitama, nigimitama, kushimitama e sachimitama.

AJ: Antes de continuar, me permita formular uma questão básica. Como este espírito e estas almas se diferenciam entre si? O senhor quer dizer que o espírito - aquele ao qual denomina naohi - tem quatro diferentes funções?

Deguchi: Naohi pode ser entendido como o mais simples, o mais puro e o mais profundo aspecto do espírito humano, que incorpora o bem supremo e a beleza última. Pense nisto como sendo algo que reside em - ou repousa ou permeia - cada uma das quatro almas. Ou, você pode pensar no espírito humano como tendo quatro modos de operação.

Todos os seres humanos foram dotados por Deus ( kami, em japonês) de um espírito e quatro almas, e a humanidade é filha do kami. Assim, cada uma destas quatro almas está associada tanto com a substância, quanto com um conjunto de funções.

A substância de aramitama é a coragem. Suas funções são avançar, obter, prosperar, esforçar-se e triunfar.

Quando aramitama se torna ativa, a energia que impulsiona as coisas para a frente é gerada e o avanço acontece. Obter se manifesta como conclusividade e resolução. Prosperar se manifesta como despertar para a ação e a execução. Esforçar-se manifesta-se como luta, industriosidade e a necessidade de trabalho duro. Triunfar se manifesta como derrubar e vencer todo o mal assim como todos os desejos e apetites. Todas estas são funções de aramitama. Pode-se resumir tudo isto de forma mais genérica, em termos como coragem e resistência, paciência e perseverança e habilidade para executar.

A substância de nigimitama é a afinidade. Suas funções são a paz, auto-controle, purificação e colaboração.

Portanto, quando nigimitama se torna operante, as pessoas criam paz em volta de si, organizam suas tarefas de modo a viverem vidas virtuosas, organizam suas casas e governam suas nações. Também entram em um estado de comunhão com Deus, com seu semelhante e com todas as coisas no universo. O afeto conjugal, a ternura dos amantes, o amor fraterno e um amor pela humanidade em geral são todas funções de nigimitama, generalizada como afinidade.

A substância de sachimitama é o amor. Suas funções são o crescimento, a criação, a geração , a mudança e o cultivo. Sachimitama aumenta os espaços, cria coisas, parteja tudo o que existe, promove a mudança e a evolução, cultiva e nutre. Portanto, a substância de sachimitama pode ser generalizada como amor. Não o amor entre marido e esposa ou entre amantes, pois isto encontra-se na seara de nigimitama. A palavra amor da forma como usada aqui sugere a necessidade de gerar, criar, dar à luz e cultivar. É o envolvimento total do artista ou do artesão dedicando-se à sua atividade, por exemplo; o grande afeto e devoção de uma mãe ao cuidar e criar seu filho ou o cuidado com o qual os lavradores se devotam ao plantio e à colheita e o seu amor pela terra.

A seguir vem kushimitama, cuja substância é a sabedoria. Suas funções incluem a habilidade, realização, percepção e compreensão.

A ativação de kushimitama conduz ao objetivo através da habilidade, a um aguçamento dos sentidos e do poder de observação e ao aprimoramento da objetividade. A iluminação intelectual vem através da percepção, da compreensão e do conhecimento. A iluminação espiritual vem através da percepção direta e da compreensão intuitiva.

As quatro funções (ou almas) - coragem, afinidade, amor e sabedoria - são inerentes a todos os seres humanos.

AJ: Com uma composição espiritual tão maravilhosa, a humanidade deveria estar em um estado um pouco melhor do que este em que estamos.

Deguchi: Para que isso aconteça, o espírito e as quatro almas devem se desenvolver corretamente. Para esse fim, precisamos considerar as forças que disciplinam as quatro paixões associadas a cada uma dessas almas.

AJ: O senhor quer dizer, algo como conselhos (advertências) e mandamentos (leis)?

Deguchi: Sim, de certa forma, mas estas forças não são , a exemplo dos mandamentos, impostas do exterior; existem mais como parte de um complexo sistema de controle e equilíbrio. A relação entre o espírito único e as quatro almas e essas forças disciplinadoras é tal qual aquela entre o motor e os breques de um automóvel - o espírito único é o motor, as forças disciplinadoras são os breques. Não importa quão bom seja o motor, se os breques falharem, o veículo se transforma em algo com um potencial tremendamente destrutivo.

A força disciplinadora inerente a naohi é a capacidade de reflexão. Isto é algo que somente os seres humanos são capazes. Quando esta capacidade funciona corretamente, o espírito único e as quatro almas operam de um modo predominantemente positivo.

A força disciplinadora que equilibra aramitama é a capacidade sentir vergonha. A substância de aramitama é a coragem, mas somente coragem, sem controle, tem a potencial de se manifestar negativamente, como audácia ou impetuosidade. Isto é o que acontece quando o forte derruba o fraco e toma para si aquilo que deseja. Se a capacidade para refletir funciona adequadamente, a capacidade sentir vergonha também entrará em cena para contrabalançar tais impulsos. O pensamento "se eu fizer isso me envergonharei" invade a mente a pessoa, impulsionando sua coragem em outras direções. Se a capacidade de reflexão for esquecida ou ignorada, naohi se inverte e se transforma em magahi (lit. espírito retorcido) e a coragem se torna mal orientada.

A força disciplinadora que está associada com nigimitama é a capacidade de sentir remorso e arrependimento. Se o espírito majestoso que permeia naohi falha, assim como a capacidade para a reflexão, a capacidade de sentir remorso não funciona também. A afinidade associada a nigimitama então se converte em uma inclinação para o mal e o indivíduo se volta para seguir aquilo que é errado ou imoral.

A força disciplinadora associada com sachimitama é a capacidade de temer, ou mais precisamente, apavorar-se, particularmente por aquilo que não se pode enxergar. Medo não quer dizer temer coisas como gangues de rua, embora sejam, sem dúvida, assustadoras, mas sim ficar apavorado com aquilo que, embora invisível, é, de alguma forma, palpável. Isto é algo quase esquecido hoje. As pessoas costumavam temer que certas atitudes de sua parte pudessem constituir sacrilégio ou falta de reverência para com os deuses.

Um poema de Sumi Deguchi diz "Nunca se esqueça de que dentro de um único grão de arroz existem os três aspectos do divino." Estes três aspectos - espírito, energia e matéria - está presente em tudo o que é.

Se sachimitama falha, o resultado é um tipo de "anti-alma" rebelde, que está em permanente oposição com a ordem do céu e da terra, com o divino, com o homem e com todos os caminhos.

A força disciplinadora que está associada com kushimitama é a capacidade de perceber de forma correta ou alcançar a iluminação. Se a capacidade de reflexão que é a força disciplinadora de naohi estiver funcionando adequadamente, a iluminação é possível; caso contrário, a percepção se deforma.

AJ: Tudo isto sugere que deve ser muito difícil fazer com que o espírito único e as quatro almas funcionem adequadamente. Devemos gastar a maior parte do nosso tempo cometendo erros, sobre os quais devemos refletir.

Deguchi: As quatro almas estão todas ligadas através de várias relações que ajudam a atingir um estado de equilíbrio. Por exemplo, a capacidade de arrependimento (a força disciplinadora associada a nigimitama) nos motiva a encontrar a afinidade com o que é correto ou adequado. Às vezes nos damos conta que estivemos indo para a direita equivocadamente; nos arrependemos disto e embora devêssemos nos ir para a frente, terminamos por ir longe demais para a esquerda. Entretanto, enquanto a capacidade de perceber ou se iluminar (a força disciplinadora associada a kushimitama) estiver funcionando, somos capazes de ir gradualmente para a frente, em linha reta. Não há porque ter medo de errar, pois a capacidade de arrepender-se e fazer reparações permite que transformemos os erros em passos na direção do progresso e do desenvolvimento. Onisaburo sentiu que os erros realmente ajudam as pessoas a crescer.

AJ: Bem, certamente isto torna as coisas mais fáceis para nós!

Deguchi: Sim. Uma das linhas mestras do pensamento de Onisaburo era a ampliação e a extensão do espírito único e das quatro almas com as quais nascemos. Ele sentia que esta espiritualidade maravilhosa faz parte de cada ser humano, sem exceção. Somos filhos de Deus mas, sem a capacidade de reflexão, nos arriscamos a nos tornarmos filhos do pecado pela transformação da pureza e da beleza de naohi na distorção e depravação de magahi.

O cultivo de um jardim é uma boa analogia. Embora você possa começar com ótimas sementes, elas nunca produzirão belas flores ou frutos se você descuidar de dar-lhes água ou fertilizá-las. As ervas daninhas de magahi sempre tentarão invadir e devem ser eliminadas, fazendo com que as forças disciplinadoras atuem.

AJ: O sistema que o senhor descreve parece bem diferente de outros que determinam às pessoas o que fazer ou não fazer. Parece ser um sistema automático de controle e equilíbrio, com uma capacidade inata de auto orientação e auto disciplina muito positiva.

Deguchi: Um verso de Onisaburo diz algo no sentido de que "A religião que coloca o coração humano sob o jugo do mandamento serve apenas para atar e acorrentar a liberdade desse coração." A religião não deve transformar as pessoas em equivalentes humanos das árvores bonsai. Os pinheiros que são encontrados nas montanhas crescem altos, em linha reta. O pequenino bonsai que pode ser visto decorando jardins e peitoris de janelas são feitos pelo aprisionamento dessas mesmas árvores. As árvores em miniatura podem parecer atraentes, mas o crescimento que as faria magníficas é intencionalmente obstruído. Onisaburo sentiu que o papel da verdadeira religião é o cultivo do coração humano para habilitá-lo a crescer como árvores grandes e saudáveis, e não como pequenos bonsai.

AJ: Deve ter sido esse tipo de pensamento de Onisaburo que atraiu Ueshiba Sensei.

Deguchi: Sim, Ueshiba Sensei já atuava no mesmo nível que Onisaburo e praticava muitos dos seus ideais. Ele não estava atado a mandamentos externos. A teologia de Onisaburo era a da liberação e liberdade. Evitava infindáveis conselhos sobre a variedade de "não deves", substituindo-os por uma abordagem positiva e entusiástica de "vamos". Esta é uma forma de melhor aplicar as nossas energias. Assim como Ueshiba, duvidei que, se fosse capaz de adotar os ensinamentos de Onisaburo, estes se tornariam carregados de todos o tipo de mandamentos e preceitos externos.

Uma analogia que vem à mente é a mudança constante da opinião científica sobre o que seria uma dieta saudável: neste momento, é bom comer arroz integral; noutro, não. As pessoas que tentam adaptar seus estilos de vida a essas teorias cambiantes, que parecem ser todas plausíveis em seus próprios termos, tendem a se tornar ansiosas e incertas sobre o que fazer. Seu ki se torna aflito.

A opinião de Onisaburo é a de que 80 ou 90 porcento dos males é espiritual e somente quando esta aflição aumenta além de um certo ponto é que o corpo começa então a ser afetado.

AJ: Em outras palavras, a doença se origina na mente.

Deguchi: Sim. Onisaburo também costumava dizer que nessas pessoas onde a aflição avançasse ao ponto de doença física deveriam procurar tratamento médico. A crença em preces onde já se haveria instalado o mal físico, é mera superstição. Contudo, insistia que a doença do corpo físico somente ocorre quando o mau funcionamento do mundo espiritual sai para infectar a realidade física. Pelo ajustamento do estado mental, a cura pode acontecer antes que a doença se torne uma realidade física. Não há nada de milagroso nisto; é simplesmente uma lei da natureza. A crença na cura não ocorre devido a milagres, mas porque os indivíduos atingidos mudaram sua atitude mental.

Onisaburo sentia que não devemos nos limitar a mandamentos e preceitos feitos pelo homem. Quando o ser humano atinge um estado de harmonia entre o físico e o espiritual, pode compreender verdadeiramente este potencial. Dizer às pessoas o que fazer e o que não fazer é a maneira certa de evitar que compreendam isto. Ele sugeria que prestássemos mais atenção às forças disciplinadoras e ao controle e equilíbrio que já possuímos. Todos nascem com uma capacidade de auto reflexão e exercitá-la diariamente nos permite crescer como seres humanos.

O kami não impõe punições absolutas - mas isto é assunto para outra conversa.

AJ: Seu livro, Mother of the Earth, deixa no leitor uma maravilhosa sensação da profundidade e da extensão do pensamento de Onisaburo, para não mencionar a sua profunda humanidade. Ele tinha um inacreditável apelo humano.

Deguchi: Ele era dotado de um carisma totalmente cativante. Sua presença em si podia deixar as pessoas mudas e fazer com que detestasse ter que sair do seu lado. Eu amava estar por perto dele quando menino. Era algo como ser envolvido em uma aura. É difícil transformar essa intensidade em palavras, muito menos colocá-la no papel.

(Excerto de Aikido Journal, #112)
traduzido por Emy Yoshida - dez/97


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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