ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com o Sensei Clyde Takeguchi
(Entrevistado por Forrest Hainline, com material adicional de Mark Matloff)

 

Sensei, 1998 foi um ano especial para o senhor no Aikido.
Sim, foi o aniversário de 25 anos do Capital Aikikai. Tivemos um seminário de aniversário em Outubro. Sensei Yamada veio participar, juntamente com Mike Mamura (6º Dan - do Milwaukee Aikido Club) e Mike Friedl (5º Dan - Aikido de Ashland - estado de Oregon). Tanto Mike Mamura quanto Mike Friedl foram meus alunos há muito tempo.

O senhor nos contaria um pouco sobre sua escola?
Eu dou aulas em Silver Spring - Maryland. Nós nos divertimos, treinamos bastante, e temos muitos bons momentos. Nos divertimos treinando.

Retrocedendo um pouco... Onde e quando o senhor começou a estudar Aikido?
Eu comecei no Hawaii em 1957 ou 1958, quando eu tinha uns 14 para 15 anos de idade. O que me fascinou foi a incorporação da respiração, armas e técnica. Sensei Koichi Tohei veio ao Hawaii no início dos anos 50. Ele era o melhor aikidoísta que eu já vi.

Eu comecei na ilha do Hawaii com o senhores Y. Iwasa e K. Takaki. Nós também treinamos com T. Nonaka, que era o instrutor chefe da ilha do Hawaii. Mais tarde, quando eu estava na Universidade do Hawaii, em Honululu, treinei no Waialae Dojo com o Sensei Yamamoto, e acabei me tornando um dos instrutores. Treinei com S. Yoshioka, Aoyagi e muitos outros em Honululu. Os três principais mestres com quem treinei foram os Sensei Takashi Nonaka, Shinichi Suzuki e Yokisei Yamamura.

O que o manteve no Aikido?
Era uma boa maneira de eu deixar as preocupações de lado. Eu tinha muitas frustrações na escola. Eu podia me esquecer delas praticando e treinando intensamente.

Eu venho de uma cidade muito pequena, onde só havia um cavalo. O Aikido era a única arte oferecida lá naquela época. Mais tarde houveram outras artes marciais, mas meu pai disse que, já que eu havia começado o Aikido, que eu deveria seguí-lo até o fim --- que eu não podia pular de um estilo de arte marcial para outro.

O que continua a atraí-lo no Aikido?
As pessoas, a filosofia, a idéia do O-Sensei que o Aikido é amor e compaixão. Se voce consegue mostrar esse amor e compaixão, suas técnicas progridem. Essas atitudes irão transbordar para além do tatami e penetrar em sua vida cotidiana e para dentro de seu local de trabalho. O sentimento vai cada vez para mais longe do dojo, como um efeito dominó.

O senhor acha que o Aikido mudou desde a época em que o senhor começou a praticá-lo?
Sim. No Hawaii era duro. Muitos antigos judokas e pessoas que praticavam Kendo e Karate vinham para checar como era. Hoje, o treinamento do Aikido foi refinado, especialmente o ukemi. O ukemi se tornou mais leve e fluido. É muito diferente dos tempos antigos.

Quando o senhor deixou o Hawaii?
Em 1967 eu fui para Madison, estado de Wisconsin, para começar a trabalhar no meu Phd. Em Farmácia Bioquímica.

Logo depois de o senhor mudar para Madison, o Sensei Koichi Tohei deixou o Hombu Dojo. Com a sua experiência no Aikido Hawaiano, o que aconteceu que o senhor se filiou ao Hombu Dojo e à Federação ao invés de se juntar ao Ki Society de Koichi Tohei?
O Hombu Dojo é o local onde o Aikido foi fundado. O-Sensei tinha um bom caminho, uma boa idéia. O corpo e a mente trabalhando juntos --- filosofia e técnica. Eu acreditei que o Hombu Dojo estava seguindo esse caminho. Eu acreditei que, enquanto a mente controla o corpo, voce tem que treinar seu corpo para conseguir treinar a mente. Técnica e filosofia trabalham juntos. De fato, o Aikido é único nisso, é a única disciplina em que pode-se demonstrar sua filosofia, e mostrar fisicamente que ela funciona. Eu era jovem, eu acreditava que eu tinha mais tempo para treinar fisicamente. Eu pensei que Koichi Tohei poria mais ênfase na filosofia do Aikido.

O corpo e a técnica vem primeiro?
Técnica e filosofia são importantes também. Mas não se pode demonstrar a filosofia do Aikido - ou mesmo entendê-la --- sem ter experiência, sem aprender, e demonstrar eficiência técnica.

Vamos voltar a Madison. Quando o senhor se mudou para lá, havia algum Aikidoísta lá?
Não no início.

Então, como voce treinava?
Todos os dias, eu praticava com bokken e jo. Eu fazia a contagem dos 22 kata que o Sensei Koichi Tohei havia me ensinado. Eu praticava bloqueios, cortes entradas centenas de vezes. Eu praticava minha respiração. É surpreendente quantas pessoas não sabem como respirar corretamente.

Quando se encontram sob estresse, muitas pessoas param de respirar. Mas, se voce não consegue respirar, voce não consegue fazer nada. Se voce aprender a respirar profundamente --- e aprender a respirar profundamente naturalmente --- voce vai parar de respirar.

Se voce consegue estocar, bloquear e cortar, voce pode aplicar isso a todos os outros aspectos do Aikido. Eu também ia até Milwalkee para dar aulas e treinar com os alunos e à Chicago, treinar com instrutores que na época eram Sensei Hirata, Sensei I. Takahashi e Sensei Akira Tohei.

Voce começou um dojo em Madison?
Eu comecei um grupo por volta de 1970. Mike Friedl era um dos alunos daquele grupo, que continua a praticar Aikido até hoje.

O senhor continuou com seu treinamento com armas sozinho?
Não tanto., mas continuei a treinar minha respiração. Creio que uma arte marcial eficiente ensina voce a lutar com armas ou sem elas --- e também contra elas. Os princípios das armas aplicam-se as técnicas de taijutsu. Na minha opinião, voce consegue ver a diferença em Aikidoístas que regularmente praticam com armas e os que não praticam. Treinamento com armas e respiração fazem as técnicas ficarem mais fortes e verdadeiras.

Voce dá aulas com armas regularmente na Capital Aikikai?
Sim. Duas aulas com armas por semana. Eu também uso as armas como ferramenta de ensino, porque é mais fácil de se visualizar o movimento com a espada do que o movimento da mente.

Conte-nos um pouco sobre a fundação do Capital Aikikai.
Eu vim a Washington D.C. em 1973 para uma bolsa de estudos para um pós doutorado no National Institute of Health (Instituto Nacional de Saúde). Alguns de meus alunos vieram comigo de Wisconsin para me ajudar a me mudar. Antes de eu começar, eu encontrei outros instrutores de Aikido e outros instrutores de artes marciais da região.

Bob Noah estava dando aulas em Rockville na YMCA de Bethesda-Chevy Chase, perto do NIH. Comecei a dar aulas nas segundas e quartas-feiras 'a noite e aos sábados de manhã. Isso continuou em vários locais diferentes, até 1993, quando nós nos mudamos para nosso dojo em tempo integral. Agora temos pelo menos três aulas diariamente.

Eu gosto de ver os alunos aplicando o Aikido com sucesso fora do tatami --- lidando com as pessoas, mediando, arbitrando, e negociando com sucesso, liderando as pessoas sem se aproveitar delas.

O senhor não passou um tempo em Charleston - estado da Carolina do Sul também?
Em 1975 fui a Charleston para ensinar na Escola Médica. Mike Friedl juntou-se a mim após se formar e viajar pela Europa e Ásia. Treinávamos todos os dias, principalmente respiração e armas. Após um tempo, comecei o dojo, que ainda continua a existir em Mount Pleasant, hoje com Alan Jackson.

Eu continuo a dar seminários lá quase todos os anos. Voltei a Washington D.C. em 1977. O Capital Aikikai continuava a ir em frente, dirigido por um de meus estudantes mais antigos, Dennis Ruth e Bob White.

Vamos falar sobre o equilibrar o Aikido e a vida. O senhor é um profissional, um PhD. Depois de trabalhar para o FDA (Food and Drugs Administration) por vários anos, o senhor começou sua própria compania de consultoria. Sua filha e esposa estão na universidade. E mesmo assim, o senhor sempre conseguiu treinar e ensinar Aikido. Como o senhor consegue fazer tudo isso?
Sensei Koichi Tohei dizia que três coisa são importantes: a família, o trabalho ou escola e o Aikido, nesta ordem. Em épocas diferentes de nossa vida essa ordem muda. Algumas vezes consegui treinar várias vezes ao dia. Em outras vezes, tive que me concentrar em outras coisas e não consegui treinar com freqüência. Mas eu sempre treinei. Eu sempre tentei manter a família, o trabalho e o Aikido em equilíbrio. (Quando eu estava na escola, a escola era meu trabalho).

Manter as coisa em equilíbrio quer dizer que, às vezes, cada um deles terá mais importância e demandará mais atenção, mas cada um deles tem que ter seu lugar. Eu nunca parei de treinar Aikido. Eu sempre mantive o Aikido em equilíbrio. Eu tento praticar Aikido dentro e fora do tatami. Voce pode treinar consigo mesmo, com armas e praticando a respiração. Treinar sempre me ajudou em relação a escola, trabalho e família, aliviando as tensões e fazendo eu me sentir em equilíbrio.

Como o senhor tem aplicado, e como o senhor vê seus alunos aplicando o Aikido fora dos tatamis, em suas profissões?
Em Washington, certamente, muitos dos alunos e eu, estamos envolvidos com negociações em nosso trabalho. Nossos alunos no correr dos anos, inclui advogados, professores, cientistas, mediadores, consultores, construtores, estudantes, pedreiros, e funcionários do governo.

O Aikido com certeza ajuda nas negociações: nas esguias, redirecionamento de ofensivas e na harmonização entre o atacante e o defensor. Eu não gosto muito de falar para um grande público, mas o Aikido ajuda nisso. O Aikido e a respiração tem me ajudado a ser capaz de fazer isso com mais tranqüilidade e sucesso.

O que te dá mais orgulho ao olhar para seus alunos no decorrer dos anos?
Vê-los se tornar bons instrutores de Aikido, terem seu próprio dojo, como Mike Mamura e Mike Friedl, ou estar ensinando como se fosse parte de suas vidas, juntamente com suas carreiras. Também gosto de vê-los aplicar o Aikido com sucesso fora do tatami --- lidando com as pessoas, arbitrando, negociando eficientemente.

Ver os alunos se tornarem capazes de liderar as pessoas e fazer com que elas façam as coisas que eles querem sem ter que forçá-las a fazê-lo. Gosto de ver as mudanças nas pessoas depois que elas treinam. Vê-los vencer a si mesmos, superando seus próprios problemas e ansiedades.

As pessoas não entendem as coisas até eles tentarem ensiná-las a alguém.

O que voce procura em seus alunos --- tanto para testes como nas outras coisas?
Como eu já disse anteriormente, técnica e filosofia são ambos importantes.
Em testes, eu sempre procuro a competência técnica, tanto ao se demonstrar a técnica quanto nos ukemi. Eu também procuro pela competência mental. Como é que uma pessoa lida com a agressão, com o inesperado, com coisas maiores do que eles esperavam?

O lado mental e a técnica emergem no Aikido. Como eu já disse, no Aikido voce pode demonstrar que sua filosofia dá certo. Voce pode mostrar isso na maneira como voce neutraliza um ataque, como voce se move para fora da linha de ataque, como voce se alinha para controlar a linha de ataque. Eu procuro para ver se o aluno tem isso tudo continuamente em seu pensamento em expansão. Uma coisa interessante é como alguns alunos que não são fisicamente fortes, tem uma força mental poderosa.

É de se esperar que o lado mental fique cada vez mais forte, a medida em que o aluno progride, mesmo que ele não seja fisicamente forte. Depois de shodan, particularmente, as técnicas não mudam. Shodan, significa que se sabe as técnicas. O que muda é a habilidade mental de usar a técnica e exercer o controle Eu enfatizo que shodan quer dizer "iniciante". Quando se é shodan, o aluno tem a perícia técnica para começar a entender o Aikido.

É importante para o senhor que seus alunos dêem aulas?
Eu sempre enfatizei que ensinar é parte do aprendizado do Aikido. Todos os meus alunos graduados dão aulas. Uma vez por mês temos aulas de instrutores, onde estudamos como se pode ensinar Aikido, e falamos sobre assuntos relacionados com como se ensinar.

Eu creio que uma pessoa não entende realmente algo, sabe algo, até que tem que ensinar isso --- ou tentar ensinar --- para outra pessoa. Uma coisa é saber fazer a técnica; outra a entender porque é que o movimento é feito daquela forma e não de outra, e ter que explicar isso para alguém. Ao se ensinar, passar o conhecimento para alguém, seu corpo estará ensinando sua mente e sua mente estará ensinando seu corpo.

Na Amperica em especial, todos perguntam "Porque?? Porque??". Isso leva a uma coisa perigosa: algumas pessoas falam um pouco demais. Eu digo: : Fale pouco e treine bastante".

Qual conselho o senhor daria a um iniciante?
Que ele treine sempre !.

E qual conselho o senhor daria a um aluno avançado?
Para que treine sempre ! [Risos] Quando voce é um iniciante, o treinamento parece complicado e estranho. Mas ao se estar progredindo, voce deve olhar para tudo o que está aprendendo como se estivesse vendo -pela primeira vez --- para assim não se transformar numa pessoa displicente e deixar de prestar atenção. Treinar é uma interação entre pessoas. A técnica envolve tanto o uke quanto o nage. O uke sempre muda e o nage sempre muda também. Por isso, o treino é sempre diferente. Voce pode pensar nisso dessa maneira. Voce sempre treina para melhorar a si mesmo e ao seu parceiro de treino também. O treinamento é mútuo --- eu ponho meu parceiro em forma e ele me põe em forma.

Também, pessoas de diferentes tipos de Aikido --- de diferentes idades, de tipos corpóreso diferentes, de diferentes níveis atléticos e de agressividade. Eu sempre enfatizo que os alunos devem treinar com o máximo de pessoas diferentes possível. Quanto mais repetitivo voce se tornar, sentindo as atitudes das pessoas no tatami, mais voce será receptivo fora do tatami. Parte do treinamento também é treinar a honestidade --- fazer um ataque honesto e fazer uma técnica honesta. É por essa razão que eu gosto que meus alunos vão aos seminários, ver outros instrutores, e treinar Aikido com outros aikidoístas que normalmente não conhecem.

Quais qualidades pessoais voce valoriza num Aikidoka?
Elas podem ser cultivadas?
No Aikido, voce se dá ao seu parceiro. Voce confia seu corpo, seu braço, suas pulsos, a alguém. Então, é ideal que nos treinos, voce cultive a confiança em outras pessoas.

Durante o correr dos anos, o senhor teve alunos de diversos estilos diferentes dando seminários em sua escola, o Capital Akikai: Senseis Yamada, Saito, Bill Witt, Kanai, Mary Heiny, Robert Nadeau, e Okimura. O senhor sempre manteve um bom relacionamento com esse Aikidoistas, e o senhor mantém boas relações com seus alunos quando eles vão treinar com outros instrutores. Como?
O Aikido é como uma montanha. A montanha está lá, mas existem vários caminhos para atingir seu topo. O O-Sensei escolheu seu caminho. Quanto mais as pessoas praticam o Aikido, mais a montanha é explorada.

A montanha pode parecer ficar cada vez maior, mas ainda é uma montanha. Todos os caminhos verdadeiros levam ao topo. Cada aluno tem que achar um estilo, um caminho que sirva a sua personalidade e tipo corpóreo. O objetivo é o mesmo. Eu sempre apoiei meus alunos. Eu sempre quis expô-los aos diferentes caminhos. Mike (Friedl) é um bom exemplo.

Ele era meu aluno em Wisconsin, DC e Carolina do Sul. Ele foi para a Costa Oeste e de lá para Iwama. Mais tarde, estudou com Frank Doran e Hiroshi Ikeda. Todas essas influencias, incluindo a minha, ajudaram Mike a escolher seu próprio caminho. O mesmo se dá com meus alunos. Eles devem perseguir seus próprios caminhos até o topo da montanha. Eu sou um dos guias. Eles devem andar e ver em qual caminho eles se sentem mais confortáveis.

Como o senhor encontrou o Sensei Saito?
Através de Mike. Eu fui à Califórnia e passei pelo Oakland Dojo. Bill Witt estava dando aula. Gostei do que vi, e Bill e eu nos tornamos amigos. Mike então, foi para Iwama por uns tempos. Em seguida, vários alunos meus foram a Iwama. Então, quando Saito veio para Washington DC nos anos 80, ele queria saber quem era esse tal de Takeguchi, que estava enviando seus alunos para lá. Nos encontramos, e vi que nosso estilos eram muito compatíveis. O Sensei Saito depois disso, ensinou várias vezes no Capital Aikikai.

Parece que voce tem facilidade de absorver e incorporar diferente estilos.
O movimento é um movimento universal, seja qual for o estilo. Se o movimento universal está presente, não importa qual é o estilo que voce tem. Essa é a verdade entre os diferentes tipos de artes marciais. Muitos alunos do Capital Aikikai tem o ranking de Dan, em outras artes marciais. Tudo o que eles aprendem, os ajuda a compreender o movimento universal.

O que o senhor vê como futuro do Aikido?
Essa é uma pergunta importante. O Aikido se dividiu várias partes, o que é típico das artes marciais. Se um dia todos vão se unir novamente, eu não sei. Mas eu acho que a filosofia do Aikido, a filosofia de amor e compaixão do O-Sensei, irá certamente se dizimar, independentemente dos estilos diferentes. A sociedade mudou.

As pessoas necessitam de uma maneira de lidar com eles mesmos e de se auto corrigir. Defesa pessoal e aprender como se defender contra si mesmo. O futuro será interessante. Com a evolução mundial, as pessoas começam a sentir que a sociedade está mudando. Eles começam a se sentir perdidos na sociedade. Elas procuram por maneiras de entende a si mesmos e a melhorar a si mesmos. O Aikido fornece uma boa maneira de se fazer isso.


(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro -Instituto Takemussu Sorocaba)



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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