ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com o Chiba Sensei.

Uchideshi do fundador, e membro da Federação norte americana de Aikido.

AOS DEZOITO ANOS, KAZUO CHIBA VIU UMA FOTOGRAFIA DE MORIHEI UESHIBA EM UM LIVRO E SOUBE QUE SUA BUSCA POR UM VERDADEIRO MESTRE DO BUDO HAVIA TERMINADO. HOJE OITAVO DAN, E INSTRUTOR CHEFE DO SAN DIEGO AIKIKAI, CHIBA RECONTA EPISÓDIOS DOS SEUS ANOS COMO UCHIDESHI . EXPLICA DETALHADAMENTE O CONCEITO DE SHU-HA-RI, BEM COMO A SUA PRÓPRIA VISÃO DO MODERNO MUNDO DO AIKIDO. ALÉM DISSO, AO CRIAR UM CAMINHO PARA O CRESCIMENTO PESSOAL E PARA A HARMONIA, O AIKIDO TENDE A REJEITAR A DESTRUTIVIDADE E A DESUMANIDADE QUE SÃO ASPECTOS ESSENCIAIS DAS ARTES MARCIAIS. MAS INERENTE A ESTA REJEIÇÃO, EXISTE O RISCO DE EMASCULAR A ARTE, PRIVANDO-A DE SUA VIRILIDADE ESSENCIAL. COM ESTA PREOCUPAÇÃO EM MENTE, KAZUO CHIBA SUGERE QUE É ATRAVÉS DO ESTADO DE AINUKE QUE A HARMONIA, A COEXISTÊNCIA E A CO-PROSPERIDADE BUSCADAS NO AIKIDO PODEM SER ENCONTRADAS. POR ESSA RAZÃO, O TREINAMENTO RIGOROSO ENVOLVENDO "UM ENCONTRO COMPLETO ENTRE DOIS CORPOS E ESPÍRITOS" E ATAQUES REAIS SÃO NECESSÁRIOS.

AIKIDO JOURNAL: SENSEI, SEI QUE O SENHOR COMEÇOU NAS ARTES MARCIAIS COM O JUDO E MAIS TARDE MUDOU PARA O AIKIDO. TALVEZ O SENHOR POSSA NOS CONTAR SOBRE COMO ERAM AS COISAS NAQUELES DIAS.

CHIBA SENSEI: Bem, eu gostava muito de budo, especialmente de judo. Um dia aconteceu de me encontrar em uma situação em que tive que enfrentar um dos meus instrutores que era nidan. Era uma boa pessoa, que havia me ensinado muito sobre judo desde que entrei para o dojo, e sempre foi bom comigo também em assuntos externos. Tinha um compleição pequena mas era um judoca maravilhoso e podia lançar oponentes maiores sem usar qualquer força. Usava muito taiotoshi (queda do corpo) e yokosutemi(sacrifício lateral) em lançamentos de um calibre incomum. Era muito rápido, também.

Ele costumava me derrotar sempre, mas então, por alguma razão, ganhei uma luta durante um kachinuke shiai (competição na qual o judoca continua lutando até que seja derrotado; então é substituído pelo vencedor do combate). Ele ficou mortificado e disse, "Não posso mais derrotar você no judo, mas ainda tenho o kendo"(Ele era nidan também em kendo.)

Então certa noite, ele apareceu em casa e me disse que saíssemos porque íamos nos enfrentar em kendo. Até então, eu praticara judo e karate mas nunca kendo. Imaginei que alguma coisa funcionaria e assim, o acompanhei a um terreno baldio. Meu sempai me deu uma vantagem, permitindo que eu usasse um bokken enquanto ele usaria apenas um shinai . Ele era tão rápido que sequer pude tocá-lo, enquanto o seu shinai golpeava meu corpo todo o tempo. Terminei levando um boa surra.

Esta experiência se transformou em um primeiro despertar acerca do budo. Desiludido, parei de ir ao judo e comecei a pensar. Ocorreu-me que mesmo praticando judo tão diligentemente quanto possível, me tornando um judoca de alto nível e tendo confiança em minhas habilidades, haveria chances de ainda ser derrotado por um kendoca shodan em uma competição. No mesmo passo, se algum professor de kendo vestisse um uniforme de judo e viesse ao meu dojo, provávelmente eu o derrotaria, não importando quão respeitado ele fosse no mundo do kendo.

Depois de pensar um pouco a respeito, concluí que algo estava faltando e que algum erro havia sido cometido; o verdadeiro budo tinha que ser alguma coisa mais. Um praticante do budo, pensei, deveria ser capaz de responder a qualquer circunstância, seja em espada contra espada, desarmado contra uma espada, desarmado contra um oponente desarmado ou qualquer coisa assim. Estas questões simples me levaram a refletir sobre a natureza do verdadeiro budo.

Como não tinha ideía de como encontrar o tipo de budo que estava procurando, parei de praticar qualquer arte arte marcial por cerca de seis meses. Eu sabia que precisava encontrar um professor que pudesse me dar a orientação adequada.

Então, certo dia em uma livraria, peguei um livro sobre aikido. Dentro havia uma pequena foto de O-Sensei. Quando a vi, eu soube imediatamente que havia encontrado o meu professor. Não sabia nada sobre as reais técnicas do aikido, mas aquilo não me pareceu importante e apenas pensei comigo, "É isto! Este parece ser o homem que entende minhas preocupações." Assim me dirigi ao lugar onde presumi encontrar Ueshiba Sensei para dizer-lhe (com alguma ousadia, já que não houve convite) que eu desejava , de qualquer modo, me filiar como um uchideshi assim que fosse possível. Foi assim que vim para o aikido.

AIKIDO JOURNAL: QUANTOS ANOS O SENHOR TINHA ENTÃO?

CHIBA SENSEI: Eu havia acabado de concluir o colégio, portanto devia ter dezoito anos. Naquele tempo, O-Sensei vivia em Iwama e assim não ficava no Hombu Dojo usualmente. Mas eu estava preparado para ficar sentado na frente do dojo até que me permitissem ser um uchideshi. E assim fiz esperando para conversar com alguém. Isto foi na metade de fevereiro de 1958 e estava frio. Parece que as pessoas no Hombu Dojo pensavam que eu era algum tipo de louco. Três dias depois, O Sensei chegou de Iwama. Waka Sensei (o atual Doshu, Kisshomaru) informou-o de que havia um pessoa estranha rondando e perguntou o que deveria ser feito a respeito. O Sensei disse, "Traga-o para dentro" e assim pude encontrá-lo. Sentei-me na ante-sala dos aposentos de O-Sensei e fiz um cumprimento formal. Quando ergui a cabeça e olhei para ele, pensei comigo, "Tudo estará bem."

O Sensei disse, "O treinamento em budo é extremamente exigente. Você acha que poderá lidar com isso?" Respondi que estava certo de poder e O Sensei disse, "Muito bem, então". Foi um encontro muito simples.

AIKIDO JOURNAL: ENTÃO O SENHOR TREINOU DURANTE CERCA DE SETE ANOS COMO UCHIDESHI NO HOMBU DOJO?

CHIBA SENSEI: Sim, e não houve um único dia durante todo esse período que eu considerasse "divertido" - não à época, de qualquer modo. Agora olho para trás e vejo a experiência com muito afeto, mas na época, foi pura dureza (risos)! É claro que foi uma escolha para realizar o meu objetivo, e não algo que fui forçado a enfrentar, e nesse sentido aquilo foi realmente um luxo, a despeito da dificuldade.

AIKIDO JOURNAL: O SENHOR DEVE TER ALGUMAS ESTÓRIAS INTERESSANTES SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS COMO UCHIDESHI...

CHIBA SENSEI: O Sensei ainda gozava de boa saúde quando entrei para o dojo. Ao longo dos sete anos em que permanecei ali, vi suas técnicas mudarem rápidamente. Cerca de um ano depois, eu tinha domínio suficiente das bases da arte e fui autorizado a ser uke para ele. Treinar com O Sensei era realmente duro! Com frequência eu tinha os cotovelos esfolados quando praticávamos iriminage e as mangas do meu uniforme estavam sempre manchadas de sangue. As técnicas de O Sensei eram tão rápidas que era difícil fazer o ukemi. Pior ainda do que fazer o ukemi era levantar-se de pronto, mesmo quando ele arremessava muito forte e não era permitido tirar os olhos dele. Eu podia sentir isso na base do pescoço quando ele me atirava longe, voando dois metros sobre o tatami . Sua espada era também extraordináriamente rápida.

AIKIDO JOURNAL: QUAIS SÃO AS SUAS RECORDAÇÕES MAIS VIVAS DO TEMPO EM QUE O SENHOR ENTROU PARA O HOMBU DOJO ?

CHIBA SENSEI: Uma das coisas mais importantes de que me lembro daquele tempo era o alto nível das pessoas que ali se reuniram para praticar aikido. Todos tinham um intenso interesse no budo. O aikido não era praticado em escala global como é hoje, mas a atmosfera criada pelos uchideshi e pelos outros estudantes realmente me entusiasmava. O Sensei era ainda relativamente vigoroso e gozava de boa saúde também.

Lembro-me muito bem também das vezes em que O Sensei se zangava. Seu cabelo práticamente ficava em pé! Sua energia vinha direto pelo alto da sua cabeça, se é que você pode imaginar isso. Era fantástica a quantidade de energia que ele tinha em situações assim. Quem não o conhecia ou nunca o tinha visto assim antes sempre ficava surpreso.

AIKIDO JOURNAL: QUE TIPO DE COISA O DEIXAVA ZANGADO?

CHIBA SENSEI: Sempre que praticávamos kokyu-nage quando ele estava dormindo, por exemplo. O Sensei aparecia de repente no dojo e dizia, "Posso dizer pelo barulho que seu treinamento não está bom!" Assim, sempre tínhamos o cuidado de praticar suwariwaza quando ele estivesse por perto. Nunca dizia nada se estivéssemos trabalhando duro em suwariwaza.

AIKIDO JOURNAL: OUTROS UCHIDESHI TAMBÉM COMENTARAM QUE O SENSEI SEMPRE FICAVA DE BOM HUMOR ONDE QUER QUE HOUVESSE PESSOAS PRATICANDO SUWARIWAZA.

CHIBA SENSEI: Acredito que sim. Talvez, uma das minhas lembranças mais fortes de O Sensei seja o seu belo porte, não importando o que ele estivesse fazendo. Podia-se olhá-lo de frente, de costas ou pelos lados e sua postura era sempre completa e harmoniosa. Nunca vi alguém com tal presença, perfeita, cheia de dignidade. Eu realmente admirava o seu porte, de um verdadeiro artista marcial.

AIKIDO JOURNAL: COMO O SENHOR DESCREVE A "ENERGIA" DE O SENSEI ?

CHIBA SENSEI: Era como ser pressionado por um tipo de força invisível. O-Sensei costumava nos dizer para atacá-lo com um bokken a qualquer momento. Onde quer que ele parasse e se voltasse para falar a sua audiência, parecia uma boa chance para fazê-lo, já que ele não estava mesmo olhando em nossa direção, mas até então ninguém tentara golpeá-lo. Simplesmente não havia aberturas. Ele não nos olhava com os seus olhos, mas podíamos sentir que nos continha firmemente com o seu ki. Isto costumava me fazer transpirar um suor gorduroso e portanto, era muito difícil manter a empunhadura do meu bokken.

Mas como seus oponentes nós insistíamos, tentando gradualmente diminuir a distância. Então, por um instante, uma abertura poderia surgir. O Sensei criava pequenas aberturas deliberadamente para nos ajudar a treinar nossos poderes de percepção. Ele não usaria pessoas que não puderessem demonstrar uma habilidade em perceber tais aberturas.

No instante em que O Sensei relaxava levemente a intensidade do seu poder kokyu nós poderíamos perpetrar um ataque; mas ele já se tinha ido. Por esta razão, parecia pré-arranjado. Na realidade, O Sensei já estava se movendo no momento em que iniciávamos o ataque. Simplesmente éramos muito lentos ou nos faltava a habilidade para perceber isso. Achava este tipo de coisa extremamente interessante.

O Sensei dizia que o verdadeiro budo deveria ser executado com tanta maestria que pareceria pré-arranjado. Dizia que começar o movimento somente após o início do ataque não era budo.

Somente seria verdadeiro se parecesse combinado para os observadores.

AIKIDO JOURNAL: O SENSEI INSTRUÍA OS UCHIDESHI DE MANEIRA DIFERENTE DOS DEMAIS ALUNOS?

CHIBA SENSEI: O conteúdo do treinamento era exatamente o mesmo, mas a nós uchideshi era dito explícitamente que não treinássemos do mesmo modo que os alunos regulares. Nosso treinamento deveria ser muito mais duro e mais intenso, nem suave ou fácil. O Sensei era muito rígido a esse respeito.

Os uchideshi não recebiam qualquer tipo de instrução técnica especial. Mas a parte mais intensa do nosso treinamento era interagir com O Sensei em todos os aspectos da sua vida diária - servindo-o como seu assistente pessoal, acompanhando-o em suas viagens, preparando suas refeições e seu banho, massageando suas costas, lendo para ele e coisas assim. As pessoas que nunca foram uchideshi talvez tenham dificuldade em entender o significado desse contato diário.

AIKIDO JOURNAL: FALE-NOS MAIS A RESPEITO, POR FAVOR.

CHIBA SENSEI: Costumávamos acompanhar O Sensei em viagens para locais como Osaka e Wakayama, expedições que comumente duravam cerca de uma semana. Carregados com as bagagens de O Sensei e as nossas próprias, bokken e jo nas costas, deveríamos chamar um táxi para a estação de Tokyo. Lá chegando, O Sensei imediatamente saltava do carro e desaparecia, deixando-nos para cuidar de comprar as passagens e de outros detalhes. Tínhamos que sair correndo atrás dele, enquanto atravessava em linha reta a estação congestionada, parecendo que a multidão se abria à sua passagem.

Onde quer que houvesse uma escadaria a subir, empurrávamos O Sensei e para descer, nos posicionávamos um degrau abaixo para lhe oferecer o ombro para se apoiar. De vez em quando, fazíamos o mesmo para subir no trem. Ocasionalmente , havia alguém que não conseguia nos acompanhar, mas O Sensei simplesmente embarcava e partia de qualquer modo, assim todos tinham que fazer de tudo para acompanhá-lo e embarcar no trem com o grupo.

A maior parte das acomodações em que ficávamos consistia de dois quartos e um toalete. O Sensei dormia num deles e os uchideshi se espremiam no outro. Com aquela idade, O Sensei normalmente se levantava cinco ou seis vezes durante a noite para ir ao toalete de tínhamos que assití-lo. Não pude dormir de jeito algum durante os primeiros dois ou três anos, porque nunca podia prever quando ele se levantaria.

Quando se levantava, abríamos a porta e o ajudávamos a vestir seu haori ( uma túnica um pouco mais longa na frente, na altura entre o quadril e o joelho), então o acompanhávamos ao toalete, abríamos a porta e acendíamos a luz. Depois o ajudávamos a lavar e secar as mãos, levando-o de volta à cama e retornavámos para o nosso quarto. Óbviamente não é possível dormir direito com esse tipo de coisa acontecendo cinco ou seis vezes por noite. Todos perdíamos quatro ou cinco quilos durante a semana e estávamos em cacos ao voltar para casa.

O interessante é que depois de cerca de quatro anos, me tornei capaz de dormir sonoramente. De alguma forma, eu podia sentir durante o sono quando O Sensei precisava se levantar para ir ao toalete. Eu despertava, pulava da cama, abria uma fresta da porta e lá estava ele! Timing perfeito, não é? Um tipo de comunicação não verbal havia se desenvolvido. Em japonês dizemos "ishin denshin", que significa algo parecido com "comunicação como se duas pessoas tivessem o mesmo pensamento."

Este é o tipo de treinamento que o habilita a sentir a intenção do seu parceiro no tatami. Quando você e seu parceiro se encontram frente a frente com espadas, por exemplo, o importante não é saber quem é mais forte ou mais fraco, mas muito mais quão claramente você pode captar a intenção do outro. Para ser capaz de se mover no momento exato, você deve ser capaz de ver as aberturas quando elas aparecem.

Não sei se este tipo de treinamento era intencional da parte de O Sensei, mas de qualquer modo, isso influenciou minha técnica no sentido de que me tornei capaz de reagir ao fluxo do ki do meu parceiro e ao timing do seu movimento antes mesmo de pensar a respeito. É claro que não posso fazer isso o tempo todo... Desejava que sim, então eu seria realmente um perito, não seria? (risos)

AIKIDO JOURNAL: SEI QUE O SENHOR VIAJAVA COM FREQUÊNCIA PARA O IWAMA DOJO PARA TREINAR COM O SENSEI...

CHIBA SENSEI: Meu período mais longo lá foi meio ano. O Sensei não treinava com armas frequentemente no Hombu Dojo mas em Iwama, sim. Porém, mais do que instruir, pode-se dizer que ele dispendia muito tempo do seu próprio treinamento com as armas e todos apenas o seguiam. Iwama era como se fosse o laboratório de O Sensei. Um fato de que me lembro naquela época é a dedicação de (Morihiro) Saito Sensei a ele. Saito Sensei e toda a sua família sofreram muito para servir O Sensei. Pensando a respeito mesmo agora, tenho que me curvar em respeito a eles.

AIKIDO JOURNAL: QUEM ENSINAVA NO HOMBU DOJO À ÉPOCA, ALÉM DE O SENSEI ?

CHIBA SENSEI: Primeiro havia Waka Sensei (o atual Doshu, Kisshomaru Ueshiba), que era o chefe do dojo, e Koichi Tohei que era o chefe dos instrutores. Havia outros professores, também. Kisaburo Osawa, Seigo Yamaguchi, Hiroshi Tada e Sadateru Arikawa eram os principais. Não havia muitas pessoas treinando - talvez vinte, no máximo.

No passado, assim que obtivéssemos o grau shodan, éramos enviados para ensinar em clubes universitários de aikido e associações afins, que então começavam a aparecer. O Hombu Dojo estava visando o futuro, desejando divulgar o aikido na sociedade tanto quanto possível, e assim começou por cultivar a arte em clubes universitários e em outros lugares como esse. O recolhimento de taxas era muito negligenciado e portanto, nós realmente pagávamos para ensinar.

AIKIDO JOURNAL: O SENHOR DEVE TER UMA OU DUAS ESTÓRIAS INTERESSANTES SOBRE OS SHIHAN QUE ERAM SEUS ORIENTADORES...

CHIBA SENSEI: Hmmm... há uma estória sobre Tohei Sensei...Por volta de 1960, uma dupla de atletas vindos da Argentina visitaram o dojo. Faziam parte de um grupo que viajava buscando experimentar as chamadas "coisas mais perigosas no mundo", fazendo um documentário a respeito. Ambos eram enormes. O Sensei normalmente proibia competições, mas naquela ocasião ele deu permissão, e disse a Tohei que lutasse, embora até hoje eu ainda não saiba o por quê. Todos os alunos se alinharam no tatami e O Sensei sentou-se à frente dos instrutores. Disse, "Tohei, levante-se!". Como representava o dojo inteiro, Tohei Sensei levou tudo muito a sério.

Fui eu quem recebi os atletas quando eles chegaram. Eram tão altos que suas cabeças chegavam a ultrapassar o batente superior da porta de entrada. Pensei, "Oh, não... se perdermos ficaremos tão humilhados," assim conversei com os outros uchideshi e decidimos esconder algumas espadas de madeira atrás de nós. Imaginávamos usá-las para derrubar os atletas em caso de derrota de Tohei Sensei (risos).

A luta começou. Tohei Sensei imediatamente avançou na direção do seu oponente , que logo recuou. Dez minutos se passaram enquanto se moviam em círculo pelo dojo. Nem um nem outro faziam qualquer coisa. Finalmente, Tohei Sensei encurralou o atleta num canto e pulou em sua direção . Ele era tão pequeno comparado com o seu oponente, mas terminou arremessando-o para trás com uma manobra sotogake ao estilo do judo e imobilizou-o com o seu tegatana. O atleta devia ser muito bom em técnicas de solo, mas não conseguiu se levantar. Fez várias tentativas para se safar, mas Tohei o tinha firmemente preso.

Fiquei supreso com a energia do kokyu de Tohei Sensei. É bastante difícil arremessar um oponente que não vem a você, como sabe. É por isso que Tohei o forçou a ir para um canto. Fiquei impressionado. O Sensei não disse nada na hora, mas depois estava zangado e disse, "Não há necessidade de arremessar alguém que não está atacando!". É verdade, não foi uma forma muito boa de vencer no sentido do bujutsu. Um oponente com uma faca poderia fácilmente atingí-lo se fizesse aquilo, portanto não foi realmente muito convincente como uma verdadeira técnica de auto-defesa. Mas para aquela situação, dentro do dojo, penso que não haveria muito mais a ser feito. Mais tarde ouvi dizer que o atletas haviam visitado a Kodokan antes de virem a nós e que, aparentemente, alguém lá lhes havia dito que jamais tomassem a iniciativa do ataque com um aikidoca. É provável que por essa razão, o atleta não tenha feito nada em termos de movimentos ofensivos.

AIKIDO JOURNAL: MUDANDO DE ASSUNTO, ACREDITO QUE O SENHOR PRATICA IAIDO TAMBÉM...

CHIBA SENSEI: Sim, comecei a treinar iaido porque O Sensei disse que eu deveria. Por volta de 1959 ou 1960, um escritor chamado Yamada viria ao dojo. Escrevia um romance chamado Oja no Za (O Trono do Rei), usando O Sensei como modelo para um dos seus personagens. Fez gravações das falas de O Sensei sobre suas experiências em Hokkaido. Sentei ali todo o tempo, ouvindo O Sensei recontar suas estórias. Uma delas envolveu um incidente no qual ele lutou contra um perito em iaido, aparentemente como procurador de Sokaku Takeda. Takeda Sensei matou várias pessoas, você sabe, e dentre elas, um professor de iaido. Seu aluno mandou uma carta em desafio a Takeda Sensei. Doente , à época, Takeda Sensei não pôde comparecer, e assim O Sensei foi como seu representante e lutou nas neves de Hokkaido.

Quando a distância (maai) entre eles diminuiu, súbitamente O Sensei chutou um pouco de neve com o pé à frente e saltou rápidamente para golpear seu oponente na lateral ,sob o braço. Então o arremessou.

Enquanto ouvia, pensei comigo, "O quê eu teria feito em uma situação dessas?" Imaginei que seria melhor estudar um pouco de iaido e isso me preocupou durante algum tempo.

Pouco depois, eu acompanhava O Sensei numa viagem à região de Kansai quando me disse, de repente, "Fique aqui e pratique iaido por três meses". "Aqui" era o dojo de Michio Hikitsuchi em Shingu. Foi Hikitsuchi Shihan quem me deu o primeiro treinamento em iaido. Acho que isso foi por volta de 1960. O Sensei tinha lido completamente meus pensamentos íntimos. Disse que três meses seriam tempo suficiente para obter algum conhecimento básico.

Comecei a acompanhar O Sensei em viagens antes disso, e a maioria das suas demonstrações incluíam armas. O fato é que ninguém antes havia me ensinado a usá-las! Assim, tentei me recordar das coisas que havia estudado por minha própria conta o melhor que podia, anotando tudo o que O Sensei me ensinava e desenhando figuras. Também pratiquei sozinho tanto quanto pude , treinando para ser um uke tão bom quanto possível. Estava preocupado de não ser capaz de fazer ukemi para O Sensei. Não queria causar embaraço para tão fantástico artista marcial.

Ao usar a espada, deve-se conhecer , no mínimo, os fundamentos da sua empunhadura. O Sensei me disse que estudasse como proceder com a espada tanto antes como depois de desembainhá-la. Portanto , nesse sentido, o iai deveria ser o meu treino em como proceder antes de sacar a lâmina. O estado de espírito e a preparação antes de puxar a lâmina são muito importantes em iai, assim como o ângulo e a orientação do gume. Estas coisas têm que ser exatas porque você vai usar a espada para cortar de fato. Não se pode compreender isso usando apenas uma espada de madeira. Praticar iai dá um bom senso de como orientar o gume e ajustar a força. Saber disto ajuda a traduzir o iai e o trabalho da espada para as técnicas de mãos nuas , tanto quanto o contrário. Sempre tentei mesclar ambas e trazê-las juntas, em harmonia uma com a outra.

AIKIDO JOURNAL: O SENHOR ESTUDOU MUITAS COISAS DIFERENTES!

CHIBA SENSEI: Uma outra razão pela qual gosto muito de iai é que ele combina bem com o zazen (meditação zen na posição sentada). É um treino individual excelente. O Sensei sempre dizia que é preciso harmonizar três tipos de treinamento - o budo, a agricultura e a disciplina espiritual. Desejei construir esse estilo de vida enquanto ainda era jovem mas andei esbarrando em dificuldades em Tokio. Acontece que eu tinha um amigo que era um mestre zen e vivia em Nishi Izu. Aluguei um lugar numa vila próxima e comecei uma nova vida, plantando, praticando zazen e treinando sozinho. Pretendia fazer isso durante cinco anos, mas no fim, as coisas não aconteceram bem assim. Yoshimitsu Yamada foi me visitar umas poucas vezes, vindo de Nova York, para convidar-me para ir aos Estados Unidos.

Umas das coisas que me fez ficar tão envolvido com o zazen foi uma visita do Dr. Daisetsu Suzuki (1870-1966, estudioso do Budismo e conhecido nos Estados Unidos por suas pesquisas em Zen) a O Sensei . Dr. Suzuki veio de Kamakura, acompanhado por seu secretário para visitar O Sensei. Algo que ele disse fixou-se em minha mente. Depois de uma demonstração, os dois sentaram-se para conversar. Fui uke durante a demonstração e servia o chá enquanto Dr. Suzuki e O Sensei falavam, assim pude ouvir a conversação.

Dr. Suzuki falou francamente, dizendo algo como, "Posso fácilmente compreender que o seu budo incorpora o ápice da espiritualidade oriental e da iluminação. Mas suas conferências são ininteligíveis e não compreendo afinal o que o você quer dizer . Dia chegará em que o aikido pertencerá ao mundo inteiro. Mas não existe universalidade em Shinto e assim, acho que você precisa dar consistência ao aikido com algum tipo de Budismo Mahayana, a filosofia do Zen, em particular. Se fizer assim , o aikido se transformará em alguma coisa muito forte. Naquele tempo, eu também não conseguia entender realmente o quê O Sensei dizia. Assim quando o Dr. Suzuki disse, "Não compreendo o que você quer dizer afinal", não pude evitar de pensar , "Sim! Correto! Não poderia concordar mais!" (risos).

AIKIDO JOURNAL: PRESUMO QUE O SENSEI FREQUENTEMENTE FALAVA EM TERMOS DE KAMISAMA...

CHIBA SENSEI: Sim, ele falava. Todos os uchideshi da minha geração receberam uma educação pós-guerra, e assim, não conhecíamos a maioria das palavras que O Sensei usava. Eu percebia que ele empregava um vocabulário que não aprendíamos na escola e que não podia ser encontrado em livros. Certamente, eu não me sentiria tão perturbado com a religião Omoto se a tivesse estudado anteriormente. Mas o pouco que sei foi por intermédio de O Sensei e eu não entendia as palavras que ele usava. Esta foi provávelmente a maior razão pela qual eu, de forma mais ou menos automática, a rejeitei.

AIKIDO JOURNAL: O QUE O SENHOR CONSIDERA A COISA MAIS IMPORTANTE PARA AS PESSOAS QUE ESTÃO COMEÇANDO NO AIKIDO ?

CHIBA SENSEI: As pessoas procuram tantas coisas diferentes no aikido que é difícil generalizar. Quando eu era um uchideshi, havia muito poucas pessoas treinando no Hombu Dojo, mas quase todas procuravam o chamado "verdadeiro aikido". Uns poucos eram excêntricos ou incomuns de um jeito ou de outro e entre estes, , havia aquelas pessoas que podíamos considerar como " budo-fanáticos". Era um grupo razoávelmente ímpar.

Hoje em dia há mais diversificação. Algumas pessoas treinam pela saúde, outros pelos aspectos filosóficos ou espirituais - todas estas são boas razões.

A questão importante hoje, no entanto, é que se você pensa no aikido com uma árvore, há que ficar bem claro quem vai fazer o papel das folhas e dos galhos e quem fará o papel das raízes e do tronco. Desde que haja pessoas que façam os papéis das raízes e do tronco, então a árvore permanecerá sólida e saudável, e galhos e folhas irão surgir. Então não há nada com que se preocupar. As pessoas devem conservar isto em mente e evitar em insistir que o aikido não deve ser como é hoje. Folhas são folhas e galhos são galhos e isto está bem em si mesmo. São partes da árvore. O importante é quem irá manter o centro do aikido; em outras palavras, quem irá assumir a responsabilidade por manter as raízes e o tronco ?

Em princípio, acho que não há velho ou novo em matéria de budo. Temos a palavra kobudo, que literalmente significa "velho budo". Seu oposto lógico deveria ser shinbudo, ou "novo budo", mas nós realmente não utilizamos essa palavra em japonês, usamos? A tendência moderna é a de que o novo budo seja orientado para o esporte. De certa forma, está certo chamar esses esportes como "novas formas de budo", mas pelo pensamento tradicional, os esportes não podem ser realmente qualificados como budo.

É muito difícil dizer em qual extensão os esportes podem ser considerados como budo. Mas na minha forma de pensar, não tenho dúvida de que é no budo que estão as raízes do aikido. Os galhos e as folhas crescem para fora. Todos os outros elementos - aikido como uma "arte de viver", como um meio para obter melhor saúde, como calistenia ou como busca da estética física - tudo isto provém de uma raiz comum, que é o budo. É perfeito para aqueles que assim fazem, mas o ponto é que essas coisas não são própriamente as raízes. O Sensei sempre enfatizava que "aikido é budo" e que "o Budo é a fonte do poder do aikido". Se nos esquecemos disto, então o aikido se transforma em outra coisa - a chamada "arte de viver" ou uma coisa mais assemelhada à ioga.

AIKIDO JOURNAL: O SENHOR PODERIA FALAR SOB UMA PERSPECTIVA TÉCNICA A RESPEITO ?

CHIBA SENSEI: Dentro a minha limitada experiência, o que mais me cativa no aikido é a sua natureza racional e o fato de que encontramos princípios coerentes que permeiam toda a sua técnica . Para dar um exemplo, dentre os muitos princípios envolvidos no aikido, encontramos aquele que diz " O um é muitos". Técnicas de mãos vazias, em princípio, contêm o potencial de se transformarem a qualquer momento em técnicas com armas e vice-versa. Técnicas utilizadas para reagir a um único oponente podem ser igualmente aplicadas contra vários oponentes. As linhas do movimento se desdobram das técnicas de mãos vazias em técnicas com armas e retornam; de um oponente a vários e retornam, de modo contínuo, conexo e orgânico. Nesse sentido, o aikido é muito parecido com uma entidade viva.

Este elemento constitui umas das qualidades essenciais do aikido enquanto budo. Este é o tipo de movimento que O Sensei usava e que repousa no cerne do aikido.

No entanto, esta qualidade essencial não se manifesta tão claramente nas técnicas individualmente consideradas tanto quanto permeia a arte como um todo, existindo como um potencial latente. Isto permite uma abordagem ética pela moderna espiritualidade; em outras palavras o "shinmu fusatsu", que representa o mais alto ideal do budo japonês - "não matar".

A essência do aikido como budo não está absolutamente próxima da superfície; aqueles com um certo grau de compreensão devem poder discernir isso. O aikido visto superficialmente, em outras palavras, muito do aikido que vemos hoje, não pode ser necessáriamente considerado como representante do budo no significado tradicional da palavra. Afortunadamente, no aikido reside o potencial para que estudantes sérios escavem fundo para descobrir sua essência e através de um longo processo de busca, fazer dessa essência a sua própria.

Penso que talvez, uma das qualidades profundas e fascinantes do aikido é que ele conserva juntas, a qualquer tempo, tanto as formas simbólicas quanto as fenomênicas disponíveis na superfície com um potencial latente para a abertura, relevando a verdadeira essência do conceito de "bu". Sob esse aspecto, sua profundidade é quase ilimitada. É um grande engano pensar que o que é visível na superfície é tudo e representa a realidade. Por outro lado, buscar exclusivamente a chamada "realidade" que existe por trás da forma , pode fazer com que se perca a universalidade do aikido enquanto caminho (michi), e todos os esforços do Doshu serão vãos.

A perspectiva do Doshu para o aikido implica em abandonar e então transcender a dimensão do marcial (bu). O fundamento disto é a sua clara ênfase na universalidade do aikido como um caminho. O Doshu tem um olho crítico e introspectivo sobre certos aspectos desumanos, anti-éticos e vulgares inerentes ao budo, buscando incansávelmente libertar o aikido desses elementos negativos. Quanto mais envelheço, mais aprecio esses sentimentos do Doshu tenho por ele um profundo respeito pelos seus esforços.

Além disso, os movimentos largos, circulares e suaves, tanto quanto idéias como harmonia espiritual e unidade são importantes, mas a ênfase excessiva nesses aspectos, produz uma abordagem unilateral ou oblíqua do treinamento e não pode incorporar a essência do budo. Tais coisas também levam à falta de um certo grau de validade técnica. Estão mais relacionadas com os galhos e as folhas de uma árvore e como tais, talvez sejam melhor interpretadas como símbolos da filosofia do aikido. Elas preenchem um papel dentro do aspecto dual do aikido, qual seja, a aparência externa e a realidade subjacente. O Sensei sempre dizia claramente que esses aspectos aparentes do aikido enquanto forma exterior não têm necessáriamente que ser budo. Dizia "A fonte do aikido é o budo. Todos vocês devem primeiro dominar o budo, já que o aikido vai além do budo" Também dizia que , "De agora em diante, o público em geral não precisa do budo como tal." Afirmava tudo isto muito claramente.

Assim, O Sensei abriu um caminho para muitos tipos de pessoas que, por quaisquer razões, eram excluídas do mundo tradicional do budo - pessoas com compleição frágil, com falta de vigor físico, idosos e mulheres. Acabou com as competições e assim fazendo, criou um caminho que se adapta às características de cada indivíduo, trazendo à tona seu potencial latente e permitindo a essas pessoas encontrar seu nicho, realizando as suas próprias missões na vida. Cria-se um mundo no qual as pessoas possam viver juntas quando todos estão realizando seus próprios potenciais dessa maneira. Esta é a minha compreensão do pensamento de O Sensei.

AIKIDO JOURNAL: COMO O SENHOR VÊ A PRÁTICA CORRENTE DO AIKIDO A NÍVEL INTERNACIONAL ?

CHIBA SENSEI: O aikido é um budo com um grande coração. É muito humanitário e bom para as pessoas. Graças aos esforços do Doshu, estamos capacitados a praticar de uma forma que se adapte a uma vasta gama de condições humanas. O aikido permite às pessoas buscarem o budo de um modo que faz com que a pessoa seja o centro da prática. Nunca houve nada parecido antes. No passado, o budo sempre existiu a priori e as pessoas se adaptavam a ele. No aikido, é o budo que se adapta à pessoa que o pratica. Falo em termos mais filosóficos do que em termos de técnica prática, mas acho que a idéia do Doshu não é a de apenas fixar o espírito do budo firmemente como a base do aikido, mas também de levar o aikido para além do budo, criando um novo caminho que seja usado pelas pessoas para se aprimorarem como seres humanos. O budo compreende muitos elementos que podem se tornar destrutivos e desumanos, você sabe. Penso que o Doshu se opõe profundamente a esse tipo de coisa e percebo que ele tem esperança de que o aikido possa se afastar desses aspectos para se transformar em algo que auxilie as pessoas em seu treinamento e em sua estruturação. Não sei se o desejo do Doshu está sendo transmitido, mas o fato é que o aikido precisa transcender a desumanidade e a vulgaridade latentes no budo se quer continuar a ser um caminho capaz de responder às necessidades espirituais do nosso mundo atual e para ajudar as pessoas a se desenvolverem. Parece-me que o Doshu considerou isto profundamente e acho que seus sentimentos e idéias são corretos e admiráveis. Nada há nesse espírito de nobreza que motiva o aikido do Doshu que seja antitético ao bu no qual o aikido é baseado.

Filosóficamente falando,os elementos negativos do bu brotam da mesma fonte que os poderes fundamentais ativos na formação e desenvolvimento do universo. Quando esses elementos negativos se manifestam no budo, se transformam na tão chamada "espada que mata" (setsuninto); mas se são enterrados e mantidos longe da superfície, a "espada que dá vida" (katsujinken) pode se manifestar através do aikido e tornar-se acessível a todos. Portanto , desta forma, os dois aspectos do kassatsu (katsu, dar vida e satsu, lidar com a morte) estão firmemente atados em um sentido filosófico.

Mesmo assim, isto é muito complexo e sutil. Há um ditado , "Endireitar os chifres mata o touro". Em outras palavras, ao eliminar o "veneno" do bu corre-se o risco de reduzí-lo a uma forma castrada.

AIKIDO JOURNAL: TEMOS AS PALAVRAS AIUCHI (golpes recíprocos) E AINUKE (fugas mútuas). O SENHOR PODE POR FAVOR NOS DIZER O QUE ELAS SIGNIFICAM DENTRO DA SUA VISÃO DO AIKIDO ?

CHIBA SENSEI: Nem uma ou outra são fundamentalmente diferentes do aikido. Em alguma época por volta da era Kambun (1661-73), um praticante da Shinkage-ryu chamado Harigaya Sekiun explicou isto do ponto de vista da esgrima tradicional. Disse que o aiuchi é a base do bujutsu e que em face da espada de um oponente, deve-se abandonar qualquer pensamento de auto preservação ou de obter a vitória e se devotar sinceramente a alcançar o aiuchi. Harigaya percebeu que deve-se evitar completamente o apoio em manobras técnicas para salvar somente a si mesmo - por exemplo, simular um golpe para a direita mas golpeando na verdade pela esquerda, ou fingindo golpear no alto mas realmente batendo em baixo e assim por diante. Criticou violentamente a brutalidade no combate. Recomendava, ao invés, uma forma "mais elevada" de bujutsu baseada na dignidade espiritual ímpar, inerente aos seres humanos. Acho que isto tem alguma conexão com o aikido.

É claro que você não pode alcançar o aiuchi sem se resignar com a morte. A respeito disto, Harigaya disse algo como, "As pessoas provávelmente pensarão que aiuchi é uma coisa simples e fácil de fazer. Mas na realidade, encarar tal situação e ver-se em confronto com os muitos desejos disto ou daquilo e com as suas ilusões flutuando à sua frente, fazem o seu desejo de derrotar o oponente sobrepor-se a tudo. Assim, o aiuchi não é algo que se possa fazer tão de imediato ou de forma tão simples como se possa pensar". Mas através do processo de treinamento, rompe-se com essas coisas e os desejos terrenos e as ilusões caem por terra, e então o mundo do ainuke se abre à sua frente. Em termos atuais podemos chamar isto de "coexistência e prosperidade mútua."

A transformação de aiuchi em ainuke e a teoria por trás dela parece ser muito semelhante à teoria na qual se fundamenta o irimi e o tenkan do aikido. Entretanto, a questão que prevalece - e isto é alguma coisa que ainda não me tornei capaz de fazer completamente - é se em aikido estamos passando para a dimensão do ainuke sem antes passar pela do aiuchi. E se assim for, está mesmo OK fazer isso? Isto faz com que se pense a respeito de muitas coisas diferentes.

Quando duas existências - dois seres humanos - se encontram, só quando esse encontro acontece integralmente entre seus corpos e espíritos é que nasce a oportunidade de harmonia, no verdadeiro sentido da palavra. É preciso dar mais importância a isto. Do contrário, o dojo corre perigo de degenerar em algo mais parecido com uma escola na qual se ensina algum tipo de "método de viver", uma forma passiva, comprometida com o ajuste de si mesmo à própria filosofia e princípios, para apenas sobreviver físicamente no mundo. É um assunto difícil, um problema para a vida inteira.

AIKIDO JOURNAL: ESTA É UMA ÉPOCA OPORTUNA PARA PENSAR A RESPEITO DO BUDO, NÃO É?

CHIBA SENSEI: Sim, mas por outro lado, meu maior temor é quando aquelas pessoas excluídas do budo tradicional encontram um caminho no aikido e começam a pensar que somente sua própria maneira de praticar é a forma real ou correta. Elas se esquecem do rigor necessário ao treinamento, rejeitando-o como uma parte não integrante do budo. Há algumas pessoas que pensam assim, mas penso que a posição delas é equivocada, na qual as folhas e os galhos se confundem com a raiz original. Pode ser muito prejudicial para o aikido se folhas e galhos forem o centro. Se isto acontecer, o aikido poderia dar um grande passo na direção errada.

É claro que também é importante conservar em mente que se as folhas e os galhos murcham e morrem, também as raízes o farão. Assim, temos que pensar no aikido como um organismo vivo e completo, levando em consideração a harmonia geral e o desenvolvimento de seus vários aspectos.

Penso que fatos sobre como ou por quê O Sensei criou o aikido devem corresponder à nossa própria busca da arte. Continuando com a metáfora da árvore, mais do que simplesmente colher os frutos da árvore que O Sensei criou, devemos passar por dentro das folhas, através dos galhos e descer pelo tronco para dentro das raízes. Temos que ir a essa fonte, do contrário, não poderemos conhecer o processo que levou O Sensei a estas conclusões. Para tornar o aikido real para nós mesmos, acho que precisamos mergulhar o mais profundamente possível na experiência de O Sensei , tanto interior quanto técnica, a despeito da dificuldade e de não possuirmos o seu grau de habilidade.

Acho que aquilo que chamaríamos de budo "completo" não existe realmente. (Pode-se dizer o mesmo da filosofia ou religião, ou, sem dúvida, de qualquer construção humana.) "A realização do meu budo", em outras palavras, a completude em um nível individual , pessoal, é o que existe. O Sensei realizou o seu próprio budo, mas aquele não é o meu budo.

Da mesma forma, não posso simplesmente dar ou transferir o meu budo para os meus alunos. No máximo, posso convidá-los a participarem da minha experiência para que usem-na como um guia para relizar o seu próprio budo. Nesse sentido, o budo é mesmo uma busca solitária para todos os envolvidos, porque você não pode aprender tudo o que o seu professor conquistou. Os vários aspectos do budo simplesmente não surgem para você exatamente como surgiram para o seu professor.

Isto não quer dizer, é claro, que não haja a necessidade de se estabelecer metodologias básicas de ensino contendo teorias, doutrinas , métodos de treinamento e assim por diante.

Em budo existem três estágios - shu (proteger/manter/observar), ha (romper/quebrar), e ri (separar/libertar-se). No estágio shu você assimila o que seu professor tem para oferecer e permanece absolutamente obediente. Assertividade, criatividade e idéias independentes da sua parte são absolutamente proibidas durante esses anos, não importando quanto tempo dure. Você deve seguir exatamente aquilo que está sendo ensinado, sem quaisquer interferências próprias. Isto se refere, com frequência, a uma forma de "auto-negação". Não importa quanto você aprenda, continua a ser a arte do seu pofessor e não a sua própria.

Assim, você precisa do próximo estágio, ha, ou libertar-se daquilo que aprendeu. Assim fazendo, a entidade chamada de seu "eu" entra em cena. É uma forma de criatividade, e como tal, representa a sua auto-afirmação. Durante este estágio, você descobre suas próprias características pessoais, sua própria personalidade; em outras palavras, "quem é você". Você começa a classificar tudo o que aprendeu, selecionando e digerindo aquilo de que precisa para criar e realizar alguma coisa que seja própriamente sua. Mas isto não é o fim, pois este tipo de auto-afirmação existe inicialmente como uma negação de um "outro"; em outras palavras, é apenas relativo àquilo com o que rompeu. Você deve superar também este estágio.

Ri é o terceiro estágio. Negando-se a si próprio no primeiro (shu) , afirmando-se no segundo(ha), no terceiro (ri), você deve negar até mesmo essa auto afirmação. Ri permite a você abandonar a relatividade que o limitava nos dois estágios anteriores e se torna um portal para a universalidade ou a completude.

Em termos técnicos, shu é um tempo de maestria , na qual você domina grande parte do repertório técnico da arte; ha oferece uma oportunidade de pesquisar e aplicar estas técnicas, e Ri é a realização de alguma coisa que é própriamente sua.

Em termos de estado mental ou espiritual, shu é a negação do "self"; ha é a sua afirmação e ri é a transcendência e a superação da dualidade "Eu-Outro" e uma libertação da obsessão pelo detalhe. Tudo isto se entrecruza e entrelaça.

Atualmente parece faltar ao aikido o elemento shu, e acho que isto poderá causar problemas no futuro. Penso que um treinamento no budo que não passe por um estágio de auto-negação pode ser arriscado para o praticante. O treinamento austero , rigoroso que permite experimentar a auto-negação é essencial. Passando por ele, chega-se naturalmente ao estágio da auto-afirmação e finalmente, negando até mesmo isso , chegar ao seu verdadeiro objetivo.

Através da minha limitada experiência, tenho sido capaz de tocar uma parte deste mundo que acabei de descrever. Entretanto, do ponto de vista de alguém que não tenha realmente experimentado, estas coisas não serão mais mais do que descrições mortas ou mecânicas.. Até mesmo algo como o conceito de shu-ha-ri, por exemplo, se torna absurdamente obscuro se você tentar captá-lo através de alguma fórmula intelectual definida. O Shu-ha-ri e o processo que estes termos descrevem, têm os aspectos de uma dialética. Na realidade, a existência positivada pelo aikido guarda similaridade com o pensamento existencialista (a existência precede a essência), que floresceu no começo do século dezenove.

A característica marcantemente moderna do Aikido é que ao invés das conceituações contidas no budo definirem as pessoas, é a natureza da existência pessoal que dá ao budo uma definição, iluminando-o novamente, conferindo-lhe um frescor renovado e respeitando a praticidade e a liberdade autônoma. Naturalmente, isto intensifica o ceticismo e estimula a pesquisa. E, no sentido de que não há oferta de um "produto final" nem de um guia para orientar a perspectiva, aos praticantes do budo não resta alternativa a não ser estarem agudamente conscientes da instabilidade das suas condições. Um passo em falso e arrisca-se a cair no reino da ideologia e do dogmatismo e da influência prejudicial que acompanha a auto satisfação. Assim, para evitar isto, acho que o rigor e a disciplina estrita devem ser partes integrantes do treinamento em budo.

O treinamento em aikido implica em prática repetitiva das formas durante longos anos , de modo a estabelecer uma base a partir da qual se crie alguma coisa própria a final. Assim, é importante insistir em pensar sobre a forma de realizar isso dentro das condições apresentadas pelo treinamento. Tome o kata, ou formas pré-estabelecidas , por exemplo. Por uma questão de forma, estabelecemos um relacionamento contrastante na qual tori é ativo e uke é passivo, mas no sentido de que cada um está treinando a capacidade de se entregar, não há, essencialmente, diferença entre os dois. Isto pode ser ampliado para incluir os vários aspectos aparentemente contraditórios da própria vida - vida e morte, juventude e velhice, saúde e enfermidade, felicidade e tristeza, vencer e perder, sucesso e fracasso - e como tal, tem profunda importância como instrumento de condução da vida.

A natureza original e essencial do budo, que está íntimamente ligada com o Eu e o Outro e pairando no limite entre a vida e a morte, chega inevitávelmente à irracionalidade da existência. No entanto, dentro desta irracionalidade está embutida uma oportunidade de despertar para a fonte da liberdade individual . O zen e o budo encontram uma afinidade entre si, na qual ambos têm sua origem no reconhecimento da irracionalidade da vida, embora abordem o problema de ângulos diferentes.

Mesmo dentro do Budismo, o zen em particular se dedica exclusivamente a fugir das ideologias e dogmas para atingir diretamente a natureza da existência. Assim, ele é muito prático, tanto quanto é existencial. Por esta razão, o zen influenciou significativamente a espiritualidade da classe guerreira no Japão desde o período Kamakura, sendo natural que se tornasse a carne e o sangue das suas artes marciais e, como você pode ver, está presente ainda hoje.

A propósito, mais do que comparar o zen e o budo individualmente, gostaria que ao invés disso, as pessoas olhassem para o espírito japonês subjacente a eles . Este espírito incorporou elementos como o Zen e o budo, bem como os pensamentos Confucionista, Taoísta e Shintoísta, polindo-os para que cada um exibisse o seu brilho particular, nutrindo-os e permitindo que se infiltrassem uns nos outros para formar uma totalidade maravilhosamente harmoniosa.

De qualquer forma, para voltar ao meu ponto, suspeito de que tudo o que acontece no dojo - lançar ou ser lançado, por exemplo, ou o aparente vencer e perder durante o tachiai (usado para substitutir as competições reais) - é mais representativo em seu significado. Na verdade, o problema essencial a ser tratado é a resposta individual às várias condições com as quais as pessoas se defrontam. Assim como sugere o ditado "vencer na derrota" (makete katsu), conceitos do mundo dos fenômenos tais como superioridade e inferioridade ou vencer e perder não são tão importantes.

Surpreendentemente, as pessoas que de fato chegaram a esse estado de compreensão parecem ver a morte como uma mera ocorrência fenomênica. Tome, por exemplo, o chinês Bukko, um sacerdote zen que viveu durante a Dinastia Sung Meridional [1127-1279 d.c.]. Ele foi convidado pelo Kamakura bakufu (shogunato) e passou o restante dos seus dias no Japão. A certa altura, viu-se envolvido no conflito mongol e foi capturado. Estava prestes a ser executado quando compôs um poema no estilo chinês contendo a famosa estrofe "Denko eiri shumpu wo kiru", que pode ser interpretada como "Mesmo que você me decapite, não será maior o efeito do que golpear a brisa primaveril que sussurra agora por estes campos." Aparentemente, Tesshu Yamaoka batizou seu dojo de Shunpukan ( Salão da Brisa Primaveril ) depois desta passagem. Faz bem para a alma, você não acha ?

Os pensadores existencialistas europeus do século dezenove, de Kierkegaard e Nietzche a Jaspers, Heidegger e Sartre (que finalmente chegou ao existencialismo ateu), todos vasculharam das regiões da existência/ser ao abismo do nada absoluto. Pode-se estabelecer um paralelo entre as suas obras e o pensamento Zen, que durante milhares de anos também aperfeiçoou a capacidade de responder à irracionalidade da existência. O fato de terem emergido de contextos culturais completamente diferentes sugere uma comunhão em uma região muito profunda do espírito humano.

É claro que ambas as civilizações se distinguem uma da outra em outros aspectos. O pensamento oriental, por exemplo, é permeado pela idéia da unidade da mente e do corpo, que não é tão frequentemente encontrada no pensamento ocidental. Isto é evidente em tradições orientais, tais como a ioga hindu, as práticas mágicas do Taoísmo Chinês, as artes marciais chinesas, o misogi e outras práticas rituais de purificação no Shintoísmo e Budismo japoneses, meditação zazen e no budo japonês, que incorporou elementos de tudo isto.

Em contraste, o pensamento ocidental me parece ser essencialmente dualista. Demonstra pouca unidade entre a atividade espiritual e física, colocando-a mais na região da pura especulação. Acho que esta é uma diferença óbvia entre o pensamento oriental e o ocidental. Um exemplo claro das diferenças entre entre estes dois estilos de pensamento pode ser visto, por exemplo, no contraste entre a escultura de Rodin " O pensador" e a escultura no Templo Koryu em Kyoto de um Bosatsu (Bodhisattva) semi-sentado, que dizem representar o príncipe Siddharta antes de atingir o estado de Buda. A diferença nas abordagens para a reflexão é muito evidente quando se comparam as duas.

Por favor, não me compreenda mal ao pensar que estou sugerindo que o modo oriental seja superior. Afinal de contas, desde o início da Revolução Industrial em 1770, a abordagem puramente especulativa do Ocidente construiu as bases das ciências aplicadas que fundamentam inteiramente o nosso estilo de vida moderno. Do ponto de vista da história humana, agora, mais do que nunca, há uma necessidade crescente de integrar os dois pensamentos.

Esta é mais uma razão pela qual precisamos considerar sériamente o modo de tratar a divulgação e o desenvolvimento do Aikido e suas características especiais como uma forma de unificação mente-corpo, nascida do budo tradicional japonês, de forma que ele possa ser transmitido corretamente às pessoas de todo o mundo. Me preocupa pensar que, caso não realizemos essa divulgação adequadamente, o aikido irá acabar sem raízes ou folhas.

O mesmo pode ser dito de todo o budo tradicional japonês. Com toda a honestidade, penso que se o objetivo for simplesmente o de preencher a demanda por atividade física da vida moderna, então não haveria uma real necessidade pelo budo. Os esportes e outras atividades afins serviriam muito bem. Mas o budo tem qualidades que vão além da mera atividade física, para oferecer contribuições à sociedade e eu acredito que precisamos pensar mais sériamente a respeito disto.

Acho que o budo japonês, incluindo o Aikido, tem um enorme potencial latente para controlar o colapso gradual da nossa liberdade autônoma. Esta liberdade vem sendo solapada pela multiplicidade de contradições trazidas pelo materialismo das nossas sociedades capitalistas, por uma ideologia de supremacia econômica e pela excessiva devoção pelo racionalismo. O Budo oferece um meio para que as pessoas principiem seu retorno à fonte da liberdade autônoma, portanto acho que precisamos começar a reavaliá-la e a reconstruí-la com este pensamento em mente.

AIKIDO JOURNAL: Sensei, muito obrigado por suas valiosas opiniões.

Breve biografia de Kazuo Chiba:

Nascido em 1940 em Tokyo, 8o. Dan, Shihan do Aikikai e instrutor profissional de aikido em tempo integral . Entrou para o Aikikai Hombu Dojo como uchideshi em 1958. Em 1966 , mudou-se para o Reino Unido e fundou o Aikikai da Grã-Bretanha. Retornando ao Japão em 1976, assumiu o posto de secretário do Aikikai Hombu Dojo, Divisão Internacional e desempenhou um papel ativo na criação da Federação Internacional de Aikido. Em 1981, Chiba mudou-se para San Diego, onde hoje dirige o San Diego Aikikai e supervisiona as atividades da Federação de Aikido dos Estados Unidos, Divisão Oeste.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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