Entrevista com Wagner Bull Sensei pela Aikido Today Magazine - traduzida
TRADUÇÃO: Ricardo(Betta), Instituto Takemussu Juiz Fora










Sensei Wagner Bull é dirigente da Brasil Aikikai e Instrutor chefe do Instituto Takemussu em São Paulo, Brasil.





Sensei, qual é a sua base histórica no Aikido? Quando foi a primeira vez que o senhor entrou em contato com a arte?

Eu comecei praticando Aikido em março de 1969 sob a direção do Sensei Jorge Dirceu Van Zuit, um Nidan, em Curitiba. Então eu mudei para São Paulo e treinei com o Sensei Keizen Ono até 1983. Mais tarde, eu conheci Ueno Massanao, um sacerdote shintoista que abriu meus olhos para a ligação do Shintoísmo com o Aikido.
Em 1987, eu iniciei o Instituto Takemussu para ensinar Aikido como uma arte marcial e como uma forma de vida. Também, eu quis de alguma maneira começar a ensinar Shintoísmo, o adaptando ao pensamento ocidental.
Porque eu uso os termos "Takemussu" no nome da minha escola, as pessoas as vezes me perguntam se eu sigo Sensei Saito. Não, eu não sigo. Quando eu comecei a treinar sob a orientação do Sensei Yamada, eu perguntei a ele se eu poderia continuar praticando Aikido como uma espécie de Shinto Missogui (purificação). " Existem muitas razões para treinar Aikido". Ele disse "Faça o que desejar". Então, na minha prática de Aikido, eu continuo tentando seguir a "Forma do Takemussu", praticando o Aikido como uma maneira para sentir as presenças dos Kami.

Por favor diga as três influências mais importantes em seu Aikido.
A primeira foi a do meu professor inicial Jorge Van Zuit, que me ensinou eficientes técnicas de auto defesa. Ele era um policial, um tenente. Por causa dele eu comecei a acreditar que com um treinamento rigoroso em Aikido, eu poderia me tornar muito forte.
O segundo foi Ueno Massanao, um sacerdote Shintoísta que ensinou a ligação do Shinto com o Aikido. Com ele, eu aprendi Kokyu Ryoku que tornou minhas técnicas mais fortes, e diminuiu minha dependência da força muscular.Por causa dele, eu vim a entender a filosofia e a espiritualidade do Aikido. Aquilo fez eu me apaixonar pela arte e tentar arrebatar o conceito daquilo que não estava com a minha intuição. Com o Sensei, eu pude ver que o Aikido foi um caminho a seguir no meu dia a dia, um tipo de devoção.
A terceira maior influência em mim tem sido Sensei Yamada [do New York, Aikikai], um aluno direto de O-Sensei que ensinou os movimentos do Aikido corretamente, os muitos detalhes técnicos escondidos. Sensei Yamada confiou em mim e me deu o suporte político internacional que precisava para desenvolver as organizações que eu lidero, Aikido Takemussu e a confederação Brasileira de Aikido, a "Brasil Aikikai". Antes do Sensei Yamada, minhas técnicas eram fortes, mas duras com movimentos "quadrados". Sensei Yamada me ensinou como me movimentar e também o Uke numa maneira mais suave e circular. Sua forma circular e completamente estendida mudaram a minha maneira de ver o Kata.

O que o levou a iniciar seu estudo do Aikido?
Eu era magro, tímido e tinha medo de outras pessoas. Por isso eu decidi praticar alguma coisa que me deixasse forte e me desse confiança. Eu pratiquei, Karate e Boxe antes do Aikido.
Um dia um colega de quarto me disse que alguém por ali estava ensinando uma arte marcial japonesa muito diferente. Eu fui conferir e desde então, eu tenho estado em contato diário com a arte.

Qual foi a sua impressão?
O Aikido parecia ter muitos segredos. Parecia permitir a uma pessoa manusear a outra facilmente, sem usar força mesmo sendo alguém mais forte. Isto parecia uma grande coisa para mim a primeira vez que vi. Claro que não tinha idéia naquela época de que este seria o caminho que eu seguiria na minha vida. Eu tento imaginar aonde estaria hoje se não tivesse ido ver o que era o Aikido.

No que o Aikido difere agora da época que o senhor o viu pela primeira vez?
O Aikido tem se tornado mais popular hoje, e está mais fácil de se encontrar dojo. Além disso, está mais fácil de se encontrar livros e vídeos. Quando eu comecei a praticar, eu só consegui encontrar o último livro de Aikido de Doshu Kisshomaru, alguns filmes super-8 do Sensei Saito, uns poucos livros do Sensei Saito, e uns poucos livros do Sensei Koichi Tohei - e todos eram muito caros. Hoje eu tenho mais de 300 livros de Aikido em minha biblioteca particular e por volta de 400 fitas de vídeo de Mestres do Aikido. Eu mesmo já escrevi três livros de Aikido e traduzi o último de Doshu Kisshomaru O Espírito do Aikido para o português.
Quando eu comecei, isto foi no final dos anos 60, não havia nenhum estudante de O-Sensei na América do Sul. Não havia nem mesmo alguns professores que tivessem treinado no [Aikikai] Hombu Dojo. Por mais de 10 anos, eu tive que ser autodidata. Naquela época, professores no Brasil tinham um conhecimento muito pobre da arte. Hoje, eu sinto que posso ensinar em 5 anos o que levei 30 anos para aprender.
Hoje, aqui no Brasil e em muitos outros países, você pode aprender bem Aikido se você estiver realmente interessado. Durante meus primeiros anos, as coisas eram muito mais difíceis.

Alguns dos Seminários promovidos pelo Instituto Takemussu, a "Brasil Aikikai", tem atraído mais de 700 participantes. O que leva a esse sucesso?
Importantes Shihan não visitam o Brasil tão freqüentemente como eles visitam os Estados Unidos ou a Europa. Por isso, quando eles vêm, há sempre grande interesse.
Eu conheci Sensei Yamada em Nova York em 1988. Ele me aceitou como seu aluno e, desde então, eu estive sob sua direção.
Para ser honesto, eu fiquei surpreso com Sensei Yamada. Ele me ensinou suas técnicas maravilhosas, me deu total apoio, me colocou em contato com o Hombu Dojo, e me deixou livre para praticar Aikido com influência Shintoísta. Depois de muitos anos de organizações ditatoriais e partidárias aqui no Brasil, apareceu de repente em minha vida um Shihan democrata e tolerante. Ele sempre me deu muita liberdade, e eu o respeito muito por isso.
Sensei Yamada é um líder dos líderes. É por isso que ele tem tantos estudantes. Ele respeita a natureza das pessoas e seus desejos.

O senhor sempre viaja para o exterior para participar de seminários e encontros internacionais de Aikido. Quais a suas impressões sobre os diferentes estilos de Aikido praticado ao redor do mundo? Eles são mais espiritualmente orientados, mais marcialmente orientados, ou são basicamente o mesmo?
Todos eles tem uma coisa principal em comum. O amor pelo Aikido.
Obviamente, cada instrutor enfatiza o que é mais importante para ele no momento. Quando você entra em um dojo, você está estudando o Aikido peculiar de um Sensei, não simplesmente Aikido. O que nós estamos estudando hoje são visões pessoais e interpretações dos ensinamentos de O-Sensei.

A sua família está envolvida no Aikido? O senhor acha que é importante envolver as famílias dos seus estudantes com o dojo?
Eu sou casado e tenho 2 filhos. Ambos praticam Aikido. O mais velho, que tem 18 anos, já é um Nidan. Ele tem praticado desde os 3 anos de idade. Ele queria praticar. Então eu convidei as crianças da vizinhança e comecei uma turma. Meu filho Alexandre foi meu primeiro aluno.
Eu acho que é muito importante envolver a família nas atividades do dojo, porque o Aikido é uma forma de vida. Quando você começa a praticar, você começa a mudar suas atitudes e sua maneira de pensar. É importante que a família caminhe junto ou, eventualmente, conflitos podem aparecer, especialmente em relacionamentos envolvendo marido e mulher.
Eu tive sorte que meus filhos praticassem Aikido. Por outro lado eu brigava com a minha esposa todos os dias pelo fato de eu passar tantas horas fora de casa no dojo.

Como o Aikido mudou sua vida?
Minhas raízes estão na Alemanha e Itália, e ambos alemães e italianos tem guerras em suas veias.
O Aikido me ensinou a tentar harmonizar as forças ao invés de pensar em termos de ganhar ou perder. Isso me ajudou a me tornar mais calmo, mais feliz, mais pacífico, e mais equilibrado. O Aikido também me ensinou como sustentar amizades mesmo se eu discordar dos meus amigos.
Lentamente, o treinamento de Aikido tem mudado a minha atitude e a minha maneira de pensar. Dia após dia, eu sinto que estou me tornando mais tolerante, mais compassivo, e menos agitado. Claro que a idade e a experiência tem contribuído, especialmente por eu ser líder de uma organização de Aikido. Hoje em dia eu sou o líder de um grupo com mais ou menos oitenta dojo no Brasil e em outros países. Não é uma tarefa fácil, mas eu tenho aprendido muito lidando com pessoas. Eu aprendi que é importante respeitar as pessoas, mesmo se eu discordo delas. É muito difícil aceitar idéias e um comportamento diferente do seu próprio, mas essa habilidade é fundamental para um líder cuja função está mais para representar outros que para fazer com que eles façam o ele quer.

Que método o senhor usa par ensinar Aikido?
Varia de acordo com o aluno. Normalmente eu começo ensinando a noção do centro, o Seika no itemi. Eu ensino as pessoas a relaxar. Eu tento ensinar as pessoas como passar a força do centro delas para a dos parceiros. Então eu ensino Ukemi e Kusushi, tirando o equilíbrio do Uke. Depois, eu ensino Mussubi (união) e Kokyu (adaptação) - como unir com o parceiro e movê-lo de maneira circular. Controlando o centro dele. Em todas essas fases de ensinamento, eu chamo a atenção do aluno para a importância de não deixar Tsuki (aberturas) lembrando que o Aikido é um Budo. Eu não ensino essas coisas separadamente, mas a ênfase segue a ordem que eu descrevi. Eu também ensino movimento de Bokken Suburi, especialmente o corte de Shomen. Eu acredito que a prática de Bokken ajuda os iniciantes a sentirem a linha central e entender como desenvolver o poder do Hara.
A todo momento eu tento mostrar aos alunos a ligação dos movimentos com as suas vidas diárias, mostrando que Waza é uma metáfora para as situações da vida . Conflitos na vida são inevitáveis, mas é sempre possível tirar resultado positivo e construtivo.
Além disso, em todas as aulas eu digo às pessoas que a razão principal para a prática do Aikido é purificar nossos corpos, emoções e mentes em razão de produzir Missogui. Desta forma, eles podem entrar em sintonia com a natureza, ou Deus.

Quais são as qualidades necessárias para um bom instrutor? O que o senhor considera ser uma boa aula?
Um bom instrutor deve ser sincero e honesto com seus alunos e especialmente com ele mesmo.
Um bom instrutor deve sempre continuar praticando, tentando desenvolver e crescer junto com seus alunos.
Um bom instrutor deve encontrar o prazer de ensinar.
Além disso, um bom instrutor nunca pode ver seus alunos como clientes. Mensalidades sempre devem ser contribuições que os alunos dão em gratidão pelos ensinamentos. Um instrutor não pode vender técnicas, mas deve concede-las àqueles que as mereçam. Tudo bem em ganhar dinheiro ensinando mas a arte não pode ser prostituída. No dojo, a posição que o aluno alcança deve ser aquela que ele ou ela tenha conquistado no tatame através de treinamento árduo. A posição ou títulos que alunos tenham fora do dojo não podem ser considerados pelo instrutor de nenhuma forma.

O senhor alguma vez precisou usar o Aikido em algum conflito em sua vida diária?
Eu uso o tempo todo, espiritualmente e mentalmente, eu também já usei em ataques físicos em umas três ou quatro vezes em minha vida. Eu tenho sempre lidado com as situações sem problemas. Uma coisa interessante é que quando fui atacado fisicamente, eu não usei o Aikido Waza tradicional. Cada vez que usei o Aikido como auto defesa, eu fiz algo criado no calor do momento.

O que o senhor vê como o futuro do Aikido?
Infelizmente, existem muitas pessoas negligenciando o aspecto marcial do Aikido, enquanto outros estão negligenciando a sua parte religiosa. Esses são erros imensos. Como o Fundador o idealizava, o Aikido é uma religião, uma forma de vida, que usa uma arte marcial como ferramenta para alcançar uma iluminação, a harmonia e a felicidade.
Pelo mundo, eu tenho visto muitas pessoas praticando Aikido como um tipo de dança, desconhecendo existir uma filosofia por trás dos movimentos. Enquanto a idéia de Missogui, Kokyu , Shugyo, Masakatsu, Agatsu, Kokoro, Zanshin e Mussubi são fundamentais para o Aikido muitas pessoas não sabem nem mesmo traduzir estes termos para sua língua. Então como essas pessoas podem amar o Aikido pelos resto de suas vidas e fazer a arte crescer onde elas moram? As pessoas vão fazer isso só pelos movimentos, pela saúde, ou pela diversão? Eu acho que não! É importante que aqueles que estão encarregados de ensinar estudem e aprendam as raízes técnicas e espirituais do Aikido. Dessa maneira, as pessoas podem estudar isso pela suas vidas. Na minha visão, o vigor da técnica, o ensinamento da filosofia Aiki, e a reverência pela religião devem estar presentes em todas as aulas de Aikido, se nós quisermos manter o Aikido crescendo no futuro.
O futuro do Aikido vai depender do que os professores fizerem para que os alunos entendam a grandeza da arte. Eu acho que estou fazendo a minha parte no Brasil. Eu tenho praticado nos últimos 31 anos, eu já escrevi 3 livros de Aikido, repetindo o que os grandes mestre disseram em seus livros e aulas, e eu traduzi o livro de Doshu Kisshomaru para o Português. Eu escrevo constantemente para os jornais e revistas. Ano após ano, eu graduo instrutores e encorajo os meus alunos a abrirem dojo.

Que conselhos o senhor daria aos iniciantes que estão começando no Aikido?
Eu os aconselharia a sempre manter o sentimento de ser um iniciante. O iniciante não deve pensar que entende 100% de algo. É impossível até para um mestre. Só o Kami (Deus), é perfeito e, na maneira japonesa de pensar até um Kami pode errar.
Outra coisa importante é seguir o seu Sensei. Como diz o velho ditado, "escolha o seu professor cuidadosamente, e então ,o siga com todo o seu coração".

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