ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista do Sensei Donovan Waite à Revista Aikido Today

(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro - Sorocaba).

ATM - Sensei, quando voce se iniciou no Aikido?
Sensei Donovam Waite - Foi na Inglaterra, quando eu tinha uns oito anos de idade. O professor de educação física dava aulas de judo após as aulas, para crianças que estivessem interessadas em treinar um pouco de artes marciais. Eu gostei --- fazer rolamentos e aprender a cair. Quatro ou cinco de nós éramos alunos sérios, e o professor nos levou a um dojo na ACM (Associação Cristã de Moços), em Birmingham, onde poderíamos começar a praticar com outras crianças.

Um dojo de judo?
Sim, na verdade era. Mas todas as artes marciais usavam o mesmo salão. E, para mim, naquela época, todas as artes marciais pareciam ser a mesma coisa; eu não prestava atenção nas diferenças. Um dia, minha mãe se atrasou para vir me buscar. Eu tinha que ficar esperando sentado depois da aula. Algumas pessoas passaram por mim usando seus hakamas. "Porque eles estão usando essas saias?", pensei. Perguntei a um deles se eu poderia assistir, e ele me disse que poderia. Uma mulher estava dando aula. Fiquei impressionado pela maneira que ela movia garotos enormes como se fossem uma pluma. Na época, eu tinha uns oito anos e meio, e estava praticando judo há um ano, mais ou menos.

Voce acreditou no que estava vendo?
Na verdade, não. Eu era uma criança muito céptica. Antes que pudesse ver por muito tempo, minha mãe chegou e tive que ir. Não voltei a pensar no tinha vista até meses depois, quando minha mãe se atrasou novamente. Mais uma vez, eu assisti a aula de Aikido. Dessa vez, um homem estava ensinando--- Ralph Reynolds. Depois dos aquecimentos, ele começou a arremessar duas ou três pessoas enquanto explicava algumas coisas ao mesmo tempo. Eu disse a mim mesmo, "Oh, meu Deus, eu quero tentar fazer isso e ver o que acontece". Pedi a minha mãe se eu poderia ficar até mais tarde na semana seguinte para tentar fazer uma aula de Aikido, e ela concordou.

A aula era para alunos de níveis avançados?
Não, era misturada. Naquela época, a maioria dos alunos usava hakama. No início, o que me motivava era que eu conseguiria usar hakama. Eu achava eles o máximo. Mas, assim que comecei, entendi que havia muito mais no Aikido do que parecia. Eu estava intrigado pela graça dos movimentos, o quanto não exigia força. Eu pensava que o Aikido seria fácil porque parecia fácil, entendeu? Mas, tentei e vi que não era tão fácil.

Quem era o instrutor nas aulas que voce fazia?
Ralph Reynolds. Ralph pensava que o Aikido era muito complicado para crianças pequenas. Mas, quando eu pedi para me juntar a classe, ele disse "Bem, tudo bem, venha". Eu amava ser arremessado; eu caía e logo estava de pé novamente, e ele me atirava para o chão mais um pouco. Para mim, esta era a parte mais divertida. Mais tarde, aprendendo as técnicas foi tão divertido quanto cair. Eu queria fazê-las do modo que ele as fazia --- fácil e relaxado, com grande fluidez de movimento. Haviam quatro ou cinco de nós que começamos juntos com Ralph, mais ou menos com a mesma idade. Os outros acabaram desistindo de continuar. Então, quando eu tinha uns 15 ou 16 anos, eu ainda era a pessoa mais jovem do dojo.

Quando voce começou a praticar Aikido, voce parou com judo?
Eu continuei a fazer judo duas vezes por semana, até os 14 ou 15 anos.

Quando voce conseguiu a faixa preta de Aikido?
Eu acho que consegui meu shodan antes do meu aniversário de 14 anos. Foi como um presente de aniversário. Nessa época, o Sensei Chiba estava na Inglaterra.

O seu professor era filiado com ele?
Eles estiveram juntos por algum tempo, mas depois se separaram. O Sensei Chiba começou uma federação e Ralph começou outra.

E quando voce estava com o Sensei Reynolds...
Eles ainda estavam juntos. Ainda havia comunicação. Mas eu acho que estavam quase se separando. Quando eles se separaram, Ralph insistiu duramente que ele não queria que ninguém praticasse de maneira diferente o que ele estava fazendo. Mas eu queria estudar com Sensei Chiba também --- e estudei. Eu ia a outros dojos, mesmo naquela idade. Eu viajava para Londres para treinar.

Seu instrutor não se importou?
Sim, mas ele não me impediu. Eu ainda era leal. Era importante ser leal a ele por ter me dado o início, o primeiro passo. (Alguns outros acabaram saindo e indo para o Sensei Chiba).

Quando voce foi para Londres, voce via outros professores, além do Sensei Chiba?
Sim, encontrei o Sensei Tamura, quando ele veio à Inglaterra pela primeira vez. Depois disso, quando eu soube que ele estava perto, na França, eu tentava viajar par vê-lo. Eu ficava alguns dias ou fins de semana.

Sensei Tamura ensinava de maneira diferente do que voce estava acostumado?
Sim, muito. Os princípios eram os mesmos, mas era muito duro ver o que ele estava fazendo. Ele era tão preciso, que ele te atraía para dentro. Fiquei muito impressionado por sua graça e eficiência. A sutileza do treino do Sensei Tamura, contrastava com os treinos mais físicos e dinâmicos que tive com Sensei Chiba e Ralph.

Voce treinou com algum outro Shihan que não fosse o Sensei Chiba e o Sensei Tamura?
Mais tarde, encontrei o Sensei Saito, quando ele veio para a Inglaterra. O Sensei Saito abriu meus olhos para a maneira que os treinos com armas podem influenciar seus movimentos corporais.

Então, voce encontrou vários mestres diferentes?
Sim. Foi interessante que, mesmo eles vindo do mesmo lugar, eram muito diferentes entre eles. As diferenças vinham desde às suas personalidades, suas atitudes, a percepção do que o Aikido é. As idéias básicas e técnicas eram as mesmas.

Eventualmente, voce mudou de Birmingham, Inglaterra, para Nova Iorque. Porque?
O Aikido estava se tornando político demais. Eu tentei o mais que pude ficar fora desse tipo de coisa. Eu tinha 17 anos na época e tudo o que eu queria fazer era treinar, mas eu estava ficando muito frustrado. Essa é uma das razões por eu ter ido e voltado sempre para a França para ver o Sensei Tamura. Mas, nessa época, com trabalho e escola, eu não conseguia sair o tanto quanto eu queria. Um dia, eu estava na França falando com o Sensei Tamura sobre as várias facções que estavam se formando na Inglaterra. Eu disse que estava interessado em ir mais sério no Aikido --- que eu queria fazê-lo em período integral. Ele disse, "Porque voce não entra em contato com o Sensei Yamada?". Eu tinha acabado de ler o livro do Sensei Yamada. Gostei de sua postura, seus movimentos, sua extensão --- a forma de sua técnica. Também, minha mãe havia se mudado para os Estados Unidos há alguns anos atrás. Por isso, quando Sensei Tamura me sugeriu a entrar em contato com o Sensei Yamada, eu decidi fazê-lo. Quando cheguei em Nova Iorque, visitei o New York Aikikai. Sensei Yamada não estava lá, estava viajando, mas gostei da atmosfera energética do dojo. A atitude durante os treinos era boa. Fiquei em Nova York por uns seis meses, daí tive que retornar à Inglaterra. Voltei a Nova Iorque uns quatro meses depois. O Sensei Yamada estava lá mas tinha agendado uma viagem --- para a Inglaterra!! Retornei para casa e encontrei-me com o Sensei Yamada em Wales (Gales). Quando o vi dando uma aula, pensei, "Essa é a pessoa com quem eu quero estudar!! Eu realmente posso aprender com essa pessoa!". Fiquei com ele em Gales. Tomamos alguns drinks juntos, muito divertido. Fui Uke dele. Mais tarde, perguntei a ele se ele tinha lugar para mais um deshi no Aikikai. Me disse que no momento já havia alguém vivendo lá, e disse que, se eu mantivesse contato, ele me avisaria quando haveria uma vaga. Mais ou menos um mês depois, eu recebi uma carta dele dizendo que, se eu ainda estivesse interessado em ser um deshi, ele estaria feliz em me receber. Nem perdi tempo, quatro dias depois eu já havia empacotado minhas coisas ido para Nova Iorque. Nessa época eu estava dando aulas num dojo com alguns amigos, eles ensinavam Karate e Judo e eu ensinava Aikido. Todos ficaram desapontados com minha saída, mas eu sentia que, se eu não agarrasse essa oportunidade, eu poderia não vir a ter outra. Não me arrependo de me mudar. As vezes eu penso que deveria ter feito isso antes.

E quantos anos voce tinha então?
Uns 24 anos, e o ano era 1984.

Aqui na ATM (Aikido Today Magazine), freqüentemente recebemos cartas de pessoas procurando por programas de uchi deshi. No New York Aikikai, o programa para deshi é reservado somente para as pessoas que já estão treinando há algum tempo no dojo, ou a maioria das pessoas vem de fora do dojo, como voce veio?
Acontece de ambos os modos. Nove entre dez vezes, o deshi é uma pessoa que escreveu ao Sensei --- provavelmente de um dojo de cidade pequena ou vilarejo. As pessoas pedem para ser ushi deshi por dois anos, um anos, ou só por um verão. Agora mesmo, existem seis ou sete.

O treinamento do New York Aikikai foi diferente do que voce estava acostumado?
Sim. Havia mais ênfase em como lidar com o Uke, no nível físico., Também, o treinamento que eu havia feito com Ralph (que foi muito bom), fixou sempre as técnicas básicas. Sensei Yamada elucidou todo meu básico. Ele estava sempre se movendo, nunca parado. O Sensei Yamada explicava as coisas sempre muito claramente. Ele conectou tudo para mim.

E quanto as pessoas do New York Aikikai? Eram diferentes de seus parceiros de treino da Inglaterra?
Muito diferente. Nos limites do treinamento, Sensei Yamada permitiria que eles fossem eles mesmos. Ele faria uma coisa e todos repetiriam a mesma coisa, mas com sua própria interpretação. Eles brincavam com a técnica. Eu estava acostumado com a situação na qual estudantes faziam exatamente o que o mestre demonstrava. Quando eu era novo no dojo, eu pensava, "Porque todos fazem a técnica de seu próprio jeito?", e o Sensei Yamada diria, "É bom para os alunos descobrirem seus estilos próprios".

E sobre Nova Iorque? É diferente de ....
Oh, extremamente! O clima é mais fresco e nublado. Não entendo porque vivi na Inglaterra por tanto tempo. Eu sempre era o que queria estar onde o Sol estava. É espantoso eu ter ficado lá por tanto tempo. Não me mudei para o local dos Estados que tem mais Sol. É verdade --- mas pelo menos Nova Iorque tem estações climáticas diferentes. Na Inglaterra, é basicamente o mesmo o ano todo. Tem uma semana de sol e acabou.

O ritmo de Manhattan não te incomodou?
Sim, no começo. Eu estava acostumado a um local silencioso e uma cerveja após a aula. Mas em Nova Iorque as coisas não paravam. No início, eu pensava, como é que as pessoas conseguem viver nesse ritmo. Logo quando cheguei pela primeira vez, eu achava que as pessoas em Nova Iorque tinham um jeito mal educado e grosso. Mas ao entrar no ritmo, eu senti que não era isso realmente. O ritmo os faz parecer assim. Eu observei as maneiras em que o povo de Nova Iorque interage e concluí que eles são eles mesmos. Uma vez no "modo Nova Iorque", não é assim tão ruim. As coisas abrem a noite toda e sempre há algo para fazer. Quando voltei à Inglaterra, depois de ficar em Nova Iorque por mais ou menos um ano, a Inglaterra parecia tão deprimida!!

Além de dar aulas no New York Aikikai, voce também ensina na Universidade de Nova Iorque. Quando isso começou?
Há uns dois anos atrás. Eu ensino Aikido na escola de artes dramáticas. Os alunos na escola estão estudando o que é chamado de Técnica de Meisner. A pessoa que arranjou a aula, Lorrie Peters, havia lido sobre o Aikido, e ela pensou que os princípios do Aikido se encaixariam bem com as Técnicas de Meisner.

Ela queria que os alunos aprendessem um pouco de Aikido para que pudessem fazer coreografias para cenas de lutas?
Não, ela queria que eles aprendessem Aikido como se estivessem num verdadeiro dojo. Ela me pediu para ensiná-los do mesmo modo que ensino outros alunos do dojo.

Os alunos da aula de drama quiseram saber porque estavam aprendendo Aikido?
Alguns sim, especialmente de início. Mas logo viram que isso os ajudaria a se expressarem através de seus corpos. Parecem gostar da aula, e alguns quiseram vir treinar no dojo como alunos normais.

Eu ouvi dizer que assim como os alunos de drama ficaram interessados no Aikido, voce se interessou em atuar. Isso é verdade?
Um pouco. Existem pessoas no dojo que são atores --- de teatro, em comerciais de TV, ou em novelas. Em Nova Iorque, os filmes estão sendo feitos a toda hora. Ao sair com alguns alunos de artes dramáticas, que falam muito sobre atuar, fiquei um pouco interessado.

É verdade que voce esteve num filme?
Sim, foi muito divertido. É interessante ver como os filmes são feitos.

O que o surpreendeu mais nessa experiência?
O tempo e trabalho que são necessários para se fazer uma pequena cena. Uma cena pode ser filmada várias e várias vezes. Leva muito tempo para se por as câmeras nos ângulos corretos, para se conseguir a imagem exata que o diretor está querendo. Enquanto isso se passa, o ator tem que esperar em seu camarim. Pode se passar até duas horas até que o chamem. Aí o diretor te diz o que ele quer: "Diga isso. Vá até a câmera assim. Use essa expressão."

O filme é sobre Aikido?
Bem, a pessoa que escreveu o script e produziu o filme, treina no dojo, e minha parte é atuar como um instrutor de Aikido. Mas não era um filme de arte marcial. No filme, alguém vem ao meu dojo para aprender Aikido. Ele tem um temperamento forte, acha que sabe tudo e que é maior e melhor do que todo mundo. Ele sempre está pronto para entrar numa briga. O objetivo do filme é mostrar a influência do Aikido no caráter dessa pessoa. Acho que o filme ficou muito bom. Eu tenho um vídeo dele. (Foi mostrado em Nova Iorque num festival de cinema, mas eu perdi).

Voce planeja fazer outros projetos de filmes?
Um aluno do dojo vai atuar em outro filme --- um filme mais de ação, eu suponho --- e eu estarei fazendo a coreografia para as cenas de lutas.

Com Aikido?
Sim, a pessoa que escreveu o script quer mostrar as possibilidades de autodefesa das técnicas do Aikido.

Voce foi ukê para o Sensei Yamada nos famosos vídeos "Aikido: o Poder e o Básico" (distribuídos pela ATM). Existem mais vídeos planejados nessas séries?
Planejamos fazer outro em 1996.

Ouvi dizer que voce está em um CD Rom de Artes Marciais com Sensei Sugano.
Sim. O CD das Artes Marciais. Quando os produtores fizeram o primeiro contato conosco, eles disseram que gostariam de fazer um documentário sobre as diferentes artes marciais na cidade --- um informativo que permitiria às pessoas procurar pelos diversos tipos de artes marciais e ver o que eles gostariam mais de estudar. Sensei Sugano e eu, fizemos algo imediato. Depois de termos feito, pensamos se um dia ouviríamos falar dessas pessoas novamente. Passaram-se uns dois anos e nada. Até que um aluno mostrou-me o CD Rom. Ficou muito bom!

Deixe-me voltar ao filme que voce fez. Voce diz que atuou como um instrutor de Aikido que ajuda alguém a mudar seu caráter através da prática do Aikido. Voce realmente acredita que a transformação do caráter realmente acontece no Aikido?
Sim.

Voce diria que o Aikido te transformou?
Eu tinha um pavio muito curto quando eu era mais jovem. Eu era famoso na escola por isso.

Voce se metia em brigas?
Não, mas sempre entrava em discussões e confrontos. Eu era o garoto que fazia tudo certinho na escola, sempre ajudando aos professores. Mas eu também era muito impaciente com pessoas que ficavam em meu caminho ou em minha cara. Eu acertava eles. Meus amigos costumavam dizer, "Voce está mudando porque voce pratica artes marciais", e eu negava. Mas, ao pensar nisso, percebi que era verdade.

Ensinando seus alunos, voce os vê se transformando?
Existem alguns que não entendem e nunca vão mudar. Mas, a maioria muda mesmo. Eles chegam num ponto onde eles batem de frente com uma parede de tijolos e percebem que não conseguirão ir adiante a não ser que mudem seu caráter, sua personalidade e a maneira que treinam.

Como professor de Aikido, voce se vê passivamente assistindo a essas transformações nas pessoas, ou ativamente fazendo-as acontecer?
Eu tento fazer ambos. Eu assisto e tento ajudar aos alunos quando eles tem problemas. O que faz isso uma coisa duplamente difícil é que as coisas estão sempre mudando para mim também. Eu ainda estou tentando trabalhar em meu próprio desenvolvimento. Eu posso olhar o Sensei fazendo alguma coisa na aula e de repente perceber que eu estou deixando de fazer ou esquecendo algo. De repente essa coisa se torna mais clara e muda toda a figura das coisas.

Voce fala muito bem do Sensei Yamada. Ele te ajudou a se transformar?
Ah, sim. Eu o tenho como uma figura paterna.

Voce tem viajado muito com ele?
Sim, às vezes viajamos juntos. Às vezes ele também me envia a dar seminários em dojos menores. Ele me encoraja a sair e ensinar mais, a me expor mais.

Voce viaja muito para fora dos Estados Unidos?
Si. Estive no sul da França com o Sensei --- e também viajamos para o Brasil e ao Chile. No Brasil, o espírito é muito bom. Eles são muitos entusiasmados para aprender. Por eles terem chegado aonde chegaram sem a presença de um shihan, já mostra bem o apetite deles para aprender. No Chile, Sensei José Rojo (que se iniciou no Aikido com o Sensei Tamura, na França), tem um belo dojo e alguns bons seguidores.

Voce diria que, na América do Sul, as pessoas estão na maior parte interessadas no lado físico do Aikido ou no lado espiritual?
O físico, eu acho. Eles também estão interessados no outro lado, mas no momento o foco deles parece estar voltado para o progresso da qualidade técnica do Aikido deles.

Ao voce viajar de uma cultura para outra, voce percebe que a natureza da prática do Aikido é diferente?
A cultura faz a prática ser diferente, porque sua mentalidade é diferente. Na Inglaterra, a prática era vigorosa e séria, mas (quando eu estava lá) não havia um dojo de Aikido. As aulas eram dadas em clubes como a ACM ou centros esportivos. Nos Estados Unidos existem muitos dojos, e por isso a mentalidade é diferente, as coisas são mais profissionais. Na América do Sul, o Aikido tem o aspecto profissional, mas a mentalidade lá é muito mais vibrante, energética e borbulhante do que nos Estados Unidos. A técnica do Aikido em si não parece ser diferente de cultura para cultura. Quando existem variações, elas parecem surgir das personalidades e interpretações do shihan que está na área, e não em diferenças culturais.

Deixe me mudar de assunto e perguntar a voce sobre o que voce quer para o futuro. Em dez anos, onde voce gostaria de estar?
Suponho que um dia eu gostaria de ter meu próprio dojo. Não sei onde ou quando. Quando acontecer eu vou saber. Até agora, eu não planejei a minha vida para ela ser como ele vem sendo. As coisas acabaram de se ajeitar. Algo tem me dito para fazer isso e não aquilo. Não sou um planejador. Então é difícil para mim olhar dez anos à frente.

Voce tem algum conselho para as pessoas que estão se iniciando no Aikido?
Meu conselho é para serem pacientes. Voce não aprende o Aikido da noite para o dia. Se voce quer algo do Aikido, voce tem que dedicar algo para isso. As pessoas me dizem que tenho o Dom. Pode ser. Mas eu não olho para as coisas desse modo. Eu tinha fome de Aikido e coloquei muito trabalho em cima disso. Eu tive que me ligar. Ã vezes quando eu demonstro um movimento e peço aos alunos para fazerem, eles dizem, "Oh, eu nunca vou conseguir fazer isso". E eu respondo, "Bem, quando eu comecei, eu também não conseguia fazer isso. Eu tive que aprender, dar tempo, treinar." Quando as pessoas vêem alguém como voce, que é um adepto, expert, em Aikido, eles às vezes dizem a si mesmos, "Aposto que ele nunca machucou o joelho ou o ombro como eu". Bem, eu tive minhas contusões: fraturei meu pescoço, torci os ligamentos do joelho, e alguns rompimentos. Eu não me cuidava quando era jovem. Hoje estou tentando ser mais cuidadoso, mais sensato. Eu tiro um dia de folga. No passado, não se cogitava eu tirar um dia de folga das aulas.

Voce acha importante que as pessoas treinem todos os dias?
Sim, todos os dias --- mas em intensidades diferentes. Não devemos vir ao dojo todos os dias querendo dar o máximo que podemos. Existem diferentes aspectos de treinamento. Um dia treine vigorosamente, no outro dia treine cuidadosamente, com um iniciante, e no próximo dia, trabalhe em sua fluidez. Há muito mais no Aikido do que pegar as pessoas e derrubá-las de cabeça para baixo.

Voce acabou de dar um seminário no Dojo Musubi. Voce é um membro graduado da Federação de Aikido dos Estados Unidos, e o dojo Musubi não é um dojo Federado. Mas, claramente, nós podemos praticar Aikido juntos.
Não sou ligado nas coisas políticas. Minha lealdade é para o Sensei Yamada e a Federação, mas também sou leal ao Aikido. Eu gostaria de ver o mundo todo praticando Aikido junto, trabalhando juntos. Talvez um dia isso aconteça. Treinamentos de verão são um começo. As pessoas podem ir a diferentes campos nas férias de verão, treinar com pessoas diferentes e ver professores diferentes. Não devemos nos esconder em nosso próprios cantos. Gostamos de ter visitantes no New York Aikikai. O Sensei Yamada aprecia ter visitantes --- pessoas vindo para ver como é seu dojo e treinar lá.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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