ARTIGOS E ENTREVISTAS
Tese para shodan
Por Cristina Ribeiro de Godoy

TESE PARA SHODAN











QUADRO 1







Era uma vez...



uma senhora e seu caminho.



Durante um longo trecho, ela o andou como os demais.



Momentos bons, momentos ruins. Uns compensando os outros.



Mas os olhos postos no rumo da estrada e no nexo do caminho descompensou os opostos.







Atravessou, então, um longo deserto e, já quase sem forças, encontrou um oásis.



Descansou e revigorou-se um bom tempo nesse oásis.



Nele encontrou o nexo de seu caminho e o rumo de sua estrada.



Sentiu-se refeita, renascida, desvestida de muitas peles e disposta a continuar.



Guardou o oásis no coração e começou, timidamente, a experimentar, brincar.



E, de repente, deparou-se com o Aikido.







QUADRO 2







O Aikido - Contexto inicial



Encontrei o Aikido porque estava à procura de alguma atividade física que realmente me agradasse. Já havia feito anti-ginástica, relaxamentos, alongamentos, renascimentos, etc. Gostei de todas essas atividades, mas faltava algo. Elas não me prendiam.







Fui conhecer Kung Fu. Achei interessante, mas era muito longe de minha casa e, com certeza, eu não iria conseguir manter assiduidade nos treinos. Foi então que uma amiga me convidou para conhecer uma fulana que fazia Self Healing. Ela se lembrara de mim porque sabia que a minha família é um caso de distrofia muscular progressiva. Pensei cá















comigo, ora bolas, e reclamei com o Criador: caramba, estou procurando uma atividade para mim, não para minha família.







Fui conhecer a tal fulana e levei todos os meus irmãos distróficos comigo, pois a proposta era para eles. Durante esse encontro permanecia comigo uma pergunta: e para mim?







No final da sessão, Beatriz disse, dirigindo-se a mim, seria bom para você falar com o Ricardo. Ele trabalha com Self Healing, mas faz também Aikido. Segui o conselho dela e acabei chegando aqui, meio que caída de pára quedas do 16º andar da rua de cima.







Esta é uma forma de contar meu percurso de chegada.







Há outra, um pouco mais subjetiva. Quando estava lá pela faixa azul, de repente, constatei muito surpresa: nossa, é possível que eu venha a fazer Exame para Faixa Preta. Aí uma pergunta me ocorreu: por que treino Aikido? Me pus a escrutinar, calmamente, minhas motivações e me lembrei de uma conversa esclarecedora com um rapaz, meu amigo, que, certa vez, me visitou. Dizia ele:







__ Me sinto muito pacificado e contente por ter este oásis no coração. Parece-me, no entanto, que seria talvez necessário ou quem sabe interessante transformar em ação esse sentimento tão amplo e benéfico.







Transformar em ação este sentimento ... gostei desta formulação e concordei. Mas ele não estava disposto a fazê-lo. E eu pensei, com meus botões: e eu, será?







Um ano após essa conversa, fiquei sabendo que ele morrera.



Eu já treinava Aikido.







QUADRO 3







Meu caso com o Aikido







 Primeira cena: encantamento apaixonado







































Nunca antes ouvira falar de Aikido.







Na primeira aula que observei, ouvi um vasto tatame e vi na atmosfera um nada-denso-ondulado prestes a virar alguma coisa. Gravou-se em meus tímpanos o som do kiai. Imprimiu-se em minha visão a elengantíssima postura marcial e a imagem do hakamá; e o espaço alargado dos movimentos impregnou minha respiração e ampliou minha própria referência de espaço que me cabe. O vigor e empenho no treino me deram uma medida de que aquilo sim era brincar ... à sério.







Apaixonei-me à primeira vista e a tal ponto que, em momento algum, me perguntei se ia conseguir, se era adequado para mim, se ficava bem. Estava encantada.







Iniciei os treinos às terças e quintas-feiras, com Alexandre Barros. Fiquei germinando o movimento um bom tempo, sempre no mesmo horário e nos mesmos dias.







Tudo era novidade. As regras, os gestos rituais, o temor respeitoso nutrido em relação ao Sensei Wagner, o relacionamento entre os praticantes, a deferência para com o instrutor, até mesmo fora do tatame, não me exigiram esforço muito grande para aceitá-los. Apesar















de achar um pouco engraçado, logo me adaptei e os achei bem adequados. Formavam um quadro que combinava com o enredo.







Também não tive muita dificuldade com o alongamento e aquecimento feitos no início dos treinos. Mas a aprendizagem dos rolamentos, tai sabakes e quedas, fazer o arco, manter



o arco me deram muito trabalho, muitas dores e hematomas, mas inacreditavelmente saía satisfeita dos treinos.







Desta fase inicial, guardo três percepções de grande importância:



1. Expandir o movimento – Alexandre demonstrou o que era isso de que eu não fazia a menor idéia. No primeiro momento achei que ele estava fingindo, tirando pelo da minha cara, afinal sou pequena, magrela, frágil. Como podia aquele estratagema de apenas fazer um gesto na direção ao fundo da sala e com ele bloquear/impedir a força que ele imprimia em meu braço? Mas, no fundo, senti algo. E fez uma grande diferença. Mas logo entendi que tinha que praticar, se não isso não se desenvolveria. Não fluiria normalmente como resposta. A reação é contrair.



2. Manter os três centros – Sexus, Plexus e Nexus – alinhados, durante os movimentos – Não havia uma aula em que o Alexandre não repetisse algumas vezes essa ladainha para mim. Até que, finalmente, um dia algo aconteceu. Um rearranjo, um reajuste corporal empilhou os três centros exatamente um em cima do outro. Pude sentir, com muita clareza, o movimento interno de alinhamento e o conforto orgânico de tê-los nessa formação. Logo descobri, também que é preciso treino, muito treino para manter o alinhamento na execução dos movimentos.



3. Aprender os nomes das técnicas – Puxa! Essa coisa me deu um baile e ainda dá. Será que tenho memória fraca? Sou muito velha para reter essas novidades? Coloquei a lista do kijon no painel do carro e decorei todos os nomes. Resolveu mais ou menos, porque depois tive que aprender a corresponder o nome da técnica ao movimento. Depois disso, me apareceu mais uma questão: me ponho a fazer a técnica e, de repente, me esqueço, que técnica mesmo estou fazendo?























Quando me senti apta fisicamente, comecei a freqüentar os treinos do Coronel aos domingos. Duas horas e meia de treino! Será que daria conta? Sim, dei conta. No início saía dos treinos moída, mas após algumas vezes absorvi.







Em outubro, quando houve o Seminário com Sensei Yamada, participei e pude sentir que também ali, com toda aquela gente, rolava o mesmo clima de camaradagem que tínhamos nos treinos do Alexandre e do Coronel. Por ocasião do Exame para Faixa Amarela, já tinha ido também a alguns treinos noturnos, para experimentar um treino com um instrutor que não conhecia e com outros parceiros. Após o Exame para a Faixa Amarela mudei meu horário de treino para a noite e continuei com o Coronel, aos domingos. Pouco a pouco fui me sentindo parte do dojo e do Instituto.







 Segunda cena: “amor alegria”















































Aprender Aikido é como escolher arroz. Você tem que se colocar dentro da bacia ou sobre uma toalha branca, espalhar-se e ir tirando, suavemente com as pontas dos dedos, as pedras, os marinheiros, o arroz estragado, as cascas, etc. Com uma diferença, muitos dos sentimentos, emoções, reações, etc., não podem, à bem da verdade, serem jogados fora.



















Você tem que ir mexendo essa massa interior de opostos até transformá-la em fios e depois cardar estes fios, com carinho e cuidado, pois são eles que definem a sua especificidade. E o arfar centrípeto e centrífugo dos movimentos e deslocamentos em comunhão com o parceiro de treino dá o combustível que oxigena o trabalho interno de transformação e, o externo, de aprender os princípios e as técnicas. Este é o processo de aprendizagem.







Dito assim, pode parecer que é um processo penoso. Não é, muito pelo contrário. A alegria da ação direcionada, a satisfação do esforço feito, o conforto físico e orgânico proporcionado pelo treino supera, de longe, as possíveis irritação com o outro e, principalmente, comigo mesma, a vergonha de me expor, as dificuldades pessoais, etc. Na verdade é extremamente prazeroso, apesar dos hematomas e de algumas contusões e machucaduras.







Expor-me nos exames de faixa e giu wasas ou ser exposta pelas intervenções do Sensei, no meio do tatame, são os momentos de maior desafio para mim. Nunca me acostumo. Exige sempre um esforço de superação. Um esforço de juntar-me todinha ao redor de meu próprio eixo, enganchá-lo no céu e no tatame e realizar a tarefa, observada por muitos pares de olhos. O conforto é sentir que esses olhos não só observam, mas emitem acolhimento, apoio e entusiasmo. São calorosos e receptivos.







 Terceira cena: “amor conflituado”







Dizem que o aprendiz, no início de seu caminho, é brindado com a magia do iniciante. Tudo dá certo. Tudo conspira à favor. Depois começam os testes.







Assim foi comigo também. Passei um bom tempo sem que minha vida fora do tatame interferisse na minha disponibilidade para treinar. Depois, é impressionante, as datas começaram a se encavalar e precisei ir negociando, comigo mesma, meus horários de







treino e minhas outras atividades. Ficava agastada com essas situações, sentia-me dividida e insatisfeita.







Por outro lado, as reduções e retomadas dos treinos, embora fossem melhor do que não treinar, me davam a sensação de que eu reiniciava mas não evoluía e era muito prazeroso sentir a evolução. Conseguia manter apenas um treino de base. De repente, não pude mais treinar. Os horários ficaram incompatíveis. Não consegui mais negociar.







Ao mesmo tempo, me dei conta de que perdera a minha alegria, que meus treinos se arrastavam e que eu estava desenvolvendo um sentimento de distanciamento e



alheiamento. Olhando essa situação decidi que assim não podia ser. Eu queria minha alegria de volta. Queria de volta a possibilidade de negociar, de escolher o que ia fazer e de fazer com alegria.







 Quarta cena: “amor restaurado”







Assim decidi e, de coração, pedi ajuda ao cosmos. A resposta foi imediata. Minha situação pessoal se rearranjou e pude começar a restaurar o amor conflituado. Comecei devagar, ressabiada, tateando e graças à sensibilidade do Sensei Wagner, meu esforço foi aceito.







Esse processo de restauração foi resultante de tomar consciência desse meu gosto pelo Aikido e de decidir que vou cuidar conscientemente de manter e desenvolver minha alegria, minha disposição, minha aceitação.







Após esses meus 7 anos e meio de treino posso afirmar que para mim o Aikido foi o presente-ferramenta que me foi oferecido para eu transformar em ação ou movimento aquele sentimento amplo e benéfico, pois ao mesmo tempo que ele exige sintonia aguçada com essa energia, é uma atividade prazerosa, tem gosto de brincadeira infantil à sério.























Com essa consciência um pouco mais clara de meu próprio perfil, atrevo-me, com a permissão do Sensei e dos alunos mais adiantados, a colocar algumas palavras dentro daquele triângulo.



















sentimento



ação consciente



esforço deliberado



relacionamento–aprimoramento



liberdade - criação











QUADRO 4



Indicação bibliográfica: a ilustração aqui seria uma foto da vitrine de livros à venda ali



em nossa ala social.







Bem sei que, nesta apresentação, pouco usei a terminologia do Aikido. Peço que me compreendam, mas não me sinto ainda com competência para tanto. Preferi uma forma de abordagem mais familiar para mim.







QUADRO 5



Agradecimentos



Agradeço a todos que aqui estão hoje e também os que não estão, mas que são parte deste trecho do meu caminho.



Aos companheiros de treino, um abraço melado de final de treino. Graças a vocês posso treinar!



Aos Faixas Pretas, próximos e distantes, obrigado pelo exemplo e por todas as dicas.











Ao Sensei Wagner, com respeito, domo arigatô gosai mash, por me aceitar no Dojo.







Para completar os agradecimentos deixo uma oferenda a todos vocês e ao \\\"espírito do Aikido\\\". Trata-se de um pequeno exercício.











Título: Encaixes e possibilidades







No tatame, Do = caminho - cultivo e aprimoramento.



No sentimento, Ai = união - premissa do movimento.



No Dojo, Ki - sopro do cosmos.







...tempo...







No Dojo, Ki = energia - sopro do cosmos.



No tatame, Do = caminho - cultivo e aprimoramento.



No sentimento, Ai = união - premissa do movimento.







...treino...







No sentimento, Ai= união - premissa do movimento.



No Dojo, Ki = energia - sopro do cosmos



No tatame, Do = caminho - cultivo e aprimoramento.









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