Artigos dos Alunos do Instituto

AIKIDO E O PODER DO AUTO-CONHECIMENTO
INSTITUTO TAKEMUSSU - shodan
FABIO HENRIQUE CAMPI

 

As pessoas começam a praticar Aikido pelos mais diversos motivos imagináveis. Uns visam buscar melhor preparo físico, outros querem melhorar a postura, a saúde, outros ainda buscam o lado filosófico e religioso que esta arte marcial engloba. Eu, particularmente, ingressei no Instituto Takemussu com o principal objetivo de aprender técnicas marciais eficazes para poder me defender de possíveis agressões físicas.

Porém, ao longo desses anos de prática e de estudo, pude perceber que o Aikido não se limita a técnicas de defesa e que, muito pelo contrário, engloba algo muito maior e profundo do que imaginava anteriormente. Por esta razão, definir em poucas linhas o que vem a ser o Aikido é muito difícil e se torna superficial e até absurdo aos olhos daqueles que não têm certa familiaridade, vivência ou conhecimento do propósito desta arte marcial moderna e completa que é o Aikido.

O tema deste trabalho irá tratar sobre um dos aspectos do Aikido, ou seja, um prisma específico que o Aikido também abrange: o Princípio do Auto-Conhecimento.

"O Aikido possui o poder de transformar o caráter e a personalidade das pessoas". Foi o que o Sensei Alexandre Bull mencionou certa vez em outro exame de faixas. Na verdade, a prática constante do Aikido transforma as pessoas no sentido de mostrar quem elas são realmente, em sua essência natural. É conhecendo nossa essência natural que podemos desenvolver nossas aptidões e aprimorar os pontos fracos de nossas personalidades, tanto no aspecto físico como no aspecto espiritual e emocional.

No mundo material em que vivemos, nos deixamos influenciar pelo que acontece fora de nossa natureza interior. As situações, as circunstâncias, as pessoas, as coisas nos influenciam de toda forma. Por esta razão buscamos a aprovação dos outros, nossos pensamentos e comportamentos antecipam-se a toda resposta, surgindo a tendência de querer controlar as coisas, visando adquirir o poder que essas coisas nos proporcionam, ou podem nos proporcionar.

Essa constante busca pelo poder externo e da necessidade de aprovação dos outros existe, talvez, porque temos medo de aceitar o que realmente somos, de aceitar nossa essência natural. Vivemos em um estado onde nossa referência é externa, nas coisas, nas pessoas, nas situações. Neste estado, o ego está em primeiro lugar e o poder que este estado nos oferece é, na verdade, um falso poder. Ele existe apenas enquanto o objeto de referência existir. Se se tem muito dinheiro, ou um título, um cargo importante - todo esse poder tão apreciado, fundamentado no ego, termina quando acabam essas coisas.

O ego reflete apenas a sua auto-imagem, a sua máscara social, o papel que você representa mas não expressa o que você realmente é. Sua máscara social necessita de controle, de aprovação, de apoio no poder, porque vive com medo.

É claro que precisamos exercer um papel na sociedade e para a sociedade, mas creio que falta sentimento naquilo que fazemos (digo em relação a toda sociedade), porque vivemos em função do ego, da satisfação pessoal, e assim, esquecemos de ajudar o próximo e consequentemente de nossa verdadeira função social. Existe uma história que ilustra bem o que estou querendo dizer:

"Certa ocasião um mestre observava três pedreiros trabalhando em uma obra e depois de alguns instantes ele perguntou a um deles o que estava fazendo, e o pedreiro retrucou dizendo que apenas estava trabalhando. O mestre, em seguida, se virou para o outro e lhe fez a mesma pergunta. Este respondeu que estava pondo um tijolo em cima do outro. O mestre então se dirigiu ao terceiro homem lhe perguntando o mesmo e então o pedreiro lhe respondeu com uma expressão de felicidade no rosto: Estou construindo uma casa !"

Existe também um provérbio oriental que elucida bem o exposto acima, que diz o seguinte:

"Eu dormia e sonhei que a vida era alegria, acordei e vi que a vida era obrigação, agi, e eis que a obrigação era alegria"

A prática do Aikido tem por princípio o auto-conhecimento. É um caminho para a descoberta do verdadeiro Eu interior, do auto-poder. Seu verdadeiro Eu, que é seu espírito, é imune à críticas, não teme desafios, não se sente inferior a ninguém, mas também é humilde, e não se sente superior, porque reconhece que todas as pessoas representam o mesmo espírito, a mesma energia vital com diferentes faces.

Assim, pressupõe-se que nos conhecendo e nos entendendo é que podemos entender o próximo, suas atitudes, seus comportamentos. Isto porque quando estamos internamente em harmonia, isto é, quando aceitamos o que realmente somos, o medo desaparece juntamente com o ego, e assim, podemos enfrentar qualquer tipo de situação ou circunstância sem conflito.

Atingindo esse estado de harmonia, entendemos que existe um motivo de ser o que somos e que todos nós estamos evoluindo, uns mais rapidamente, outros mais lentamente. Passamos a entender que as coisas são o que são e que tudo está sujeito à mutação, à evolução.

O Aikido é um caminho para a evolução do ser humano, do seu espírito, do seu caráter, do seu físico e sensibilidade. É o caminho do não-ego, do não julgamento, que busca algo maior: a união com o TODO, a integração com o Universo. Suas técnicas apenas são um instrumento que existem para se chegar a este sentimento de harmonia. Através da prática constante das técnicas é que somos capazes de sentir nosso self, integrar nosso corpo, mente e espírito, ao mesmo tempo que nos harmonizamos com nossos companheiros de treino.

No Aikido não existe vencedor ou perdedor, todos estão evoluindo juntos. Este sentimento aos poucos, vai sendo absorvido pelo praticante. Ao mesmo tempo, suas técnicas se tornam mais eficazes, mais circulares, relaxadas e mais fortes, podendo ser usadas para situações reais de agressão física. A força do Aikido está proporcionalmente ligada à harmonia que o praticante possui com a força universal.

Quanto mais integrado, mais forte se torna o praticante, tanto interior como exteriormente, mas o caminho é longo, infinito, como o próprio Universo.

Agradeço a todos os praticantes do Instituto Takemussu, mesmo àqueles que estão iniciando agora, pela energia que trazem ao Aikido, que cresce a cada dia. Agradeço meus amigos, por serem meus amigos. Aos meus pais, por serem meus pais e por sempre me incentivarem a treinar; Wagner Bull, meu mestre, por tudo que me ensinou até hoje, e a DEUS, que me deu a oportunidade de seguir o caminho.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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