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"Quando
alguém me pergunta se os meus princípios de
Aiki Budo vieram da religião, eu digo que não.
Meus verdadeiros princípios de Budo iluminam religiões
e as levam à plenitude."
Morihei Ueshiba O-Sensei
"Se
você não está ensinando religião,
porque disse às crianças que espera que eles
alcancem um entendimento mais profundo do Aikido?"
A mãe de um novo aluno da minha turma de crianças
me fez esta pergunta enquanto eu caminhava no tatame para
treiná-los.
Eu
não dou aulas extraordináriamente profundas
ou significantes. Tipicamente elas focam o aumento da segurança,
o desenvolvimento do respeito pelos outros, agir sem se
afobar e com precaução, fazer as escolhas
corretas, observar a ética, o aumento do auto-controle,
e etc... Porém mesmo estes objetivos comuns e não
religiosos pareciam preocupar a mulher diante de mim.
Quando
seu filho começou a treinar Aikido, esta mulher veio
a mim para expressar suas restrições. Lembrando
esta discussão, percebo que ela se preocupava também
com o que eu estaria pedindo que o seu filho entendesse.
Aparentemente, ela pensou ter trazido o filho para aulas
de educação física que iriam exercitar
o seu corpo, mas deixaria sua mente intocada. Acreditando
que toda educação física não
utiliza a mente, ela se sentiu ameaçada ao ver algo
que foi além do seu conceito de exercício
físico. A partir da observação de que
eu estaria tentando ensinar algo com significado, ela deduziu
que eu deveria estar ensinando religião.
Então,
na última quarta-feira, uma jovem mulher, que havia
feito três aulas de Yoga em algum outro lugar, anunciou,
de forma bastante intensa, que queria obter uma credencial
de professora de Yoga. Não há nada de errado
em querer a credencial, é claro. Porém esta
mulher parecia estar muito mais interessada na credencial
do que na prática física. Quando sugerí
que ela deveria aspirar à credencial através
do desenvolvimento de um conhecimento profundo da prática
física, ela se mostrou completamente desinteressada.
Ela desejava pagar bastante, ela disse, mas não gostaria
de investir muito tempo. Talvez ela tenha achado que o aprendizado
necessário para a credencial de Yoga, como o necessário
para algum grau acadêmico, pudesse ser completamente
mental, e que a prática não fosse realmente
necessária. Ou talvez ela tenha pensado (como a mulher
em minha aula para crianças) que, já que a
Yoga é um treinamento do corpo que não utiliza
a mente, a prática não iria aprofundar seu
conhecimento de nenhuma forma.
O
Aikido se trata basicamentede prática física
e treinamento, mas este treinamento não precisa ser
superficial ou sem sentido. Muitos que estudam esta arte
dizem que ela mudou suas vidas. Mas ao questionar como uma
prática física pode ter mudado suas vidas,
eles tem dificuldade em explicar. De alguma forma, que é
bastante difícil de descrever, o treinamento físico
mudou suas mentes. (Um paralelo a isso pode ser feito com
a Yoga. Apesar da sua prática frequentemente não
envolver parceiros, o foco no centro, na base e na energia
é semelhante ao do Aikido.)
Na
literatura popular, lemos que as práticas do Aikido
e da Yoga "integram a mente e o corpo". Nem a
mulher cujo filho estava em minha turma de crianças
nem a mulher que veio à minha aula de Yoga querendo
a credencial pensaram sobre o que isso deveria significar.
O
entendimento da natureza da prática de "mente/corpo"
deve se iniciar, por exemplo, com a simples percepção
de que uma ponte para trás anima as pessoas. Para
muitos ocidentais e isso parece loucura. Como pode uma atividade
puramente física de dobrar o corpo para trás
afetar o humor das pessoas? No oriente, onde as pessoas
frequentemente pensam no corpo em termos de centros de energia,
a resposta parece óbvia: oa esticar o corpo para
trás, abrimos os centros do coração
e, quando começamos a liberar estes centros, nos
sentimos melhor.
Freqüentemente,
na prática do Aikido, treinamos desequilibrar nossos
parceiros, e então os soltamos, deixando que caiam.
É fácil de ver o que acontece em termos de
um movimento físico sem sentido. Porém podemos
ver também o treino como um desenvolvimento de atitudes
mentais: a recusa em entrar em conflito, permitir a liberdade
de movimento, o desejo de deixar que os outros sintam as
consequências dos seus atos.
Muitos
se enveredam à bebida ou a depravação
porque a monotonia do dia-a-dia da vida não é
suficiente para fazê-los sentirem-se vivos. Eles precisam
de algo mais profundo e com significado. Alguns podem encontrar
isso na religião. E, apesar do Aikido não
ser uma religião, uns encontram isso lá também.
Para enconcontrar significado em uma arte como o Aikido,
entretanto, é preciso abandonar a idéia de
que o físico e o mental são distintos, reinos
não relacionados.
Editorial
- Aikido Today Magazine #81
Tradução de Gustavo Gialluisi
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