ARTIGOS E ENTREVISTAS

Sobre Religião
por Suzan Perry

 

"Quando alguém me pergunta se os meus princípios de Aiki Budo vieram da religião, eu digo que não. Meus verdadeiros princípios de Budo iluminam religiões e as levam à plenitude."
Morihei Ueshiba O-Sensei

"Se você não está ensinando religião, porque disse às crianças que espera que eles alcancem um entendimento mais profundo do Aikido?" A mãe de um novo aluno da minha turma de crianças me fez esta pergunta enquanto eu caminhava no tatame para treiná-los.

Eu não dou aulas extraordináriamente profundas ou significantes. Tipicamente elas focam o aumento da segurança, o desenvolvimento do respeito pelos outros, agir sem se afobar e com precaução, fazer as escolhas corretas, observar a ética, o aumento do auto-controle, e etc... Porém mesmo estes objetivos comuns e não religiosos pareciam preocupar a mulher diante de mim.

Quando seu filho começou a treinar Aikido, esta mulher veio a mim para expressar suas restrições. Lembrando esta discussão, percebo que ela se preocupava também com o que eu estaria pedindo que o seu filho entendesse. Aparentemente, ela pensou ter trazido o filho para aulas de educação física que iriam exercitar o seu corpo, mas deixaria sua mente intocada. Acreditando que toda educação física não utiliza a mente, ela se sentiu ameaçada ao ver algo que foi além do seu conceito de exercício físico. A partir da observação de que eu estaria tentando ensinar algo com significado, ela deduziu que eu deveria estar ensinando religião.

Então, na última quarta-feira, uma jovem mulher, que havia feito três aulas de Yoga em algum outro lugar, anunciou, de forma bastante intensa, que queria obter uma credencial de professora de Yoga. Não há nada de errado em querer a credencial, é claro. Porém esta mulher parecia estar muito mais interessada na credencial do que na prática física. Quando sugerí que ela deveria aspirar à credencial através do desenvolvimento de um conhecimento profundo da prática física, ela se mostrou completamente desinteressada. Ela desejava pagar bastante, ela disse, mas não gostaria de investir muito tempo. Talvez ela tenha achado que o aprendizado necessário para a credencial de Yoga, como o necessário para algum grau acadêmico, pudesse ser completamente mental, e que a prática não fosse realmente necessária. Ou talvez ela tenha pensado (como a mulher em minha aula para crianças) que, já que a Yoga é um treinamento do corpo que não utiliza a mente, a prática não iria aprofundar seu conhecimento de nenhuma forma.

O Aikido se trata basicamentede prática física e treinamento, mas este treinamento não precisa ser superficial ou sem sentido. Muitos que estudam esta arte dizem que ela mudou suas vidas. Mas ao questionar como uma prática física pode ter mudado suas vidas, eles tem dificuldade em explicar. De alguma forma, que é bastante difícil de descrever, o treinamento físico mudou suas mentes. (Um paralelo a isso pode ser feito com a Yoga. Apesar da sua prática frequentemente não envolver parceiros, o foco no centro, na base e na energia é semelhante ao do Aikido.)

Na literatura popular, lemos que as práticas do Aikido e da Yoga "integram a mente e o corpo". Nem a mulher cujo filho estava em minha turma de crianças nem a mulher que veio à minha aula de Yoga querendo a credencial pensaram sobre o que isso deveria significar.

O entendimento da natureza da prática de "mente/corpo" deve se iniciar, por exemplo, com a simples percepção de que uma ponte para trás anima as pessoas. Para muitos ocidentais e isso parece loucura. Como pode uma atividade puramente física de dobrar o corpo para trás afetar o humor das pessoas? No oriente, onde as pessoas frequentemente pensam no corpo em termos de centros de energia, a resposta parece óbvia: oa esticar o corpo para trás, abrimos os centros do coração e, quando começamos a liberar estes centros, nos sentimos melhor.

Freqüentemente, na prática do Aikido, treinamos desequilibrar nossos parceiros, e então os soltamos, deixando que caiam. É fácil de ver o que acontece em termos de um movimento físico sem sentido. Porém podemos ver também o treino como um desenvolvimento de atitudes mentais: a recusa em entrar em conflito, permitir a liberdade de movimento, o desejo de deixar que os outros sintam as consequências dos seus atos.

Muitos se enveredam à bebida ou a depravação porque a monotonia do dia-a-dia da vida não é suficiente para fazê-los sentirem-se vivos. Eles precisam de algo mais profundo e com significado. Alguns podem encontrar isso na religião. E, apesar do Aikido não ser uma religião, uns encontram isso lá também. Para enconcontrar significado em uma arte como o Aikido, entretanto, é preciso abandonar a idéia de que o físico e o mental são distintos, reinos não relacionados.

Editorial - Aikido Today Magazine #81
Tradução de Gustavo Gialluisi




 

 

 

 

 

 


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