ARTIGOS E ENTREVISTAS

A Montanha estará lá amanhã
por Luiz Magalhães

 

"O Difícil não é subir.
Mas, ao subir, continuarmos a ser quem somos."
Jules Michelet
Historiador Francês

São inúmeras as dificuldades enfrentadas pelos montanhistas no sonho aventureiro de conquistar as alturas. O grande historiador francês mirou no que viu e acertou no que não viu: domínio do ego, da vaidade e de tudo mais que possa alterar a percepção de nós mesmos.

É evidente que a idéia de escalar está ligada intimamente a dois conceitos: confiança ao atinjir metas e auto-aperfeiçoamento.
Não são poucos os filósofos que nos aconselham a "dedicar tanto tempo ao aperfeiçoamento, que não nos sobre um minuto para censurar os demais."

Existem pessoas que alcançam êxito em tudo o que fazem, enquanto outras fracassam. Talvez o êxito e o fracasso sejam os dois lados da balança sutilmente aferida pela força do caráter e pela atmosfera de cada indivíduo. Aqui temos o Aikidô e o montanhismo lado a lado, com um pequena diferença: No montanhismo pode-se até fazer uma escalada solo; No Aikidô isto não é possível. Trata-se de um trabalho de equipe, de ajuda mútua. Se mostrarmos confiança em nós mesmos e ajudarmos os companheiros a subirem, eles também vão confiar em nós, aproximando-se e ajudando-nos espontaneamente na subida. A confiança está na base do êxito.

A escola taoísta, através do estudo do Tao Te Ching - o Livro do Caminho e da Virtude -nos ensina que "aqueles que buscam a perfeição não têm limitações." A habilidade, o aperfeiçoamento, a perícia estão ao alcance daqueles que decidem enfrentar o desafio, tanto no Aikidô como no montanhismo, almejando - sobretudo - a vencer a si mesmos. Ao fazê-lo, prestam uma homenagem à humanidade inteira. Um pequeno passo pode ser um passo de gigante. A simples tentativa torna o homem maior do que ele ousaria pensar. Se nos aplicarmos com determinação, o sucesso virá. Mas é preciso identificar as falhas. O segredo está na prática. O próprio criador do Aikidô, certa vez, disse que "ninguém aprende Aikidô." "O Aikidô é praticado desde o primeiro minuto", até atingir-se técnicas altamente avançadas.

I Ching, o primeiro livro do taoísmo - O Livro das Mutações - deixa bem claro que precisamos estar atentos aos detalhes; precisamos ser mais observadores neste processo de treinamento na vida.

A montanha pode ter centenas de metros, mas vamos subir centímetro por centímetro. O êxito estará na razão direta da qualidade de nossa subida e pela atenção que dedicarmos à prática. Não se iludam. O treinamento precisa ser constante para termos chances de conquistar a montanha. Resultados rápidos nem pensar.

Não existe no mundo símbolo mais perfeito representando a determinação do que o símbolo chinês para aperfeiçoamento: um pássaro batendo asas permanentemente na tentativa de aprender a voar. Assim é que devemos proceder. Repetir - à exaustão - as técnicas, para que possamos nos aperfeiçoar. E não só repetir. Se desejarmos continuar subindo, temos que variar as técnicas. Como diz o professor Ortega:"o Aikidô é um círculo. As técnicas vão se sucedendo. Quando chega a vez de repetirmos uma delas, temos que fazê-la melhor do que na vez anterior." Com a razão o mestre. E sempre haverá necessidade de repetição e de variações, se desejarmos continuar no processo de escalada.

Há um componente extraordinário nessa reação química entre o Aikidô e a nossa própria vida. Trata-se de algo próximo da obsessão. Numa quinta-feira fora do comum, véspera de um feriado de 7 de Setembro, pouco depois das 18:00, o trânsito no Rio de Janeiro havia passado do nível de caótico para o de purgatório. O incêndio na Favela Boa Esperança provocara o desabamento parcial da Linha Vermelha, à altura do Caju, onde passam 160 mil veículos por dia. O trânsito na cidade deu um nó. Normalmente, são 40 minutos para chegar ao dojô no Clube Militar, no Jardim Botânico. Naquelo início de noite, saindo de Botafogo e com duas horas de trânsito, eu havia conseguido chegar em frente ao Corpo de Bombeiros do Humaitá. Procurei relaxar, desviar o pensamento. Imaginava estar sentado num dos bancos sob os jambeiros do Jardim Botânico em frente ao orquidário, relaxadamente ouvindo os pássaros, que é a melhor forma de "ver e ouvir a natureza", como disse certa vez Tom Jobim. Eu estava decidido que treinaria nem que fosse somente 5 minutos. Acabei chegando a tempo de encontrar o grupo em plena prática. Depois do treino, conversando com o professor Ortega sobre o assunto, ouvi dele o seguinte comentário: "Não há meio termo, se o Aikidô não se transformar em religião, não adianta coisa alguma."

É um santo remédio. É um mentor sagrado, desviando nossa mente dos problemas do quotidiano, envolvendo trabalho, trânsito, pivetes. Durante a prática, aprendemos a relaxar, a ficar calmos, com a mente apaziguada. Com o tempo, saberemos enfrentar situações caóticas, sem perdermos o controle nem a determinação de chegarmos ao destino. E com a prática notaremos um progresso constante, mesmo que lento. Não faz mal. Há um famoso treinador de basquete nos EUA que disse que "o caminho do aperfeiçoamento passa pelas oito leis do aprendizado: explicação, demonstração, imitação, repetição, repetição, repetição, repetição e repetição.

Existem momentos em que temos a angustiante sensação de que não vamos subir mais. Calma. Na trajetória existem vários pontos de estagnação. Quando tem-se a impressão que o progresso parou, é hora de relaxar, de aproveitar aquele ponto da "montanha" para descansar, reavaliar a jornada com visão de perspectiva. Muitos, aliás com muita freqüência, fazem o percurso do alto para baixo, para, depois, retomar a escalada.

Durante os períodos de reflexão, procuramos lidar da melhor forma possível com os sentimentos que afloram a todo o momento, misturando o prazer por algumas conquistas com a pura frustração por não atingir determinados pontos da escalada. Não devemos lutar contra nós mesmos, nem contra os períodos de estagnação.

Estes períodos se confundem com determinadas etapas de nossa vida, quando precisamos ter paciência, fé, e determinação para esperar o momento certo de retomar a subida. E isto se aplica a qualquer atividade. O aperfeiçoamento só é possível mediante a prática. Às vezes, durante o treino, tenho observado que colegas ficam com medo de executar determinada técnica de maior grau de risco. Não há vergonha alguma em se desistir temporariamente. É como o montanhista que atingiu um determinado ponto com níveis maiores de dificuldades, chegou a noite, ou existe o perigo de avalanche. Ele é sábio. Espera o tempo necessário, até que haja condições de segurança para avançar. Afinal, como dizem os próprios montanhistas: "A montanha estará lá amanhã."

 



 

 

 

 

 

 


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