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"O
Difícil não é subir.
Mas, ao subir, continuarmos a ser quem somos."
Jules
Michelet
Historiador Francês
São
inúmeras as dificuldades enfrentadas pelos montanhistas
no sonho aventureiro de conquistar as alturas. O grande
historiador francês mirou no que viu e acertou no
que não viu: domínio do ego, da vaidade e
de tudo mais que possa alterar a percepção
de nós mesmos.
É
evidente que a idéia de escalar está ligada
intimamente a dois conceitos: confiança ao atinjir
metas e auto-aperfeiçoamento.
Não são poucos os filósofos que nos
aconselham a "dedicar tanto tempo ao aperfeiçoamento,
que não nos sobre um minuto para censurar os demais."
Existem
pessoas que alcançam êxito em tudo o que fazem,
enquanto outras fracassam. Talvez o êxito e o fracasso
sejam os dois lados da balança sutilmente aferida
pela força do caráter e pela atmosfera de
cada indivíduo. Aqui temos o Aikidô e o montanhismo
lado a lado, com um pequena diferença: No montanhismo
pode-se até fazer uma escalada solo; No Aikidô
isto não é possível. Trata-se de um
trabalho de equipe, de ajuda mútua. Se mostrarmos
confiança em nós mesmos e ajudarmos os companheiros
a subirem, eles também vão confiar em nós,
aproximando-se e ajudando-nos espontaneamente na subida.
A confiança está na base do êxito.
A
escola taoísta, através do estudo do Tao Te
Ching - o Livro do Caminho e da Virtude -nos ensina que
"aqueles que buscam a perfeição não
têm limitações." A habilidade,
o aperfeiçoamento, a perícia estão
ao alcance daqueles que decidem enfrentar o desafio, tanto
no Aikidô como no montanhismo, almejando - sobretudo
- a vencer a si mesmos. Ao fazê-lo, prestam uma homenagem
à humanidade inteira. Um pequeno passo pode ser um
passo de gigante. A simples tentativa torna o homem maior
do que ele ousaria pensar. Se nos aplicarmos com determinação,
o sucesso virá. Mas é preciso identificar
as falhas. O segredo está na prática. O próprio
criador do Aikidô, certa vez, disse que "ninguém
aprende Aikidô." "O Aikidô é
praticado desde o primeiro minuto", até atingir-se
técnicas altamente avançadas.
I
Ching, o primeiro livro do taoísmo - O Livro das
Mutações - deixa bem claro que precisamos
estar atentos aos detalhes; precisamos ser mais observadores
neste processo de treinamento na vida.
A
montanha pode ter centenas de metros, mas vamos subir centímetro
por centímetro. O êxito estará na razão
direta da qualidade de nossa subida e pela atenção
que dedicarmos à prática. Não se iludam.
O treinamento precisa ser constante para termos chances
de conquistar a montanha. Resultados rápidos nem
pensar.
Não
existe no mundo símbolo mais perfeito representando
a determinação do que o símbolo chinês
para aperfeiçoamento: um pássaro batendo asas
permanentemente na tentativa de aprender a voar. Assim é
que devemos proceder. Repetir - à exaustão
- as técnicas, para que possamos nos aperfeiçoar.
E não só repetir. Se desejarmos continuar
subindo, temos que variar as técnicas. Como diz o
professor Ortega:"o Aikidô é um círculo.
As técnicas vão se sucedendo. Quando chega
a vez de repetirmos uma delas, temos que fazê-la melhor
do que na vez anterior." Com a razão o mestre.
E sempre haverá necessidade de repetição
e de variações, se desejarmos continuar no
processo de escalada.
Há
um componente extraordinário nessa reação
química entre o Aikidô e a nossa própria
vida. Trata-se de algo próximo da obsessão.
Numa quinta-feira fora do comum, véspera de um feriado
de 7 de Setembro, pouco depois das 18:00, o trânsito
no Rio de Janeiro havia passado do nível de caótico
para o de purgatório. O incêndio na Favela
Boa Esperança provocara o desabamento parcial da
Linha Vermelha, à altura do Caju, onde passam 160
mil veículos por dia. O trânsito na cidade
deu um nó. Normalmente, são 40 minutos para
chegar ao dojô no Clube Militar, no Jardim Botânico.
Naquelo início de noite, saindo de Botafogo e com
duas horas de trânsito, eu havia conseguido chegar
em frente ao Corpo de Bombeiros do Humaitá. Procurei
relaxar, desviar o pensamento. Imaginava estar sentado num
dos bancos sob os jambeiros do Jardim Botânico em
frente ao orquidário, relaxadamente ouvindo os pássaros,
que é a melhor forma de "ver e ouvir a natureza",
como disse certa vez Tom Jobim. Eu estava decidido que treinaria
nem que fosse somente 5 minutos. Acabei chegando a tempo
de encontrar o grupo em plena prática. Depois do
treino, conversando com o professor Ortega sobre o assunto,
ouvi dele o seguinte comentário: "Não
há meio termo, se o Aikidô não se transformar
em religião, não adianta coisa alguma."
É
um santo remédio. É um mentor sagrado, desviando
nossa mente dos problemas do quotidiano, envolvendo trabalho,
trânsito, pivetes. Durante a prática, aprendemos
a relaxar, a ficar calmos, com a mente apaziguada. Com o
tempo, saberemos enfrentar situações caóticas,
sem perdermos o controle nem a determinação
de chegarmos ao destino. E com a prática notaremos
um progresso constante, mesmo que lento. Não faz
mal. Há um famoso treinador de basquete nos EUA que
disse que "o caminho do aperfeiçoamento passa
pelas oito leis do aprendizado: explicação,
demonstração, imitação, repetição,
repetição, repetição, repetição
e repetição.
Existem
momentos em que temos a angustiante sensação
de que não vamos subir mais. Calma. Na trajetória
existem vários pontos de estagnação.
Quando tem-se a impressão que o progresso parou,
é hora de relaxar, de aproveitar aquele ponto da
"montanha" para descansar, reavaliar a jornada
com visão de perspectiva. Muitos, aliás com
muita freqüência, fazem o percurso do alto para
baixo, para, depois, retomar a escalada.
Durante
os períodos de reflexão, procuramos lidar
da melhor forma possível com os sentimentos que afloram
a todo o momento, misturando o prazer por algumas conquistas
com a pura frustração por não atingir
determinados pontos da escalada. Não devemos lutar
contra nós mesmos, nem contra os períodos
de estagnação.
Estes
períodos se confundem com determinadas etapas de
nossa vida, quando precisamos ter paciência, fé,
e determinação para esperar o momento certo
de retomar a subida. E isto se aplica a qualquer atividade.
O aperfeiçoamento só é possível
mediante a prática. Às vezes, durante o treino,
tenho observado que colegas ficam com medo de executar determinada
técnica de maior grau de risco. Não há
vergonha alguma em se desistir temporariamente. É
como o montanhista que atingiu um determinado ponto com
níveis maiores de dificuldades, chegou a noite, ou
existe o perigo de avalanche. Ele é sábio.
Espera o tempo necessário, até que haja condições
de segurança para avançar. Afinal, como dizem
os próprios montanhistas: "A montanha estará
lá amanhã."
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