ARTIGOS E ENTREVISTAS

AIKIDÔ e BUSHIDÔ:
As Duas Faces do Coração do Samurai

por Jean Carlos Peyerl


O Bushidô é o Caminho espiritual, ético e basilar do samurai. O aikidô é a forma pelo qual estas virtudes se externam em forma de poder e energia. Ao contrário do que muitos pensam, o Bushidô não é um código frio e desumano, onde os sentimentos são esquecidos e esmagados por uma lealdade cega e inominável. O Bushidô é um caminho estabelecido em sua forma mais pura, na era de Takamanohara (a idade dos deuses), e seu verdadeiro fundamento é o espírito de serviço e proteção da vida. Contam-nos as escrituras sagradas do Xintô, que a espada dos deuses, chamada Itsurugi, é uma espada usada para pacificar o espírito animalesco e irracional do homem. Suzanô-no-Mikoto usou a espada para destruir o dragão da maldade que apavorava até os próprios deuses, Take-no-Mikazuchi-no-Kami e Futsu-Nuchi-no-Mikoto, divindades tutelares dos santuários de Kashima e Katori no Japão, usaram a espada para pacificar e civilizar os homens primitivos.

Além disso, no Budismo, se diz que a espada deve ser um instrumento para cortar pela raiz as ilusões. A espada de Monju Bosatsu (Manjushri, o bodisatva da Sabedoria iluminada), corta os apegos e ilusões da mente entorpecida, e a disciplina da espada conduz ao Satori (iluminação). Existe um texto muito interessante de Takuan Zenji (mestre zen, que tutelou Myamoto Musashi em suas práticas espirituais) que diz: "Quando um jozu (adepto) cruza a ponta de sua espada com outro, sem pensar mais em termos de vitória ou derrota, faz-nos lembrar a tradição segundo a qual Kasho Bosatsu sorriu, enquanto Buda pregava, segurando entre os dedos uma flor". Sendo assim, vemos o quão distante do verdadeiro espírito do samurai, estão aquelas pessoas que buscam através da prática marcial, a auto promoção, a superioridade sobre outros seres humanos, e o orgulho.

No aikido real, movido pelo espírito do Bushidô, não podem existir competições, demonstrações de ego, orgulho e comportamento incivilizado. Para um homem movido pelo espírito samurai, só existe um conflito, o dele contra seu próprio ego. Os conflitos externos (físicos), ao contrário das competições, só podem existir, por questões onde vida, morte, saúde e preservação estejam envolvidas.

Espero que as pessoas que leiam esse texto conscientizem-se, de que o Budô é um Caminho sagrado como todos os outros, e que, portanto, não deve ser profanado, desrespeitado ou tratado com leviandade. Devemos entrar no dojô, como o fiel entra na igreja, devemos reverenciar o dojô como um recinto sacrossanto, onde exorcizamos nossos demônios interiores. Se conseguirmos este espírito, em pouco tempo o mundo inteiro se tornará um dojô, e o Budô desabrochará em nossa vida como a flor de cerejeira aos raios do sol.

 


 

 

 

 

 

 


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