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A
tradição religiosa japonesa é rica
e complexa e ocasionalmente intriga o povo ocidental com
suas facilidade e com suas tendências muitas vezes
contraditórias na linha e prática religiosa.
Ao lado da tradição está o Xintoísmo,
a religião indígena do Japão, e do
outro lado, o Budismo, uma religião hindú
que chegou ao Japão entre os séculos VI e
VII D.C. vinda da Coréia e da China. Ao longo da
enorme história japonesa, tem sido estas duas religiões
que mais contribuíram para que os japoneses compreendessem
a si próprios e ao mundo que pertencem.
O
Xintoísmo
O
Xintoísmo é a religião mais antiga
do Japão, sua origem é obscura e datada de,
pelo menos, metade do primeiro milênio antes de Cristo.
Até aproximadamente o século VI D.C., período
este em que os japoneses tiveram uma influência mais
rápida da civilização continental,
existia uma grande mistura de devoções à
natureza, incluíndo cultos de fertilidade, técnicas
de divindade, devoção a heróis e o
Xamanismo. Ao contrário do Budismo, Cristianismo
ou Islamismo, o Xintoísmo não teve fundadores
e não desenvolveu escrituras sacradas, filosofias
religiosas explícitas ou um código moral específico.
Na verdade, os antigos japoneses encaravam a religião
com tanta naturalidade que não tinham sequer um termo
para defini-la. A palavra Xinto ou "O caminho do kami
(deuses ou espíritos)", veio a ser usada apenas
após o século VI, quando os japoneses procuraram
distiguir sua própria tradição das
religiões estrangeiras que foram encontrando pela
frente, como o Budismo e o Confucionismo. Assim, em sua
origem, o Xintoísmo era a religião das pessoas
ainda não contaminadas pelo ocidente e que, acima
de tudo, eram sensíveis às forças espirituais
espalhadas pela natureza em que viviam. Como mostra uma
crônica antiga: no mundo destas pessoas, inúmeros
espíritos brilhavam como vagalumes e todas as árvores
e arbustos eram capazes de falar.
Extraordinariamente,
nem a caracterísitica relativamente primitiva e original
nem a introdução de religiões mais
sofisticadas como o Budismo e Confucionismo fizeram com
que o Xintoísmo tivesse menos importância.
Em parte, sua existência duradoura pode ser explicada,
apontando algumas mudanças que ocorreram após
o século XI, as quais o transformaram gradualmente
em uma religião de santuários, grandes e pequenos,
com festivais e rituais praticados por uma distinta classe
sacerdocial. No entanto, estas mudanças tiveram pouca
influência nos valores e atitudes básicos do
Xintoísmo. O que foi realmente crucial para sua sobrevivência
foram as profundas raízes no dia-adia da vida do
povo japonês e tambem sua forte e conservadora relação
com a cultura japonesa.
A
visão do mundo para o Xintoísta é fundamentalmente
brilhante e otimista, e assim, nada mais apropriado que
ter como sua principal divindade, uma deusa do sol. Uma
vez que eram conhecidos os aspectos mais negativos da existência
humana, a razão de ser de um xintoísta é
a celebração e o enriquecimento da vida.
É
possível aprender muito sobre a visão xintoísta
do mundo através da mitologia japonesa. Dois trabalhos
datados do século VIII, o Kojiki (Registro de Assuntos
Antigos) e o Nihon shoki (Crônicas do Japão),
contam a história da criação das ilhas
japonesas por um casal divino, Izanagi e sua companheira
Izanami. Eles contam também o nascimento de diversos
deuses e deusas, como a Deusa do Sol, Amaterasu, chefe de
todos os deuses, bem como sua linha de descendentes que
governavam as ilhas. Dois aspectos da mitologia são
particularmente relevantes. O primeiro é sua orientação
para os diversos mundos, os quais são mencionados
na mitologia, como por exemplo a Grande Planície
do Céu, ou a Terra Escura, uma terra impura dos mortos.
No entanto, recebemos apenas explicações superficiais
sobre eles. Abençoados com um clima ameno, mares
férteis e paisagens impressionantes com montanhas,
os japoneses antigos parecem ter sentido uma pequena compulsão
por olhar além da presente existência.
O
segundo aspecto importante da mitologia é a forte
relação entre os deuses, o mundo que eles
criaram e os seres humanos. As tensões entre o Criador
e suas criaturas, e entre o humano e o terreno, presentes
nas religiões ocidentais, são visivelmente
inexistentes. Na visão xintoísta, o estado
natural do cosmos é uma harmonia na qual os elementos
divinos, naturais e humanos estão intimamente relacionados.
Além disso, a naturaza humana é vista como
inerentemente boa e o mal é visto como resultado
do contato dos indivíduos com forças ou agentes
externos que poluem nossa natureza pura e faz com que hajamos
de forma contrária a esta harmonia primordial.
As
divindades do Xintoísmo são chamadas de kami.
O termo é freqüentemente traduzido como "deus"
ou "deuses", mas representa um conceito de divindade
bastante diferente daquele apresentado pelas reiligiões
ocidentais. Particularmente, as divindades xintoístas
não possuem características de absoluta transcendência
e onipotência comunmente associadas com o conceito
de Deus no Ocidente. O kami, de uma forma mais abrangente,
é visto como algo que seja extraordinário
e que inspire admiração ou reverência.
Conseqüentemente, existe uma grande variedade de kami
no Xintoísmo: existem os kami relacionados a objetos
e criaturas da natureza, tais como o espírito das
montanhas, dos mares, dos rios, das rochas, das árvores,
dos animais e assim por diante; existem kami guardiões
de locais e clãs em particular; exitem também
seres humanos excepcionais que são considerados kami,
incluindo a longa linhagem de imperadores japoneses, exceto
o último. Finalmente, o abstrato, forças criativas
são reconhecidas como kami. Espíritos do mal
também são conhecidos no Xintoísmo,
mas apenas alguns são considerados irrecuperáveis.
Enquanto um deus pode chamar atenção primeiramente
para sua presença através de uma amostra de
comportamento atormentado ou até mesmo destrutivo,
geralmente falando, o kami é benigno. Seu papel é
de sustentar e proteger.
A
devoção no Xintoísmo é utilizada
para expressar gratidão aos deuses e para assegurar
a continuidade da graça. A devoção
pode tomar a forma de um dos grandes festivais que ocorrem
em dias determinados durante o ano, no sentido de celebrar
a plantação da primavera, a colheita do outono
e outras ocasiões especiais na história de
um santuário. No entanto, estes festivais podem ser
praticados em casa, de forma particular e bem mais discreta,
ou no santuário do bairro. Embora um festival pode
durar vários dias, diferentes contrastes de comportamento
dos praticantes, onde uns são mais solenes outros
mais fervorosos ou até mesmo barulhentos, os rituais
podem durar apenas alguns instantes para serem completados.
Mesmo observando estes contrastes, todos os tipos de devoção
no Xintoísmo possuem em comum três elementos
essenciais. Todos começam com o importante ato de
purificação, o qual é comum a utilização
de água. Em todos existem também o ato de
oferendas aos kami, através de dinheiro ou comida.
E, finalmente, em todos é feita uma prece ou um pedido.
Podemos notar que a devoção no Xintoísmo
é geralmente praticada em um santuário. Estas
estruturas, as quais são feitas de elementos naturais
e localizadas em pontos escolhidos por seus ábades
para a localização do kami ao invés
de construirem um local fechado para o abrigo dos fiéis
(como uma igreja, por exemplo).
Levando-se
em conta que o Xintoísmo não possui escrituras,
dogmas e credos, a devoção sempre foi o ponto
central desta religião. Ao invés de sermões
ou estudos, tem sido através de seus festivais e
rituais, assim como a característica física
do próprio santuário, que o Xintoísmo
vem transmitindo suas características e valores característicos.
O valor de maior destaque entre todos está o senso
de gratidão e respeito pela vida, uma profunda apreciação
da beleza e da força da natureza, um amor à
pureza e, por consegüinte, a limpeza e a preferência
pela falta de adornos e simplicidade na área estética.
Budismo
Quando
o Budismo entrou no Japão no século VI D.C.,
ela ja era uma religião mundialmente conhecida com
uma história de mais de 1000 anos de idade. A forma
de Budismo que predominou no Japão desde o início
é conhecida como Mahayana, o Budismo do Grande Veículo,
a qual trouxe consigo uma vasta biblioteca religiosa, uma
doutrina bem elaborada, um clero bem organizado e uma estonteante
tradição de arquitetura e arte sacra, ou seja,
tudo o que faltava no Xintoísmo no século
VI. Embora sua visão sobre o mundo e sobre a humanidade
tenha sido sempre diferente da xintoísta, é
importante entender que é possível encontrar
tanto diferenças como similaridades das tradições
nativas nos ensinamentos do Budismo Mahayana. Por um lado,
por exemplo, o Budismo enxergava o mundo como uma etapa
de transição ou uma fonte de sofrimento para
aqueles que permaneciam ligados a ele, ou seja, uma visão
muito contrastante com a "aceitação do
mundo" adotada pelo Xintoísmo. Por outro lado,
existia um grande otimismo no Budismo Mahayana que se aproximava
bem do Xintoísmo, um otimismo sobre a natureza humana,
onde acreditava-se que todos os seres humanos tinham o potencial
the absorvar a sabedoria que traz o fim do sofrimento e
um grande otimismo sobre o mundo em si, uma vez que os ensinamentos
dizem que quando os humanos desapegam das coisas da Terra,
o mundo passará a ter um novo e positivo significado.
Não
é de se surpreender que a princípio os japoneses
foram incapazes de gostar do Budismo do jeito que ele era.
Eles viam o Buddha simplesmente como um outro kami e foram
atraídos para esta religião pela beleza de
sua arte e a esperança de benefícios concretos
como riqueza e longevidade que, ao nível popular,
eram prometidos pelo Budismo sem nenhum desdém. Porém,
no século VII, os indivíduos capazes de compreender
as mensagens começaram a emergir. Normalmente, nós
podemos entender o desenvolvimento subseqüente do Budismo
no Japão como o resultado de constante interatividade
entre a religião estrangeira e a tradição
religiosa local. O Budismo procurou conscientemente desenvolver
uma conexão positiva com o Xintoísmo. E isto
foi eventualmente conquistado través da identificação
dos kami xintoístas como manifestações
de diversos Budas e bodhistattvas que cresceram dentro do
Budismo Mahayana. Através deste conceito, os budistas
foram capazes de introduzir muitas de suas próprias
idéias ao Xintoísmo e, por fim, argumanta-se
que o Xintoísmo e o Budismo são versões
complementares de uma mesma verdade fundamental, visão
esta que ganhou uma vasta aceitação no Japão.
O
efeito da tradição religiosa nativa no Budismo
foi trazer à tona os aspectos que mais se ajustavam
ao gosto dos japoneses. Isso pode ser ilustrado por breves
referências às três seitas budistas que
representam exclusivamente od desenvolvimentos japoneses:
Seita Shingon de Kukai (774-835), Seita Terra da Verdadeira
Pureza de Shinran (1173-1262) e a seita fundada por Nichiren
(1222-1282) conhecida por seu próprio nome. Todas
estas seitas estão vivas até hoje. A Seita
Shingon está situada na corrente principal do Budismo,
em termos de doutrina - enfatizando a transitoriedade da
natureza da existência e chamndo seus seguidores a
transcenderem o mundo comum do sofrimento - e na ampla linha
de suas práticas, as quais enfatizam a importância
da conduta ética, meditação e estudo.
No entanto, o Budismo de Shingon defende um tipo diferente
de meditação. Uma meditação
mais complexa que a tradicional que envolve o uso de alguns
gestos manuais simbólicos e discursos chamados de
mudras e mantras, assim como uma forma de arte budista connhecida
como A Mandala. A Mandala representa o universo como ele
é visto pelos iluminados e serve como objeto de meditação.
A pura complexidade da meditação de Shingon
somada com a rica simbologia e a beleza da Mandala, proporciona
a esta seita um ar de mistério que tem se provado
bastante atraente a milhões de japoneses desde a
era de Kukai até os dias de hoje.
Na
Seita Terra da Verdadeira Pureza, encontramos um tipo bem
diferente de Budismo, o qual defente a salvação
pela fé ao invés da obtenção
da iluminação através da prática
da moralidade e da meditação. Baseada na crença
de que conforme o passar do tempo os seres humanos encontram
uma crescente dificuldade de seguir o exemplo do histórico
Buda - idéia esta remanecente desde a época
da Índia - é ensinado que na presente era
a salvação pode ser adquirida apenas através
da confiança na graça salvadora do celestial
Buda Amida, que reside em uma terra pura no Ocidente. Esta
crença tem sido abraçada por outros budistas
não só no Japão, mas também
na China e Índia; mas Shinran foi a primeira seita
na história do Budismo a descrever a conclusão
radical a caeitação de tudo deve levar ao
abandonamento completo da disciplina monastérica.
Conseqüentemente, desde a época da Shinran,
tem sido comum aos sacerdotes da Seita da Terra da Verdadeira
Pureza viverem e se casarem como pessoas leigas e as seitas
têm sido um dos maiores desenvolvimentos no Japão.
Finalmente,
observamos na Seita Nichiren uma certa superficialidade
no Budismo através de uma maneira dramática,
onde o forte senso de nacionalismo tem sido frequentemente
relacionado ao sentimento religioso no Japão. Nichiren
foi uma reformista fervorosa que focava muito a si própria
e ao Japão como centro de um movimento mundial para
reviver o que eles consideravam o verdadeiro Budismo.
Estas
figuras e seitas não refletem, é claro, todas
as muitas formas nas quais o Budismo foi transformado no
Japão. Ao contrário, podemos extraír
pequenas amostras das características mais visíveis
do Budismo Japonês. Em Shingon, observamos uma forte
atração aos elemsntos místicos e misteriosos,
assim como formas estéticas de aprecisação
e expressão. Na Seita da Terra da Verdadeira Pureza,
vemos uma certa preferência por um tipo de Budismo
que pode ser seguido dentro do contexto da vida cotidiana
e na Seita Nichiren, detectamos uma consciência de
identidade nacional sempre presente. Dada a ênfase
do Xintoísmo nos rituais e figuras estáticas
dos santuários, sua orientação sobre
este mundo, e sua íntima conexão aos mitos
das origens japonesas e a linha imperial, não é
difícil de dicernir a influência da religião
nativa e o cunho dessas mudanças.
Para
referência futura
de
Bary, Wm. Theodore. "Religião Japonesa"
em Arthur E. Tiedemann, ed., "Uma Introdução
à religião japonesa", Lexington, Massachusetts:
D. C. Heath and Company, 1974. Discute o Xintoísmo
e Budismo, além de outras religiões que são
parte da tradição religiosa japonesa.
"Religião japonesa: Uma pesquisa feita pela
Agência de Assuntos Culturais", Tokyo: Kodansha
International, 1972. Veja a "Introdução"
e capítulos sobre o Xintoísmo e o Budismo.
Picken, Stuart D. B. "Xintoísmo: Raízes
Espirituais Japonesas, Tokyo: Kodansha International, 1980.
Ilustrada com fotografias.
Xintoísmo: Natureza, deuses e o homem no Japão,
um filme realizado pela Sociedade Japonesa. Exceto pela
ênfase cansativa entre as diferenças entre
o sagrado e o secular e os lugares das imagens no Xintoísmo,
é um filme útil e bonito. Disponível
na Sociedade Japonesa, 333 East 47th Street, New York, N.Y.
10017; também disponível na Biblioteca Audio-Visual
do Programa de estudos Asiátios do Oriente na Earlham
College, Richmond, Indiana 47374.
Sokyo, Ono. "Xintoísmo: O caminho do kami",
Rutland, Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1962.
Nota
do Sensei Wagner Bull:
É
interessante a visão que os ocidentais tem das religiões
orientais.
Fria e sem o envolvimento da emoção que as
caracteriza, principalmente quanto ao Shintoismo.
Escrito
por Paul Watt para a revista "Asia Society's Focus
on Asian Studies", Vol. II, No. 1, Asian Religions,
pp. 21-23, Outono 1982.
Copyright AskAsia, 1996.
Traduzido por Marco Toledo
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