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DIAS
INICIAIS O DOJO DE UESHIBA
Em 1931 Morihei Ueshiba abriu um dojo em Shinjuku, distrito
de Tóquio, dedicado à prática de uma Arte Marcial que ele
denominou Aiki-budo. O dojo ficou conhecido como Kobukan
e tornou-se famoso como um lugar de prática séria do que
era, na época, uma arte marcial revolucionária. O Kobukan
era também chamado de Ueshiba Dojo porque a arte foi criada
por Morihei Ueshiba. O fundador foi influenciado pelo seu
treino em várias artes, tais como Daito Ryu Jujitsu e pela
sua crença na religião Omoto, mas sua arte era fundamentalmente
nova. À medida que os seguidores do fundador se tornaram,
gradualmente, competentes na arte ao longo dos anos ---
também a desenvolvendo --- estabeleceram seus próprios dojos
e, dessa forma, o Dojo de Ueshiba se tornou o núcleo ou
hombu de uma solta rede de dojos, todos conectados pelo
elo pessoal entre Morihei Ueshiba e seus seguidores. Porém,
embora não houvesse organização oficial como tal, o nome
Aikikai tornou-se gradualmente usado por aqueles dojos ligados
ao Dojo Ueshiba. Morihei Ueshiba adotou o sistema de graduação
DAN usado por Jigoro Kano, no judo e isso se tornou uma
maneira de ligar os discípulos a seu mestre. Alguns discípulos
de Morihei Ueshiba foram enviados à Manchúria como parte
da expansão japonesa na Ásia e lá ensinaram Aiki-budo como
parte do currículo universitário. Okumura Shigenobu Shihan,
por exemplo, começou o estudo do Aiki-budo em 1938 quando
era um estudante da escola média em Manchukuo, o estado
montado na Manchúria pelas autoridades militares japonesas.
Seu professor foi Kenji Tomiki, um aluno de Morihei Ueshiba
dos primeiros tempos.
ANOS DE GUERRA
Durante os anos que imediatamente precederam a II Guerra
Mundial e, naturalmente, durante a II Guerra Mundial a organização
das artes marciais caiu sob o controle do governo militar
japonês. Morihei Ueshiba retirou-se para Iwama, no condado
de Ibaraji, onde se dedicou à plantar e também à busca quieta
da arte marcial e da religião Omoto. Um santuário Aiki,
dedicado à religião Omoto, foi construído em Iwama, em 1943.
Enquanto isso, o Kobukan/Ueshiba Dojo continuou, em Tóquio,
sob a direção de Kisshomaru Ueshiba, filho do fundador e
atual Doshu. Muitos da segunda geração de seguidores, por
exemplo, Sadateru Aricawa, Hiroshi Tada e o finado Seigo
Yamagushi juntaram-se, logo após o final da guerra, mas
os alunos mais velhos, tais como o finado Rinjiro Shirata,
tinham sido membros do Kobukan desde os anos 1930.
Depois da derrota do Japão, as artes marciais foram proibidas
pelas forças americanas de ocupação e este fato acrescido
das severas condições econômicas torrnaram impossível o
funcionamento do Kobukan e o daquela fazenda-dojo de Iwama,
muito difícil. Nessa época o centro real do aikido foi em
Iwama e o quartel general não voltou a Shinjuku até 1956.
Kishomaru Ueshiba tinha um emprego regular, em período integral,
até 1955 e o dojo em Wakamatsu-cho foi a residência temporária
das famílias locais que haviam perdido seus lares no bombardeio
de Tóquio.
Entretanto, Morihei Ueshiba continuou a atrair seguidores
que lutaram para continuar a prática da arte que, então,
tornara-se conhecida como Aikido. Morihiro Saito juntou-se
ao Iwama dojo em 1946. Hiroshi Isoyama juntou-se logo depois
quando ele ainda era um estudante de escola média. Outros
estudantes mais velhos como Okumura Shihan retornaram ao
dojo Ueshiba depois de serem dispensados do serviço militar.
A organização ainda era muito solta, com o Dojo Ueshiba,
em Shinjuku, sendo considerado o berço da arte e o Aiki
Santuário em Iwama, como de fato o Hombu Dojo e, como tal,
a peça central de uma associação solta de dojos Aikikai
autônomos, mais ou menos relacionados.
PRINCIPAIS MUDANÇAS
A prática regular não começou novamente no Shinjuku Dojo
até 1949. Durante os dez anos subsequentes, as difíceis
condições econômicas do período da guerra melhoraram gradualmente
e a organização do Aikido também tomou um caráter diferente.
Em diversos aspectos as mudanças foram revolucionárias e
se poderia sustentar que tiveram profundo efeito no desenvolvimento
da arte.
Primeiro, a arte deixou de ser "secreta" e tornou-se disponível
à prática de qualquer um. Um futuro praticante não precisava
recomendação de uma pessoa eminente para entrar no dojo.
De fato, até por volta de 1956, os estudantes regulares
do Tóquio Dojo gastavam muito de seus tempos indo em lugares,
tais como embaixadas estrangeiras, para fazer demonstrações
de Aikido e procurar ativamente novos membros para o dojo.
Segundo, a prática do Aikido tornou-se verdadeiramente internacional.
O próprio Morihei Ueshiba, uma vez, viajou para o exterior,
para Havai e seu filho Kisshomaru Ueshiba viajou extensivamente.
Alguns seguidores do fundador e o atual Doshu ocuparam residência
no exterior e estabeleceram aí organizações embrionárias.
Geralmente, estas organizações também usaram o nome Aikikai
e adotaram a mesma estrutura solta como a encontrada entre
as organizações Aikikai afiliadas mais antigas no Japão.
Assim, no início dos anos 1960, Nobuyoshi Tamura, Hiroshi
Tada, Katsuari Asai e Kazuo Chiba foram todos viver na Europa.
No mesmo período, Yoshimitsu Yamada e Mitsunari Kanai fixaram-se
nos Estados Unidos e Seiichi Sugano, na Austrália.
ESTRUTURA LEGAL
Outra mudança importante foi que foi dado ao Aikido um caráter
legal. A Zaidan Hojin Aikikai (Fundação Aikikai) foi criada
em 1948 e registrada na Prefeitura de Ibaraji onde o Iwama
Dojo se localiza. Na verdade, o Kobukan tem sua contrapartida
legal no Kobukai, uma fundação criada em 1940 graças aos
esforços do Almirante Isamu Takeshita, aluno de Morihei
Ueshiba. Em 1948, no entanto, havia um desejo geral de fazer
um rompimento completamente claro com o passado militar
do Japão e foi compreensível e também desejável politicamente
que a organização reconstituída devesse ser de novo estabelecida.
Como uma entidade legal, a Fundação Aikikai tinha uma constituição,
quadro de diretores e conselheiros e o Iwama Dojo tornou-se
o Hombu (quartel general) da organização. Como foi dito
anteriormente, o quartel general, de fato, voltou para Tóquio
e o Iwama tornou-se um ramo. Além disso, a graduação Dan
dada por Morihei Ueshiba e seus discípulos transformou-se
em um sistema com validação dada também pela Fundação Aikikai.
Num certo sentido esta última mudança foi problemática,
uma vez que o dan deixou de ser puramente julgamento pessoal
do mestre em relação à competência do discípulo. Algumas
graduações de alunos antigos, conferidas verbalmente pelo
fundador, nunca foram validadas pela Fundação Aikikai.
HOMBU DOJO, AIKIKAI E A IAF
O edifício situado no 17-18 Wakamatsu-cho, Shinjuku, Tóquio
é, assim, o atual centro das operações do Aikido que pode
ser subdividido em três cabeças separadas.
1. O Aikikai Hombu é denominado o quartel general
da organização legal conhecida como Fundação Aikikai, com
seu quadro de diretores e conselheiros e seu registro de
graduação dan. Nas outras partes do Japão as organizações
são chamadas Shibu (ramos). Por exemplo, o Ramo Aikikai
da Prefeitura de Hiroshima (Aikikai Hiroshima Kenshibu)
é parte da Fundação Aikikai registrada em Tóquio. O presidente
da Aikikai Hombu é Doshu Kisshomaru Ueshiba, o diretor é
Moriteru Ueshiba.
· 2. O Hombu Dojo É o lugar onde o Aikido é praticado
de acordo com os princípios estabelecidos por Morihei Ueshiba.
É o dojo-sede da rede de organizações Aikikai, tanto do
Japão quanto do exterior, estabelecida pelos seguidores
do fundador ou de seu filho e que mantém também relações
pessoais diretas com o fundador e sua família. O Diretor
Geral do Hombu Dojo é Moriteru Ueshiba, neto do fundador.
3. É a sede da Federação Internacional de Aikido
(IAF.). A Federação Internacional de Aikido foi fundada
para satisfazer a necessidade das várias organizações de
Aikido da Europa. O Aikikai Hombu concordou com a criação
da IAF e o primeiro congresso da IAF foi realizado em Tóquio,
em 1976. A maioria das organizações Aikikai filiadas existentes
no exterior se tornaram membros da IAF (segundo o critério
de uma organização por país) e, no interesse da uniformidade,
foi pedido às Aikikais estrangeiras, na época, para mudar
seus nomes para x x x x x x Aikido Federation. A Federação
All-Japan de Aikido também criada um pouco antes, tornou-se
membro da IAF pelo Japão. Nem o Hombu Dojo nem a Fundação
Aikikai são membros da IAF porque não são federação.
FILIAÇÃO À GAISF
Neste ponto, um problema delicado apareceu. O fato de a
IAF ter sido criada no Japão significou que ela foi criada
de acordo com a lei japonesa, mas a lei japonesa não levou
em consideração a existência de tais organizações internacionais,
muito embora elas tenham sido fundadas no Japão. De fato,
após muita conversa e discussão, a decisão foi procurar
membros para a GAISF (Associação Geral das Federações Internacionais
de Esportes) que é a única organização que une todas as
federações internacionais de esportes Olímpicos e não-Olímpicos
num grande corpo. A GAISF é reconhecida pelo Comitê Olímpico
Internacional do qual praticamente todas as organizações
esportivas do mundo são membro. Uma vez que a Fundação Aikikai
não é uma federação internacional, ela não pode ser membro
da GAISF e, portanto, o único membro da GAISF pelo Aikido
é a IAF., que se tornou membro em 1984. Tanto a Hombu como
a IAF estão bem cientes de que a participação do Aikido
nas federações internacionais de esporte é um tanto incomum,
pelo motivo fundamental de que não há competições no Aikido
e, dessa forma, não pode ser considerado um esporte, neste
sentido. Entretanto, é fato que alguns países criaram seus
critérios próprios para a organização e reconhecimento das
artes marciais considerando suas características próprias
e levando em conta o reconhecimento do Comitê Olímpico Nacional
ou a filiação à GAISF como condição essencial para o reconhecimento
local do Aikido. Assim, a IAF e sua filiação à GAISF é elemento
muito importante para o reconhecimento internacional do
Aikido, como é ensinado e praticado no Hombu Dojo e regulamentado
pela Fundação Aikikai.
A IAF e a USAF
____________Debate _____________
Uma resposta à Yamada Shihan Por Peter Goldsbury, Diretor
da IAF
A SAÍDA DA USAF DA IAF
Gostaria de discutir algumas das questões que o Sr. Yoshimitsu
Yamada levantou em sua entrevista com Wagner Bull na A T.M.
# 56. A entrevista foi ampla e cobriu muitos tópicos, um
dos quais foi a recente saída da USAF da IAF e isto é o
que quero discutir nesse artigo. Naturalmente, sobre este
assunto Yamada Shihan apresenta o ponto de vista da USAF,
uma vez que ele é o presidente dessa organização. Mas há
outro ponto de vista e penso que deveria ser dado às pessoas
a oportunidade de considerá-lo.
Devo declarar, desde o princípio, que sinto extremo embaraço
por ter que cruzar espadas com tal eminente shihan como
Yamada Sensei. Tenho recordações muito agradáveis das visitas
de Yamada Sensei a Boston no início dos anos setenta, quando
eu era um estudante graduado em Harvard e membro do New
England Aikikai e as festas e conversas vívidas que aconteceram
durante tais visitas no velho dojo, em Cambridge. Quando
ganhei meu shodan na Inglaterra, foi durante um seminário
de Sensei Yamada e ele foi o instrutor senior no exame de
graduação. Sinto que, num sentido real, recebi meu shodan
dele. Yamada Shihan é um dos pioneiros iniciais da divulgação
do Aikido no exterior e da criação da IAF, em 1976. Ele
foi um dos primeiros shihans escolhidos pela Aikikai Hombu
para ensinar Aikido no exterior e tem sido membro do Conselho
Superior da IAF desde a criação da federação. Ele tem, portanto,
uma posição estratégica sem igual. Naturalmente, estou consciente
de que Yamada Shihan tem opiniões sobre a organização do
Aikido e que essas opiniões são fortemente defendidas. Provavelmente,
elas são também compartilhadas por outros shihans residentes
nos Estados Unidos.
Então, quando discordo dessas opiniões, espero que seja
entendido que o desacordo é acompanhado, em igual medida,
de respeito pelas opiniões defendidas e por aqueles que
as defendem.
Antes de discutir a entrevista de Yamada Shihan em detalhe,
penso que ajudará especificar algumas questões importantes.
Algumas delas são tratadas na entrevista, mas outras não.
As pessoas que não conhecem a IAF ou os problemas que as
organizações de Aikido enfrentam devem manter em mente estas
questões no decorrer da discussão.
a) A estrutura do Aikido como organização
Penso que é importante compreender que a essência do
Aikido como um complexo, mas verticalmente estruturado relacionamento
entre mestre e estudante, nunca poderá ser perfeitamente
incorporado numa organização de Aikido de qualquer tipo,
seja a Aikikai Hombu, a USAF ou a IAF. É claro que o Aikido
começou como um grupo de indivíduos atraídos pela visão
e poder extraordinários do Fundador, Morihei Ueshiba. Porém,
muito cedo em sua história, o Aikido no Japão foi tomando
a forma de uma organização e quando a arte marcial espalhou-se
além dos limites do Hombu e especialmente fora do Japão,
organizações também foram criadas que tomaram os padrões
característicos da cultura anfitriã. Então, falar de Aikido
simplesmente como um relacionamento vertical de indivíduos
com um mestre é uma excessiva simplificação da arte marcial
e seu desenvolvimento. Quando falamos de Aikido, falamos
também de organizações, de "escolas" e até de "políticas"
de Aikido. Isto é inevitável.
b) O papel da IAF
Considero que desde sua criação em 1976 a IAF tem tido algum
sucesso desempenhando um papel muito importante. Seu principal
objetivo tem sido possibilitar um meio de comunicação entre
mais de 40 organizações de Aikido de culturas extremamente
diferentes. Penso que, dado como é a natureza humana, o
aparecimento de desacordos e disputas e suas resoluções
é uma parte fundamental desta comunicação mútua e uma vez
que as federações membro são iguais, a comunicação tem que
ser desenvolvida de maneira democrática. Um corolário disto
é que tais federações de Aikido podem juntar-se ou deixar
a IAF, se desejarem. Lamento muito que a USAF tenha decidido
deixar a IAF e espero que a federação retorne. Porém, o
fato de que a USAF foi capaz de apresentar seu caso, ter
a questão debatida e decidida de forma democrática e, então,
agir, é uma das forças da IAF, não uma fraqueza.
A USAF foi criada como uma das federações fundadoras da
IAF e tem suas próprias características especiais. Mas penso
que um ponto importante sobre o qual eu tenho que discordar
de Yamada Shihan é que a USAF parece esperar que todas as
outras federações da IAF aceitarão a visão "americana" da
IAF. Considero que o principal valor da IAF é que ela é
uma federação que respeita a integridade e soberania de
todos os seus membros.
Uma das principais funções da IAF é ser um forum de comunicação,
como sustentarei mais adiante. Penso que dois níveis separados
de comunicação são algumas vezes confusos. Uma é a comunicação
das federações de Aikido entre elas; e outro, é a comunicação
das pessoas, Shihans como o Sr. Yamada, com a Hombu Aikikai.
Penso que há uma diferença fundamental entre os dois. A
comunicação das organizações de Aikido entre elas é um dos
objetivos importantes da IAF e penso que este objetivo não
está em questão. No entanto, com frequência, funcionários
da IAF são chamados para ser intermediários entre os shihans
de Aikido e a Hombu. Isso é um assunto bastante diferente.
Porque os dois níveis de comunicação são algumas vezes confusos,
sinto que a IAF, algumas vezes é criticada por problemas
de comunicação sobre os quais ela não tem controle.
c) O futuro do Aikido como Arte Marcial
Levantar este assunto é, de alguma forma, quebrar um tabu
uma vez que requer olhar o Aikido após a era do atual Doshu
e de Shihans como o Senhor Yamada a quem o Doshu nutriu
e de Moriteru Ueshiba, seu sucessor. Dias virão quando o
desenvolvimento do Aikido estará nas mãos de pessoas que
não tiveram contato com o fundador ou qualquer de seus sucessores.
No Japão, o relacionamento sempai-kohai, verticalmente estruturado,
que permeia a sociedade em geral, assegurará que os estudantes
de Aikido estabelecerão algum relacionamento vertical com
um ou outro. Mas esse elemento da tecido social está gradualmente
extinguindo-se no Japão, à medida que o país adota, cada
vez mais, os valores ocidentais e, assim, se esse relacionamento
será tão produtivo no futuro como foi quando o Aikido foi
criado e desenvolvido, é outra questão.
O ponto que estou tentando levantar é que eu e muitos outros
de minha geração consideramos shihans como Saito, Yamaguchi,
Tada, Tamura, Yamada, Isoyama, Chiba, Sugano e outros como
verdadeiros titãs do Aikido, que tiveram um contato direto
com o Fundador. Eles são, até certo ponto, como os apóstolos
no início da Igreja Católica. Eu comecei o Aikido no ano
em que O-Sensei morreu e, portanto, nunca tive a chance
de passar pelo que Yamada Sensei experimentou: um tipo de
batismo de fogo nas mãos do Fundador. No entanto, estou
muito feliz de ter podido praticar sob a direção destes
gigantes. Como os heróis de Homer, eles tem realizado grandes
feitos. Mas a era deles está terminando. Eles passarão e
logo não haverá diferença entre os shihans de Aikido surgidos
no Japão e aqueles surgidos no exterior. Isto também significa
que a enorme represa de boa vontade geral, construída em
torno da Hombu e seus shihans japoneses gradualmente evaporará,
a menos que a Hombu possa encontrar uma maneira de transmitir
para as futuras gerações o autêntico "carisma" de O-Sensei.
Penso que a IAF tem a responsabilidade de assistir o Hombu
fazer isto, da forma que puder, como uma maneira de assegurar
que o Aikido não siga o caminho do Judo e do Kendo e torne-se
um esporte totalmente ocidental.
A ENTREVISTA COM YAMADA SHIHAN
Em sua entrevista o Senhor Yamada faz um certo número de
comentários gerais sobre a IAF e eu gostaria de comentá-los.
Concluirei com algumas observações gerais sobre as circunstâncias
que envolvem a retirada da USAF.
Por que a USAF saiu da IAF?
"Colocado de forma simples, estávamos enjoados e cansados
da IAF e suas ações. A IAF, na sua forma atual, é desnecessária".
(entrevista na ATM, pag. 09)
Tenho que discordar dessa opinião por várias razões:
Primeiro, a IAF tem provido um forum no qual as organizações
de Aikido filiadas à Aikikai podem se encontrar amigavelmente
e discutir assuntos de interesse comum. A percepção do Senhor
Yamada a respeito dos congressos sugere que estas ocasiões
são sempre momentos de disputas, mas isso não é verdade.
Com certeza, os congressos tem sido ocasiões para disputas,
mas disputas sempre tem ocorrido no mundo das artes marciais
(e o Aikido não é exceção). Falar de Aikido como apenas
sendo uma questão de paz e harmonia é uma distorção não
só da história e natureza da arte marcial, como também de
sua estrutura organizacional atual. Não há razão para pensar
que não ocorrerão disputas nos encontros internacionais
e os congressos da IAF tem sido sempre ocasião para discussão
muito amigável (deve-se admitir, às vezes, patentes antipatias)
entre os participantes. Penso que é injusto escolher os
congressos da IAF para crítica pessoal. Dada a atual estrutura
das organizações de Aikido (sobre a qual terei algo mais
a falar abaixo), penso que haverá sempre a necessidade de
mais discussão formal e informal com base na igualdade.
Esta necessidade, à propósito, não pode ser encontrada pela
Aikikai Hombu, que é essencialmente uma organização estruturada
verticalmente e preparada apenas para a comunicação de cima
para baixo.
Segundo, a IAF tem fornecido um meio pelo qual aikidoístas
do mundo todo podem se encontrar e praticar a arte juntos
sob a direção de professores de alta graduação, diretamente
filiados à Aikikai Hombu. Um curso de treinamento internacional
tem se realizado em cada congresso da IAF e, acredito, que
foi o próprio Senhor Yamada que sugeriu, no primeiro congresso
da IAF que ela organizasse tais cursos de treinamento para
cobrir os custos da IAF.
Um bom exemplo de tais seminários aconteceu no último congresso
da IAF, realizado em Katsuura, Japão, no qual várias centenas
de aikidoístas se juntaram durante uma semana de treinamento.
A maioria desses aikidoístas não eram delegados no congresso
e só vieram para as sessões de treinamento. Foi uma excelente
oportunidade para os aikidoístas de todo o mundo se encontrarem
e praticarem e nós pretendemos repetir esse formato no 8º
congresso da IAF a ser realizado em 2 000, também no Japão.
Naturalmente, qualquer organização de Aikido pode realizar
cursos internacionais de treinamento, mas o propósito fundamental
da IAF e sua estreita relação com a Aikikai Hombu dá à federação
um status (posição) singular no Aikido internacional. Os
congressos da IAF são sempre ocasião para cursos de treinamento
dados por um grande número de shihans de alta graduação
vinculados à Aikikai Hombu.
Quero salientar este fato porque, o que quer mais que a
IAF faça, um de seus objetivos, com certeza, é possibilitar
que aikidoístas do mundo todo se encontrem e pratiquem uns
com os outros sob a direção de professores de Aikido de
alta graduação. Penso que esse é um objetivo sobre o qual
ninguém, nem mesmo a USAF, discordará.
Terceiro, a IAF tem fornecido um forum de discussão
sensata entre as organizações de Aikido e os shihans japoneses
filiados à Hombu que residem fora do Japão. Os shihans japoneses
que moram no exterior precisam, de vez em quando, discutir
problemas específicos que encontram e a IAF é um forum adequado
para estas discussões, uma vez que a Aikikai Hombu está
sempre representada nesses encontros. No entanto, não é
sua função principal, a IAF também fornece um meio de comunicação
para tais shihans e a Aikikai Hombu.
Eu realmente não sei se tais canais de comunicação existem
fora da IAF, mas estou certo de que há necessidade de tal
comunicação. Freqüentemente, em minhas viagens a vários
países, tenho conversado com shihans japoneses e algumas
vezes eles me dizem com veemência: "Você tem que falar com
a Hombu sobre tal e tal problema. Eu não posso fazê-lo por
causa da minha posição (isto é, como shihan japonês). Mas
você pode (isto é, não japonês --- e portanto não comprometido
com as convenções japonesas --- e não um shihan indicado
pela Hombu), você está em uma posição que permite se aproximar
da Hombu diretamente e contar-lhe sobre nossas preocupações".
Alguns leitores podem pensar, pelo parágrafo acima, que
tenho sido culpado de discriminação racial, por ter mencionado
apenas os shihans japoneses em suas relações com a Aikikai
Hombu. Não pretendo desrespeitar os shihans não japoneses
Quando digo que o problema de comunicação deles com a Hombu
nunca apareceu: eu realmente penso que essa comunicação
não existe, pelo menos formalmente. Uma rápida olhada na
lista de shihans no exterior fornecida pela Hombu no seu
guia anual do Aikido no Japão, por exemplo, mostra que não
há não japoneses na lista (muito embora o Sr. Christian
Tissier, por exemplo, que é o responsável técnico de uma
grande organização na França, tenha a graduação de 7º Dan).
Novamente, gostaria de enfatizar que os Conselheiros Técnicos
da IAF, que são indicados pela Hombu, têm a missão de manter
contato próximo com pessoas de qualquer nacionalidade, atribuída
pela Fundação Aikikai para ensinar Aikido fora do Japão.
Quarto, e muito importante, a IAF tem, através de
seus congressos e outros encontros, fornecido um meio de
comunicação estruturado entre as organizações de Aikido
e a Aikikai Hombu. A estrutura vertical do Aikido não fornece
canal de comunicação entre federações e a Hombu. Uma vez
que a Aikikai Hombu se propõe a ser a fonte da verdade e
da sabedoria do Aikido, é muito difícil para a Hombu estabelecer
relações de igual termo com as federações de além mar. Essa
necessidade só pode ser detectada por uma organização que
seja estruturada horizontalmente, na qual os membros possam
se encontrar sob a base da igualdade.
Por isso, a IAF tem se tornado, corretamente, um forum para
a discussão de importantes questões que afetam o Aikido
e eu não vejo razão para que não deva continuar. Quero sublinhar
o fato de que não há conflito intrínseco entre arte marcial
estruturada verticalmente (com a Hombu no topo) e uma estrutura
baseada na horizontalidade de organizações dessa arte marcial
numa federação como a IAF. É fato que o Aikido mundial tem
uma certa estrutura organizacional. Há uma ou muitas organizações
em vários países ao redor do globo e estas organizações
têm uma estrutura que reflete suas histórias, suas culturas
ou ambas. As coisas poderiam ter sido diferentes, mas assim
é como têm funcionado. No âmbito internacional, o método
mais bem provado para as organizações é formar uma federação
que funcione segundo um modelo democrático, isto é, com
um método justo de representação e decisão. Com certeza,
poderíamos ter uma IAF inteiramente dirigida por shihans,
mas não estou convencido de que isso seria uma melhoria
na situação atual. Porém, também é verdadeiro que os praticantes
de Aikido, mesmo os que são delegados nos congressos da
IAF, são aikidoístas que têm, ou deveriam ter, uma vida
de prática do Aikido numa relação vertical com seus professores.
Não deveria haver nunca nenhum conflito entre que ações
tomariam sobre o tatami, quando praticam com seus parceiros
e que ações tomariam num congresso, quando se relacionam
com seus colegas delegados.
Quinto, através de suas federações membro a IAF
tem ajudado a semear as sementes do Aikido no novo solo:
introduzir e espalhar a arte nos países onde ela não existe.
O crescimento fenomenal do Aikido tem sido devido, em grande
parte, à Shihans como o Sr. Tamura e o Sr. Yamada, que foram
para o exterior como pioneiros e espalharam o Aikido na
Europa e nos Estados Unidos da América. Seus esforços foram
feitos antes da criação da IAF, mas desde 1980 tem havido
uma maior expansão do Aikido na Europa Oriental e na Ásia,
especialmente nos países da antiga União Soviética. Muito
do crédito por essa expansão deve ser atribuído primeiro
à IAF.
O Conselheiro Técnico, Masatake Fugita Shihan, foi assessorado
por considerável suporte financeiro e moral da Federação
Européia de Aikido (EAF) que foi a primeira federação continental
formada por membros da IAF. Nos últimos anos Figita Shihan
tem feito diversas visitas anuais para ensinar Aikido e
eu espero que esses esforços logo darão frutos e um grande
número dessas federações juntem-se a IAF. Sexto, a IAF estabeleceu
contato com várias corporações oficiais de esportes e mostrou,
assim, o Aikido em lugares onde os riscos da arte foram
mal entendidos devido ao fato de não realizar competições.
Em 1984, com a benção do Doshu e da Aikikai Hombu, a IAF
tornou-se membro da GAISF (em inglês: Associação Geral das
Federações Internacionais de Esportes; na França a sigla
é AGFIS, que significa Associação Geral das Federações Internacionais
Esportivas). A GAISF/AGFIS é a organização que congrega
todos os esportes, olímpicos e não olímpicos. É basicamente
uma organização "entre amigos", talvez algo como Yamada
Shihan quer que a IAF se torne, mas sem os cursos de treinamento.
Grandes esforços são feitos para respeitar a integridade
e independência de todos os membros, assim nenhuma decisão
vital é jamais tomada sobre qualquer questão moral fundamental
e os congressos tendem a ser ocasiões para bajulação e troca
de chavões vazios sobre o esporte como uma família, etc,
etc.. Os delegados nos congressos da GAISF encontram-se
"ombro a ombro" com pessoas como o Sr. Samaranch (IOC) e
o Sr. Havelange (FIFA). A IAF não tem influência bastante
para causar impacto na GAISF (não há Aikido Olímpico e nem
copa do mundo de Aikido) e não planeja tentar. No entanto,
permanece o fato de que a filiação à GAISF confere um tipo
de reconhecimento internacional tanto à Aikikai Hombu como
às federações membro e, na minha opinião, essa é a razão
principal por que a IAF é um membro, embora ela não realize
competições e nunca realizará.
Parece haver duas visões sobre o Aikido e outras federações
de esporte. Uma visão diz "nunca os opostos devem se encontrar".
De acordo com esta visão, o Aikido, interpretado e disseminado
no exterior pela Aikikai, arrisca-se à séria contaminação
associando-se a organizações de esportes, ou mesmo outros
grupos de Aikido que, supostamente, desviaram-se do Caminho
Único Verdadeiro. A outra visão diz que o Aikido --- e com
certeza a IAF ---- está vivendo no mundo real e tem que
ter relações com as organizações de esportes. É bastante
possível para uma federação como a IAF pertencer a uma organização
mundial de esporte sem tornar-se corrompida. Pensar, por
outro lado, trai uma extraordinária falta de fé na arte
marcial e naqueles que a praticam. A questão é apenas de
conveniência: é do interesse do Aikido pertencer a tais
organizações?
Finalmente, o status da IAF como uma federação internacional
reconhecida tem permitido às federações membro ganhar o
reconhecimento de suas próprias autoridades governamentais.
Nem todos os membros precisam desse reconhecimento, mas
alguns sim. Este é um fator crucial na existência da IAF
e um daqueles que, de forma alguma, é tocado na entrevista
de Yamada Shihan. Eu posso pensar num grande número de organizações
membros da IAF que tem que pertencer a uma federação internacional
para poder ter o Aikido oficialmente reconhecido em seus
próprios países. Sem tal reconhecimento a organização não
pode usar as instalações esportivas ou ser qualificada para
seguro etc.. Até a Aikikai Hombu é reconhecida, no Japão,
apenas pelo Ministério de Educação japonês. A Aikikai pretende
ser uma organização mundial, mas não é reconhecida fora
do Japão. Assim, a existência da IAF é de algum benefício
para a Aikikai.
Pelo que sei o governo dos Estados Unidos não impôs qualquer
condição às organizações de esportes e o Aikido bem como
as outras artes marciais podem nascer e morrer sem nenhuma
interferência governamental. Nem o governo americano "reconhece"
as organizações de artes marciais. Todos são livres para
fazer o que gostam. Em outros países a situação é bastante
diferente. Sei que diversas federações filiadas à IAF receberam
reconhecimento oficial de seus governos somente por serem
membros da IAF e, dessa forma, eram indiretamente membros
da GAISF. Suas relações com a Aikikai Hombu contou pouco.
Qual a relação entre a IAF e Doshu Kisshomaru Ueshiba?
"Doshu é o presidente da IAF ; esta é a ligação. Porém,
a IAF quer funcionar como uma organização completamente
separada do (Aikikai) quartel general..."(Entrevista ATM,
pp 9-10).
Não é uma questão de querer, mas uma questão de fato real.
Apesar do presidente da IAF ser Doshu, a IAF é uma organização
completamente separada da Hombu e sempre foi. Naturalmente
a Hombu indica certos funcionários da IAF e o Senhor Yamada,
como um membro do Conselho Superior, é um desses casos.
No entanto, a direção da IAF está nas mãos de pessoas eleitas
pelos membros e estas pessoas têm apenas uma conexão indireta
com a Hombu. Por exemplo, eu me tornei membro da Hombu quando
recebi a graduação de Shodan dada pelo Doshu. Mas não sou
membro da Hombu por ser diretor da IAF. O Secretário Geral,
Sr Hiroshi Somemiya, era membro do departamento internacional
da Hombu, mas desligou-se desse trabalho ao tornar-se Secretário
Geral. Há diversas razões por que a IAF é uma organização
separada da Hombu.
a) A IAF não é uma federação de indivíduos, mas de organizações.
Naturalmente, o Aikido é sobre indivíduos e seus práticas
diárias com seus professores, mas é também sobre as organizações
que estes indivíduos e professores criam. Algumas destas
organizações tem uma história muito longa. Por exemplo,
a Federação Britânica de Aikido (B.A.F.) foi originalmente
chamada Aikikai da Grã Bretanha (AGB) e sua origem é anterior
à chegada do Sr. Kazuo Chiba na Inglaterra, em 1962. (Os
leitores da ATM poderiam gostar de lembrar a entrevista
com o Sr. Ken Williams, que estabeleceu a primeira organização
de Aikido da Bretanha). Quero frisar que a organização foi
formada por aikidoístas britânicos e quando a BAF estabeleceu
uma estrutura legal, foi organizada de acordo com as convenções
legais britânicas. A IAF é uma federação de organizações
de Aikido independentes, soberanas como a BAF e tem de respeitar
a integridade cultural de todos os seus membros.
b) Como sugeri acima, a Aikikai Hombu é organizada de acordo
com o princípio "vertical", visto, por exemplo, na graduação
Dan. Qualquer um que olhe a lista oficial ou mesmo as publicações
da Aikikai verá que a graduação Dan forma um princípio guia.
Esta estrutura vertical reflete a dimensão da cultura japonesa
do Aikido, composta, como é, de indivíduos numa relação
mestre-discípulo. Esta é uma forma mais intensa e organizada
de relação verticalmente organizada entre Sempai e Kohai
(Seniors e juniors), que domina a sociedade japonesa como
um todo. No entanto, uma federação de organizações de âmbito
mundial pode nunca ter esta estrutura. Porque todas as federações
membros são iguais, como membros, ela tem que ser organizada
como todas as federações internacionais, numa linha "horizontal"---
democrática. Mesmo se a IAF fosse reorganizada do modo que
Yamada Shihan sugeriu, ela ainda teria que ser organizada
como uma federação, numa linha democrática.
c) Uma vez que a estrutura das organizações de Aikido seguem,
usualmente, o princípio "horizontal" de igualdade, tem de
ser encontrada uma maneira de combinar a estrutura vertical,
mestre-discípulo, com a estrutura horizontal, democrática.
Este problema afeta não só a IAF, mas qualquer grupo de
Aikido que não seja apenas um pequeno grupo de discípulos
reunidos em torno de um professor. Todos os participantes
das reuniões da IAF são aikidoístas que, deve-se concordar,
entendem a necessidade de equilibrar as reivindicações de
colocar suas opiniões com as exigências da relação vertical,
mestre-discípulo. As experiências de congressos da IAF do
Senhor Yamada, com todos os argumentos e disputas, sugere
que esse delicado equilíbrio nem sempre é alcançado. (Em
relação a Yamada Shihan, penso que o fato de que os participantes
das reuniões da IAF têm o dever de representar suas organizações
e expressar suas opiniões claramente, nem sempre é entendido
por alguns shihans). A IAF tem que funcionar de um modo
formal estritamente democrático, mas espera-se que os delegados
e outros participantes dos congressos se lembrem que participam
também da relação mestre-discípulo e ajam apropriadamente.
A Federação de Aikido dos Estados Unidos (USAF) deixou
a Federação Internacional de Aikido (IAF), mas o Senhor
permaneceu na IAF como indivíduo. Por que o Senhor decidiu
fazer isto?
"Não foi minha escolha. Sou membro do Conselho Superior
da IAF --- uma posição para a qual fui indicado, como indivíduo,
pelo Doshu"(ATM , entrevista, p.9).
A USAF supre diversos membros ao corpo administrativo da
IAF. Yamada Shihan é membro do Conselho Superior desde que
a IAF foi fundada e Mike Abrams e Harvey Konigsberg, ambos
eternos membros da USAF, têm sido também membros desse corpo.
No entanto a USAF também se supriu diretamente de membros
eleitos do Comitê Diretor da IAF. Don Shimazu, do Havai,
foi Vice-Presidente da IAF, como também Tohei Akira Shihan,
do Centro de Aikido do Meio-Oeste, em Chicago.
Quando a USAF deixou a IAF, minha reação imediata foi a
de que Yamada Shihan deveria renunciar de sua posição como
membro do Conselho Superior da IAF, que ele é bastante capaz
de exercer. Senti que sua posição era insustentável. Mas
este modo de pensar pode também ser visto como estreito
e "Ocidental'. Como Yamada Shihan coloca em sua resposta
acima, ele foi indicado como membro da IAF. Membro do Conselho
Superior como indivíduo e estou bastante seguro que, como
japonês, Yamada Shihan se sentiria muito desconfortável
em renunciar a uma posição que o Doshu pediu a ele para
ocupar. Desde que a USAF deixou a federação, Yamada Shihan
está livre da obrigação de ter que usar dois chapéus nos
congressos da IAF e sentir que ele deve sempre salvaguardar
os interesses da USAF. Assim, espero ansioso suas futuras
contribuições à IAF como um verdadeiro "Sensei Internacional",
sem ter que preocupar-se com qualquer obrigação de representar
qualquer interesse particular.
A USAF E A IAF
O modo democrático pelo qual a IAF é organizada é uma das
razões pelas quais a USAF retirou-se da federação. Na superfície
a questão é bastante simples mas diz respeito a uma questão
fundamental relacionada à estrutura da IAF e provavelmente
à estrutura do Aikido no exterior, em geral. O problema,
que apareceu num dos congressos iniciais da IAF, centra-se
na seguinte questão: a IAF deveria ser um corpo composto
das assim-chamadas organizações "nacionais" (porém este
termo está definido), ou a federação deveria ser de grupos
de Aikido (porém estes estão definidos)? A USAF sente que
as condições para tornar-se membro da IAF são restritivas
demais, baseadas, como são, no regulamento de que somente
uma organização reconhecida pela Hombu Aikikai, em qualquer
país, pode ser membro e gostaria que a IAF mantivesse suas
portas abertas a qualquer organização seja ela reconhecida
ou não pela Aikikai.
Penso que a questão foi primeiro discutida anos atrás em
1984 e a proposta da USAF foi debatida nos dois últimos
congressos da IAF. Em ambas as ocasiões a proposta foi rejeitada.
No 7º congresso da IAF, realizado em Katsuura em 1996, o
delegado da USAF apresentou o pedido de sua federação e
completou que a USAF se retiraria da IAF se ele não fosse
aceito. A proposta foi colocada em votação e foi firmemente
rejeitada. No meu entender, a USAF então não tinha outra
escolha senão retirar-se. Porém, eu sei que algumas federações
da IAF ficaram bastante zangadas com o que perceberam como
tentativa de chantagem da USAF. Elas sentiram-se vítimas
de uma brincadeira de valentão. Uma vez que os estatutos
da IAF ainda estavam em processo de revisão, o sentimento
geral era o de que teria sido melhor olhar a versão final,
antes de dar tal passo drástico como deixar a federação.
(A USAF propôs também, no congresso de Katsuura, que o trabalho
de revisão dos estatutos da IAF deveria parar. Esta proposta,
também, foi firmemente rejeitada).
A questão das organizações de Aikido é importante e complexa.
A atual estrutura da IAF pressupõe que há organizações nacionais
de Aikido, tal como a USAF, mas que somente uma pode ser
membro da IAF. Está claro que este método de organização
pode ser visto como injusto, de alguma forma, tal como está,
uma vez que penaliza outras organizações do país que podem
querer se juntar a IAF, mas não podem. Uma federação de
grupos deveria permitir muito mais organizações se juntarem
a IAF, porém removeria também qualquer necessidade de organizações
nacionais como tal, já que elas seriam organizadas verticalmente
em torno do shihan. Isto não é uma coisa má em si, naturalmente,
mas uma conseqüência é a de que removeria a necessidade
de federações como a USAF. Por exemplo, Yamada Shihan pode
(hipoteticamente) querer afiliar não apenas os dojos que
pertencem ao New York Aikikai, ou o setor ocidental da USAF,
mas também aqueles dojos da América do Sul que têm um relacionamento
com ele como professor. Um nome melhor para tal organização
seria Yamada Aikikai,, uma vez que ele é a razão de ser
da organização.
A crítica feita diversas vezes de que os membros da IAF
não entendem as razões pelas quais é suposto que eles votem
nos congressos da IAF - e especialmente a razão que guiou
a retirada da USAF ---- penso que é completamente infundada.
A questão tem sido debatida na IAF por muitos anos e diz
respeito diretamente a situação real dos membros da IAF
em seus próprios países. Não posso acreditar que estes membros
ainda não entendam os motivos envolvidos.
Outra crítica tem sido feita de que os membros da IAF tem
um direito adquirido de manter o status-quo, uma vez que
eles são de organizações com filiação à IAF. Esta crítica
está, algumas vezes, casada com uma outra, ou seja, de que
as pessoas procuram usar a IAF para seus próprios propósitos,
tornando-se funcionários da IAF pelo poder e prestígio que
dará a eles em seus próprios países. Esta crítica é mais
insidiosa, pois sugere que os delegados da IAF não aprenderam
nada de nada de seus anos de treino de Aikido. A crítica,
no entanto, pressupõe que a filiação à IAF vale à pena ter
e segurar , mas parece considerar pouco o fato de que aikidoístas
que são delegados da IAF são capazes de tomar decisões sábias.
Penso que o Aikido não é uma panacéia moral para as doenças
do mundo e estou certo de que a IAF não está na posição
de julgar as credenciais morais de suas organizações membros
e delegados. Deve-se presumir ---- como qualquer outra organização
similar teria que pressupor ---- que seus membros e delegados
agem no melhor interesse das federações membros e da IAF
como um todo e sentem que a vantagem comum das federações
é realmente mais importante do que aquela da soma total
de suas partes..
Em relação ao real motivo que guiou a retirada da USAF,
não posso expressar uma opinião, de qualquer forma. A estrutura
da IAF como uma organização baseada em organizações nacionais
não é algo gravado em pedra e não há, intrinsecamente, nada
errado com uma federação baseada em grupos. Não há um consenso
claro a respeito deste assunto, seja na IAF, seja na própria
Aikikai e como diretor da IAF eu certamente não posso, da
mesma maneira, forçar o Congresso decidir a questão.
Desde o congresso de 1984, o congresso da IAF tem agido
cada vez mais como um corpo democrático e menos como um
tipo de cortejo ---- e não tenho intenção de interferir
neste processo. As sessões tem sido sempre presididas pelo
diretor e as decisões tem sido tomadas por chamada, levantar
as mãos ou por cédula de votação.. Em particular, os funcionários
da IAF são eleitos por voto secreto. Os membros são livres
para expressar seu desacordo sobre qualquer questão e comumente
o fazem, algumas vezes bastante firmemente.
De tudo que foi dito, espero que qualquer debate futuro
entre a USAF e a IAF possa ser conduzido numa atmosfera
justa e cordial. Yamada Shihan afirmou na entrevista que
os congressos da IAF tem sido devotados a "casos internos
e disputas entre os países europeus". Como afirmei acima,
minha própria lembrança é um pouco diferente. De fato, nos
últimos congressos, muitas das disputas foram entre Yamada
Sensei e eu (e não me surpreenderia se esta situação continuar).
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE AS ORGANIZAÇÕES DE AIKIDO
por Peter Goldsbury, Diretor da IAF
A retirada da IAF de uma de suas federações membro tem sido
ocasião para muita discussão pessimista sobre o futuro da
federação. Penso que a ocasião oferece uma oportunidade
para fazer um balanço do que a IAF realizou e também refletir
sobre suas futuras tarefas . Não penso que a IAF falhou
como uma organização internacional de Aikido. De fato, acredito
que ela pode reivindicar diversas conquistas notáveis.
CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS
Primeiro, desde sua fundação em 1976, a IAF tem fornecido
um meio pelo qual aikidoístas de todo o mundo podem se encontrar
e praticar a arte sob a direção de professores de alta graduação,
especialmente aqueles que tem uma conexão direta com a Aikikai
Hombu.
Segundo, a IAF tem fornecido um forum no qual as
organizações de aikido filiadas a Aikikai podem se encontrar
num espírito de camaradagem e discutir assuntos de interesse
comum.
Terceiro, ela tem fornecido um forum para discussão
racional entre estas organizações de Aikido e os shihans,
japoneses e não-japoneses, que são filiados a Aikikai Hombu
e residem no exterior.
Quarto, e muito importante, a IAF, através de seus
congressos e outros encontros, tem fornecido um meio de
comunicação oficial entre as organizações de Aikido e a
Aikikai Hombu.
Quinto, através de suas federações membro e especialmente
através de sua federação continental européia, ela tem ajudado
a semear as sementes do Aikido no novo solo: a introduzir
e espalhar a arte em países onde antes não existia.
Sexto, a IAF tem se engajado em contatos oficiais
com várias organizações internacionais de esportes e tem,
então, mostrado o Aikido em lugares onde os riscos da arte
foram mal entendidos, uma vez que ela não realiza competições
e não é, então, um esporte neste sentido comumente reconhecido.
Finalmente, o status da IAF como uma federação internacional
reconhecida tem habilitado algumas de suas federações membros
a obter o reconhecimento de suas próprias autoridades governamentais.
Nem todos os membros necessitam deste reconhecimento, mas
um número significativo precisa.
Quando a IAF é mencionada em algumas centrais (local de
onde se espera que venha algo), um ar de desesperança desce,
algumas vezes, na discussão e eu me pergunto, como diretor,
o que vai acontecer com a federação. Com certeza ela continuará
--- deve continuar --- e espero, continuará a florescer.
Penso que a IAF é uma organização pioneira em muitos aspectos.
É uma tentativa de fazer algo nunca antes tentado, ou seja,
ser uma federação em âmbito mundial que combina dois padrões
de organização distintos: um padrão estruturado verticalmente,
uma vez que o Aikido é uma arte marcial; e um padrão estruturado
horizontalmente, uma vez que a IAF é democrática. Entretanto,
o objetivo fundamental da IAF é também conservar, ou melhor,
proteger a essência original da arte marcial. Mais ainda,
a IAF é uma organização que provavelmente ainda não alcançou
a forma mais conveniente para suas metas e objetivos. Certamente,
a atual estrutura organizacional não é algo gravado em pedra.
Porém, o fato de que muitas organizações de Aikido querem
se juntar a IAF, apesar da partida recente de um membro
e ao fato de que há muita discussão, e mesmo vigoroso argumento,
sobre que forma a IAF deveria ter, em minha opinião, não
pressagia sua morte iminente. Ao contrário, é um sinal de
saúde e vigor --- e uma razão para otimismo. Com certeza,
algumas pessoas querem resultados rápidos e se esses resultados
não vêm já, eles imediatamente concluem que não há futuro
para a federação. Penso que esta atitude é sinal de visão
curta.
Mais do que condenar de pronto a IAF por falhar em conformar-se
a certas idéias preconcebidas, penso que há uma necessidade
de algumas reflexões sérias sobre os problemas que o Aikido
enfrentará e especialmente a Aikikai Hombu, no próximo século.
Acredito que quanto mais não-japoneses ganharem alta graduação
e tornarem-se shihans de Aikido, o equilíbrio, inevitavelmente,
se deslocará do Japão para o resto do mundo. Tornar-se-há
mesmo mais essencial que agora ter uma organização internacional
capaz de suportar o crescimento do Aikido ao mesmo tempo
que conserva sua herança japonesa essencial. Encontrar uma
estrutura organizacional apropriada, que é ---- como o aikidoísta
ideal --- bem centrada, equilibrada, flexível mental e fisicamente
e possuidora de certa sabedoria prática não é algo que pode
ser alcançado rapidamente.
Naturalmente, a Aikikai Hombu é uma organização japonesa
e, penso, não é possível discordar da tese geral de que
organizações japonesas tendem a funcionar de forma diferente
daquelas do "oeste". Se a diferença se centra apenas em
autocracia vs. democracia é uma ponto discutível. Penso
que há muito mais que isto. A sugestão de que as organizações
no Japão, especialmente as organizações de arte marcial,
tendem a ser autocráticas, enquanto no oeste tendem a ser
democráticas, pode ser esclarecedor para aquelas que realmente
têm pouco entendimento da cultura japonesa, mas ignorará
aquilo que é importante para o entendimento apropriado do
real desenvolvimento e existência da estrutura organizacional
do Aikido. O perigo em fazer a distinção acima é o de que
ele adota um modelo simplista (organizações japonesas =
autocracia, organizações ocidentais = democracia) e , então,
conclui que a IAF não cabe neste modelo e assim de alguma
maneira falha. Penso que a questão básica face à IAF não
é simplesmente se sua estrutura organizacional é democrática
ou autocrática, mas, ao contrário, que tipo de metas e estrutura
teria, ou qualquer outra organização de Aikido trans-cultural,
e como estas metas podem ser realizadas. A estrutura da
organização é apenas um dos problemas com que se deparam
as organizações de artes marciais contemporâneas.
O surgimento do movimento Olímpico com sua ênfase corrente
no televisivo, atrativo visualmente, esportes competitivos
e subsequente forte dependência de lucro financeiro que
guia a mídia, tem afetado as artes marciais e, certamente,
afetará o desenvolvimento do Aikido. Judo, Kendo e Karatê
se tornaram esportes internacionais, com ênfase no estilo
"ocidental" de competição e as organizações também se tornaram
"ocidentais" no sentido aludido acima. As Artes marciais
japonesas originais são agora de significação relativamente
menor e há boa razão para acreditar que esses esportes realmente
perderam suas raízes japonesas. Ninguém peca ao se perguntar
se o mesmo acontecerá ao Aikido --- e se isso importa. Planejei,
originalmente, escrever esse ensaio não como diretor, em
exercício, da IAF, mas como um aikidoísta com alguns 30
anos de experiência que também gastou aproximadamente 20
anos ensinando filosofia e cultura comparada numa universidade
japonesa. Mas isso não é realmente possível. Quando discuto
a IAF, não posso ignorar o fato de que sou o atual dirigente
da federação. Entretanto, gostaria de suplementar a defesa
da IAF acima com algumas reflexões individuais de natureza
a mais filosófica possível a respeito da natureza geral
das organizações das artes marciais e dos problemas com
que se deparam. Concluirei com alguns comentários mais extensos
sobre a IAF como organização.
A DINÂMICA DAS ORGANIZAÇÕES
Para ilustrar a questão da organização das artes marciais,
gostaria de esboçar um caso hipotético, que poderá ou não
mostrar uma semelhança aproximada com uma organização de
Aikido e, em assim mostrando, discutir os possíveis fatores
envolvidos na criação de uma organização "estilo artes marciais".
O objetivo deste exercício é indicar alguns problemas potenciais
com que a organização se defronta, que bem podem se tornar
real e agudo conforme a organização se desenvolve. O esboço
é significativo para preceder --- e direcionar --- a distinção
entre padrões "ocidentais" e "não-ocidentais" de organização,
embora algumas dessas últimas características devam ser
salientadas e citadas de passagem. Naturalmente, uma organização
assim descrita é, em muitos estágios, retirada de uma federação
mundial como a IAF. Porém, algumas das características da
organização nesses estágios iniciais serão a raiz dos problemas
que surgirão no desenvolvimento posterior da organização
como a IAF.
1. Uma pessoa notável, que tem grande "carisma" atrai discípulos
em virtude de habilidades ou façanhas particulares, tais
como a criação de uma nova maneira de olhar o mundo, enraizada
numa atividade ou prática particular. Os discípulos começam
um relacionamento com a pessoa, mas esse relacionamento
não envolve conhecimento íntimo numa base de igualdade.
Naturalmente, os discípulos têm contato diário muito próximo,
visto que o relacionamento envolve viver junto e compartilhar
o mesmo estilo geral de vida, mas o líder carismático é
alguém "outro" e nunca uma pessoa "comum". Os discípulos
podem Ter suas próprias razões para seguir essa pessoa,
mas umas das razões que todos compartilham é o "carisma"
completo que ele possui. Os alunos tornam-se discípulos
porque acreditam que a pessoa possui aquilo que eles estão
procurando e que eles podem compartilhá-lo. Assim a missão
ou arte ---- o tipo particular de atividade ou prática criada
ou exposta pelo líder ---- é a base fundamental do relacionamento.
É importante notar aqui que o líder do grupo tem uma relação
professor-aluno com cada um dos seus discípulos, mas o relacionamento
é diferente em cada caso. O relacionamento difere de acordo
com a química pessoal e também com o nível do que o discípulo
entende da arte. Deveria ser apontado que, desde que a arte
ou atividade é aberta-fechada ---- no sentido de que admite
diferente níveis de progresso ou realização por um período
de tempo (geralmente longo), tais diferente relacionamento
podem bem depender do nível de compromisso dos discípulos.
Assim mesmo como um organismo único, o grupo tem diversas
camadas, tal como círculos concêntricos organizados ao redor
do fundador no centro. Aqueles anéis mais próximos ao centro
têm maior compromisso; para aqueles da periferia tal compromisso
é difícil ou impossível e eles praticam a arte ou atividade
para melhorar suas habilidades. Os diferentes níveis de
compromisso, seguramente, se tornarão o fator principal
no subsequente desenvolvimento da arte, mas uma das marcas
do relacionamento Dom o fundador, mesmo para aqueles da
periferia, pode ser caracterizado como uma lealdade intensa
e pessoal.
2. A arte se torna conhecida e atrai cada vez mais pessoas.
Consequentemente, diversas decisões cruciais devem ser tomadas
ou pelo fundador ou por seus discípulos mais perceptivos.
(a) A primeira escolha é expandir ou não. O grupo original
era um organismo único reunido ao redor do líder ---- os
discípulos podem pensar nele como uma família e os laços
entre o líder e os discípulos podem ser bem mais fortes
do que os laços familiares. Porém, à medida que o grupo
expande, fica cada vez mais difícil, devido ao aumento do
número de discípulos, desfrutar do contato direto contínuo
e ininterrupto com o líder e seu "carisma". Assim, o grupo
se desenvolve de agrupamento único em volta do líder e torna-se
uma organização. O fato de que a arte que ele/ela criou
tenha grande e durável valor --- isto é, devido ao valor
da arte e aos benefícios que ela proporciona não deveria
ser permitido que ela desaparecesse com a morte do fundador
---- normalmente assegurará que a decisão tomada seja para
continuar. No entanto, o fato de que o contínuo crescimento
do número de aspirantes fará o contato diário próximo com
o fundador impossível, torna-se um problema fundamental.
(b) Outra escolha é como expandir rapidamente. A transmissão
do "carisma" do fundador depende inteiramente da disponibilidade
de discípulos qualificados para assumir a tarefa de seguir
os passos dele e transmitir o seu "carisma", seguramente
um empreendimento desanimador. A criação de um "grupo interno"
que arcará com a principal carga de transmitir o "carisma"
do fundador é seguramente um fator essencial aqui, independente
do caráter "ocidental" ou "não ocidental" da organização.
(c) A terceira escolha é como expandir. Uma vez que o "carisma"
do fundador se baseia na prática de uma atividade particular
que ele/ela criou, a prática admite diferente graus de conhecimento
ou competência, tendo, o fundador, o mais alto nível possível.
À medida que o grupo expande e o contato direto com o fundador
diminui, uma maneira de transmitir o "carisma" dele aos
novos membros do grupo tem que ser encontrada, aos que aparentemente
não tiveram essa proximidade e contato contínuo com ele.
Assim, nasce a necessidade de um método sistematizado de
transmitir o "carisma" e de reconhecer aqueles que são considerados
como possuindo-o. Em alguns casos, esse sistema é uma relação
de regras de conduta, algumas definidas pessoalmente pelo
fundador, cuja adesão supostamente estabelece algum tipo
de garantia de que o discípulo alcançará um estado "carismático"
similar. Nesse caso, as regras definem o propósito da organização.
Em outros, a prática da arte ou atividade em si é o que
define o propósito do grupo e estabelece as regras que constituem
um sistema para reconhecer níveis de proficiência na arte,
sendo de alguma forma entendido que o mais alto nível, o
maior é o possível acesso ao "carisma" do fundador. O sistema
pode ser um conjunto de graus de proficiência (X alcançou
um certo nível de proficiência), ou licença para ensinar
é oficialmente qualificado para ensinar certas técnicas
---- ou revelar certos "segredos"). Naturalmente, aqueles
que foram os discípulos iniciais do fundador tenderão a
ter maiores graduações ou serão capazes de ensinar toda
a seqüência de técnicas. Seja qual for a atividade, os membros
mais experientes do grupo serão professores dos menos experimentados
e talvez se tornem oficialmente conhecidos como tal.
2.1. A transformação da organização de um pequeno grupo
reunido ao redor do seu fundador para algo maior é o ponto
em que diferenças fundamentais de organização tendem a aparecer.
Uma abordagem "ocidental" é ter um sistema de regras e isso
cabe muito bem na devoção ocidental aos princípios abstratos
considerados necessários para ter uma aplicação geral ou
universal. Exemplos poderiam ser as regras que governam
as atividades de algumas ordens religiosas cristãs. Um problema
potencial com esta abordagem é que as regras em si podem
tornar-se o alvo definidor da organização mais do que se
supõe que seguir regras possa guiar. Dessa maneira, a organização
tende a "ossificar". Uma abordagem "oriental" é deixar tudo
nas mãos do indivíduo que lidera as várias partes da organização,
muito mais do que confiar no sistema de regras em si. Um
problema potencial dessa abordagem é que pressupõe que todos
os discípulos serão capazes de reproduzir o "carisma" do
fundador, simplesmente com base no treinamento que receberam,
isto é, coloca-se uma responsabilidade muito pesada nos
ombros de certos indivíduos que, naturalmente, não têm nenhum
sistema de regras para guiá-los. Esses problemas podem se
tornar muito agudos e proeminentes quando um aluno de uma
arte "oriental" tenta ensiná-la a não-orientais que esperam
um sistema de regras objetivo e abstrato.
2.2. Vale à pena notar aqui que nos casos em que o alvo
da organização é praticar certa atividade ou arte, um sistema
para reconhecer proficiência não é intrínseco à arte em
si, pois é bastante possível se tornar altamente competente
na arte sem obter graduações ou licenças. Apoia-se muito
mais na crença bastante à parte de que a arte incorpora
objetivos que aceitam medição objetiva e que tal sistema
de medida objetiva é desejável ou essencial na organização,
pois nem todos os prováveis membros são capazes de distinguir
entre praticantes genuínos da arte e charlatões. No entanto,
as diferenças de abordagem aludidas acima são também relevantes
aqui. A abordagem "ocidental" dará grande ênfase às regras
que têm para serem seguidas ou às condições que têm que
ser preenchidas para reconhecer níveis particulares de proficiência
e esses níveis terão uma validade "objetiva" dentro da organização.
A abordagem "oriental" dará maior ênfase ao fato de que
a graduação ou licença foi dada por uma pessoa particular
e sua validade "objetiva" terá menos importância do que
o fato de que foi dada por essa pessoa. Ambas as abordagens
têm desvantagens que são prováveis tornarem-se evidente
em uma organização que tenta combinar as duas.
3. Apesar do fato inquestionável de que eles têm realmente
atingido vários níveis de proficiência, os alunos saem e
criam seus próprios grupos "réplica", algumas vezes com
ativo encorajamento do fundador. Os grupos réplica funcionam
em base bastante razoável de, por exemplo, "me foi ensinado
pessoalmente pelo fundador e tenho uma missão de transmitir
a outros a visão que ele/ela me forneceu e as habilidades
que ele/ela me ensinou". Há um pressuposto ---- geralmente
declarado ---- de que os discípulos têm uma (próxima ou
mesmo íntima) relação com o fundador e geralmente um (alto)
nível de habilidade baseada nesse relacionamento, que outros
não possuem. Há também um pressuposto ---- geralmente não
declarado ---- de que cada discípulo tem uma percepção diferente
da visão do fundador e talvez um nível diferente de habilidade.
Assim, o grupo todo o agrupamento de grupos satélites ou
grupos emergem de grupos cuja função é transmitir aos membros
a visão fornecida pelo fundador para o discípulo particular
que lidera o grupo ou mais que isso, o conteúdo do entendimento
do discípulo dessa visão particular. Os discípulos tendem
a modelar essa organização por suas experiências no grupo
original. O efeito é um todo um agrupamento de miniaturas
de organização "originais", todas clamando por ser "autênticas"
de alguma maneira. Naturalmente, alguém de fora pode presumir
que todas elas estão trabalhando em harmonia e isso, de
fato, pode ser o ideal declarado, mas a realidade não declarada
é algumas vezes bem o reverso.
3.1. Numa tal organização, a presença ou ausência de qualquer
sistema de regras universais ligando-os tem o potencial
de criar sérios problemas. Cada grupo satélite focaliza-se
no entendimento do discípulo a respeito da visão particular
fornecida pelo fundador e qualquer iniciante praticará a
arte de acordo com os parâmetros definidos pela interpretação
do discípulo da visão do fundador. O efeito é induzir uma
espécie de "visão-túnel" ou sentimento de clã. A responsabilidade
colocada sobre os ombros de um discípulo particular propicia
uma ênfase excessiva em sua interpretação particular da
visão do fundador. Os canais através dos quais o entendimento
da visão do fundador deve circular são verticais ---- do
fundador para a primeira geração de discípulos, para a Segunda
geração, etc. Supõe-se que os neófitos na organização comprometam-se,
de todo o coração, com o discípulo particular que eles escolheram,
pois ele/ela tem uma ligação direta com o fundador e por
isso tem as respostas. Eles nunca são encorajados a perambular
de um grupo para outro. Uma das conseqüencias menos bem
vinda dessa multiplicidade de grupos satélites verticalmente-estruturados
é a de que tende a ver a si mesmos em competição com cada
um dos outros. Sendo um estudante do grupo A, é ensinado
ao praticante a sentir o grupo B e C não tendo nada a oferecer.
Claro que eles podem ser muito bons, mas eles não são ª
Ao sentimento de clã é dado, ocasionalmente, um sabor místico,
com alguns discípulos argumentando que encontrar o professor
certo é das tarefas, a mais importante de todas, provavelmente
de igual importância que a de perseverar completamente na
arte. Tal sentimento de clã ou facção é uma característica
comum de uma sociedade verticalmente estruturada como a
japonesa, onde há um termo especial para isso. Habatsu-shugi
existe em todas as esferas e em todos os níveis da sociedade
japonesa e floresce especialmente nas artes marciais.
4. Infelizmente o fundador é mortal e teve que fornecer
continuidade de existência ao grupo ou organização. Um sucessor
teve que ser designado. Há várias maneiras de escolher um
sucessor, que corresponde ao nível de autocracia da organização:
a sábia (porém, arbitrária) escolha de sucessor pelo fundador,
uma luta de morte entre seus discípulos (um método comprovado
que deixou de ser aceito socialmente há muitos séculos),
a sucessão automática pelo filho mais velho da família do
fundador, uma eleição por um "colégio eleitoral" formado
pela maioria dos discípulos senior ou uma eleição por todos
os discípulos, independente da graduação. Como se supõe
que a transmissão da arte tenha a mais alta prioridade,
todas as maneiras têm que estabelecer pressupostos de um
tipo ou de outro. Por exemplo, um pressuposto por trás da
terceira maneira seria que o filho herdou a visão do fundador
e pode transmitir essa visão melhor do que outros discípulos.
A história das artes marciais no Japão tem demonstrado,
bastante claramente, que esse pressuposto não apareceu sempre
pela prática. As duas últimas maneiras representam progressivamente
formas "democráticas" de transmitir o "carisma", mas também
pressupõe muitas pessoas à parte do fundador e que os discípulos
mais próximos são capazes de tomar decisões sábias.
5. Nalgum momento, o fundador ou seu sucessor escolhido
cria um sistema para definir os limites da organização e
os discípulos, então, têm uma escolha a fazer: juntar-se
à organização ou permanecer fora dela. Uma vez a organização
criada e definida, os níveis de proficiência são controlados
por ela. O alvo aparente é transmitir o "carisma" possuído
pelo fundador, mas também autenticá-lo: distinguir "carisma"
verdadeiro de suas falsas imitações. Se a organização é
de espírito "ocidental", o desenvolvimento do "carisma"
dependerá da natureza e flexibilidade das regras fundamentais
que governam o desenvolvimento da proficiência dentro da
organização. Se a organização é de espírito "oriental" o
desenvolvimento da "carisma" dependerá de decisões sábias
feitas na escolha dos discípulos. Dada a estrutura essencialmente
fluida, tanto a organização em si como as maneiras de determinar
os níveis de proficiência dentro dela, criará umas tensão
inevitável entre a organização em si e o "carisma" que se
deve transmitir. Naturalmente, o fundador e seu sucessor
agem com os mais puros motivos, mas a tendência dos canais
organizacionais, que transmitem o "carisma", de tornarem-se
progressivamente restritiva é inevitável. Certamente nenhuma
organização, de meu conhecimento, nunca solucionou esse
dilema com sucesso e aquelas que floresceram como organizações
mundiais tem passado por reformas periódicas ou revolução.
5.1 Em alguns casos, o processo de definição dos limites
da organização também envolve estabelecer relações com organizações
externas, tais como, ministérios da educação ou de esportes
e outras organizações nacionais. Isso dependerá da estrutura
política do país em questão, mas é provavelmente seguro
pressupor que há muito pouco países onde a organização "carismática",
que atrai um grande número de membros e funciona em âmbito
nacional ou internacional, floresça sem qualquer interferência.
Afinal, a organização terá que ser estabelecida com bases
legais e esse estabelecimento pode também ter que se conformar
a um conjunto complexo de normas culturais.
6. É nesse momento que a questão de criar uma federação
mundial tal como a IAF pode aparecer. A arte está florescendo,
no sentido de que muitas pessoas a praticam e há uma rede
mundial de grupos e organizações satélites, mas há também
muito estilhaçamento e fragmentação. Como tentei mostrar
pelo quadro hipotético acima, o sucesso de uma organização
mundial dedicada a nutrir e espalhar o "carisma" de uma
pessoa em particular dependerá de escolhas sábias feitas
num estágio muito inicial de desenvolvimento.
... E AS CONSEQUÊNCIAS
Agora, pode ser verdade que as principais motivações para
criar organizações de Aikido são exercer controle e obter
uma fonte de recursos financeiros, talvez para a família
do fundador. No entanto, penso que o progresso de um pequeno
grupo de discípulos para uma organização completamente preparada
(note que isso acontece para transmitir uma visão ou uma
arte) é muito menos fria e calculada. Certamente é baseada
na cultura, no sentido de que o fundador criará uma organização
baseada na cultura que ele/ela carrega, mesmo se a visão
em si tem uma aplicação universal. Assim, A história inicial
do Aikido, tanto dentro como fora do Japão, é a história
do desenvolvimento desorganizado e interrompido de grupos
embrionários baseados no padrão original. Os grupos foram
criados pela primeira ou segunda geração de discípulos do
fundador, que não recebeu nenhum preparo para essas tarefas
além do seu treino na arte. Eu vivi no Japão o suficiente
para compreender que a maioria dos japoneses são totalmente
despreparados, por sua cultura, para uma exposição intensa
e prolongada a outras culturas e esse problema é um duro
legado de dois séculos de sakoku ---- isolamento forçado
do período Edo. O "choque cultural" dos estudantes universitários
que vão, de fato, para o exterior continuar suas carreiras
acadêmicas é bastante sério, mas, supõe-se, que eles tiveram
quatro anos de preparação em suas universidades ---- instituições
mais prováveis para sentir os efeitos da mudança cultural.
Muito maior será o choque dos discípulos que foram enviados
ao exterior para criar organizações "réplica" de Aikido,
cujo único preparo havia sido o severo treino na intensa
mas estreita cultura confinada do dojo. Tenho tentado mostrar
que a questão se uma organização de artes marciais é bem
sucedida ---- preenche seus alvos ---- é muito difícil de
responder. Por exemplo, num sentido a Aikikai Hombu é uma
organização de artes marciais muito bem sucedida, pois tanto
dentro como fora do Japão a arte, herdada por Doshu e desenvolvida
e interpretada por ele, está florescendo. Por outro lado,
os discípulos do fundador saíram para criar seus próprios
dojos e também desenvolveram organizações bastante preparadas.
Assim o mundo do Aikido muito cedo repartiu-se em grupos
---- competindo entre si, mesmo durante a vida do fundador.
É importante perceber que esta fragmentação do Aikido aconteceu
no Japão, a pátria "mãe" e não só no exterior. Dessa forma,
em outro sentido, a Aikikai Hombu falhou em manter a unidade
no Aikido e a questão se tal unidade é possível é uma questão
válida, que precisa ser considerada muito cuidadosamente.
A questão é especialmente relevante para a IAF, uma vez
que a federação tem sido criticada por falhar em alcançar
seu alvo estabelecido de manter a unidade no mundo do Aikido.
Retornarei a essa importante questão abaixo.
Mais ainda, como sugeri acima, o sucesso de uma organização
que enfatiza uma inquebrável linha vertical entre o fundador
e o cabeça, em exercício, do dojo ou organização depende
de constante suprimento de pessoas capazes que estão dispostas
a sacrificar-se pela visão particular. Acredito que é extremamente
improvável que a Aikikai Hombu será capaz de fornecer uma
corrente constante de jovens instrutores dispostos e capazes
de residir no exterior e ensinar Aikido. Assim, quando a
atual geração de shihans japoneses no exterior se for, suas
substituições terão de vir de dentro dos países onde eles
ensinaram. (Nesse ponto se tornará claro também o quanto
esses shihans japoneses foram bem sucedidos ao criar uma
estrutura organizacional apropriada, que assegurará o desenvolvimento
do Aikido em seus países adotivos.) Nos próximos cinqüenta
anos, os shihans japoneses residentes no exterior se tornarão
progressivamente figuras raras e o Aikido estará nas mãos
de instrutores não-japoneses, ajudados por visitas ocasionais
--- nos seminários de verão e congressos internacionais
--- de instrutores enviados pela Aikikai Hombu do Japão.
Isso, no entanto, pressupõe que a Aikikai Hombu e outros
dojos do Japão serão bem sucedidos em atrair um suprimento
constante de recrutas capazes. Se os clubes de artes marciais
das universidades japonesas dão alguma indicação, isso,
por certo, não pode ser tomado como garantido.
ORGANIZAÇÕES OCIDENTAIS VS JAPONESAS
Penso que é muito difícil aplicar a distinção "democrática-autocrática"
em muitas organizações de Aikido fora do Japão. Mas mesmo
dentro do Japão a distinção precisa ser tratada com grande
cuidado.
Por exemplo, não acredito que o Japão seja uma sociedade
realmente democrática. Por isto quero dizer uma sociedade
na qual os membros concebem a si mesmo como indivíduos com
certas responsabilidades e direitos, que são capazes de
escolher representantes por voto e também ter uma influência
direta na política feita por esses representantes. Naturalmente,
isso é democracia no sentido "ocidental", mas não acredito
que haja qualquer outro sentido da palavra. Não pretendo
qualquer desrespeito ao japonês ou àqueles que acreditam
nos valores "asiáticos", com a observação acima e considero
que o comentário recentemente feito na revista sobre organizações
de artes marciais, "No contexto das artes marciais, o japonês
naturalmente estabelece uma estrutura autocrática controlada
por um pequeno grupo interno que dá suporte à figura central",
é verdadeiro. No entanto, como afirmei acima, chamar a sociedade
japonesa de autocrática sem algumas especificações arrisca-se
a mal-entendimentos por muitos não-japoneses. Uma organização
democrática do tipo "ocidental" apoia-se num conjunto de
princípios abstratos não declarados sobre o indivíduo. O
japonês não opera com tais princípios. Entretanto, uma sociedade
não-democrática como a japonesa apoia-se num princípio geral
de harmonia muito importante e mesmo numa tal suposta estrutura
autocrática, se ela realmente segue o padrão japonês, aqueles
que têm o poder tem a obrigação de considerar os sentimentos,
se não os pontos de vista articulados, daqueles que não
têm. Essa relação entre sempai (senior) e kohai (junior)
está firmemente incrustada no tecido cultural do Japão.
É ensinado a todos os japoneses desde a segunda metade do
ensino fundamental (por volta de 12 anos) em diante, mas
não há regras formais estabelecendo quais as obrigações
mútuas. Naturalmente, o sentimento expresso na mesma revista,
ou seja, "aqueles que não se conformam ou desistem ou são
discriminados pelo grupo", é verdadeiro também, mas o ponto
importante é o de que essas pessoas nunca constituem a maioria
do grupo. O detentores do poder sempre se assegurarão de
que o princípio geral da harmonia prevaleça e tentarão desenvolver
um consenso que considera o maior número de pontos de vista
possível. Se a minoria porventura se tornar uma maioria,
a organização pararia de funcionar ou passaria por uma mudança
radical.
O estilo autocrático de organização, que é um tanto repressiva
do ponto de vista individual, pode ser comparada com o estilo
supostamente favorecido pelos "ocidentais", que coloca maior
ênfase no ponto de vista individual. Mas como quis dizer
acima, muitas organizações de Aikido no "oeste" foram criadas
por discípulos japoneses do fundador, que criaram organizações
baseadas em suas próprias (japonesas) experiências. O primeiro
dojo do qual me tornei membro, na Bretanha, era controlado
por instrutor japonês. A organização era totalmente autocrática,
no sentido de que nunca havia qualquer decisão tomada por
consenso de todos os membros. Nosso instrutor fazia tudo
porque éramos iniciantes completos e não tínhamos idéia
de como organizar um dojo. Como praticamos mais, desenvolvemos
uma idéia geral do que um dojo deveria ser. No entanto,
nunca sentimos que estávamos nas mãos de um autocrata e
nunca houve qualquer destoar na atmosfera geral de harmonia
e dedicação ao alvo comum. Amizades formadas naqueles dojo,
aproximadamente 30 anos atrás, ainda continua florescendo
hoje. O segundo dojo onde pratiquei regularmente era controlado
por um instrutor japonês residente de maior graduação ainda.
Suas políticas eram aceitas sem qualquer pergunta, embora
deve-se admitir que muitos outros grupos de Aikido no país
fossem dirigidos por ex-estudantes desse instrutor particular,
ou por não-estudantes que não tinham nenhum desejo especial
de contato com ele. Houve um padrão semelhante nos Estados
Unidos. O shihan rodeava-se por um pequeno grupo de estudantes
senior de maior graduação e os demais alunos simplesmente
aceitavam a situação com reações variando de brilhantes
olhos de adulação à pesada resignação. Onde não há shihan
japonês residente ( países como a Suécia, Noruega, Holanda
e muitos outros membros da IAF), então a organização tende
a ser mais democrática, mas isso é comumente porque não
há ninguém de graduação shihan ou ainda porque o shihan
japonês residente não teve sucesso.
A IAF ...
A IAF foi criada em resposta a uma iniciativa da Europa.
Antes da IAF havia uma organização na Europa chamada ACEA
(Associação Cultural Européia de Aikido), que mais tarde
tornou-se EAF (Federação Européia de Aikido). Muitos dos
membros dessa Federação Européia de Aikido eram seções de
organizações de judo, nas quais o poder estava firmemente
nas mãos dos judocas. Não penso que a decisão de colocar
o Aikido sob a proteção do judo foi livre de controvérsia
na Aikikai Hombu, mas, certamente, penso que há algo a ser
dito sobre isso. O Sr. Nobuyoshi Tamura, que foi o primeiro
representante japonês da Aikikai a residir na Europa, provavelmente
sentiu que o grupo de judo poderia fornecer bom suporte
organizacional para aquilo que era uma nova e desconhecida
arte marcial. No entanto, é um fato curioso que esse exemplo
não foi seguido por nenhum outro instrutor de Aikido japonês
que foi residir no estrangeiro e ensinar Aikido. Quero frisar
que não estou dizendo que Tamura Shihan estava errado ao
vincular sua organização de Aikido ao judo. É bem conhecido
que o judoka japonês foi instrumento para a introdução do
Aikido aos europeus e assim, muitos judokas europeus também
praticaram Aikido. Devia parecer a coisa natural a fazer,
naquela época. Foi também uma decisão corajosa, uma vez
que, pela primeira vez, Tamura Shihan tentou levar em conta
as atitudes culturais das pessoas às quais foi enviado para
ensinar.
A IAF foi realmente fundada em 1976 em Tóquio, embora o
encontro inicial de fundação tenha sido realizado na Espanha
em 1975. Foi sugerido que problemas estruturais muito importantes
surgiram no primeiro congresso, em 1976. Basicamente o problema
era esse: O japonês aceitava a IAF basicamente como um braço
"ocidental" da Aikikai Hombu. A federação teria um sabor
democrático, mas seria realmente controlada pelos japoneses
(isto era um ponto de vista razoável, pois muito poucos
"ocidentais" tinham alcançado altas graduações dan na arte.
No entanto, alguns delegados politicamente perspicazes da
Europa tentaram tirar o controle do japonês e fazer da IAF
uma organização verdadeiramente democrática. A Aikikai Hombu
não estava preparada para isso e a tentativa foi sabotada.
A IAF foi deixada como uma federação com uma característica
de grupo misto de japoneses e "ocidentais". Não estou qualificado
para comentar os dois primeiros congressos da IAF, mas algumas
questões muito importantes surgiram no terceiro congresso
da IAF, realizado em Paris, em 1980. Como sugeri acima,
a expansão do Aikido no exterior foi baseado na cultura
e em muitos casos o shihan japonês estabeleceu uma organização
que era baseada nacionalmente, com nome como a Aikikai da
Grã Bretanha. O congresso foi o cenário do maior conflito
dentro do Aikido europeu por causa de uma questão aparentemente
simples: o que é uma organização "nacional" de Aikido? Os
estatutos da IAF, infelizmente, não definem esse termo,
porque não foi necessário fazê-lo quando a federação foi
fundada. Naquela época, tudo estava em harmonia e havia
apenas uma organização de Aikido em cada país, ou seja,
aquela criada pelo instrutor japonês e reconhecida pela
Aikikai (Os Estados Unidos, por causa de seu tamanho, não
tiveram esse sistema e a situação um tanto mais complexa
do Japão também não mereceu atenção.) Aí, esse problema
de definição foi relacionado a outro problema , mais fundamental,
sobre a independência do Aikido em relação ao judo e esse
problema foi uma daquelas conseqüências não previstas pelo
fato de que a organização de Aikido do Sr. Tamura estava
sob controle do judo. Organizações de Aikido independentes
na Holanda e Espanha queriam reconhecimento da Aikikai Hombu
e também filiar-se a IAF, de preferência do que ao departamento
de Aikido estabelecido na organização nacional de judo.
O congresso de Paris poderia não fazer qualquer progresso
real porque não havia decisão clara sobre quem tinha o poder
de voto. Desde o congresso de 1980 a separação, na Holanda,
entre organizações de Aikido vinculadas ao judo e não vinculadas
ao judo espalhou-se para a França e o Sr. Tamura perdeu
aproximadamente metade de seus alunos. Tanto quanto sei,
as organizações Aikikai na França são agora independentes
do judo, mas a divisão em dois grandes grupos ainda permanece.
É importante entender as questões que surgiram no terceiro
congresso da IAF. A questão que paralisou o congresso foi
a questão européia e o que separou a Federação Européia
de Aikido. Entre 1978 e 1980 houve entre os membros comuns
contra a dominação excessiva do judo na EAF. Nesse caso
os instrutores japoneses residentes na Europa de um modo
geral permaneceram à parte. No entanto, a disputa provocou
uma crise em uma de suas sub-federações que a IAF não estava
em posição de lidar com ela. Os fundadores provavelmente
nunca imaginaram que tal conflito poderia ocorrer numa organização
de Aikido. ("Afinal, Aikido é todo sobre harmonia, não é?")
Certamente a Aikikai Hombu foi tomada de surpresa diante
da força da disputa e não tinha nenhuma idéia do que fazer.
Pode-se questionar que eles deveriam saber que isso aconteceria
porque disputas, de uma forma ou de outra sempre existiu
desde que as escolas de artes marciais foram criadas e as
sementes dessas disputas jazem, como sugeri acima em meu
quadro inicial, na organização vertical das artes marciais
com sua ênfase na linha direta entre o fundador e o cabeça,
em exercício, do dojo, mais do que num quadro de regras
ou procedimentos.
O segundo ponto a notar é que enquanto os japoneses na Europa,
de um modo geral, permaneciam à parte durante a crise da
Federação Européia de Aikido, havia uma disputa paralela
dentro da Aikikai Hombu sobre o reconhecimento oficial das
organizações de Aikido do exterior com os grupos de judo:
deveria a Aikikai Hombu reconhecer um grupo independente
num país, onde houvesse também um grupo filiado ao judo.
Supõe-se comumente que só não japoneses ou só europeus tenham
disputas dobre o Aikido e isso pode ser algo que os professores
japoneses gostam de frisar, pois a imagem de senseis japoneses
brigando por causa da arte marcial japonesa que, supõe-se,
traga paz e harmonia soa mal, de alguma forma. Porém, isso
não é realmente verdadeiro. Na época da disputa dentro da
EAF, os instrutores japoneses na Europa filiados a Aikikai
Hombu também se revoltaram em massa contra a liderança do
Sr. Tamura e essa revolta japonesa também chocou profundamente
a Aikikai Hombu. O ponto que quero frisar aqui é que os
problemas que a IAF enfrentou em 1980 e depois podem ser
vistos como uma conseqüência das disputas dentro da Aikikai
Hombu a respeito do reconhecimento das organizações de Aikido
do exterior. Eles não foram criados unicamente pelos próprios
aikidoístas europeus.
Finalmente, a disputa não foi meramente sobre algo discutido
numa suposta altura etérea de um congresso internacional,
mas aninhava-se exatamente ali no dojo local, pois tratava-se
de qualificações para graduações dan e diplomas de ensino.
Houve uma possibilidade de que os instrutores de Aikido,
em alguns países deveriam ter graduações em judo e karate.
Os Estados Unidos (e também o Japão) são muito afortunados
porque poucas restrições são colocadas sobre as artes marciais
pelo governo. Qualquer um pode abrir um dojo e buscar sua
própria graduação dan (que atualmente vale não mais do que
o papel onde está escrita). A situação é bastante diferente
em alguns países europeus, com os governos estabelecendo
regulamentos precisos sobre exames e graduações dan. A França
tem um sistema de graduação dan nacional e ninguém pode
ensinar Aikido num dojo municipal sem o devido diploma.
Alguém pode receber a graduação dan na França e mais tarde
descobrir que é reconhecido apenas naquele país. No Reino
Unido ninguém pode ensinar num dojo municipal sem uma qualificação
nacional de técnico. Com o surgimento da União Européia
(EU), a interferência do governo provavelmente irá aumentar,
mais do que decrescer.
Muitos aikidoístas tem o sentimento de que eles podem "apenas
continuar com a prática" e que as "políticas" do Aikido
(isto é, preocupar-se com a organização do dojo e sua relação
com as organizações externas) é um negócio indesejável e
grandemente desnecessário que pode ser deixado para aqueles
que são bons em falar ou que gostam desse tipo de coisa,
implica em que eles não são aikidoístas verdadeiros. Penso
que essa atitude é um tanto ingênua e em minha própria experiência
de Aikido em três diferentes países, descobri que essas
questões "políticas" nunca estão longe do tatami. Questões
sobre a organização de um dojo próprio ou de filiação desse
dojo a uma federação nacional ou internacional ou o registro
de uma graduação em sua posição internacional são freqüentemente
debatidas e não apenas fora do Japão.
... E O FUTURO
Foi dito que a IAF ainda está tentando entrar em acordo
sobre uma constituição. Isto não é realmente verdadeiro
pois a federação tem uma constituição desde quando foi criada
e foi aprovada por todos os membros fundadores em 1976.
Com algumas poucas alterações ela ainda está em vigor. Porém,
os problemas que surgiram durante o congresso de 1980 mostraram
que os estatutos da IAF precisavam de revisão. O trabalho
de revisar os estatutos da IAF vem acontecendo desde por
volta de 1984. O processo está demorando porque os congressos
da IAF ocorrem somente uma vez a cada quatro anos e também
porque não há consenso, nem dentro da Aikikai Hombu nem
entre os atuais membros da IAF a respeito de questões cruciais
sobre a natureza e papéis das organizações de Aikido, especialmente
as organizações do exterior. Eu duvido que estas questões
tenham sido seriamente discutidas quando a federação foi
criada e, com certeza, nem eram apresentadas. Agora elas
apareceram novamente e têm que ser colocadas da melhor forma
possível. Espero que o 8º congresso da IAF, a realizar-se
em 2 000, seja capaz de aprovar uma nova ---- e mais flexível
constituição para a federação. Entretanto, devo frisar que
as decisões a respeito dos estatutos serão feitas pelas
próprias organizações membros da IAF, não pela Aikikai Hombu
, e de forma democrática.
Reclama-se algumas vezes que as pessoas usam a IAF para
seus propósitos próprios e que os congressos da IAF tendem
a ser ocasiões para disputas e para revelar sua sede de
poder. Algumas pessoas até questionaram a necessidade da
IAF, vista como uma assim-chamada federação "democrática"
de organizações de Aikido ----certamente uma contradição.
Por que não deixar tudo para o departamento internacional
da Hombu? Não acredito que a questão seja assim tão simples.
Por uma coisa, muito poucas federações membros da IAF têm,
de fato, trazido disputas para um congresso. As questões
que têm sido discutidas envolvem problemas conseqüentes
do reconhecimento pela Aikikai Hombu em um ou dois países
europeus. Por outro lado, não penso que o Aikido é uma espécie
de panacéia para as doenças do mundo. Sempre me foi ensinado
que a arte oferece uma maneira de, às vezes, forjar auto-honestidade,
mas não é um caminho automático para santidade nem no Japão
nem no exterior. Penso que sempre haverá pessoas que praticam
artes marciais pelas razões erradas e a IAF certamente não
se propõe a checar as credenciais morais de quem pratica
Aikido. Outra razão ainda, a rápida expansão do Aikido no
exterior ---- e na forma de organizações ----- é um fato
que traz em si certas conseqüências. Uma é que a organização
internacional do Aikido não cabe mais no modelo tradicional
japonês, pois as organizações do exterior também são alicerçadas
na cultura. Os instrutores japoneses residentes tiveram
que se adaptar à cultura anfitriã e esta é uma das razões
que levou à criação de associações européias de Aikido como
a ACEA e a EAF. Isso é óbvio assim que se considera a questão
do reconhecimento pelo governo nacional ou regional. Como
afirmei acima, os Estados Unidos é muito livre, mas alguns
outros países insistem que as organizações de artes marciais
devem ter uma estrutura democrática e devem também pertencer
a uma federação internacional. Voltar e colocar todos os
assuntos internacionais nas mãos da Hombu não resolveria
o problema, mesmo que a Hombu tivesse os recursos humanos
para cuidar de todos os aspectos do Aikido do exterior.
O falecido Shirata Rinjiiro Shihan comentou uma vez num
congresso da IAF que, enquanto a Aikikai Hombu era uma organização
verticalmente estruturada, a IAF o era horizontalmente.
Ele com certeza nunca disse que as duas estavam em conflito.
Gostaria de voltar ao comentário de Shirata Sensei de uma
outra maneira. Penso que a IAF será sempre uma organização
"horizontalmente estruturada" com todos os membros no mesmo
nível. No entanto, a Aikikai Hombu é verticalmente estruturada
por sua própria natureza como uma escola de artes marciais
japonesa. O departamento internacional da Hombu nunca poderia
funcionar como uma federação internacional horizontalmente
estruturada.
Vejo que um dos alvos fundamentais da IAF é ser um forum
onde os representantes das organizações de Aikido podem
se encontrar, como companheiros aikidoístas e discutir assuntos
de interesse comum, sendo tais discussões sempre pontuadas
por um treinamento intensivo de Aikido. Penso que o 7º congresso
da IAF, realizado em Katsuura, Japão, foi um bom exemplo
de discussão intercalada com prática. Outro alvo muito importante
á dar a Aikikai Hombu alguma avaliação consistente. É importante
compreender que a IAF não é e nunca foi uma parte da Aikikai
Hombu. Nessa medida, as reclamações de que a IAF está se
separando da Hombu é um mal entendido. Apesar de sua muito
próxima associação à Hombu, ela sempre foi uma organização
separada. Entretanto, a posição da Aikikai Hombu no topo
da estrutura piramide torna muito difícil a ela ouvir as
opiniões dos que estão na base. Como afirmei acima, na sociedade
japonesa, em geral, essas opiniões são consideradas, mas
o sistema sempai-kohai não é parte essencial do Aikido,
pelo menos não no Aikido do exterior.
Como o movimento Olímpico, o mundo do Aikido tem sido comparado,
com freqüência, a uma família. Esta comparação tem se tornado
paulatinamente mais tênue a medida que caminhamos para o
século 21, com o aparecimento do divórcio, famílias com
apenas um dos pais, esposas espancadas etc., de qualquer
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