ARTIGOS E ENTREVISTAS

História do Aikido Segundo a I.A.F.
Aspectos Políticos
P.A. GODSBURY - Diretor da IAF

DIAS INICIAIS O DOJO DE UESHIBA

Em 1931 Morihei Ueshiba abriu um dojo em Shinjuku, distrito de Tóquio, dedicado à prática de uma Arte Marcial que ele denominou Aiki-budo. O dojo ficou conhecido como Kobukan e tornou-se famoso como um lugar de prática séria do que era, na época, uma arte marcial revolucionária. O Kobukan era também chamado de Ueshiba Dojo porque a arte foi criada por Morihei Ueshiba. O fundador foi influenciado pelo seu treino em várias artes, tais como Daito Ryu Jujitsu e pela sua crença na religião Omoto, mas sua arte era fundamentalmente nova. À medida que os seguidores do fundador se tornaram, gradualmente, competentes na arte ao longo dos anos --- também a desenvolvendo --- estabeleceram seus próprios dojos e, dessa forma, o Dojo de Ueshiba se tornou o núcleo ou hombu de uma solta rede de dojos, todos conectados pelo elo pessoal entre Morihei Ueshiba e seus seguidores. Porém, embora não houvesse organização oficial como tal, o nome Aikikai tornou-se gradualmente usado por aqueles dojos ligados ao Dojo Ueshiba. Morihei Ueshiba adotou o sistema de graduação DAN usado por Jigoro Kano, no judo e isso se tornou uma maneira de ligar os discípulos a seu mestre. Alguns discípulos de Morihei Ueshiba foram enviados à Manchúria como parte da expansão japonesa na Ásia e lá ensinaram Aiki-budo como parte do currículo universitário. Okumura Shigenobu Shihan, por exemplo, começou o estudo do Aiki-budo em 1938 quando era um estudante da escola média em Manchukuo, o estado montado na Manchúria pelas autoridades militares japonesas. Seu professor foi Kenji Tomiki, um aluno de Morihei Ueshiba dos primeiros tempos.

ANOS DE GUERRA

Durante os anos que imediatamente precederam a II Guerra Mundial e, naturalmente, durante a II Guerra Mundial a organização das artes marciais caiu sob o controle do governo militar japonês. Morihei Ueshiba retirou-se para Iwama, no condado de Ibaraji, onde se dedicou à plantar e também à busca quieta da arte marcial e da religião Omoto. Um santuário Aiki, dedicado à religião Omoto, foi construído em Iwama, em 1943. Enquanto isso, o Kobukan/Ueshiba Dojo continuou, em Tóquio, sob a direção de Kisshomaru Ueshiba, filho do fundador e atual Doshu. Muitos da segunda geração de seguidores, por exemplo, Sadateru Aricawa, Hiroshi Tada e o finado Seigo Yamagushi juntaram-se, logo após o final da guerra, mas os alunos mais velhos, tais como o finado Rinjiro Shirata, tinham sido membros do Kobukan desde os anos 1930.

Depois da derrota do Japão, as artes marciais foram proibidas pelas forças americanas de ocupação e este fato acrescido das severas condições econômicas torrnaram impossível o funcionamento do Kobukan e o daquela fazenda-dojo de Iwama, muito difícil. Nessa época o centro real do aikido foi em Iwama e o quartel general não voltou a Shinjuku até 1956. Kishomaru Ueshiba tinha um emprego regular, em período integral, até 1955 e o dojo em Wakamatsu-cho foi a residência temporária das famílias locais que haviam perdido seus lares no bombardeio de Tóquio.

Entretanto, Morihei Ueshiba continuou a atrair seguidores que lutaram para continuar a prática da arte que, então, tornara-se conhecida como Aikido. Morihiro Saito juntou-se ao Iwama dojo em 1946. Hiroshi Isoyama juntou-se logo depois quando ele ainda era um estudante de escola média. Outros estudantes mais velhos como Okumura Shihan retornaram ao dojo Ueshiba depois de serem dispensados do serviço militar. A organização ainda era muito solta, com o Dojo Ueshiba, em Shinjuku, sendo considerado o berço da arte e o Aiki Santuário em Iwama, como de fato o Hombu Dojo e, como tal, a peça central de uma associação solta de dojos Aikikai autônomos, mais ou menos relacionados.

PRINCIPAIS MUDANÇAS

A prática regular não começou novamente no Shinjuku Dojo até 1949. Durante os dez anos subsequentes, as difíceis condições econômicas do período da guerra melhoraram gradualmente e a organização do Aikido também tomou um caráter diferente. Em diversos aspectos as mudanças foram revolucionárias e se poderia sustentar que tiveram profundo efeito no desenvolvimento da arte.

Primeiro, a arte deixou de ser "secreta" e tornou-se disponível à prática de qualquer um. Um futuro praticante não precisava recomendação de uma pessoa eminente para entrar no dojo. De fato, até por volta de 1956, os estudantes regulares do Tóquio Dojo gastavam muito de seus tempos indo em lugares, tais como embaixadas estrangeiras, para fazer demonstrações de Aikido e procurar ativamente novos membros para o dojo.

Segundo, a prática do Aikido tornou-se verdadeiramente internacional. O próprio Morihei Ueshiba, uma vez, viajou para o exterior, para Havai e seu filho Kisshomaru Ueshiba viajou extensivamente. Alguns seguidores do fundador e o atual Doshu ocuparam residência no exterior e estabeleceram aí organizações embrionárias. Geralmente, estas organizações também usaram o nome Aikikai e adotaram a mesma estrutura solta como a encontrada entre as organizações Aikikai afiliadas mais antigas no Japão. Assim, no início dos anos 1960, Nobuyoshi Tamura, Hiroshi Tada, Katsuari Asai e Kazuo Chiba foram todos viver na Europa. No mesmo período, Yoshimitsu Yamada e Mitsunari Kanai fixaram-se nos Estados Unidos e Seiichi Sugano, na Austrália.

ESTRUTURA LEGAL

Outra mudança importante foi que foi dado ao Aikido um caráter legal. A Zaidan Hojin Aikikai (Fundação Aikikai) foi criada em 1948 e registrada na Prefeitura de Ibaraji onde o Iwama Dojo se localiza. Na verdade, o Kobukan tem sua contrapartida legal no Kobukai, uma fundação criada em 1940 graças aos esforços do Almirante Isamu Takeshita, aluno de Morihei Ueshiba. Em 1948, no entanto, havia um desejo geral de fazer um rompimento completamente claro com o passado militar do Japão e foi compreensível e também desejável politicamente que a organização reconstituída devesse ser de novo estabelecida. Como uma entidade legal, a Fundação Aikikai tinha uma constituição, quadro de diretores e conselheiros e o Iwama Dojo tornou-se o Hombu (quartel general) da organização. Como foi dito anteriormente, o quartel general, de fato, voltou para Tóquio e o Iwama tornou-se um ramo. Além disso, a graduação Dan dada por Morihei Ueshiba e seus discípulos transformou-se em um sistema com validação dada também pela Fundação Aikikai. Num certo sentido esta última mudança foi problemática, uma vez que o dan deixou de ser puramente julgamento pessoal do mestre em relação à competência do discípulo. Algumas graduações de alunos antigos, conferidas verbalmente pelo fundador, nunca foram validadas pela Fundação Aikikai.

HOMBU DOJO, AIKIKAI E A IAF

O edifício situado no 17-18 Wakamatsu-cho, Shinjuku, Tóquio é, assim, o atual centro das operações do Aikido que pode ser subdividido em três cabeças separadas.

1. O Aikikai Hombu é denominado o quartel general da organização legal conhecida como Fundação Aikikai, com seu quadro de diretores e conselheiros e seu registro de graduação dan. Nas outras partes do Japão as organizações são chamadas Shibu (ramos). Por exemplo, o Ramo Aikikai da Prefeitura de Hiroshima (Aikikai Hiroshima Kenshibu) é parte da Fundação Aikikai registrada em Tóquio. O presidente da Aikikai Hombu é Doshu Kisshomaru Ueshiba, o diretor é Moriteru Ueshiba.

· 2. O Hombu Dojo É o lugar onde o Aikido é praticado de acordo com os princípios estabelecidos por Morihei Ueshiba. É o dojo-sede da rede de organizações Aikikai, tanto do Japão quanto do exterior, estabelecida pelos seguidores do fundador ou de seu filho e que mantém também relações pessoais diretas com o fundador e sua família. O Diretor Geral do Hombu Dojo é Moriteru Ueshiba, neto do fundador.

3. É a sede da Federação Internacional de Aikido (IAF.). A Federação Internacional de Aikido foi fundada para satisfazer a necessidade das várias organizações de Aikido da Europa. O Aikikai Hombu concordou com a criação da IAF e o primeiro congresso da IAF foi realizado em Tóquio, em 1976. A maioria das organizações Aikikai filiadas existentes no exterior se tornaram membros da IAF (segundo o critério de uma organização por país) e, no interesse da uniformidade, foi pedido às Aikikais estrangeiras, na época, para mudar seus nomes para x x x x x x Aikido Federation. A Federação All-Japan de Aikido também criada um pouco antes, tornou-se membro da IAF pelo Japão. Nem o Hombu Dojo nem a Fundação Aikikai são membros da IAF porque não são federação.

FILIAÇÃO À GAISF

Neste ponto, um problema delicado apareceu. O fato de a IAF ter sido criada no Japão significou que ela foi criada de acordo com a lei japonesa, mas a lei japonesa não levou em consideração a existência de tais organizações internacionais, muito embora elas tenham sido fundadas no Japão. De fato, após muita conversa e discussão, a decisão foi procurar membros para a GAISF (Associação Geral das Federações Internacionais de Esportes) que é a única organização que une todas as federações internacionais de esportes Olímpicos e não-Olímpicos num grande corpo. A GAISF é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional do qual praticamente todas as organizações esportivas do mundo são membro. Uma vez que a Fundação Aikikai não é uma federação internacional, ela não pode ser membro da GAISF e, portanto, o único membro da GAISF pelo Aikido é a IAF., que se tornou membro em 1984. Tanto a Hombu como a IAF estão bem cientes de que a participação do Aikido nas federações internacionais de esporte é um tanto incomum, pelo motivo fundamental de que não há competições no Aikido e, dessa forma, não pode ser considerado um esporte, neste sentido. Entretanto, é fato que alguns países criaram seus critérios próprios para a organização e reconhecimento das artes marciais considerando suas características próprias e levando em conta o reconhecimento do Comitê Olímpico Nacional ou a filiação à GAISF como condição essencial para o reconhecimento local do Aikido. Assim, a IAF e sua filiação à GAISF é elemento muito importante para o reconhecimento internacional do Aikido, como é ensinado e praticado no Hombu Dojo e regulamentado pela Fundação Aikikai.

A IAF e a USAF
____________Debate _____________
Uma resposta à Yamada Shihan Por Peter Goldsbury, Diretor da IAF

A SAÍDA DA USAF DA IAF

Gostaria de discutir algumas das questões que o Sr. Yoshimitsu Yamada levantou em sua entrevista com Wagner Bull na A T.M. # 56. A entrevista foi ampla e cobriu muitos tópicos, um dos quais foi a recente saída da USAF da IAF e isto é o que quero discutir nesse artigo. Naturalmente, sobre este assunto Yamada Shihan apresenta o ponto de vista da USAF, uma vez que ele é o presidente dessa organização. Mas há outro ponto de vista e penso que deveria ser dado às pessoas a oportunidade de considerá-lo.

Devo declarar, desde o princípio, que sinto extremo embaraço por ter que cruzar espadas com tal eminente shihan como Yamada Sensei. Tenho recordações muito agradáveis das visitas de Yamada Sensei a Boston no início dos anos setenta, quando eu era um estudante graduado em Harvard e membro do New England Aikikai e as festas e conversas vívidas que aconteceram durante tais visitas no velho dojo, em Cambridge. Quando ganhei meu shodan na Inglaterra, foi durante um seminário de Sensei Yamada e ele foi o instrutor senior no exame de graduação. Sinto que, num sentido real, recebi meu shodan dele. Yamada Shihan é um dos pioneiros iniciais da divulgação do Aikido no exterior e da criação da IAF, em 1976. Ele foi um dos primeiros shihans escolhidos pela Aikikai Hombu para ensinar Aikido no exterior e tem sido membro do Conselho Superior da IAF desde a criação da federação. Ele tem, portanto, uma posição estratégica sem igual. Naturalmente, estou consciente de que Yamada Shihan tem opiniões sobre a organização do Aikido e que essas opiniões são fortemente defendidas. Provavelmente, elas são também compartilhadas por outros shihans residentes nos Estados Unidos.

Então, quando discordo dessas opiniões, espero que seja entendido que o desacordo é acompanhado, em igual medida, de respeito pelas opiniões defendidas e por aqueles que as defendem.

Antes de discutir a entrevista de Yamada Shihan em detalhe, penso que ajudará especificar algumas questões importantes. Algumas delas são tratadas na entrevista, mas outras não. As pessoas que não conhecem a IAF ou os problemas que as organizações de Aikido enfrentam devem manter em mente estas questões no decorrer da discussão.

a) A estrutura do Aikido como organização

Penso que é importante compreender que a essência do Aikido como um complexo, mas verticalmente estruturado relacionamento entre mestre e estudante, nunca poderá ser perfeitamente incorporado numa organização de Aikido de qualquer tipo, seja a Aikikai Hombu, a USAF ou a IAF. É claro que o Aikido começou como um grupo de indivíduos atraídos pela visão e poder extraordinários do Fundador, Morihei Ueshiba. Porém, muito cedo em sua história, o Aikido no Japão foi tomando a forma de uma organização e quando a arte marcial espalhou-se além dos limites do Hombu e especialmente fora do Japão, organizações também foram criadas que tomaram os padrões característicos da cultura anfitriã. Então, falar de Aikido simplesmente como um relacionamento vertical de indivíduos com um mestre é uma excessiva simplificação da arte marcial e seu desenvolvimento. Quando falamos de Aikido, falamos também de organizações, de "escolas" e até de "políticas" de Aikido. Isto é inevitável.

b) O papel da IAF

Considero que desde sua criação em 1976 a IAF tem tido algum sucesso desempenhando um papel muito importante. Seu principal objetivo tem sido possibilitar um meio de comunicação entre mais de 40 organizações de Aikido de culturas extremamente diferentes. Penso que, dado como é a natureza humana, o aparecimento de desacordos e disputas e suas resoluções é uma parte fundamental desta comunicação mútua e uma vez que as federações membro são iguais, a comunicação tem que ser desenvolvida de maneira democrática. Um corolário disto é que tais federações de Aikido podem juntar-se ou deixar a IAF, se desejarem. Lamento muito que a USAF tenha decidido deixar a IAF e espero que a federação retorne. Porém, o fato de que a USAF foi capaz de apresentar seu caso, ter a questão debatida e decidida de forma democrática e, então, agir, é uma das forças da IAF, não uma fraqueza.

A USAF foi criada como uma das federações fundadoras da IAF e tem suas próprias características especiais. Mas penso que um ponto importante sobre o qual eu tenho que discordar de Yamada Shihan é que a USAF parece esperar que todas as outras federações da IAF aceitarão a visão "americana" da IAF. Considero que o principal valor da IAF é que ela é uma federação que respeita a integridade e soberania de todos os seus membros.

Uma das principais funções da IAF é ser um forum de comunicação, como sustentarei mais adiante. Penso que dois níveis separados de comunicação são algumas vezes confusos. Uma é a comunicação das federações de Aikido entre elas; e outro, é a comunicação das pessoas, Shihans como o Sr. Yamada, com a Hombu Aikikai. Penso que há uma diferença fundamental entre os dois. A comunicação das organizações de Aikido entre elas é um dos objetivos importantes da IAF e penso que este objetivo não está em questão. No entanto, com frequência, funcionários da IAF são chamados para ser intermediários entre os shihans de Aikido e a Hombu. Isso é um assunto bastante diferente. Porque os dois níveis de comunicação são algumas vezes confusos, sinto que a IAF, algumas vezes é criticada por problemas de comunicação sobre os quais ela não tem controle.

c) O futuro do Aikido como Arte Marcial

Levantar este assunto é, de alguma forma, quebrar um tabu uma vez que requer olhar o Aikido após a era do atual Doshu e de Shihans como o Senhor Yamada a quem o Doshu nutriu e de Moriteru Ueshiba, seu sucessor. Dias virão quando o desenvolvimento do Aikido estará nas mãos de pessoas que não tiveram contato com o fundador ou qualquer de seus sucessores. No Japão, o relacionamento sempai-kohai, verticalmente estruturado, que permeia a sociedade em geral, assegurará que os estudantes de Aikido estabelecerão algum relacionamento vertical com um ou outro. Mas esse elemento da tecido social está gradualmente extinguindo-se no Japão, à medida que o país adota, cada vez mais, os valores ocidentais e, assim, se esse relacionamento será tão produtivo no futuro como foi quando o Aikido foi criado e desenvolvido, é outra questão.

O ponto que estou tentando levantar é que eu e muitos outros de minha geração consideramos shihans como Saito, Yamaguchi, Tada, Tamura, Yamada, Isoyama, Chiba, Sugano e outros como verdadeiros titãs do Aikido, que tiveram um contato direto com o Fundador. Eles são, até certo ponto, como os apóstolos no início da Igreja Católica. Eu comecei o Aikido no ano em que O-Sensei morreu e, portanto, nunca tive a chance de passar pelo que Yamada Sensei experimentou: um tipo de batismo de fogo nas mãos do Fundador. No entanto, estou muito feliz de ter podido praticar sob a direção destes gigantes. Como os heróis de Homer, eles tem realizado grandes feitos. Mas a era deles está terminando. Eles passarão e logo não haverá diferença entre os shihans de Aikido surgidos no Japão e aqueles surgidos no exterior. Isto também significa que a enorme represa de boa vontade geral, construída em torno da Hombu e seus shihans japoneses gradualmente evaporará, a menos que a Hombu possa encontrar uma maneira de transmitir para as futuras gerações o autêntico "carisma" de O-Sensei. Penso que a IAF tem a responsabilidade de assistir o Hombu fazer isto, da forma que puder, como uma maneira de assegurar que o Aikido não siga o caminho do Judo e do Kendo e torne-se um esporte totalmente ocidental.

A ENTREVISTA COM YAMADA SHIHAN

Em sua entrevista o Senhor Yamada faz um certo número de comentários gerais sobre a IAF e eu gostaria de comentá-los. Concluirei com algumas observações gerais sobre as circunstâncias que envolvem a retirada da USAF.

Por que a USAF saiu da IAF?
"Colocado de forma simples, estávamos enjoados e cansados da IAF e suas ações. A IAF, na sua forma atual, é desnecessária". (entrevista na ATM, pag. 09)

Tenho que discordar dessa opinião por várias razões:

Primeiro, a IAF tem provido um forum no qual as organizações de Aikido filiadas à Aikikai podem se encontrar amigavelmente e discutir assuntos de interesse comum. A percepção do Senhor Yamada a respeito dos congressos sugere que estas ocasiões são sempre momentos de disputas, mas isso não é verdade. Com certeza, os congressos tem sido ocasiões para disputas, mas disputas sempre tem ocorrido no mundo das artes marciais (e o Aikido não é exceção). Falar de Aikido como apenas sendo uma questão de paz e harmonia é uma distorção não só da história e natureza da arte marcial, como também de sua estrutura organizacional atual. Não há razão para pensar que não ocorrerão disputas nos encontros internacionais e os congressos da IAF tem sido sempre ocasião para discussão muito amigável (deve-se admitir, às vezes, patentes antipatias) entre os participantes. Penso que é injusto escolher os congressos da IAF para crítica pessoal. Dada a atual estrutura das organizações de Aikido (sobre a qual terei algo mais a falar abaixo), penso que haverá sempre a necessidade de mais discussão formal e informal com base na igualdade. Esta necessidade, à propósito, não pode ser encontrada pela Aikikai Hombu, que é essencialmente uma organização estruturada verticalmente e preparada apenas para a comunicação de cima para baixo.

Segundo, a IAF tem fornecido um meio pelo qual aikidoístas do mundo todo podem se encontrar e praticar a arte juntos sob a direção de professores de alta graduação, diretamente filiados à Aikikai Hombu. Um curso de treinamento internacional tem se realizado em cada congresso da IAF e, acredito, que foi o próprio Senhor Yamada que sugeriu, no primeiro congresso da IAF que ela organizasse tais cursos de treinamento para cobrir os custos da IAF.

Um bom exemplo de tais seminários aconteceu no último congresso da IAF, realizado em Katsuura, Japão, no qual várias centenas de aikidoístas se juntaram durante uma semana de treinamento. A maioria desses aikidoístas não eram delegados no congresso e só vieram para as sessões de treinamento. Foi uma excelente oportunidade para os aikidoístas de todo o mundo se encontrarem e praticarem e nós pretendemos repetir esse formato no 8º congresso da IAF a ser realizado em 2 000, também no Japão. Naturalmente, qualquer organização de Aikido pode realizar cursos internacionais de treinamento, mas o propósito fundamental da IAF e sua estreita relação com a Aikikai Hombu dá à federação um status (posição) singular no Aikido internacional. Os congressos da IAF são sempre ocasião para cursos de treinamento dados por um grande número de shihans de alta graduação vinculados à Aikikai Hombu.

Quero salientar este fato porque, o que quer mais que a IAF faça, um de seus objetivos, com certeza, é possibilitar que aikidoístas do mundo todo se encontrem e pratiquem uns com os outros sob a direção de professores de Aikido de alta graduação. Penso que esse é um objetivo sobre o qual ninguém, nem mesmo a USAF, discordará.

Terceiro, a IAF tem fornecido um forum de discussão sensata entre as organizações de Aikido e os shihans japoneses filiados à Hombu que residem fora do Japão. Os shihans japoneses que moram no exterior precisam, de vez em quando, discutir problemas específicos que encontram e a IAF é um forum adequado para estas discussões, uma vez que a Aikikai Hombu está sempre representada nesses encontros. No entanto, não é sua função principal, a IAF também fornece um meio de comunicação para tais shihans e a Aikikai Hombu.

Eu realmente não sei se tais canais de comunicação existem fora da IAF, mas estou certo de que há necessidade de tal comunicação. Freqüentemente, em minhas viagens a vários países, tenho conversado com shihans japoneses e algumas vezes eles me dizem com veemência: "Você tem que falar com a Hombu sobre tal e tal problema. Eu não posso fazê-lo por causa da minha posição (isto é, como shihan japonês). Mas você pode (isto é, não japonês --- e portanto não comprometido com as convenções japonesas --- e não um shihan indicado pela Hombu), você está em uma posição que permite se aproximar da Hombu diretamente e contar-lhe sobre nossas preocupações".

Alguns leitores podem pensar, pelo parágrafo acima, que tenho sido culpado de discriminação racial, por ter mencionado apenas os shihans japoneses em suas relações com a Aikikai Hombu. Não pretendo desrespeitar os shihans não japoneses Quando digo que o problema de comunicação deles com a Hombu nunca apareceu: eu realmente penso que essa comunicação não existe, pelo menos formalmente. Uma rápida olhada na lista de shihans no exterior fornecida pela Hombu no seu guia anual do Aikido no Japão, por exemplo, mostra que não há não japoneses na lista (muito embora o Sr. Christian Tissier, por exemplo, que é o responsável técnico de uma grande organização na França, tenha a graduação de 7º Dan). Novamente, gostaria de enfatizar que os Conselheiros Técnicos da IAF, que são indicados pela Hombu, têm a missão de manter contato próximo com pessoas de qualquer nacionalidade, atribuída pela Fundação Aikikai para ensinar Aikido fora do Japão.

Quarto, e muito importante, a IAF tem, através de seus congressos e outros encontros, fornecido um meio de comunicação estruturado entre as organizações de Aikido e a Aikikai Hombu. A estrutura vertical do Aikido não fornece canal de comunicação entre federações e a Hombu. Uma vez que a Aikikai Hombu se propõe a ser a fonte da verdade e da sabedoria do Aikido, é muito difícil para a Hombu estabelecer relações de igual termo com as federações de além mar. Essa necessidade só pode ser detectada por uma organização que seja estruturada horizontalmente, na qual os membros possam se encontrar sob a base da igualdade.

Por isso, a IAF tem se tornado, corretamente, um forum para a discussão de importantes questões que afetam o Aikido e eu não vejo razão para que não deva continuar. Quero sublinhar o fato de que não há conflito intrínseco entre arte marcial estruturada verticalmente (com a Hombu no topo) e uma estrutura baseada na horizontalidade de organizações dessa arte marcial numa federação como a IAF. É fato que o Aikido mundial tem uma certa estrutura organizacional. Há uma ou muitas organizações em vários países ao redor do globo e estas organizações têm uma estrutura que reflete suas histórias, suas culturas ou ambas. As coisas poderiam ter sido diferentes, mas assim é como têm funcionado. No âmbito internacional, o método mais bem provado para as organizações é formar uma federação que funcione segundo um modelo democrático, isto é, com um método justo de representação e decisão. Com certeza, poderíamos ter uma IAF inteiramente dirigida por shihans, mas não estou convencido de que isso seria uma melhoria na situação atual. Porém, também é verdadeiro que os praticantes de Aikido, mesmo os que são delegados nos congressos da IAF, são aikidoístas que têm, ou deveriam ter, uma vida de prática do Aikido numa relação vertical com seus professores. Não deveria haver nunca nenhum conflito entre que ações tomariam sobre o tatami, quando praticam com seus parceiros e que ações tomariam num congresso, quando se relacionam com seus colegas delegados.

Quinto, através de suas federações membro a IAF tem ajudado a semear as sementes do Aikido no novo solo: introduzir e espalhar a arte nos países onde ela não existe. O crescimento fenomenal do Aikido tem sido devido, em grande parte, à Shihans como o Sr. Tamura e o Sr. Yamada, que foram para o exterior como pioneiros e espalharam o Aikido na Europa e nos Estados Unidos da América. Seus esforços foram feitos antes da criação da IAF, mas desde 1980 tem havido uma maior expansão do Aikido na Europa Oriental e na Ásia, especialmente nos países da antiga União Soviética. Muito do crédito por essa expansão deve ser atribuído primeiro à IAF.

O Conselheiro Técnico, Masatake Fugita Shihan, foi assessorado por considerável suporte financeiro e moral da Federação Européia de Aikido (EAF) que foi a primeira federação continental formada por membros da IAF. Nos últimos anos Figita Shihan tem feito diversas visitas anuais para ensinar Aikido e eu espero que esses esforços logo darão frutos e um grande número dessas federações juntem-se a IAF. Sexto, a IAF estabeleceu contato com várias corporações oficiais de esportes e mostrou, assim, o Aikido em lugares onde os riscos da arte foram mal entendidos devido ao fato de não realizar competições. Em 1984, com a benção do Doshu e da Aikikai Hombu, a IAF tornou-se membro da GAISF (em inglês: Associação Geral das Federações Internacionais de Esportes; na França a sigla é AGFIS, que significa Associação Geral das Federações Internacionais Esportivas). A GAISF/AGFIS é a organização que congrega todos os esportes, olímpicos e não olímpicos. É basicamente uma organização "entre amigos", talvez algo como Yamada Shihan quer que a IAF se torne, mas sem os cursos de treinamento. Grandes esforços são feitos para respeitar a integridade e independência de todos os membros, assim nenhuma decisão vital é jamais tomada sobre qualquer questão moral fundamental e os congressos tendem a ser ocasiões para bajulação e troca de chavões vazios sobre o esporte como uma família, etc, etc.. Os delegados nos congressos da GAISF encontram-se "ombro a ombro" com pessoas como o Sr. Samaranch (IOC) e o Sr. Havelange (FIFA). A IAF não tem influência bastante para causar impacto na GAISF (não há Aikido Olímpico e nem copa do mundo de Aikido) e não planeja tentar. No entanto, permanece o fato de que a filiação à GAISF confere um tipo de reconhecimento internacional tanto à Aikikai Hombu como às federações membro e, na minha opinião, essa é a razão principal por que a IAF é um membro, embora ela não realize competições e nunca realizará.

Parece haver duas visões sobre o Aikido e outras federações de esporte. Uma visão diz "nunca os opostos devem se encontrar". De acordo com esta visão, o Aikido, interpretado e disseminado no exterior pela Aikikai, arrisca-se à séria contaminação associando-se a organizações de esportes, ou mesmo outros grupos de Aikido que, supostamente, desviaram-se do Caminho Único Verdadeiro. A outra visão diz que o Aikido --- e com certeza a IAF ---- está vivendo no mundo real e tem que ter relações com as organizações de esportes. É bastante possível para uma federação como a IAF pertencer a uma organização mundial de esporte sem tornar-se corrompida. Pensar, por outro lado, trai uma extraordinária falta de fé na arte marcial e naqueles que a praticam. A questão é apenas de conveniência: é do interesse do Aikido pertencer a tais organizações?

Finalmente, o status da IAF como uma federação internacional reconhecida tem permitido às federações membro ganhar o reconhecimento de suas próprias autoridades governamentais. Nem todos os membros precisam desse reconhecimento, mas alguns sim. Este é um fator crucial na existência da IAF e um daqueles que, de forma alguma, é tocado na entrevista de Yamada Shihan. Eu posso pensar num grande número de organizações membros da IAF que tem que pertencer a uma federação internacional para poder ter o Aikido oficialmente reconhecido em seus próprios países. Sem tal reconhecimento a organização não pode usar as instalações esportivas ou ser qualificada para seguro etc.. Até a Aikikai Hombu é reconhecida, no Japão, apenas pelo Ministério de Educação japonês. A Aikikai pretende ser uma organização mundial, mas não é reconhecida fora do Japão. Assim, a existência da IAF é de algum benefício para a Aikikai.

Pelo que sei o governo dos Estados Unidos não impôs qualquer condição às organizações de esportes e o Aikido bem como as outras artes marciais podem nascer e morrer sem nenhuma interferência governamental. Nem o governo americano "reconhece" as organizações de artes marciais. Todos são livres para fazer o que gostam. Em outros países a situação é bastante diferente. Sei que diversas federações filiadas à IAF receberam reconhecimento oficial de seus governos somente por serem membros da IAF e, dessa forma, eram indiretamente membros da GAISF. Suas relações com a Aikikai Hombu contou pouco.

Qual a relação entre a IAF e Doshu Kisshomaru Ueshiba?
"Doshu é o presidente da IAF ; esta é a ligação. Porém, a IAF quer funcionar como uma organização completamente separada do (Aikikai) quartel general..."(Entrevista ATM, pp 9-10).

Não é uma questão de querer, mas uma questão de fato real. Apesar do presidente da IAF ser Doshu, a IAF é uma organização completamente separada da Hombu e sempre foi. Naturalmente a Hombu indica certos funcionários da IAF e o Senhor Yamada, como um membro do Conselho Superior, é um desses casos. No entanto, a direção da IAF está nas mãos de pessoas eleitas pelos membros e estas pessoas têm apenas uma conexão indireta com a Hombu. Por exemplo, eu me tornei membro da Hombu quando recebi a graduação de Shodan dada pelo Doshu. Mas não sou membro da Hombu por ser diretor da IAF. O Secretário Geral, Sr Hiroshi Somemiya, era membro do departamento internacional da Hombu, mas desligou-se desse trabalho ao tornar-se Secretário Geral. Há diversas razões por que a IAF é uma organização separada da Hombu.

a) A IAF não é uma federação de indivíduos, mas de organizações. Naturalmente, o Aikido é sobre indivíduos e seus práticas diárias com seus professores, mas é também sobre as organizações que estes indivíduos e professores criam. Algumas destas organizações tem uma história muito longa. Por exemplo, a Federação Britânica de Aikido (B.A.F.) foi originalmente chamada Aikikai da Grã Bretanha (AGB) e sua origem é anterior à chegada do Sr. Kazuo Chiba na Inglaterra, em 1962. (Os leitores da ATM poderiam gostar de lembrar a entrevista com o Sr. Ken Williams, que estabeleceu a primeira organização de Aikido da Bretanha). Quero frisar que a organização foi formada por aikidoístas britânicos e quando a BAF estabeleceu uma estrutura legal, foi organizada de acordo com as convenções legais britânicas. A IAF é uma federação de organizações de Aikido independentes, soberanas como a BAF e tem de respeitar a integridade cultural de todos os seus membros.

b) Como sugeri acima, a Aikikai Hombu é organizada de acordo com o princípio "vertical", visto, por exemplo, na graduação Dan. Qualquer um que olhe a lista oficial ou mesmo as publicações da Aikikai verá que a graduação Dan forma um princípio guia. Esta estrutura vertical reflete a dimensão da cultura japonesa do Aikido, composta, como é, de indivíduos numa relação mestre-discípulo. Esta é uma forma mais intensa e organizada de relação verticalmente organizada entre Sempai e Kohai (Seniors e juniors), que domina a sociedade japonesa como um todo. No entanto, uma federação de organizações de âmbito mundial pode nunca ter esta estrutura. Porque todas as federações membros são iguais, como membros, ela tem que ser organizada como todas as federações internacionais, numa linha "horizontal"--- democrática. Mesmo se a IAF fosse reorganizada do modo que Yamada Shihan sugeriu, ela ainda teria que ser organizada como uma federação, numa linha democrática.

c) Uma vez que a estrutura das organizações de Aikido seguem, usualmente, o princípio "horizontal" de igualdade, tem de ser encontrada uma maneira de combinar a estrutura vertical, mestre-discípulo, com a estrutura horizontal, democrática. Este problema afeta não só a IAF, mas qualquer grupo de Aikido que não seja apenas um pequeno grupo de discípulos reunidos em torno de um professor. Todos os participantes das reuniões da IAF são aikidoístas que, deve-se concordar, entendem a necessidade de equilibrar as reivindicações de colocar suas opiniões com as exigências da relação vertical, mestre-discípulo. As experiências de congressos da IAF do Senhor Yamada, com todos os argumentos e disputas, sugere que esse delicado equilíbrio nem sempre é alcançado. (Em relação a Yamada Shihan, penso que o fato de que os participantes das reuniões da IAF têm o dever de representar suas organizações e expressar suas opiniões claramente, nem sempre é entendido por alguns shihans). A IAF tem que funcionar de um modo formal estritamente democrático, mas espera-se que os delegados e outros participantes dos congressos se lembrem que participam também da relação mestre-discípulo e ajam apropriadamente.

A Federação de Aikido dos Estados Unidos (USAF) deixou a Federação Internacional de Aikido (IAF), mas o Senhor permaneceu na IAF como indivíduo. Por que o Senhor decidiu fazer isto?
"Não foi minha escolha. Sou membro do Conselho Superior da IAF --- uma posição para a qual fui indicado, como indivíduo, pelo Doshu"(ATM , entrevista, p.9).

A USAF supre diversos membros ao corpo administrativo da IAF. Yamada Shihan é membro do Conselho Superior desde que a IAF foi fundada e Mike Abrams e Harvey Konigsberg, ambos eternos membros da USAF, têm sido também membros desse corpo. No entanto a USAF também se supriu diretamente de membros eleitos do Comitê Diretor da IAF. Don Shimazu, do Havai, foi Vice-Presidente da IAF, como também Tohei Akira Shihan, do Centro de Aikido do Meio-Oeste, em Chicago.

Quando a USAF deixou a IAF, minha reação imediata foi a de que Yamada Shihan deveria renunciar de sua posição como membro do Conselho Superior da IAF, que ele é bastante capaz de exercer. Senti que sua posição era insustentável. Mas este modo de pensar pode também ser visto como estreito e "Ocidental'. Como Yamada Shihan coloca em sua resposta acima, ele foi indicado como membro da IAF. Membro do Conselho Superior como indivíduo e estou bastante seguro que, como japonês, Yamada Shihan se sentiria muito desconfortável em renunciar a uma posição que o Doshu pediu a ele para ocupar. Desde que a USAF deixou a federação, Yamada Shihan está livre da obrigação de ter que usar dois chapéus nos congressos da IAF e sentir que ele deve sempre salvaguardar os interesses da USAF. Assim, espero ansioso suas futuras contribuições à IAF como um verdadeiro "Sensei Internacional", sem ter que preocupar-se com qualquer obrigação de representar qualquer interesse particular.

A USAF E A IAF

O modo democrático pelo qual a IAF é organizada é uma das razões pelas quais a USAF retirou-se da federação. Na superfície a questão é bastante simples mas diz respeito a uma questão fundamental relacionada à estrutura da IAF e provavelmente à estrutura do Aikido no exterior, em geral. O problema, que apareceu num dos congressos iniciais da IAF, centra-se na seguinte questão: a IAF deveria ser um corpo composto das assim-chamadas organizações "nacionais" (porém este termo está definido), ou a federação deveria ser de grupos de Aikido (porém estes estão definidos)? A USAF sente que as condições para tornar-se membro da IAF são restritivas demais, baseadas, como são, no regulamento de que somente uma organização reconhecida pela Hombu Aikikai, em qualquer país, pode ser membro e gostaria que a IAF mantivesse suas portas abertas a qualquer organização seja ela reconhecida ou não pela Aikikai.

Penso que a questão foi primeiro discutida anos atrás em 1984 e a proposta da USAF foi debatida nos dois últimos congressos da IAF. Em ambas as ocasiões a proposta foi rejeitada. No 7º congresso da IAF, realizado em Katsuura em 1996, o delegado da USAF apresentou o pedido de sua federação e completou que a USAF se retiraria da IAF se ele não fosse aceito. A proposta foi colocada em votação e foi firmemente rejeitada. No meu entender, a USAF então não tinha outra escolha senão retirar-se. Porém, eu sei que algumas federações da IAF ficaram bastante zangadas com o que perceberam como tentativa de chantagem da USAF. Elas sentiram-se vítimas de uma brincadeira de valentão. Uma vez que os estatutos da IAF ainda estavam em processo de revisão, o sentimento geral era o de que teria sido melhor olhar a versão final, antes de dar tal passo drástico como deixar a federação. (A USAF propôs também, no congresso de Katsuura, que o trabalho de revisão dos estatutos da IAF deveria parar. Esta proposta, também, foi firmemente rejeitada).

A questão das organizações de Aikido é importante e complexa. A atual estrutura da IAF pressupõe que há organizações nacionais de Aikido, tal como a USAF, mas que somente uma pode ser membro da IAF. Está claro que este método de organização pode ser visto como injusto, de alguma forma, tal como está, uma vez que penaliza outras organizações do país que podem querer se juntar a IAF, mas não podem. Uma federação de grupos deveria permitir muito mais organizações se juntarem a IAF, porém removeria também qualquer necessidade de organizações nacionais como tal, já que elas seriam organizadas verticalmente em torno do shihan. Isto não é uma coisa má em si, naturalmente, mas uma conseqüência é a de que removeria a necessidade de federações como a USAF. Por exemplo, Yamada Shihan pode (hipoteticamente) querer afiliar não apenas os dojos que pertencem ao New York Aikikai, ou o setor ocidental da USAF, mas também aqueles dojos da América do Sul que têm um relacionamento com ele como professor. Um nome melhor para tal organização seria Yamada Aikikai,, uma vez que ele é a razão de ser da organização.

A crítica feita diversas vezes de que os membros da IAF não entendem as razões pelas quais é suposto que eles votem nos congressos da IAF - e especialmente a razão que guiou a retirada da USAF ---- penso que é completamente infundada. A questão tem sido debatida na IAF por muitos anos e diz respeito diretamente a situação real dos membros da IAF em seus próprios países. Não posso acreditar que estes membros ainda não entendam os motivos envolvidos.

Outra crítica tem sido feita de que os membros da IAF tem um direito adquirido de manter o status-quo, uma vez que eles são de organizações com filiação à IAF. Esta crítica está, algumas vezes, casada com uma outra, ou seja, de que as pessoas procuram usar a IAF para seus próprios propósitos, tornando-se funcionários da IAF pelo poder e prestígio que dará a eles em seus próprios países. Esta crítica é mais insidiosa, pois sugere que os delegados da IAF não aprenderam nada de nada de seus anos de treino de Aikido. A crítica, no entanto, pressupõe que a filiação à IAF vale à pena ter e segurar , mas parece considerar pouco o fato de que aikidoístas que são delegados da IAF são capazes de tomar decisões sábias. Penso que o Aikido não é uma panacéia moral para as doenças do mundo e estou certo de que a IAF não está na posição de julgar as credenciais morais de suas organizações membros e delegados. Deve-se presumir ---- como qualquer outra organização similar teria que pressupor ---- que seus membros e delegados agem no melhor interesse das federações membros e da IAF como um todo e sentem que a vantagem comum das federações é realmente mais importante do que aquela da soma total de suas partes..

Em relação ao real motivo que guiou a retirada da USAF, não posso expressar uma opinião, de qualquer forma. A estrutura da IAF como uma organização baseada em organizações nacionais não é algo gravado em pedra e não há, intrinsecamente, nada errado com uma federação baseada em grupos. Não há um consenso claro a respeito deste assunto, seja na IAF, seja na própria Aikikai e como diretor da IAF eu certamente não posso, da mesma maneira, forçar o Congresso decidir a questão.

Desde o congresso de 1984, o congresso da IAF tem agido cada vez mais como um corpo democrático e menos como um tipo de cortejo ---- e não tenho intenção de interferir neste processo. As sessões tem sido sempre presididas pelo diretor e as decisões tem sido tomadas por chamada, levantar as mãos ou por cédula de votação.. Em particular, os funcionários da IAF são eleitos por voto secreto. Os membros são livres para expressar seu desacordo sobre qualquer questão e comumente o fazem, algumas vezes bastante firmemente.

De tudo que foi dito, espero que qualquer debate futuro entre a USAF e a IAF possa ser conduzido numa atmosfera justa e cordial. Yamada Shihan afirmou na entrevista que os congressos da IAF tem sido devotados a "casos internos e disputas entre os países europeus". Como afirmei acima, minha própria lembrança é um pouco diferente. De fato, nos últimos congressos, muitas das disputas foram entre Yamada Sensei e eu (e não me surpreenderia se esta situação continuar).

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE AS ORGANIZAÇÕES DE AIKIDO
por Peter Goldsbury, Diretor da IAF

A retirada da IAF de uma de suas federações membro tem sido ocasião para muita discussão pessimista sobre o futuro da federação. Penso que a ocasião oferece uma oportunidade para fazer um balanço do que a IAF realizou e também refletir sobre suas futuras tarefas . Não penso que a IAF falhou como uma organização internacional de Aikido. De fato, acredito que ela pode reivindicar diversas conquistas notáveis.

CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS

Primeiro, desde sua fundação em 1976, a IAF tem fornecido um meio pelo qual aikidoístas de todo o mundo podem se encontrar e praticar a arte sob a direção de professores de alta graduação, especialmente aqueles que tem uma conexão direta com a Aikikai Hombu.

Segundo, a IAF tem fornecido um forum no qual as organizações de aikido filiadas a Aikikai podem se encontrar num espírito de camaradagem e discutir assuntos de interesse comum.

Terceiro, ela tem fornecido um forum para discussão racional entre estas organizações de Aikido e os shihans, japoneses e não-japoneses, que são filiados a Aikikai Hombu e residem no exterior.

Quarto, e muito importante, a IAF, através de seus congressos e outros encontros, tem fornecido um meio de comunicação oficial entre as organizações de Aikido e a Aikikai Hombu.

Quinto, através de suas federações membro e especialmente através de sua federação continental européia, ela tem ajudado a semear as sementes do Aikido no novo solo: a introduzir e espalhar a arte em países onde antes não existia.

Sexto, a IAF tem se engajado em contatos oficiais com várias organizações internacionais de esportes e tem, então, mostrado o Aikido em lugares onde os riscos da arte foram mal entendidos, uma vez que ela não realiza competições e não é, então, um esporte neste sentido comumente reconhecido.

Finalmente, o status da IAF como uma federação internacional reconhecida tem habilitado algumas de suas federações membros a obter o reconhecimento de suas próprias autoridades governamentais. Nem todos os membros necessitam deste reconhecimento, mas um número significativo precisa.

Quando a IAF é mencionada em algumas centrais (local de onde se espera que venha algo), um ar de desesperança desce, algumas vezes, na discussão e eu me pergunto, como diretor, o que vai acontecer com a federação. Com certeza ela continuará --- deve continuar --- e espero, continuará a florescer.

Penso que a IAF é uma organização pioneira em muitos aspectos. É uma tentativa de fazer algo nunca antes tentado, ou seja, ser uma federação em âmbito mundial que combina dois padrões de organização distintos: um padrão estruturado verticalmente, uma vez que o Aikido é uma arte marcial; e um padrão estruturado horizontalmente, uma vez que a IAF é democrática. Entretanto, o objetivo fundamental da IAF é também conservar, ou melhor, proteger a essência original da arte marcial. Mais ainda, a IAF é uma organização que provavelmente ainda não alcançou a forma mais conveniente para suas metas e objetivos. Certamente, a atual estrutura organizacional não é algo gravado em pedra. Porém, o fato de que muitas organizações de Aikido querem se juntar a IAF, apesar da partida recente de um membro e ao fato de que há muita discussão, e mesmo vigoroso argumento, sobre que forma a IAF deveria ter, em minha opinião, não pressagia sua morte iminente. Ao contrário, é um sinal de saúde e vigor --- e uma razão para otimismo. Com certeza, algumas pessoas querem resultados rápidos e se esses resultados não vêm já, eles imediatamente concluem que não há futuro para a federação. Penso que esta atitude é sinal de visão curta.

Mais do que condenar de pronto a IAF por falhar em conformar-se a certas idéias preconcebidas, penso que há uma necessidade de algumas reflexões sérias sobre os problemas que o Aikido enfrentará e especialmente a Aikikai Hombu, no próximo século. Acredito que quanto mais não-japoneses ganharem alta graduação e tornarem-se shihans de Aikido, o equilíbrio, inevitavelmente, se deslocará do Japão para o resto do mundo. Tornar-se-há mesmo mais essencial que agora ter uma organização internacional capaz de suportar o crescimento do Aikido ao mesmo tempo que conserva sua herança japonesa essencial. Encontrar uma estrutura organizacional apropriada, que é ---- como o aikidoísta ideal --- bem centrada, equilibrada, flexível mental e fisicamente e possuidora de certa sabedoria prática não é algo que pode ser alcançado rapidamente.

Naturalmente, a Aikikai Hombu é uma organização japonesa e, penso, não é possível discordar da tese geral de que organizações japonesas tendem a funcionar de forma diferente daquelas do "oeste". Se a diferença se centra apenas em autocracia vs. democracia é uma ponto discutível. Penso que há muito mais que isto. A sugestão de que as organizações no Japão, especialmente as organizações de arte marcial, tendem a ser autocráticas, enquanto no oeste tendem a ser democráticas, pode ser esclarecedor para aquelas que realmente têm pouco entendimento da cultura japonesa, mas ignorará aquilo que é importante para o entendimento apropriado do real desenvolvimento e existência da estrutura organizacional do Aikido. O perigo em fazer a distinção acima é o de que ele adota um modelo simplista (organizações japonesas = autocracia, organizações ocidentais = democracia) e , então, conclui que a IAF não cabe neste modelo e assim de alguma maneira falha. Penso que a questão básica face à IAF não é simplesmente se sua estrutura organizacional é democrática ou autocrática, mas, ao contrário, que tipo de metas e estrutura teria, ou qualquer outra organização de Aikido trans-cultural, e como estas metas podem ser realizadas. A estrutura da organização é apenas um dos problemas com que se deparam as organizações de artes marciais contemporâneas.

O surgimento do movimento Olímpico com sua ênfase corrente no televisivo, atrativo visualmente, esportes competitivos e subsequente forte dependência de lucro financeiro que guia a mídia, tem afetado as artes marciais e, certamente, afetará o desenvolvimento do Aikido. Judo, Kendo e Karatê se tornaram esportes internacionais, com ênfase no estilo "ocidental" de competição e as organizações também se tornaram "ocidentais" no sentido aludido acima. As Artes marciais japonesas originais são agora de significação relativamente menor e há boa razão para acreditar que esses esportes realmente perderam suas raízes japonesas. Ninguém peca ao se perguntar se o mesmo acontecerá ao Aikido --- e se isso importa. Planejei, originalmente, escrever esse ensaio não como diretor, em exercício, da IAF, mas como um aikidoísta com alguns 30 anos de experiência que também gastou aproximadamente 20 anos ensinando filosofia e cultura comparada numa universidade japonesa. Mas isso não é realmente possível. Quando discuto a IAF, não posso ignorar o fato de que sou o atual dirigente da federação. Entretanto, gostaria de suplementar a defesa da IAF acima com algumas reflexões individuais de natureza a mais filosófica possível a respeito da natureza geral das organizações das artes marciais e dos problemas com que se deparam. Concluirei com alguns comentários mais extensos sobre a IAF como organização.

A DINÂMICA DAS ORGANIZAÇÕES

Para ilustrar a questão da organização das artes marciais, gostaria de esboçar um caso hipotético, que poderá ou não mostrar uma semelhança aproximada com uma organização de Aikido e, em assim mostrando, discutir os possíveis fatores envolvidos na criação de uma organização "estilo artes marciais". O objetivo deste exercício é indicar alguns problemas potenciais com que a organização se defronta, que bem podem se tornar real e agudo conforme a organização se desenvolve. O esboço é significativo para preceder --- e direcionar --- a distinção entre padrões "ocidentais" e "não-ocidentais" de organização, embora algumas dessas últimas características devam ser salientadas e citadas de passagem. Naturalmente, uma organização assim descrita é, em muitos estágios, retirada de uma federação mundial como a IAF. Porém, algumas das características da organização nesses estágios iniciais serão a raiz dos problemas que surgirão no desenvolvimento posterior da organização como a IAF.

1. Uma pessoa notável, que tem grande "carisma" atrai discípulos em virtude de habilidades ou façanhas particulares, tais como a criação de uma nova maneira de olhar o mundo, enraizada numa atividade ou prática particular. Os discípulos começam um relacionamento com a pessoa, mas esse relacionamento não envolve conhecimento íntimo numa base de igualdade. Naturalmente, os discípulos têm contato diário muito próximo, visto que o relacionamento envolve viver junto e compartilhar o mesmo estilo geral de vida, mas o líder carismático é alguém "outro" e nunca uma pessoa "comum". Os discípulos podem Ter suas próprias razões para seguir essa pessoa, mas umas das razões que todos compartilham é o "carisma" completo que ele possui. Os alunos tornam-se discípulos porque acreditam que a pessoa possui aquilo que eles estão procurando e que eles podem compartilhá-lo. Assim a missão ou arte ---- o tipo particular de atividade ou prática criada ou exposta pelo líder ---- é a base fundamental do relacionamento.

É importante notar aqui que o líder do grupo tem uma relação professor-aluno com cada um dos seus discípulos, mas o relacionamento é diferente em cada caso. O relacionamento difere de acordo com a química pessoal e também com o nível do que o discípulo entende da arte. Deveria ser apontado que, desde que a arte ou atividade é aberta-fechada ---- no sentido de que admite diferente níveis de progresso ou realização por um período de tempo (geralmente longo), tais diferente relacionamento podem bem depender do nível de compromisso dos discípulos. Assim mesmo como um organismo único, o grupo tem diversas camadas, tal como círculos concêntricos organizados ao redor do fundador no centro. Aqueles anéis mais próximos ao centro têm maior compromisso; para aqueles da periferia tal compromisso é difícil ou impossível e eles praticam a arte ou atividade para melhorar suas habilidades. Os diferentes níveis de compromisso, seguramente, se tornarão o fator principal no subsequente desenvolvimento da arte, mas uma das marcas do relacionamento Dom o fundador, mesmo para aqueles da periferia, pode ser caracterizado como uma lealdade intensa e pessoal.

2. A arte se torna conhecida e atrai cada vez mais pessoas. Consequentemente, diversas decisões cruciais devem ser tomadas ou pelo fundador ou por seus discípulos mais perceptivos.

(a) A primeira escolha é expandir ou não. O grupo original era um organismo único reunido ao redor do líder ---- os discípulos podem pensar nele como uma família e os laços entre o líder e os discípulos podem ser bem mais fortes do que os laços familiares. Porém, à medida que o grupo expande, fica cada vez mais difícil, devido ao aumento do número de discípulos, desfrutar do contato direto contínuo e ininterrupto com o líder e seu "carisma". Assim, o grupo se desenvolve de agrupamento único em volta do líder e torna-se uma organização. O fato de que a arte que ele/ela criou tenha grande e durável valor --- isto é, devido ao valor da arte e aos benefícios que ela proporciona não deveria ser permitido que ela desaparecesse com a morte do fundador ---- normalmente assegurará que a decisão tomada seja para continuar. No entanto, o fato de que o contínuo crescimento do número de aspirantes fará o contato diário próximo com o fundador impossível, torna-se um problema fundamental.

(b) Outra escolha é como expandir rapidamente. A transmissão do "carisma" do fundador depende inteiramente da disponibilidade de discípulos qualificados para assumir a tarefa de seguir os passos dele e transmitir o seu "carisma", seguramente um empreendimento desanimador. A criação de um "grupo interno" que arcará com a principal carga de transmitir o "carisma" do fundador é seguramente um fator essencial aqui, independente do caráter "ocidental" ou "não ocidental" da organização.

(c) A terceira escolha é como expandir. Uma vez que o "carisma" do fundador se baseia na prática de uma atividade particular que ele/ela criou, a prática admite diferente graus de conhecimento ou competência, tendo, o fundador, o mais alto nível possível. À medida que o grupo expande e o contato direto com o fundador diminui, uma maneira de transmitir o "carisma" dele aos novos membros do grupo tem que ser encontrada, aos que aparentemente não tiveram essa proximidade e contato contínuo com ele. Assim, nasce a necessidade de um método sistematizado de transmitir o "carisma" e de reconhecer aqueles que são considerados como possuindo-o. Em alguns casos, esse sistema é uma relação de regras de conduta, algumas definidas pessoalmente pelo fundador, cuja adesão supostamente estabelece algum tipo de garantia de que o discípulo alcançará um estado "carismático" similar. Nesse caso, as regras definem o propósito da organização. Em outros, a prática da arte ou atividade em si é o que define o propósito do grupo e estabelece as regras que constituem um sistema para reconhecer níveis de proficiência na arte, sendo de alguma forma entendido que o mais alto nível, o maior é o possível acesso ao "carisma" do fundador. O sistema pode ser um conjunto de graus de proficiência (X alcançou um certo nível de proficiência), ou licença para ensinar é oficialmente qualificado para ensinar certas técnicas ---- ou revelar certos "segredos"). Naturalmente, aqueles que foram os discípulos iniciais do fundador tenderão a ter maiores graduações ou serão capazes de ensinar toda a seqüência de técnicas. Seja qual for a atividade, os membros mais experientes do grupo serão professores dos menos experimentados e talvez se tornem oficialmente conhecidos como tal.

2.1. A transformação da organização de um pequeno grupo reunido ao redor do seu fundador para algo maior é o ponto em que diferenças fundamentais de organização tendem a aparecer. Uma abordagem "ocidental" é ter um sistema de regras e isso cabe muito bem na devoção ocidental aos princípios abstratos considerados necessários para ter uma aplicação geral ou universal. Exemplos poderiam ser as regras que governam as atividades de algumas ordens religiosas cristãs. Um problema potencial com esta abordagem é que as regras em si podem tornar-se o alvo definidor da organização mais do que se supõe que seguir regras possa guiar. Dessa maneira, a organização tende a "ossificar". Uma abordagem "oriental" é deixar tudo nas mãos do indivíduo que lidera as várias partes da organização, muito mais do que confiar no sistema de regras em si. Um problema potencial dessa abordagem é que pressupõe que todos os discípulos serão capazes de reproduzir o "carisma" do fundador, simplesmente com base no treinamento que receberam, isto é, coloca-se uma responsabilidade muito pesada nos ombros de certos indivíduos que, naturalmente, não têm nenhum sistema de regras para guiá-los. Esses problemas podem se tornar muito agudos e proeminentes quando um aluno de uma arte "oriental" tenta ensiná-la a não-orientais que esperam um sistema de regras objetivo e abstrato.

2.2. Vale à pena notar aqui que nos casos em que o alvo da organização é praticar certa atividade ou arte, um sistema para reconhecer proficiência não é intrínseco à arte em si, pois é bastante possível se tornar altamente competente na arte sem obter graduações ou licenças. Apoia-se muito mais na crença bastante à parte de que a arte incorpora objetivos que aceitam medição objetiva e que tal sistema de medida objetiva é desejável ou essencial na organização, pois nem todos os prováveis membros são capazes de distinguir entre praticantes genuínos da arte e charlatões. No entanto, as diferenças de abordagem aludidas acima são também relevantes aqui. A abordagem "ocidental" dará grande ênfase às regras que têm para serem seguidas ou às condições que têm que ser preenchidas para reconhecer níveis particulares de proficiência e esses níveis terão uma validade "objetiva" dentro da organização. A abordagem "oriental" dará maior ênfase ao fato de que a graduação ou licença foi dada por uma pessoa particular e sua validade "objetiva" terá menos importância do que o fato de que foi dada por essa pessoa. Ambas as abordagens têm desvantagens que são prováveis tornarem-se evidente em uma organização que tenta combinar as duas.

3. Apesar do fato inquestionável de que eles têm realmente atingido vários níveis de proficiência, os alunos saem e criam seus próprios grupos "réplica", algumas vezes com ativo encorajamento do fundador. Os grupos réplica funcionam em base bastante razoável de, por exemplo, "me foi ensinado pessoalmente pelo fundador e tenho uma missão de transmitir a outros a visão que ele/ela me forneceu e as habilidades que ele/ela me ensinou". Há um pressuposto ---- geralmente declarado ---- de que os discípulos têm uma (próxima ou mesmo íntima) relação com o fundador e geralmente um (alto) nível de habilidade baseada nesse relacionamento, que outros não possuem. Há também um pressuposto ---- geralmente não declarado ---- de que cada discípulo tem uma percepção diferente da visão do fundador e talvez um nível diferente de habilidade. Assim, o grupo todo o agrupamento de grupos satélites ou grupos emergem de grupos cuja função é transmitir aos membros a visão fornecida pelo fundador para o discípulo particular que lidera o grupo ou mais que isso, o conteúdo do entendimento do discípulo dessa visão particular. Os discípulos tendem a modelar essa organização por suas experiências no grupo original. O efeito é um todo um agrupamento de miniaturas de organização "originais", todas clamando por ser "autênticas" de alguma maneira. Naturalmente, alguém de fora pode presumir que todas elas estão trabalhando em harmonia e isso, de fato, pode ser o ideal declarado, mas a realidade não declarada é algumas vezes bem o reverso.

3.1. Numa tal organização, a presença ou ausência de qualquer sistema de regras universais ligando-os tem o potencial de criar sérios problemas. Cada grupo satélite focaliza-se no entendimento do discípulo a respeito da visão particular fornecida pelo fundador e qualquer iniciante praticará a arte de acordo com os parâmetros definidos pela interpretação do discípulo da visão do fundador. O efeito é induzir uma espécie de "visão-túnel" ou sentimento de clã. A responsabilidade colocada sobre os ombros de um discípulo particular propicia uma ênfase excessiva em sua interpretação particular da visão do fundador. Os canais através dos quais o entendimento da visão do fundador deve circular são verticais ---- do fundador para a primeira geração de discípulos, para a Segunda geração, etc. Supõe-se que os neófitos na organização comprometam-se, de todo o coração, com o discípulo particular que eles escolheram, pois ele/ela tem uma ligação direta com o fundador e por isso tem as respostas. Eles nunca são encorajados a perambular de um grupo para outro. Uma das conseqüencias menos bem vinda dessa multiplicidade de grupos satélites verticalmente-estruturados é a de que tende a ver a si mesmos em competição com cada um dos outros. Sendo um estudante do grupo A, é ensinado ao praticante a sentir o grupo B e C não tendo nada a oferecer. Claro que eles podem ser muito bons, mas eles não são ª Ao sentimento de clã é dado, ocasionalmente, um sabor místico, com alguns discípulos argumentando que encontrar o professor certo é das tarefas, a mais importante de todas, provavelmente de igual importância que a de perseverar completamente na arte. Tal sentimento de clã ou facção é uma característica comum de uma sociedade verticalmente estruturada como a japonesa, onde há um termo especial para isso. Habatsu-shugi existe em todas as esferas e em todos os níveis da sociedade japonesa e floresce especialmente nas artes marciais.

4. Infelizmente o fundador é mortal e teve que fornecer continuidade de existência ao grupo ou organização. Um sucessor teve que ser designado. Há várias maneiras de escolher um sucessor, que corresponde ao nível de autocracia da organização: a sábia (porém, arbitrária) escolha de sucessor pelo fundador, uma luta de morte entre seus discípulos (um método comprovado que deixou de ser aceito socialmente há muitos séculos), a sucessão automática pelo filho mais velho da família do fundador, uma eleição por um "colégio eleitoral" formado pela maioria dos discípulos senior ou uma eleição por todos os discípulos, independente da graduação. Como se supõe que a transmissão da arte tenha a mais alta prioridade, todas as maneiras têm que estabelecer pressupostos de um tipo ou de outro. Por exemplo, um pressuposto por trás da terceira maneira seria que o filho herdou a visão do fundador e pode transmitir essa visão melhor do que outros discípulos. A história das artes marciais no Japão tem demonstrado, bastante claramente, que esse pressuposto não apareceu sempre pela prática. As duas últimas maneiras representam progressivamente formas "democráticas" de transmitir o "carisma", mas também pressupõe muitas pessoas à parte do fundador e que os discípulos mais próximos são capazes de tomar decisões sábias.

5. Nalgum momento, o fundador ou seu sucessor escolhido cria um sistema para definir os limites da organização e os discípulos, então, têm uma escolha a fazer: juntar-se à organização ou permanecer fora dela. Uma vez a organização criada e definida, os níveis de proficiência são controlados por ela. O alvo aparente é transmitir o "carisma" possuído pelo fundador, mas também autenticá-lo: distinguir "carisma" verdadeiro de suas falsas imitações. Se a organização é de espírito "ocidental", o desenvolvimento do "carisma" dependerá da natureza e flexibilidade das regras fundamentais que governam o desenvolvimento da proficiência dentro da organização. Se a organização é de espírito "oriental" o desenvolvimento da "carisma" dependerá de decisões sábias feitas na escolha dos discípulos. Dada a estrutura essencialmente fluida, tanto a organização em si como as maneiras de determinar os níveis de proficiência dentro dela, criará umas tensão inevitável entre a organização em si e o "carisma" que se deve transmitir. Naturalmente, o fundador e seu sucessor agem com os mais puros motivos, mas a tendência dos canais organizacionais, que transmitem o "carisma", de tornarem-se progressivamente restritiva é inevitável. Certamente nenhuma organização, de meu conhecimento, nunca solucionou esse dilema com sucesso e aquelas que floresceram como organizações mundiais tem passado por reformas periódicas ou revolução.

5.1 Em alguns casos, o processo de definição dos limites da organização também envolve estabelecer relações com organizações externas, tais como, ministérios da educação ou de esportes e outras organizações nacionais. Isso dependerá da estrutura política do país em questão, mas é provavelmente seguro pressupor que há muito pouco países onde a organização "carismática", que atrai um grande número de membros e funciona em âmbito nacional ou internacional, floresça sem qualquer interferência. Afinal, a organização terá que ser estabelecida com bases legais e esse estabelecimento pode também ter que se conformar a um conjunto complexo de normas culturais.

6. É nesse momento que a questão de criar uma federação mundial tal como a IAF pode aparecer. A arte está florescendo, no sentido de que muitas pessoas a praticam e há uma rede mundial de grupos e organizações satélites, mas há também muito estilhaçamento e fragmentação. Como tentei mostrar pelo quadro hipotético acima, o sucesso de uma organização mundial dedicada a nutrir e espalhar o "carisma" de uma pessoa em particular dependerá de escolhas sábias feitas num estágio muito inicial de desenvolvimento.

... E AS CONSEQUÊNCIAS

Agora, pode ser verdade que as principais motivações para criar organizações de Aikido são exercer controle e obter uma fonte de recursos financeiros, talvez para a família do fundador. No entanto, penso que o progresso de um pequeno grupo de discípulos para uma organização completamente preparada (note que isso acontece para transmitir uma visão ou uma arte) é muito menos fria e calculada. Certamente é baseada na cultura, no sentido de que o fundador criará uma organização baseada na cultura que ele/ela carrega, mesmo se a visão em si tem uma aplicação universal. Assim, A história inicial do Aikido, tanto dentro como fora do Japão, é a história do desenvolvimento desorganizado e interrompido de grupos embrionários baseados no padrão original. Os grupos foram criados pela primeira ou segunda geração de discípulos do fundador, que não recebeu nenhum preparo para essas tarefas além do seu treino na arte. Eu vivi no Japão o suficiente para compreender que a maioria dos japoneses são totalmente despreparados, por sua cultura, para uma exposição intensa e prolongada a outras culturas e esse problema é um duro legado de dois séculos de sakoku ---- isolamento forçado do período Edo. O "choque cultural" dos estudantes universitários que vão, de fato, para o exterior continuar suas carreiras acadêmicas é bastante sério, mas, supõe-se, que eles tiveram quatro anos de preparação em suas universidades ---- instituições mais prováveis para sentir os efeitos da mudança cultural. Muito maior será o choque dos discípulos que foram enviados ao exterior para criar organizações "réplica" de Aikido, cujo único preparo havia sido o severo treino na intensa mas estreita cultura confinada do dojo. Tenho tentado mostrar que a questão se uma organização de artes marciais é bem sucedida ---- preenche seus alvos ---- é muito difícil de responder. Por exemplo, num sentido a Aikikai Hombu é uma organização de artes marciais muito bem sucedida, pois tanto dentro como fora do Japão a arte, herdada por Doshu e desenvolvida e interpretada por ele, está florescendo. Por outro lado, os discípulos do fundador saíram para criar seus próprios dojos e também desenvolveram organizações bastante preparadas. Assim o mundo do Aikido muito cedo repartiu-se em grupos ---- competindo entre si, mesmo durante a vida do fundador. É importante perceber que esta fragmentação do Aikido aconteceu no Japão, a pátria "mãe" e não só no exterior. Dessa forma, em outro sentido, a Aikikai Hombu falhou em manter a unidade no Aikido e a questão se tal unidade é possível é uma questão válida, que precisa ser considerada muito cuidadosamente. A questão é especialmente relevante para a IAF, uma vez que a federação tem sido criticada por falhar em alcançar seu alvo estabelecido de manter a unidade no mundo do Aikido. Retornarei a essa importante questão abaixo.

Mais ainda, como sugeri acima, o sucesso de uma organização que enfatiza uma inquebrável linha vertical entre o fundador e o cabeça, em exercício, do dojo ou organização depende de constante suprimento de pessoas capazes que estão dispostas a sacrificar-se pela visão particular. Acredito que é extremamente improvável que a Aikikai Hombu será capaz de fornecer uma corrente constante de jovens instrutores dispostos e capazes de residir no exterior e ensinar Aikido. Assim, quando a atual geração de shihans japoneses no exterior se for, suas substituições terão de vir de dentro dos países onde eles ensinaram. (Nesse ponto se tornará claro também o quanto esses shihans japoneses foram bem sucedidos ao criar uma estrutura organizacional apropriada, que assegurará o desenvolvimento do Aikido em seus países adotivos.) Nos próximos cinqüenta anos, os shihans japoneses residentes no exterior se tornarão progressivamente figuras raras e o Aikido estará nas mãos de instrutores não-japoneses, ajudados por visitas ocasionais --- nos seminários de verão e congressos internacionais --- de instrutores enviados pela Aikikai Hombu do Japão. Isso, no entanto, pressupõe que a Aikikai Hombu e outros dojos do Japão serão bem sucedidos em atrair um suprimento constante de recrutas capazes. Se os clubes de artes marciais das universidades japonesas dão alguma indicação, isso, por certo, não pode ser tomado como garantido.

ORGANIZAÇÕES OCIDENTAIS VS JAPONESAS

Penso que é muito difícil aplicar a distinção "democrática-autocrática" em muitas organizações de Aikido fora do Japão. Mas mesmo dentro do Japão a distinção precisa ser tratada com grande cuidado.

Por exemplo, não acredito que o Japão seja uma sociedade realmente democrática. Por isto quero dizer uma sociedade na qual os membros concebem a si mesmo como indivíduos com certas responsabilidades e direitos, que são capazes de escolher representantes por voto e também ter uma influência direta na política feita por esses representantes. Naturalmente, isso é democracia no sentido "ocidental", mas não acredito que haja qualquer outro sentido da palavra. Não pretendo qualquer desrespeito ao japonês ou àqueles que acreditam nos valores "asiáticos", com a observação acima e considero que o comentário recentemente feito na revista sobre organizações de artes marciais, "No contexto das artes marciais, o japonês naturalmente estabelece uma estrutura autocrática controlada por um pequeno grupo interno que dá suporte à figura central", é verdadeiro. No entanto, como afirmei acima, chamar a sociedade japonesa de autocrática sem algumas especificações arrisca-se a mal-entendimentos por muitos não-japoneses. Uma organização democrática do tipo "ocidental" apoia-se num conjunto de princípios abstratos não declarados sobre o indivíduo. O japonês não opera com tais princípios. Entretanto, uma sociedade não-democrática como a japonesa apoia-se num princípio geral de harmonia muito importante e mesmo numa tal suposta estrutura autocrática, se ela realmente segue o padrão japonês, aqueles que têm o poder tem a obrigação de considerar os sentimentos, se não os pontos de vista articulados, daqueles que não têm. Essa relação entre sempai (senior) e kohai (junior) está firmemente incrustada no tecido cultural do Japão. É ensinado a todos os japoneses desde a segunda metade do ensino fundamental (por volta de 12 anos) em diante, mas não há regras formais estabelecendo quais as obrigações mútuas. Naturalmente, o sentimento expresso na mesma revista, ou seja, "aqueles que não se conformam ou desistem ou são discriminados pelo grupo", é verdadeiro também, mas o ponto importante é o de que essas pessoas nunca constituem a maioria do grupo. O detentores do poder sempre se assegurarão de que o princípio geral da harmonia prevaleça e tentarão desenvolver um consenso que considera o maior número de pontos de vista possível. Se a minoria porventura se tornar uma maioria, a organização pararia de funcionar ou passaria por uma mudança radical.

O estilo autocrático de organização, que é um tanto repressiva do ponto de vista individual, pode ser comparada com o estilo supostamente favorecido pelos "ocidentais", que coloca maior ênfase no ponto de vista individual. Mas como quis dizer acima, muitas organizações de Aikido no "oeste" foram criadas por discípulos japoneses do fundador, que criaram organizações baseadas em suas próprias (japonesas) experiências. O primeiro dojo do qual me tornei membro, na Bretanha, era controlado por instrutor japonês. A organização era totalmente autocrática, no sentido de que nunca havia qualquer decisão tomada por consenso de todos os membros. Nosso instrutor fazia tudo porque éramos iniciantes completos e não tínhamos idéia de como organizar um dojo. Como praticamos mais, desenvolvemos uma idéia geral do que um dojo deveria ser. No entanto, nunca sentimos que estávamos nas mãos de um autocrata e nunca houve qualquer destoar na atmosfera geral de harmonia e dedicação ao alvo comum. Amizades formadas naqueles dojo, aproximadamente 30 anos atrás, ainda continua florescendo hoje. O segundo dojo onde pratiquei regularmente era controlado por um instrutor japonês residente de maior graduação ainda. Suas políticas eram aceitas sem qualquer pergunta, embora deve-se admitir que muitos outros grupos de Aikido no país fossem dirigidos por ex-estudantes desse instrutor particular, ou por não-estudantes que não tinham nenhum desejo especial de contato com ele. Houve um padrão semelhante nos Estados Unidos. O shihan rodeava-se por um pequeno grupo de estudantes senior de maior graduação e os demais alunos simplesmente aceitavam a situação com reações variando de brilhantes olhos de adulação à pesada resignação. Onde não há shihan japonês residente ( países como a Suécia, Noruega, Holanda e muitos outros membros da IAF), então a organização tende a ser mais democrática, mas isso é comumente porque não há ninguém de graduação shihan ou ainda porque o shihan japonês residente não teve sucesso.

A IAF ...

A IAF foi criada em resposta a uma iniciativa da Europa. Antes da IAF havia uma organização na Europa chamada ACEA (Associação Cultural Européia de Aikido), que mais tarde tornou-se EAF (Federação Européia de Aikido). Muitos dos membros dessa Federação Européia de Aikido eram seções de organizações de judo, nas quais o poder estava firmemente nas mãos dos judocas. Não penso que a decisão de colocar o Aikido sob a proteção do judo foi livre de controvérsia na Aikikai Hombu, mas, certamente, penso que há algo a ser dito sobre isso. O Sr. Nobuyoshi Tamura, que foi o primeiro representante japonês da Aikikai a residir na Europa, provavelmente sentiu que o grupo de judo poderia fornecer bom suporte organizacional para aquilo que era uma nova e desconhecida arte marcial. No entanto, é um fato curioso que esse exemplo não foi seguido por nenhum outro instrutor de Aikido japonês que foi residir no estrangeiro e ensinar Aikido. Quero frisar que não estou dizendo que Tamura Shihan estava errado ao vincular sua organização de Aikido ao judo. É bem conhecido que o judoka japonês foi instrumento para a introdução do Aikido aos europeus e assim, muitos judokas europeus também praticaram Aikido. Devia parecer a coisa natural a fazer, naquela época. Foi também uma decisão corajosa, uma vez que, pela primeira vez, Tamura Shihan tentou levar em conta as atitudes culturais das pessoas às quais foi enviado para ensinar.

A IAF foi realmente fundada em 1976 em Tóquio, embora o encontro inicial de fundação tenha sido realizado na Espanha em 1975. Foi sugerido que problemas estruturais muito importantes surgiram no primeiro congresso, em 1976. Basicamente o problema era esse: O japonês aceitava a IAF basicamente como um braço "ocidental" da Aikikai Hombu. A federação teria um sabor democrático, mas seria realmente controlada pelos japoneses (isto era um ponto de vista razoável, pois muito poucos "ocidentais" tinham alcançado altas graduações dan na arte. No entanto, alguns delegados politicamente perspicazes da Europa tentaram tirar o controle do japonês e fazer da IAF uma organização verdadeiramente democrática. A Aikikai Hombu não estava preparada para isso e a tentativa foi sabotada. A IAF foi deixada como uma federação com uma característica de grupo misto de japoneses e "ocidentais". Não estou qualificado para comentar os dois primeiros congressos da IAF, mas algumas questões muito importantes surgiram no terceiro congresso da IAF, realizado em Paris, em 1980. Como sugeri acima, a expansão do Aikido no exterior foi baseado na cultura e em muitos casos o shihan japonês estabeleceu uma organização que era baseada nacionalmente, com nome como a Aikikai da Grã Bretanha. O congresso foi o cenário do maior conflito dentro do Aikido europeu por causa de uma questão aparentemente simples: o que é uma organização "nacional" de Aikido? Os estatutos da IAF, infelizmente, não definem esse termo, porque não foi necessário fazê-lo quando a federação foi fundada. Naquela época, tudo estava em harmonia e havia apenas uma organização de Aikido em cada país, ou seja, aquela criada pelo instrutor japonês e reconhecida pela Aikikai (Os Estados Unidos, por causa de seu tamanho, não tiveram esse sistema e a situação um tanto mais complexa do Japão também não mereceu atenção.) Aí, esse problema de definição foi relacionado a outro problema , mais fundamental, sobre a independência do Aikido em relação ao judo e esse problema foi uma daquelas conseqüências não previstas pelo fato de que a organização de Aikido do Sr. Tamura estava sob controle do judo. Organizações de Aikido independentes na Holanda e Espanha queriam reconhecimento da Aikikai Hombu e também filiar-se a IAF, de preferência do que ao departamento de Aikido estabelecido na organização nacional de judo. O congresso de Paris poderia não fazer qualquer progresso real porque não havia decisão clara sobre quem tinha o poder de voto. Desde o congresso de 1980 a separação, na Holanda, entre organizações de Aikido vinculadas ao judo e não vinculadas ao judo espalhou-se para a França e o Sr. Tamura perdeu aproximadamente metade de seus alunos. Tanto quanto sei, as organizações Aikikai na França são agora independentes do judo, mas a divisão em dois grandes grupos ainda permanece.

É importante entender as questões que surgiram no terceiro congresso da IAF. A questão que paralisou o congresso foi a questão européia e o que separou a Federação Européia de Aikido. Entre 1978 e 1980 houve entre os membros comuns contra a dominação excessiva do judo na EAF. Nesse caso os instrutores japoneses residentes na Europa de um modo geral permaneceram à parte. No entanto, a disputa provocou uma crise em uma de suas sub-federações que a IAF não estava em posição de lidar com ela. Os fundadores provavelmente nunca imaginaram que tal conflito poderia ocorrer numa organização de Aikido. ("Afinal, Aikido é todo sobre harmonia, não é?") Certamente a Aikikai Hombu foi tomada de surpresa diante da força da disputa e não tinha nenhuma idéia do que fazer. Pode-se questionar que eles deveriam saber que isso aconteceria porque disputas, de uma forma ou de outra sempre existiu desde que as escolas de artes marciais foram criadas e as sementes dessas disputas jazem, como sugeri acima em meu quadro inicial, na organização vertical das artes marciais com sua ênfase na linha direta entre o fundador e o cabeça, em exercício, do dojo, mais do que num quadro de regras ou procedimentos.

O segundo ponto a notar é que enquanto os japoneses na Europa, de um modo geral, permaneciam à parte durante a crise da Federação Européia de Aikido, havia uma disputa paralela dentro da Aikikai Hombu sobre o reconhecimento oficial das organizações de Aikido do exterior com os grupos de judo: deveria a Aikikai Hombu reconhecer um grupo independente num país, onde houvesse também um grupo filiado ao judo. Supõe-se comumente que só não japoneses ou só europeus tenham disputas dobre o Aikido e isso pode ser algo que os professores japoneses gostam de frisar, pois a imagem de senseis japoneses brigando por causa da arte marcial japonesa que, supõe-se, traga paz e harmonia soa mal, de alguma forma. Porém, isso não é realmente verdadeiro. Na época da disputa dentro da EAF, os instrutores japoneses na Europa filiados a Aikikai Hombu também se revoltaram em massa contra a liderança do Sr. Tamura e essa revolta japonesa também chocou profundamente a Aikikai Hombu. O ponto que quero frisar aqui é que os problemas que a IAF enfrentou em 1980 e depois podem ser vistos como uma conseqüência das disputas dentro da Aikikai Hombu a respeito do reconhecimento das organizações de Aikido do exterior. Eles não foram criados unicamente pelos próprios aikidoístas europeus.

Finalmente, a disputa não foi meramente sobre algo discutido numa suposta altura etérea de um congresso internacional, mas aninhava-se exatamente ali no dojo local, pois tratava-se de qualificações para graduações dan e diplomas de ensino. Houve uma possibilidade de que os instrutores de Aikido, em alguns países deveriam ter graduações em judo e karate. Os Estados Unidos (e também o Japão) são muito afortunados porque poucas restrições são colocadas sobre as artes marciais pelo governo. Qualquer um pode abrir um dojo e buscar sua própria graduação dan (que atualmente vale não mais do que o papel onde está escrita). A situação é bastante diferente em alguns países europeus, com os governos estabelecendo regulamentos precisos sobre exames e graduações dan. A França tem um sistema de graduação dan nacional e ninguém pode ensinar Aikido num dojo municipal sem o devido diploma. Alguém pode receber a graduação dan na França e mais tarde descobrir que é reconhecido apenas naquele país. No Reino Unido ninguém pode ensinar num dojo municipal sem uma qualificação nacional de técnico. Com o surgimento da União Européia (EU), a interferência do governo provavelmente irá aumentar, mais do que decrescer.

Muitos aikidoístas tem o sentimento de que eles podem "apenas continuar com a prática" e que as "políticas" do Aikido (isto é, preocupar-se com a organização do dojo e sua relação com as organizações externas) é um negócio indesejável e grandemente desnecessário que pode ser deixado para aqueles que são bons em falar ou que gostam desse tipo de coisa, implica em que eles não são aikidoístas verdadeiros. Penso que essa atitude é um tanto ingênua e em minha própria experiência de Aikido em três diferentes países, descobri que essas questões "políticas" nunca estão longe do tatami. Questões sobre a organização de um dojo próprio ou de filiação desse dojo a uma federação nacional ou internacional ou o registro de uma graduação em sua posição internacional são freqüentemente debatidas e não apenas fora do Japão.

... E O FUTURO

Foi dito que a IAF ainda está tentando entrar em acordo sobre uma constituição. Isto não é realmente verdadeiro pois a federação tem uma constituição desde quando foi criada e foi aprovada por todos os membros fundadores em 1976. Com algumas poucas alterações ela ainda está em vigor. Porém, os problemas que surgiram durante o congresso de 1980 mostraram que os estatutos da IAF precisavam de revisão. O trabalho de revisar os estatutos da IAF vem acontecendo desde por volta de 1984. O processo está demorando porque os congressos da IAF ocorrem somente uma vez a cada quatro anos e também porque não há consenso, nem dentro da Aikikai Hombu nem entre os atuais membros da IAF a respeito de questões cruciais sobre a natureza e papéis das organizações de Aikido, especialmente as organizações do exterior. Eu duvido que estas questões tenham sido seriamente discutidas quando a federação foi criada e, com certeza, nem eram apresentadas. Agora elas apareceram novamente e têm que ser colocadas da melhor forma possível. Espero que o 8º congresso da IAF, a realizar-se em 2 000, seja capaz de aprovar uma nova ---- e mais flexível constituição para a federação. Entretanto, devo frisar que as decisões a respeito dos estatutos serão feitas pelas próprias organizações membros da IAF, não pela Aikikai Hombu , e de forma democrática.

Reclama-se algumas vezes que as pessoas usam a IAF para seus propósitos próprios e que os congressos da IAF tendem a ser ocasiões para disputas e para revelar sua sede de poder. Algumas pessoas até questionaram a necessidade da IAF, vista como uma assim-chamada federação "democrática" de organizações de Aikido ----certamente uma contradição. Por que não deixar tudo para o departamento internacional da Hombu? Não acredito que a questão seja assim tão simples. Por uma coisa, muito poucas federações membros da IAF têm, de fato, trazido disputas para um congresso. As questões que têm sido discutidas envolvem problemas conseqüentes do reconhecimento pela Aikikai Hombu em um ou dois países europeus. Por outro lado, não penso que o Aikido é uma espécie de panacéia para as doenças do mundo. Sempre me foi ensinado que a arte oferece uma maneira de, às vezes, forjar auto-honestidade, mas não é um caminho automático para santidade nem no Japão nem no exterior. Penso que sempre haverá pessoas que praticam artes marciais pelas razões erradas e a IAF certamente não se propõe a checar as credenciais morais de quem pratica Aikido. Outra razão ainda, a rápida expansão do Aikido no exterior ---- e na forma de organizações ----- é um fato que traz em si certas conseqüências. Uma é que a organização internacional do Aikido não cabe mais no modelo tradicional japonês, pois as organizações do exterior também são alicerçadas na cultura. Os instrutores japoneses residentes tiveram que se adaptar à cultura anfitriã e esta é uma das razões que levou à criação de associações européias de Aikido como a ACEA e a EAF. Isso é óbvio assim que se considera a questão do reconhecimento pelo governo nacional ou regional. Como afirmei acima, os Estados Unidos é muito livre, mas alguns outros países insistem que as organizações de artes marciais devem ter uma estrutura democrática e devem também pertencer a uma federação internacional. Voltar e colocar todos os assuntos internacionais nas mãos da Hombu não resolveria o problema, mesmo que a Hombu tivesse os recursos humanos para cuidar de todos os aspectos do Aikido do exterior. O falecido Shirata Rinjiiro Shihan comentou uma vez num congresso da IAF que, enquanto a Aikikai Hombu era uma organização verticalmente estruturada, a IAF o era horizontalmente. Ele com certeza nunca disse que as duas estavam em conflito. Gostaria de voltar ao comentário de Shirata Sensei de uma outra maneira. Penso que a IAF será sempre uma organização "horizontalmente estruturada" com todos os membros no mesmo nível. No entanto, a Aikikai Hombu é verticalmente estruturada por sua própria natureza como uma escola de artes marciais japonesa. O departamento internacional da Hombu nunca poderia funcionar como uma federação internacional horizontalmente estruturada.

Vejo que um dos alvos fundamentais da IAF é ser um forum onde os representantes das organizações de Aikido podem se encontrar, como companheiros aikidoístas e discutir assuntos de interesse comum, sendo tais discussões sempre pontuadas por um treinamento intensivo de Aikido. Penso que o 7º congresso da IAF, realizado em Katsuura, Japão, foi um bom exemplo de discussão intercalada com prática. Outro alvo muito importante á dar a Aikikai Hombu alguma avaliação consistente. É importante compreender que a IAF não é e nunca foi uma parte da Aikikai Hombu. Nessa medida, as reclamações de que a IAF está se separando da Hombu é um mal entendido. Apesar de sua muito próxima associação à Hombu, ela sempre foi uma organização separada. Entretanto, a posição da Aikikai Hombu no topo da estrutura piramide torna muito difícil a ela ouvir as opiniões dos que estão na base. Como afirmei acima, na sociedade japonesa, em geral, essas opiniões são consideradas, mas o sistema sempai-kohai não é parte essencial do Aikido, pelo menos não no Aikido do exterior.

Como o movimento Olímpico, o mundo do Aikido tem sido comparado, com freqüência, a uma família. Esta comparação tem se tornado paulatinamente mais tênue a medida que caminhamos para o século 21, com o aparecimento do divórcio, famílias com apenas um dos pais, esposas espancadas etc., de qualquer