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"Não
há formas nem padrões no Aikido.
Os
movimentos naturais são
os movimentos do Aikido.
Sua profundidade é insondável
e inesgotável."
Morihei Ueshiba
(1883 - 1969)
"Não posso perder tempo teorizando.
A esgrima não é lógica, nem a vida
uma
teoria: elas têm de ser praticadas, vividas!"
Miyamoto Musashi
(1584 - 1645)
"O
que é preciso fazer para treinar Aikido?" É
com muita freqüência que ouvimos esta pergunta,
feita por uma pessoa que chega ao Dojô com o desejo
de praticar Aikido. E a resposta, a princípio, a
mais objetiva:
-
assistir a uma aula completa;
- passar por uma breve entrevista com o professor ou um
de seus alunos mais antigos;
- fazer a matrícula e, de posse de um quimono tradicional,
iniciar o treinamento das técnicas.
Um
aprendizado cansativo e freqüentemente doloroso, que
exige dedicação, paciência e muita disciplina,
mas que, com o passar do tempo proporciona ao praticante
uma enorme sensação de bem estar, além
do domínio satisfatório das técnicas
de autodefesa. E muitas pessoas passam longos anos da sua
vida a trilhar um Caminho, cujo objetivo se resume no aperfeiçoamento
físico e técnico. Nessa busca obstinada pelo
aprimoramento das técnicas, perde-se aquilo que o
Aikido tem de mais valioso em sua essência: a harmonia
- o verdadeiro significado dos ensinamentos de Ô Sensei
- que nasce do sentimento íntimo de auto preservação
e da união com a natureza.
Esse
é o verdadeiro espírito do Budô; que
não se resume em técnica de luta, mas em preservação
da vida. Um ideal que vai além de destruir o próximo
em um confronto, subjulgando-o pela superioridade técnica
e física, mas construindo seres melhores, em constante
aperfeiçoamento interior.
Muitos
bushi, de diferentes épocas, chegaram em dado momento
a esta conclusão. Miyamoto Musashi, o famoso samurai,
em sua jornada de aperfeiçoamento percebeu que era
inútil golpear outro ser humano, vencê-lo,
tornar-se imbatível em duelos. " A espada não
era um meio para vencer o próximo, mas um meio para
vencer a si próprio e alcançar a vitória
na vida"- concluiu ele.
Na visão de Musashi, essa era a esgrima ideal; o
uso da espada não só para a evolução
pessoal, mas também como meio para governar um povo
e administrar um país. No estágio em que se
encontrava, Musashi dedicou-se à tarefa de trabalhar
a terra e a água, em uma planície inóspita,
empreendendo esforços para tornar o local cultivável
e menos suscetível aos rigores da natureza. Alcançando
êxito também na organização do
povo local, preparando-os para o trabalho em grupo.
A
experiência de Musashi nos remete ao ideal de Ueshiba;
vivendo como um autêntico samurai, da mais antiga
tradição japonesa, dedicou sua vida a buscar
nas artes marciais um Caminho para a construção.
De personalidade prática, entendeu que as mudanças
só poderiam ocorrer por intermédio da ação,
participando ativamente de muitas reformas sociais no distrito
onde residia. Dessa forma, aquela criança frágil
e sensível, nascida a 14 de dezembro de 1883, na
cidade de Tanabe, incentivada pelo pai, passou a disciplinar
e fortalecer também o seu corpo, se tornando uma
liderança local de forte responsabilidade social.
Após
uma rápida passagem pelo exército durante
a Guerra Russo-Japonesa, quando Ueshiba se destacou no combate
com baioneta e por sua atitude leal e corajosa, mesmo incentivado
a cursar a escola de oficiais, se viu forçado a retornar
à Tanabe, sua terra natal.

Mais
uma vez dedicado ao bem estar social, trabalhou pela população
local, alcançando popularidade na região.
Corria o ano de 1912, e o governo japonês incentivava
as pessoas a ocuparem a ilha de Hokkaido, ao norte do país;
esse espaço seria importante como terras de cultivo
e pela localização estratégica da ilha.
Movido pela aventura e pelo amor ao Japão, Ueshiba
então com 29 anos organizou um grupo de 80 pessoas
e aderiu ao "Projeto Hokkaido", seguindo para
o norte.
Tempestades,
nevascas, terras selvagens, foi o que aqueles aventureiros
encontraram. Ueshiba recorria a toda sorte de artifícios
para encorajar as pessoas, cujas dificuldades impunham um
vagaroso progresso no cultivo da terra. O resultado foi
uma pobre colheita nos primeiros anos e o desânimo
recaiu sobre todos.
Mas
Ueshiba não se abateu; incansável e otimista
viu, dois anos mais tarde, uma safra promissora. Baseado
no plano de Ueshiba o grupo começou a acreditar na
possibilidade de uma fixação permanente no
local. A aldeia finalmente prosperou.
No ano de 1915 conheceu Sokaku Takeda, da Escola Daito de
Jujutsu, que passava pela região; impressionado com
a habilidade de Takeda, Ueshiba iniciou seu treinamento
do Daito Ryu, devotando uma vida severa de lealdade para
com o seu Sensei, mesmo tendo inúmeras responsabilidades
como líder local, que muito se empenhava pelo desenvolvimento
da aldeia.
Treinou duramente até os limites do seu corpo, mas
em cada método de luta o conhecimento transmitido
era fundamentado na destruição; um conhecimento
incompleto e incompatível com o significado original
de bu - criado para proteger a vida e promover o bem-estar
de todos - distorcido pela agressividade e o egoísmo
humano.
Atormentado
pela dúvida, Ueshiba conheceu Onisaburo Degushi,
fundador de uma nova seita xintô chamada Oomoto-kyo;
esse encontro passou a influenciar profundamente Ueshiba
e a preencher o vazio espiritual que se encontrava. Mudou-se
com a família para Ayabe e adotou a vida religiosa,
unindo o Budô ao cultivo da terra. Treinou por meios
próprios a arte da lança e no limite da exaustão
após um período intenso de treinamento compreendeu
a essência do ki e o princípio que rege o Budô
- uma fonte de proteção a todas as coisas.
Enquanto Ueshiba se empenhava cada vez mais na evolução
desse novo Caminho, sua fama como artista marcial percorria
o Japão.
A
partir desse momento o Aikido se disseminou rapidamente
pelo país, sendo praticado principalmente por personalidades
do governo, do exército e do empresariado. Quando
em 1942 se intensificou o esforço de guerra, Ueshiba
se retirou para a cidade de Iwama, dedicando-se ao plantio
e à perfeição do ideal de Takemussu
Aiki, acreditando em seu íntimo que a função
do verdadeiro samurai encontrava-se na essência do
verbo samuru - servir e proteger.
O
Aikido passou a ser conhecido no exterior e a fama de Ueshiba
trouxe muitas pessoas ao dojô atrás dos seus
ensinamentos. Seus ideais de paz e a busca incessante da
verdade impressionavam aqueles que o conheciam; além
de exímio artista marcial, Ô Sensei possuía
uma grande força espiritual e nobreza em suas atitudes.
Em
26 de abril de 1969, Ueshiba encerrava sua vida terrena
nos deixando um precioso legado: o Aikido, uma arte marcial
que proporciona a base viva e o instrumento para a educação
e a evolução da sociedade.
Em
sua busca incessante do sentido de Budô, Ueshiba percebeu
que as inúmeras técnicas marciais, ao contrário
do que se imagina, não ofereciam segurança;
uma técnica poderosa logo era suplantada por outra,
mais poderosa e mais agressiva. Havia a promessa velada
de que a harmonia era a vitória suprema, sempre baseada
na idéia de destruir o semelhante. A justificativa
de que a violência dos homens seria inerente à
condição animal, não passava de uma
desculpa para fugir das responsabilidades e uma triste constatação
de que a evolução espiritual ficou em segundo
plano quando comparada à intelectual. Uma vez mais
somos conduzidos ao Japão de Musashi; ao participar
de um duelo desnecessário e contra a sua vontade,
frente a um poderoso adversário, imaginou qual o
motivo que o teria conduzido à vitória. Seu
oponente tinha acreditado na esgrima voltada para a técnica
e a força, Musashi acreditara na "esgrima espiritual".
Essa era a única diferença, constatou.
Em estreita comunhão com as forças da natureza,
Ueshiba finalmente encontrou a resposta para os seus anseios.
Com lágrimas que escorriam por sua face, agora serena,
compreendeu que o Budô é a proteção
da vida, em profunda harmonia com Deus, apreendeu também
que não há inimigos, além da própria
pessoa.
Niterói,
20 de maio de 2002.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
- Aikido
- O Caminho da Sabedoria - Wagner J. Büllx
Editora Pensamento 
- Aikido
- Manual Técnico - Wagner J. Bull
- Aikido
- Curso Básico - Wagner J. Bull e Luciano Noehme
Editora Escala
- O
Espírito do Aikido - Kisshômaru Ueshiba
Editora Cultrix
- Aikido
e a Harmonia da Natureza - Mitsugi Saotome
Editora Pensamento
- Os
Fundamentos Espirituais do Aikido - William Gleason
Editora Pensamento
- Musashi
- Eiji Yoshikawa
Editora Estação Liberdade
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