Artigos dos Alunos do Instituto

Aikido - Arte de Vencer a Si Próprio
por Instrutor Carlos Alexandre Cirto Martins - Instituto Takemussu de Niterói

"Não há formas nem padrões no Aikido.
Os movimentos naturais são
os movimentos do Aikido.
Sua profundidade é insondável
e inesgotável."
Morihei Ueshiba
(1883 - 1969)


"Não posso perder tempo teorizando.
A esgrima não é lógica, nem a vida uma
teoria: elas têm de ser praticadas, vividas!"
Miyamoto Musashi
(1584 - 1645)

"O que é preciso fazer para treinar Aikido?" É com muita freqüência que ouvimos esta pergunta, feita por uma pessoa que chega ao Dojô com o desejo de praticar Aikido. E a resposta, a princípio, a mais objetiva:
- assistir a uma aula completa;
- passar por uma breve entrevista com o professor ou um de seus alunos mais antigos;
- fazer a matrícula e, de posse de um quimono tradicional, iniciar o treinamento das técnicas.

Um aprendizado cansativo e freqüentemente doloroso, que exige dedicação, paciência e muita disciplina, mas que, com o passar do tempo proporciona ao praticante uma enorme sensação de bem estar, além do domínio satisfatório das técnicas de autodefesa. E muitas pessoas passam longos anos da sua vida a trilhar um Caminho, cujo objetivo se resume no aperfeiçoamento físico e técnico. Nessa busca obstinada pelo aprimoramento das técnicas, perde-se aquilo que o Aikido tem de mais valioso em sua essência: a harmonia - o verdadeiro significado dos ensinamentos de Ô Sensei - que nasce do sentimento íntimo de auto preservação e da união com a natureza.

Esse é o verdadeiro espírito do Budô; que não se resume em técnica de luta, mas em preservação da vida. Um ideal que vai além de destruir o próximo em um confronto, subjulgando-o pela superioridade técnica e física, mas construindo seres melhores, em constante aperfeiçoamento interior.

Muitos bushi, de diferentes épocas, chegaram em dado momento a esta conclusão. Miyamoto Musashi, o famoso samurai, em sua jornada de aperfeiçoamento percebeu que era inútil golpear outro ser humano, vencê-lo, tornar-se imbatível em duelos. " A espada não era um meio para vencer o próximo, mas um meio para vencer a si próprio e alcançar a vitória na vida"- concluiu ele.
Na visão de Musashi, essa era a esgrima ideal; o uso da espada não só para a evolução pessoal, mas também como meio para governar um povo e administrar um país. No estágio em que se encontrava, Musashi dedicou-se à tarefa de trabalhar a terra e a água, em uma planície inóspita, empreendendo esforços para tornar o local cultivável e menos suscetível aos rigores da natureza. Alcançando êxito também na organização do povo local, preparando-os para o trabalho em grupo.

A experiência de Musashi nos remete ao ideal de Ueshiba; vivendo como um autêntico samurai, da mais antiga tradição japonesa, dedicou sua vida a buscar nas artes marciais um Caminho para a construção. De personalidade prática, entendeu que as mudanças só poderiam ocorrer por intermédio da ação, participando ativamente de muitas reformas sociais no distrito onde residia. Dessa forma, aquela criança frágil e sensível, nascida a 14 de dezembro de 1883, na cidade de Tanabe, incentivada pelo pai, passou a disciplinar e fortalecer também o seu corpo, se tornando uma liderança local de forte responsabilidade social.

Após uma rápida passagem pelo exército durante a Guerra Russo-Japonesa, quando Ueshiba se destacou no combate com baioneta e por sua atitude leal e corajosa, mesmo incentivado a cursar a escola de oficiais, se viu forçado a retornar à Tanabe, sua terra natal.

Mais uma vez dedicado ao bem estar social, trabalhou pela população local, alcançando popularidade na região. Corria o ano de 1912, e o governo japonês incentivava as pessoas a ocuparem a ilha de Hokkaido, ao norte do país; esse espaço seria importante como terras de cultivo e pela localização estratégica da ilha. Movido pela aventura e pelo amor ao Japão, Ueshiba então com 29 anos organizou um grupo de 80 pessoas e aderiu ao "Projeto Hokkaido", seguindo para o norte.

Tempestades, nevascas, terras selvagens, foi o que aqueles aventureiros encontraram. Ueshiba recorria a toda sorte de artifícios para encorajar as pessoas, cujas dificuldades impunham um vagaroso progresso no cultivo da terra. O resultado foi uma pobre colheita nos primeiros anos e o desânimo recaiu sobre todos.

Mas Ueshiba não se abateu; incansável e otimista viu, dois anos mais tarde, uma safra promissora. Baseado no plano de Ueshiba o grupo começou a acreditar na possibilidade de uma fixação permanente no local. A aldeia finalmente prosperou.
No ano de 1915 conheceu Sokaku Takeda, da Escola Daito de Jujutsu, que passava pela região; impressionado com a habilidade de Takeda, Ueshiba iniciou seu treinamento do Daito Ryu, devotando uma vida severa de lealdade para com o seu Sensei, mesmo tendo inúmeras responsabilidades como líder local, que muito se empenhava pelo desenvolvimento da aldeia.
Treinou duramente até os limites do seu corpo, mas em cada método de luta o conhecimento transmitido era fundamentado na destruição; um conhecimento incompleto e incompatível com o significado original de bu - criado para proteger a vida e promover o bem-estar de todos - distorcido pela agressividade e o egoísmo humano.

Atormentado pela dúvida, Ueshiba conheceu Onisaburo Degushi, fundador de uma nova seita xintô chamada Oomoto-kyo; esse encontro passou a influenciar profundamente Ueshiba e a preencher o vazio espiritual que se encontrava. Mudou-se com a família para Ayabe e adotou a vida religiosa, unindo o Budô ao cultivo da terra. Treinou por meios próprios a arte da lança e no limite da exaustão após um período intenso de treinamento compreendeu a essência do ki e o princípio que rege o Budô - uma fonte de proteção a todas as coisas. Enquanto Ueshiba se empenhava cada vez mais na evolução desse novo Caminho, sua fama como artista marcial percorria o Japão.

A partir desse momento o Aikido se disseminou rapidamente pelo país, sendo praticado principalmente por personalidades do governo, do exército e do empresariado. Quando em 1942 se intensificou o esforço de guerra, Ueshiba se retirou para a cidade de Iwama, dedicando-se ao plantio e à perfeição do ideal de Takemussu Aiki, acreditando em seu íntimo que a função do verdadeiro samurai encontrava-se na essência do verbo samuru - servir e proteger.

O Aikido passou a ser conhecido no exterior e a fama de Ueshiba trouxe muitas pessoas ao dojô atrás dos seus ensinamentos. Seus ideais de paz e a busca incessante da verdade impressionavam aqueles que o conheciam; além de exímio artista marcial, Ô Sensei possuía uma grande força espiritual e nobreza em suas atitudes.

Em 26 de abril de 1969, Ueshiba encerrava sua vida terrena nos deixando um precioso legado: o Aikido, uma arte marcial que proporciona a base viva e o instrumento para a educação e a evolução da sociedade.

Em sua busca incessante do sentido de Budô, Ueshiba percebeu que as inúmeras técnicas marciais, ao contrário do que se imagina, não ofereciam segurança; uma técnica poderosa logo era suplantada por outra, mais poderosa e mais agressiva. Havia a promessa velada de que a harmonia era a vitória suprema, sempre baseada na idéia de destruir o semelhante. A justificativa de que a violência dos homens seria inerente à condição animal, não passava de uma desculpa para fugir das responsabilidades e uma triste constatação de que a evolução espiritual ficou em segundo plano quando comparada à intelectual. Uma vez mais somos conduzidos ao Japão de Musashi; ao participar de um duelo desnecessário e contra a sua vontade, frente a um poderoso adversário, imaginou qual o motivo que o teria conduzido à vitória. Seu oponente tinha acreditado na esgrima voltada para a técnica e a força, Musashi acreditara na "esgrima espiritual". Essa era a única diferença, constatou.
Em estreita comunhão com as forças da natureza, Ueshiba finalmente encontrou a resposta para os seus anseios. Com lágrimas que escorriam por sua face, agora serena, compreendeu que o Budô é a proteção da vida, em profunda harmonia com Deus, apreendeu também que não há inimigos, além da própria pessoa.

Niterói, 20 de maio de 2002.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- Aikido - O Caminho da Sabedoria - Wagner J. Büllx
Editora Pensamento

- Aikido - Manual Técnico - Wagner J. Bull

- Aikido - Curso Básico - Wagner J. Bull e Luciano Noehme
Editora Escala

- O Espírito do Aikido - Kisshômaru Ueshiba
Editora Cultrix

- Aikido e a Harmonia da Natureza - Mitsugi Saotome
Editora Pensamento

- Os Fundamentos Espirituais do Aikido - William Gleason
Editora Pensamento

- Musashi - Eiji Yoshikawa
Editora Estação Liberdade




 

 

 

 

 

 


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