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O Neo-zelandês David Lynch começou a praticar Aikido como
um uchideshi no dojo Yoshinkan, em Tóquio, em 1962, sob
Gozo Shioda. Em 1967 ele estabeleceu a primeira escola de
Aikido na Nova Zelândia, e lá ensinou até seu retorno ao
Japão em 1973, quando trabalhou para a Embaixada da Nova
Zelândia em Tóquio por 15 anos. Ele estudou sob Koichi Tohei
do Ki no Kenkyukai e sob os principais instrutores no Aikikai
Hombu Dojo, assim como sob Kenji Shimizu do Tendokan. Ele
é 6º dan Yoshinkai, 3º dan Aikikai, 3º dan Tendokan e 2o
dan Shin Shin Toitsu Aikido. Ele coordena o seu próprio
dojo independente em Auckland, Nova Zelândia.
Website:
www.act.co.nz/aikido/
Exausto,
saí do dojo para tomar um pouco de ar fresco, e fui tomado
de surpresa pela beleza das flores da cerejeira. Experimentei
um momento de euforia, e lágrimas involuntárias começaram
a cair. Não era, claro, uma experiência de iluminação no
estilo O-Sensei - mas sim uma daquelas ondas de emoção estranhas
que parecem surgir quando se está excessivamente cansado.
Por
acaso, Shioda Sensei saiu do dojo naquele momento e percebeu
minhas lágrimas. Entendeu de forma errada minha condição,
e disse, "Você deve estar com saudades, estando tão longe
de casa. Levante a cabeça!"
Era
um comentário caloroso vindo de um homem conhecido por sua
dureza, mas típico dos inúmeros atos de bondade que experimentei
como um estudante residente, há muito tempo atrás, nos anos
sessenta.
Houve
também a vez que fiquei doente por alguns dias com um vírus.
Os outros estudantes residentes foram enviados para buscar
os ingredientes para refeições ao estilo ocidental, que
foram feitas especialmente para me animar. Um dos donos
do dojo me visitou e deixou algum dinheiro, "caso eu precisasse
de alguma coisa."
Mesmo
depois de ter deixado o dojo, em preparação para o meu retorno
à Nova Zelândia, e continuar freqüentando como um sotodeshi
(estudante de fora), eu ainda recebi um tratamento muito
amigável.
Havia
um filme do dojo que eu queria copiar e levar para casa
comigo, então perguntei ao Shioda Sensei se eu poderia pegá-lo
emprestado, mas, graças a uma interpretação errônea da linguagem,
ele entendeu que eu estava pedindo o projetor de filmes
do dojo! (Isso foi antes da época do vídeo.) Para minha
surpresa, ele disse que eu poderia levar o projetor, se
eu quisesse! Na época, me perguntei se ele me daria o carro
do dojo se eu pedisse. Não que eu quisesse o antigo Morris
Oxford com qual eu havia me familiarizado demais, tendo
trabalhado como seu motorista por um ano.
Mas
este tipo de experiência me fazia sentir como um membro
da família, o que hoje imagino que eu era.
Tive
várias experiências pessoais parecidas que, apesar de significativas
para mim, seriam de pouco interesse aos leitores, logo não
irei listá-las em detalhe. São o outro lado da moeda, em
relação a algumas das experiências negativas que mencionei
em alguns dos meus artigos.
No tatami,
também, haviam vários espíritos positivos entre os praticantes
de todos os níveis. Este é um tipo de bondade não-verbal
que mais do que compensa pelos momentos em que me deparei
com diversos tipos de maldade.
A simples
presença de um estrangeiro em um dojo Japonês pode ser uma
distração, porém não consigo esquecer a forma que tantos
dojo me aceitaram com braços abertos, mesmo quando apareci
sem a devida apresentação.
Muitas
vezes é difícil para um estrangeiro reciprocar estes atos
de gentileza, mas tenho tentado fazê-lo, indiretamente,
ao fazer o possível para passar pra frente o que aprendi.
De volta ao meu país, às vezes tenho a oportunidade de oferecer
"pagamentos" mais materiais. Por exemplo, quando temos visitantes
japoneses, eu posso lhes dar um pouco do "tratamento de
honra" que recebi - e por muito menos do que custaria em
Tóquio!
As vezes
a generosidade de indivíduos japoneses pode ser extraordinária.
Por exemplo, um amigo inglês teve a experiência, ao visitar
um mestre espadachim em Tóquio, de receber uma de suas espadas
como um presente! A espada era uma de poucas feitas cada
ano por este mestre artesão, que rejeitava todas as que
não alcançavam seus padrões de perfeição. Deveria ser muito
valiosa, mas aparentemente o fato de que meu amigo era um
estrangeiro que falava japonês, treinava Kendo e tinha uma
apreciação das espadas japonesas fora o suficiente para
passar por cima de qualquer consideração material.
Não
é incomum para estrangeiros no Japão admirarem algum item
de arte local enquanto olha as vitrines, e em seguida serem
presenteados por seus amigos japoneses como um "pequeno
souvenir do Japão". Da mesma forma, é praticamente impossível
pagar por suas refeições ou entretenimento ao ser convidado
para sair por amigos japoneses.
Em relação
ao budo, algumas pessoas defendem a idéia de que os japoneses
sempre guardam alguma coisa ao ensinar estrangeiros, mas
eu nunca tive esta experiência. Fui convidado a me unir
aos kenshusei (estudantes de pesquisas especiais) no Yoshinkan,
e não fui tratado de forma diferente de nenhum dos outros
do grupo. Se eu não entendia alguma coisa, não era porque
algum conhecimento era guardado de mim.
Os melhores
souvenirs do Japão, para mim, são as memórias de treinar
e dividir o espírito do Aikido com tantos indivíduos diferentes.
Além disso, a atmosfera invocada por alguns dojo é algo
que ainda me causa arrepios, só de lembrar.
Havia
um dojo de kyudo (arco e flecha) próximo da Embaixada da
Nova Zelândia onde eu trabalhava, e eu fui diversas vezes
lá só para sentir a atmosfera: o lindo chão de tábua corrida
polido, os alvos de palha, o maravilhoso teto curvado, o
verde aparado da pista externa, a dignidade dos arqueiros
vestidos com hakama e dogi movendo de forma altamente estilizada.
O simples fato de estar lá era uma forma garantida de me
animar após um dia duro de trabalho.
Artes
como o kyudo criam uma atmosfera especial que, para mim,
é justificativa suficiente para praticá-las. É o processo,
e não o resultado final, que importa. Se fosse uma simples
questão de acertar o alvo, o arco-e-flecha ocidental, com
seus equipamentos cada vez mais tecnológicos, é provavelmente
muito mais preciso. Certamente muito mais fácil de aprender.
E obviamente
existem maneiras mais rápidas e fáceis de se preparar uma
xícara de chá, do que realizar sado, a cerimônia japonesa
do chá, com todos os seus rituais e horas ajoelhados em
silêncio.
Mas
fazer uma xícara de chá rápida, ou simplesmente acertar
um alvo, nunca foi a principal razão de se praticar nenhuma
destas artes, da mesma forma que a habilidade técnica por
si só não é razão suficiente para se praticar o Aikido.
Pode
ser politicamente incorreto falar da parte "do" (caminho)
do Aikido, mas me parece que já passou a hora de alguém
fazer isso. Nós teimamos em colocar o carro na frente dos
bois. Nós invertemos as prioridades, e continuamos inventando
justificativas fracas para esta postura: "A violência crescente
na nossa sociedade torna a defesa pessoal uma necessidade
hoje em dia," por exemplo, ou, "Aikido precisa ser eficiente
contra outras artes de batalha."
É claro
que a mestria da técnica é uma medida importante do progresso
interior de uma pessoa, e não deve ser ignorada, mas fazer
dela o propósito principal da prática é não entender a questão.
Ao invés
de nos gabarmos da nossa habilidade no Aikido, não devíamos
nos envergonhar um pouco de nossa ignorância quase completa
de seu aspecto interno, espiritual?
Apesar
de tudo que Morihei Ueshiba disse, e dos ecos de suas palavras
que podem facilmente ser encontrados em outras disciplinas,
nós continuamos a nos comportar como se o Aikido não fosse
"nada mais" do que uma arte marcial de defesa pessoal, ou
(alternativa tentadora!) um sistema de saúde ou de exercício.
Nossa orientação é quase exclusivamente externa.
Certamente,
pessoas que repetem a filosofia de Ueshiba o tempo todo
podem ser um pé no saco; mas é por isso que temos o treino
- para que possamos entender nós mesmos sem simplesmente
conversar sobre isso. Nós não temos muita opção que não
começar este trabalho da base de nossos corpos físicos,
pois são a nossa primeira linha de "realidade," mas há muito
mais em nós, como seres humanos, do que aparenta aos olhos.
É a
realidade interna que o Aikido se propõe a nos ajudar a
descobrir e explorar que dá um significado real ao nosso
treino.
Não
existe tarefa mais importante, então por que gastar tempo
e energia nos focalizando apenas nos aspectos físicos?
Nós
vamos precisar de toda energia possível para tomarmos a
tarefa vitalícia de encontrar e seguir o nosso próprio Caminho.
Traduzido
por Mariana Studard Instituto Takemussu - Dojo Central.
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