ARTIGOS E ENTREVISTAS

Biografia de Sokaku Takeda
O Professor de Arte Marcial de Morihei Ueshiba
por Tokimune Takeda - Publicado na Aiki News nš 82, Outubro de 1989.


Sokaku Takeda em 1939


O artigo a seguir é reproduzido com a bondosa permissão de Tokimune Takeda Sensei, Diretor da Daito-ryu Aiki Budo e filho de Sokaku Takeda Sensei.

Renascimento das artes das espadas em Kyushu.

Sokaku voltou a Kyushu depois de viagem as Ilhas de Okinawan para auto-aprendizado (aprimoramento), e continuação de sua programação. O tempo de calma estava sendo restabelecido gradualmente em Kyushu após violência das guerras. Devido aos sucessos nos campo de batalha dos "Jigen-ryu batto " espadachins do exército do Clã de Satsuma, e dos combatentes "lutadores-espadachins" da elite da Polícia Metropolitana durante a guerra civil de Seinan, o valor do Nihon-To (espada japonesa) e das artes de espada estavam sendo reavaliadas. Como resultado, o kendo se tornou moda e logo os ecos de milhares de espadas de bambu que trocando golpes soaram pelas ruas. Toshiyoshi Kawaji, o Chefe da Polícia Metropolitana e membro do Clã Satsuma escreveu "A Teoria do Renascimento das Artes da Espada". Esta publicação, junto com um torneio de esgrima patrocinado pelo Comando da Polícia Metropolitana, ocorrido no Parque Nacional de Ueno [Tóquio] em agosto de 1879, marca o começo do ressurgimento oficial do kendo. Sokaku continuou a sua peregrinação de auto-treinamento (aprimoramento) pelos dojos, em muitas cidades de Kyushu, e com incessante dedicação à prática do kendo.

A arrogância de Sokaku

Naquele momento havia muitos dojos de kendo em várias cidades ao longo do Japão, mas havia muito poucos dojos que ensinassem sojutsu (arte lanceira/arte da lança). Nas ruas, poderiam ser vistos vários espadachins levando suas armaduras protetoras para prática de kendo nos ombros, mas havia poucos portando lanças como em tempos anteriores. Em 1880, havia um professor chamado Sakai de um dojo de sojutsu em Kumamoto, Kyushu. No passado, a cidade de Kumamoto tinha revelado um grande número de mestres de lança, e o valor das "Lanças de Kumamoto" era renomado ao longo do Japão. Sokaku era bom executor de técnicas em kenjutsu e bojutsu (arte do bastão), assim havia uma inclinação natural para sojutsu. Porém, ele não pôde praticar as artes de lança tanto quanto teria gostado ele porque haviam tão poucos dojos que ensinavam estas artes. Quando ele praticou sojutsu no dojo de Sakai Sensei, os professores ficaram muito surpresos com a ferocidade de seu método de treinamento. Eles disseram a ele, "Se você não tiver negócios urgentes, você ficaria aqui durante algum tempo e treinaria nossos discípulos na arte da lança?" Sokaku concordou e ficou no dojo ministrando aulas de sojutsu para os estudantes.

Sokaku, durante o tempo dele com os acrobatas, e durante sua viagem de treinamento pessoal nas Ilhas de Okinawan, era freqüentemente desafiado pelos praticantes do Karatê Okinawan para combates. Como ele tinha um físico pequeno e era rápido em suas ações, ele poderia saltar aproximadamente 11 pés para frente ou para trás, ou qualquer direção, em uma única respiração. Isto o fez um pouco convencido.

Um dia, após o treinamento de sojutsu, ele disse aos estudantes, "Eu não posso concentrar-me completamente em lhe dar lições em sojutsu usando apenas uma lança para prática. Venha! Me ataque com uma lança real!" Dando para um oponente uma lança real, Sokaku, armado com uma espada de madeira, o desafiou para um combate. Usando a espada de madeira que seu professor, Kenkichi Sakakibara, tinha lhe dado, ele assumiu a posição jodan (espada superior). Esquivando-se para qualquer lado do ataque da lança, ele golpeou a lança facilmente derrubando-a. Isto o enfadou, assim ele encorajou que dois oponentes o atacassem simultaneamente, e ele saltou e esquivou-se das pontas das lança que foram empurradas (estocadas) para ele de direções diferentes com um único pulo, e os derrotou. Os professores que estavam sentados enfileirados assistindo, estavam surpresos com as esquivas rápidas como um facho de luz de Sokaku. Ele poderia ter preservado sua honra se tivesse parado os desafios neste momento. Mas Sokaku estava muito orgulhoso para deixar os desafios e logo se ocupou de um desafio com três oponentes: dois estavam posicionados, em guarda, para o ataque a Sokaku pela frente e pela retaguarda, e o terceiro moveu-se para o lado de direito de Sokaku. Cada um deles assumiu uma postura de ataque, e Sokaku elevou a espada de madeira dele a posição jodan (superior). Assim que ele saltasse e esquivasse das duas lanças empurradas a ele pela frente e pelas costas, o oponente do lado direito também atacou, apontando à axila de Sokaku. Sokaku torceu (o mais provável é que tenha girado o corpo), evitando o ataque e golpeando a lança do terceiro oponente de jodan, rompendo o cabo da lança que sacudiu para cima e o bateu na boca, quebrando seus dois dentes de frente. Ele arrancou fora os dentes que balançavam e os jogou fora, desafiando os oponentes novamente. "Ataquem-me!" Embora Sokaku ordenasse que eles o atacassem novamente, os três estudantes foram amedrontados pela visão aterradora de Sokaku, com sangue esguichando da boca, e ele os dominou novamente com seu excelente vigor. Afinal, os desafios pararam. Naquela noite Sokaku teve uma febre, e no dia seguinte ele deixou o dojo para ficar em uma hospedaria para descansar.

Em anos posteriores, quando Sokaku era um homem velho, ele disse referindo-se a este episódio, "eu era rápido e altamente-qualificado, e tinha uma corajosa mocidade que estava apaixonada por me precipitar de forma apressada em qualquer situação. Poderia ter dado as lições aos estudantes facilmente em sojutsu que usando lanças de prática, fui derrotado por causa de minha arrogância dizendo que não poderia concentrar minha atenção em praticar a menos que eu estivesse enfrentando uma lança real". Sokaku, em princípio, admitiu como estudantes de aikijujutsu somente os que tivessem mais de 20 anos de idade e que tivessem uma ocupação fixa. Ele sempre os preveniu contra arrogância que dizia conduzir para derrota.

Impressionado com o desempenho de um lançador-de-moedas

Após Sokaku ter quebrados seus dois dentes da frente, ele ficou em uma hospedaria para descansar, mas logo começou a ficar com pouco dinheiro para pagar as despesas da hospedaria. Assim ele ensinou a arte de lançar shuriken (pequena lâmina ou faca) para alguns homens jovens. O número de estudantes aumentou gradualmente até que ele teve aproximadamente dez estudantes que praticaram a arte diariamente. A arte de shuriken era um requisito para artistas marciais itinerantes em excursões de auto-aprendizado. Naquele tempo, os mais verdadeiros mestres de arte marciais se retiravam às montanhas para praticar em algum momento. Quando os suprimentos de comida começavam a ficar baixos nas montanhas, eles tinham que usar as shuriken para pegar animais pequenos como faisões de cobre, esquilos ou lebres, para comer. Eles poderiam ficar nas montanhas durante muitos meses se tivesse uma pederneira, aço e um pouco de sal. Nesses dias dizia-se que levavam três anos de prática para se dominar uma arte marcial. Os que caiam m no caminho eram quase sempre aqueles que não estavam muito qualificados no arremesso das shuriken.

Um dia, quando Sokaku estava treinando os estudantes dele no shuriken, havia, entre os muitos espectadores, um homem jovem que parecia ter 19 anos de idade, aproximadamente, cujo braço e perna esquerda foram paralisadas, possivelmente devido a alguma espécie de paralisia infantil. Sorrindo, ele assistia, mas o sorrir dele parecia a Sokaku estar cheio de desprezo. Sokaku pensou deste homem jovem ser muito descortês por sorrir assim, escarnecendo, enquanto o observava ensinar seus estudantes. Depois de terminar a prática, ele chamou para parar o homem aleijado que tinha começado a partir. "Por que você sorriu a mim?", perguntou para o homem. "É natural que uma coisa afiada penetre e adira no alvo", ele respondeu, enquanto ainda sorrindo, e mostrou para Sokaku um sen de ichirin (uma moeda no sistema monetário velho, um rin = 1/1000 iene). Colocando a moeda entre o dedo indicador e o dedo médio, o homem lançou a moeda à tábua que estava a uma distância de cerca de 12 pés. Mais da metade da moeda aderiu lateralmente (penetrou) na tábua. No segundo lançamento dele, mais que sete ou oito décimos da moeda penetrou profundamente no objetivo. No último lançamento, a moeda golpeou a tábua em seu lado plano e a penetrou. Isto surpreendeu muito a Sokaku. O homem removeu a moeda facilmente e repetido a mesma técnica inúmeras vezes. Sokaku também tentou isto. Ele podia acertar o alvo, mas cada vez a moeda repercutiu com um som. Embora ele tentasse isto muitas vezes, ele não pôde ter sucesso em aderir, até mesmo uma vez, a moeda na tábua.

Desejando dominar esta arte enigmática de lançar moedas, Sokaku pagou o jantar do homem na hospedaria e lhe pediu que ensinasse o segredo de sua arte. O homem concordou vir e ensinar para Sokaku a arte por dois dias começando no dia seguinte. Um Sokaku entusiástico se aplicou em praticar dia e noite durante os dois dias. Não obstante, ele não pôde aderir uma moeda no alvo. No terceiro dia, ele perguntou para o homem, "quantos anos tenho que praticar para ter sucesso em penetrar a moeda no alvo?" O homem lhe respondeu, "eu nasci rico, mas meu braço e perna esquerda foram paralisados por natureza. Quando tinha oito anos aproximadamente, fiz uma montanha de moedas, e joguei lançando moedas, contra um pilar. Quando acabavam as moedas perto de mim, eu rastejava ao pilar e as recolhia, então voltava ao meu lugar anterior. Diariamente eu lancei as moedas contra o pilar inúmeras vezes, e afinal, depois de aproximadamente três anos, poderia cravar algumas moedas no pilar. Foi aproximadamente há dez anos que eu comecei a lançar moedas". Sokaku estava preocupado. "Levará dez anos se eu só concentrar em lançar moedas. Se isto é assim, eu tenho que abandonar todas as outras artes marciais, mas eu não posso fazer isso". O homem pareceu sentir Sokaku vacilar, e no dia seguinte ele deixou de vir. Como resultado, Sokaku sentiu-se derrotado pelo homem em lançar shuriken. Depois disso, só em ocasiões muito raras, a pedido especial dos estudantes dele ou outros, Sokaku iria demonstrar a arte do shuriken, e ele nunca os ensinaria de boa vontade. Mas ele mostrou ocasionalmente a arte de arremessar usando pinças que penetraram em diferentes formas, longa ou curta, grande ou pequena, quadrada ou circular. Ele lhes mostrou a arte, batendo fora num ritmo de duas ou três vezes, e lançando as pinças que cravavam no pilar.

O homem aleijado

Sokaku não pôde esquecer do homem com o grande talento em lançar moedas, e ele estava ansioso por vê-lo mais uma vez. O homem tinha mencionado aldeia "A", assim Sokaku foi procura-lo lá, mas não o pôde achar. Perguntou a alguns dos aldeãos pelo homem, mas sem proveito. Eles disseram, "Nós nos lembraríamos do nome facilmente se houvesse tal homem aleijado nesta aldeia. Não há nenhum homem rico que possa permitir o filho jogar jogos com uma montanha altamente empilhada de moedas nesta aldeia". Sokaku visitou algumas outras aldeias próximas da aldeia "A", mas não pode achar nenhum rastro do homem aleijado, e a verdadeira natureza do homem continuou o iludindo.

Depois que ele voltou à hospedaria, o homem aleijado tornou-se o assunto de conversação entre muitas pessoas, inclusive do guardião (dono) da hospedaria e seus criados. Todos eles freqüentemente tinham visto a habilidade maravilhosa dele ao lançar moedas. Eles sempre o tinham admirado e admitiram que a habilidade dele estava além de sua compreensão. Alguns entre eles disseram em um coro, "Agora que nós pensamos nisto, parecemos recordar um halo que aparecia ao redor do homem aleijado". Num exame cuidadoso das moedas que o homem lançou, acharam eles que poderiam ser escolhidas aquelas que presas no pilar podiam ser tiradas fora usando só uma sovela/furador. Eles estavam pasmos porque estava além do poder de um humano remover as moedas, contudo ele tinha as removido facilmente com os dedos. Talvez quando o homem disse, "Minha família é rica, assim empilhei as moedas em uma montanha", ele estava se referindo aos oferecimentos de dinheiro feitos a um santuário ou templo. Todos eles concordaram que o menino deveria ser uma deidade, uma encarnação do Buddha. Uma velha tradição diz que Uto Myozin (uma deidade budista) é reencarnado como um macaco ou um budista peregrino para castigar as pessoas maliciosas ou convencidas. Pela primeira vez na vida, Sokaku estava profundamente envergonhado de todas as ações e pensamentos que tinham sido resultados de sua vaidade, especialmente o episódio no dojo com as lanças. Em anos posteriores, quando Sokaku deu para os estudantes dele o mokuroku de hiden (rolo de papel secreto com as técnicas), ele lhes falou sobre a técnica de lançar moedas do homem aleijado, e então ofereceu as seguintes palavras de repreensão: "É infame se tornar muito orgulhoso ou estar convencido. Estas atitudes resultarão em derrota, porque sempre haverá alguém melhor que você".

Nesses dias, vários ascetas, ou os padres vagantes, uniram-se em grupos e treinaram a si mesmos em montanhas famosas em vários lugares. Sokaku tinha discutido várias e várias vezes com estes ascetas sobre as graças e castigos dos kami (deidades de Xintoísmo) e Buddhas. "Se houver kami e Buddhas neste mundo, por favor, me deixem os ver ou os tocar com minhas mãos", e "Vocês são hipócritas que abusam das deidades e enganam as pessoas inocentes pelo dinheiro e valores delas, por isso vocês nunca podem me fazer ver ou tocar as deidades". Os ascetas se puseram bravos e brandiram os aduela dos peregrinos a ele, mas ele tomou as varas deles pela força e os bateu um depois de outro. Os ascetas deixaram disparando uma sentença a ele enquanto corriam para longe: "Você certamente será castigado pelo kami!" Como Sokaku nunca tinha temido a morte, ele sem temor desejava ser castigado uma vez pelo kami, e era corajoso o bastante para destruir o altar dos ascetas.

Sokaku tinha desejado fortemente ver ou tocar a figura de um kami por muito tempo. Ele tinha visto a habilidade secreta do homem aleijado em lançar moedas com os próprios olhos, e também tinha ouvido o rumor que ele era uma encarnação de Uto Myozin. Esperançoso que o desejo longo-apreciado de se encontrar com um ser divino pudesse ter tornado-se realidade, ele se foi para o Santuário Uto Myozin na Cidade de Nichiman, Prefeitura de Miyazaki, com espírito elevado. Ele se acalmou à entrada para caverna de Uto Myozin, e rezou durante sete dias, privando-se de sal. Estava no meio de julho de 1880. Sokaku descobriu que o monge, Jion, fundador da seita budista de "Nen-ryu", e Ikosai Aijima, fundador da seita In-ryu, também vieram aqui para rezar para a realização de suas esperanças longo-apreciadas deles.

O poder sobrenatural do velho asceta

Assim Sokaku se limitou rezar a Uto Myozin. Ele estava cochilando na manhã do sétimo dia do período do voto dele, quando ele despertou ao som de uma voz, chamando "Kozo! Kozo!" (Hei, criança!). Ele dirigiu sua face em direção à voz e viu levantando-se ao lado dele um homem velho, com uma cabeleira branca. O homem velho usava um capuz coberto por um chapéu branco largo, e os vestuários tradicionais de um monge que pertence a uma seita budista esotérica. Ele levava ramos de bambu sobre seus ombros e segurava um bastão de padre na mão. O velho asceta perguntou para Sokaku o que ele estava fazendo lá. Sokaku explicou que ele estava rezando ao kami para encontrar o homem que conheceu a arte secreta de lançar moedas mais uma vez. O asceta acenou com a cabeça e disse, "Venha comigo. Tenho algo que desejo mostrar para você". O asceta velho o levou ao topo do Monte Abira chamado "Renjitsuho" atrás do Santuário Uto Shinto onde o mausoléu imperial do Imperador de Jimmu nomeado "Hikonagisakeugayafukiaezu no Mikato" (título de honra) estava localizado. Lá, cinco ascetas vestidos de branco estavam esperando pelo amanhecer, cantando Shingon (seita budista esotérica, Shingoshu, uma escola que enfatiza reencarnação e orações) sutra voltados para o leste. O velho asceta era o líder destes ascetas.
Monte Abira é a montanha mais ao sul em Kyushu. O sol sobe primeiro e brilha em Renjitsuho. O tempo naquele dia era ideal, sem uma nuvem no céu. Como o sol subindo, foi ficando gradualmente quente. Os ascetas cantaram incessantemente o Shingon sutra, mas Sokaku estava relutante em cantar com eles. Depois de um pequeno tempo, Sokaku começou a sentir que o velho asceta era um extraordinário. Mas ele decidiu que se o asceta, fosse quem que ele poderia ser, enganasse o público, ele o derrubaria, o expulsaria da montanha e destruiria o altar dele.

Percebendo a mente de Sokaku, o velho asceta disse a ele, "Menino! Suplicarei algumas nuvens para você. Assista-me cuidadosamente!" Assim que disse isto, ele começou a cantar o sutra vigorosamente. Embora o tempo fosse muito bom, nuvens pretas subiram depressa do pé da montanha, e cobriram o Monte Abira e a área circunvizinha. O tempo previamente bonito era completamente ido, o sol estava coberto com nuvens, e ficou bastante escuro. Sokaku estava surpreso com este fenômeno e desejou saber se ele estiva sendo enganado. Ele esfregou os olhos e beliscou as mãos e pernas e sentiu dor. Depois de um tempo, desapareceram as nuvens gradualmente e o tempo esplêndido voltou, e era quente da mesma maneira que antes. Após uma hora, o velho asceta começou a cantar o sutra de Shingon mais furiosamente até. As nuvens pretas subiram rapidamente do pé montês da mesma maneira que antes e novamente cobriram o Monte Abira, mas ficou até mais escuro. Nesse momento, um vento forte começou a soprar. As árvores balançaram em toda direção. Trovejou, e os raio começaram a flamejar. Sokaku, certo que ele estava sendo enganado de alguma maneira, apunhalou sua coxa direita com seu punhal, mas ele sentia a dor muito sutilmente. Ele começou a acreditar finalmente que este fenômeno não era um sonho. Da mesma maneira que o vento soprou mais fortemente, o trovão rugiu, e o raio flamejou. A chuva começou a desabar em grande quantidade. No momento que a chuva pesada parou, granizos tão grandes quanto feijões largos começaram a cair. Depois de um pequeno tempo, parou a tempestade, as nuvens pretas desapareceram, e o sol brilhou novamente. Sokaku não pôde acreditar em seus olhos, mas o chão estava branco com o granizo.

Amedrontado com o poder divino do velho asceta, Sokaku perguntou o nome dele respeitosamente. "Eu sou Uto Gongen", ele respondeu. Sokaku estava surpreso. "Gongen" era um título usado por seres divinos quando eles se disfarçam temporariamente como um ser humano e aparecem no mundo mortal. Até agora Sokaku tinha considerado provocar o velho asceta com seus seguidores, como fizera aos outros no passado, dizendo, "Você é um maroto que engana os homens inocentes! Se você for um kami, você deve poder controlar meu ataque". Porém, nesse momento Sokaku percebeu que a oração dele que era ver ou tocar uma figura divina foi respondida. A divindade do asceta foi provada pela tempestade que impressionou Sokaku profundamente.

Após este incidente Sokaku estudou esse Budismo esotérico sob orientação do velho asceta no topo do Monte Abira. Aproximadamente duas semanas depois, Sokaku acordou uma manhã apenas para perceber que o velho asceta e seus cinco companheiros vestidos de branco tinham desaparecido. Sokaku supunha ser um artista marcial. Porém, ele dormiu até a manhã sem notar a partida dos seis homens. Ele nunca tinha experimentado tal coisa antes. Ele fora descuidado para um artista marcial e estava profundamente envergonhado da sua negligência. Pensando que a experiência das últimas duas semanas era mais um sonho, ele relembrou a cicatriz na coxa direita onde ele tinha se apunhalado confirmando que o poder sobrenatural do velho asceta que estimulou o vento era real. Isto provou que ele realmente tinha passado um tempo com os seis ascetas.

Por esta experiência Sokaku aprendeu uma grande lição sobre a sua própria atitude para treinamento de artes marcial. Até eles, tinha se dedicado ao treinamento próprio só esperando ficar forte e poder ganhar em um duelo. Porém, ele percebeu que não poderia se comparar com os poderes sobrenaturais possuídos pelos ascetas que podiam chamar as nuvens e vento. Ele foi derrotado claramente por eles e se envergonhou profundamente. Sokaku também aprendeu que ele tinha sido um homem de pouca fé.

Sokaku continuou seu treinamento em artes marciais e ao mesmo tempo começou a visitar dojos de Budismo esotérico em várias cidades pretendendo também se ocupar de treinamento religioso. Além disso, visitou montanhas espirituais no país para treinar. Mais tarde, Sokaku estudou sob a orientação de Chikanori Hoshina (aka Tanomo Saigo) que era padre assistente do Santuário Nikko Toshogu no Monte Futara. Ele estudou a secreta técnica de leitura de mente de aiki e adquiriu vários poderes super-humanos como o espírito inflexível, poder de clarividente, e presciência.

Embora tivesse apenas cinco pés (*1,52 m, aproximadamente) de altura, Sokaku se tornou um artista marcial muito incomum e continuou viajando ao redor do Japão ensinando e expandindo Daito-ryu bem até seus 80 anos. Tal feito só foi possível devido a seu poder sobre-humano de aiki.

(*) - Nota do tradutor.


Traduzido por Fernando Coutinho - Instituto Takemussu de Maceió




 

 

 

 

 

 


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