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"Permanecer
firme contra uma força poderosa não é mais sagrado do que
desviar-se e permitir que o momento da força passe. A árvore
mais forte é aquela que pode curvar-se ao vento."
Para
nós, estes 10 anos de prática do Aikido têm sido uma experiência
espiritual. Tendo as nossas vidas profissionais, é natural
esforçarmos-nos em aplicar as lições que aprendemos no tatami
em assuntos relacionados à ela.
Um de nossos últimos desafios em interpretar os princípios
espirituais do Aikido ocorreu, recentemente, durante uma
Conferência de Verão da Sociedade Metafísica de Oklahoma.
Palestras e discussões sobre Reiki e a técnica de Alexander
precederam a demonstração de Aikido. A nossa demonstração
foi programada para ser o evento final de integração do
programa cujo tema era "Visões Transformativas".
Nós organizamos esta demonstração tomando como base o planejamento
da palestra de Tilden Edwards do Instituto Shalem para Formação
Espiritual. Bob é formado no programa Shalem e considera
Edwards como sendo um de seus mentores. Ele tinha assistido
a uma palestra de Edwards entitulado "Qualidades da Onipotência
da Alma" e nós dois fomos surpreendidos pela maneira pela
qual ele descreveu idéias semelhantes às nossas a respeito
do "caminho da harmoria do Espírito" (Aikido).
Edwards listou 6 qualidades de vida que ele acredita serem
capazes de aperfeiçoar a alma:
1. Confiança efetiva
2. Liberdade de movimento
3. Compaixão espontânea
4. Apreciação do caos
5. Enxergar possibilidades
6. Consciência das interrelações
Tivemos a impressão de que a nossa evolução de 10 anos em
Aikido tinha trabalhado a incorporação destas qualidades
espirituais e, desta forma, nós decidimos interpor algumas
idéias de Aikido, tais como movimentos, arremessos e chaves
de articulações, na nossa apresentação para ilustrá-los
de uma forma clara.
Em nossa apresentação, que entitulamos "Princípios Espirituais
Centrais do Aikido", expusemos, através de uma palestra,
cada uma das qualidades enumeradas por Edwards. Após fazer
uma breve explanação a respeito das considerações de Edwards,
nós os ilustramos no tatami através de princípios e técnicas
de Aikido. A exposição de Aikido foi selecionada a partir
do sistema não-competitivo Tomiki Ryu, ensinado no Shobu
Aiki Dojo, em Oklahoma City, onde nós treinamos.
Confiança efetiva
Edwards sugeriu que a "confiança efetiva" está relacionada
com a presença de Deus na vida de uma pessoa. O mundo dos
seres vivos foi criado para funcionar dentro de uma ordem
física que parece permitir a descoberta pessoal. Contudo,
os atos de descobrir e conscientizar-se destes princípios
físicos da vida é uma responsabilidade individual.
Em parte, a "confiança efetiva" tem a ver com a confiança
de que nós poderemos experimentar tais princípios físicos
da vida, à medida que tivermos crença nelas. Da mesma forma,
a confiança está relacionada com o ato de assimilar as lições
que nos ensinam como tomar conta de nós mesmos de maneira
efetiva.
A relação com o Aikido - O Fundador do Aikido era uma pessoa
profundamente espiritual à procura do desenvolvimento da
"confiança efetiva" entre si mesmo e o mundo repleto de
vida que Deus criou.
No tatami, os aikidoístas praticam várias disciplinas que
levam ao desenvolvimento da "confiança efetiva":
1. deixando o ego (imaturidade) fora do tatami;
2. praticando o ato de reverência para desenvolver uma atitude
de respeito e descoberta;
3. mantendo uma postura centrada enquanto estiver respirando
e movendo-se à partir do abdome;
4. praticando um exercício na qual mantém-se o braço estendido,
com ênfase no ato de empurrar ao invés de defender-se;
5. usando movimentos de mãos e pés homolaterais (mesmo lado)
para jogar o peso enquanto se está empurrando.
Nós ilustramos estes aspectos da prática do Aikido com técnicas
que são conhecidas no sistema Tomiki Ryu como "o andar"
e os "movimentos de escape".
Liberdade de movimento
Permanecer firme contra uma força poderosa não é mais
sagrado do que desviar-se e permitir que o momento da força
passe. A árvore mais forte é aquela que pode curvar-se ao
vento.
A liberdade de movimento provém do aspecto sagrado do ato
de viver sem ameaças. Esta liberdade é construída diretamente
sobre a "confiança efetiva" que é descoberta através da
disciplina da prática.
A relação com o Aikido - Se o conselho "Saia do caminho!"
aplica-se no trânsito, ele faz sentido também em qualquer
forma de "colisão." Sem se abaixar, o praticante de Aikido
move-se para o lado com todo o corpo, neutralizando automaticamente
a maior parte da ameaça iminente, ao mesmo tempo que sai
da linha de ataque do agressor.
As técnicas para ilustrar este item foram selecionados do
Junana-Hon Kata, que demonstra como tori (nague) sai da
linha de ataque, desequilibrando uke. Utilizamos também
os movimentos de neutralização contra oito facas do Koryu-Dai-San-Kata
para ilustrar o potencial da "liberdade de movimento".
Compaixão espontânea
A compaixão é freqüentemente confundida com o "cuidado voluntário".
Contudo, compaixão espontânea é o ato de cuidar oferecido
quando alguém tem dúvidas se deve ter compaixão. Compaixão
espontânea pode emergir, por exemplo, na forma de surpresa
quando alguém que é ameaçado encontra compaixão por parte
do próprio agressor.
A relação com o Aikido - Em Aikido, sair da linha de ataque
envolve entrar no mesmo ou assimilá-lo. Ao invés de serem
dominados por alguém fora de controle, os praticantes de
Aikido optam por envolver quem o ataca.
Evitar um encontro ameaçador impede a possibilidade de se
ter um relacionamento. Envolvendo a ameaça, nós possibilitamos
que o ímpeto inicial de um ataque passe por nós sem oferecer-nos
qualquer perigo. Após movimentar-se para fora da linha de
ataque sem perder a sua postura centrada, o praticante de
Aikido envolve o seu atacante, o que causa uma súbita surpresa.
Uma forma livre do Owaza-Juppon Kata deu-nos um exemplo
claro de tori (nague) entrando em um ataque com a intenção
de causar o mínimo desconforto possível para uke. Tori (nague)
responde com uma espiritualidade de um contexto mais amplo.
Apreciação do caos
O caos parece comandar pelo menos 50% da vida, e este fato
é muito importante. A ordem existe somente pelo fato de
antes existir o caos; o caos promove a oportunidade de se
criar a ordem. Por sua vez, a ordem produz mais caos. Este
processo, de uma forma mais ampla e experimental é chamado
de aprendizado.
A relação com o Aikido - O praticante de Aikido vê o ato
de tirar vantagem de alguém como uma violação de fronteiras
sagradas. Quando a disarmonia ou o caos prevalece, a restauração
da harmonia é visto como uma responsabilidade pelo tori
(nague). Os desvios, as chaves de articulações e os arremessos
dão o substrato de uma (re)negociação por parte de tori
(nague) com o uke.
Em Aikido, uma grande parte do aprendizado é feito quando
somos uke assim como quando somos tori (nague). Como uke,
um agressor/atacante tem a possibilidade de aprender o valor
de "cair nas quedas." Cair é freqüentemente a opção mais
sábia. Cair significa ter controle sobre a sua própria segurança.
Nós ilustramos estas verdades com as técnicas chaves de
punho e queda - kotegaeshi, shihonague, sumiotoshi e hikiotoshi.
Enxergar possibilidades
Somente quando se aprende bem estes 4 primeiros princípios,
o aluno tem a oportunidade de descobrir os outros dois;
isto pelo fato de não ser possível atingir este nível de
conhecimento com uma postura de somente "advinhar" as coisas,
típica das fases mais iniciais do aprendizado. A qualidade
da "confiança efetiva", por exemplo, deve ser sedimentada
de uma tal maneira, através de exercícios práticos, a ponto
de ser algo automático. Até este ponto, a compreensão pode
se dar somente "em teoria".
A relação com o Aikido - Somente após vários anos de prática
de Aikido, consegue-se descobrir soluções para problemas
situados em movimentos sutis. Esta verdade se mostra presente
também em níveis mais avançados, requerendo muito mais esforço
do que requer com a postura de "mera advinhação".
Na nossa apresentação, ilustramos este nível com um curto
e simples randori.
Consciência das interrelações
Em um certo momento, as pessoas descobrem que as outras
pessoas (os ukes) não são somente "inimigos" ou apenas fontes
de distúrbios em nossas vidas. Quando as pessoas interagem,
a questão sempre é "O que nós estamos fazendo juntos?" Quando
as coisa vão bem, todos são responsáveis por isso. Quando
as coisas não vão bem, todos são responsáveis por isso também.
Até o momento, nós ainda pensamos em categorias de oposição
- amigo x inimigo, por exemplo. Contudo, no momento onde
a interrelação se desenvolve de forma plena, os atos de
maldizer, categorizar e ignorar desaparecem. Ninguém pode
fugir da responsabilidade, desde que esteja claro que todos
nós somos co-criadores de um determinado evento.
A relação com o Aikido - Em um determinado momento, os praticantes
de Aikido percebem que eles se tornaram "bons" nesta atividade
porque os seus companheiros se tornaram melhores atacantes.
Sem cair na idéia de competição, cada aikidoísta deve aprender
como atacar com potência, força e concentração para que
os outros possam aprender e atingir o seu potencial pleno.
Pelo fato do Aikido ser uma arte marcial gentil, o respeito
e a honra - não a agressividade e a competição - são seus
objetivos. Logo, a primeira opção nunca é entrar em conflito.
Juntos, nós exploramos cuidadosamente os limites de uma
pessoa, antes que ela parta para a agressão. Através da
prática, descobrimos o significado mais profundo do ditado,
"Não há amor maior do que dar a sua vida por um amigo."
Aqui, nós escolhemos as técnicas de jo-tori e bokken-tori
do Koryu-Dai-San Kata para demonstrar a potência e ameaça
crescente por parte do uke.
Nossa apresentação de 90 minutos foi muito agradável e foi
recheada de entusiasmo. Talvez, os leitores de Aikido Today
Magazine possam, refletindo sobre as 6 qualidades do espírito,
identificar o desenvolvimento de qualidades semelhantes
em sua própria evolução dentro da prática do Aikido.
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