
Peter Goldsbery
6th Dan e presidente da IAF
(INTERNATIONAL AIKIDO FEDERATION) |
"Que
pergunta tola! É claro que o Aikido pode ser ensinado.
O fato de existir mais de um milhão de praticantes,
no Japão e no Além Mar, é um testemunho
eloquente disto. Considerando que Morihei Ueshiba ensinou
relativamente poucos deste milhão de praticantes,
o crescimento fenomenal do Aikido só pode ser atribuído
às centenas de instrutores dedicados que aprenderam
com os discípulos que foram ensinados, diretamente,
por O-Sensei."
Esta
resposta é plausível, mas insatisfatória.
Não queremos negar que o grande número atual
de praticantes (as estimativas variam muito) tenham aprendido
com estes instrutores dedicados. Se eles foram realmente
ensinados e como foram ensinados é um outro problema.
ENSINO
E TREINAMENTO
Não
se trata de um jogo de palavras ou de um outro exemplo do
conflito entre as tradições culturais do Oriente
e do Ocidente e suas limitações. É
óbvio que estas tradições culturais
são muito diferentes, especialmente no que diz respeito
aos métodos de ensino e aprendizado. Tais diferenças,
contudo, embora importantes, não são absolutas.
Por um lado, ARISTÓTELES, o inventor da lógica
ocidental, da Universidade, da metodologia educacional do
Ocidente e de muitas outras coisas, era bastante claro quanto
ao que podia e o que não podia ser ensinado. No seu
texto, conhecido como A ÉTICA NICOMAQUEANA, Aristóteles
sustenta que a moralidade ou a compreensão da importância
de um sistema ético, só pode ser intuída
a partir da experiência. Tudo que o professor pode
fazer é oferecer ao aluno oportunidades de aprendizado
e ter esperanças.
Por outro lado, no esquema japonês, um shihan de Aikido
não é um professor, no sentido que damos à
palavra. Este título, de fato, tão querido
de alguns praticantes de Aikido e fonte de tanta angústia
para aqueles praticantes que não o possuem e acham
que o deviam ter, é completamente desconhecido fora
das artes tradicionais japonêsas. Um Shihan é
um modelo ou arquétipo da arte em questão
e o título é dado (geralmente contra o pagamento
de um grande valor em dinheiro) àqueles que são
considerados exemplos marcantes da arte. Títulos
completamente diferentes são adotados pelos membros
do sistema educacional japonês, que passam suas vidas
ensinando aos jovens e/ou aos inexperientes. (1)
Os
hábitos educacionais japoneses são também
relevantes em relação ao ensino das artes
marciais. Um jovem japonês sofre um processo de socialização
destinado à torná-lo um membro de uma organização
ou tribo socialmente coesiva. O desenvolvimento do individualismo
não é admitido como uma oposição
aos interesses do organismo social. Desta forma, o processo
educacional é muito mais instrumentalista e utilitário
que o adotado nos países ocidentais, onde o objetivo
maior é desenvolver o indivíduo. Os estudantes
nas escolas e universidades japonesas recebem passivamente,
daqueles considerados mais velhos e mais sábios,
um enorme conjunto de conhecimentos, a maior parte simplesmente
através da memorização. É aí
que os livros-textos e os resumos entram em jogo e os alunos
japoneses, de todas as escolas, em todo o país, aprendem
a mesma coisa, às vezes ao mesmo tempo.
O treinamento marcial, contudo, raramente ocorre como em
uma sala de aula. Ao chegar ao segundo grau, o jovem japonês
irá se associar a um clube esportivo da escola (estes
clubes existem em escolas e universidades). O estudante
aprenderá através da prática como se
dirigir a seus superiores, em um japonês polido e
correto e como ser um obediente parafuso na grande engrenagem.
O treinamento, muitas vezes, pode ser muito rígido
e exige-se uma obediência absoluta às regras.
Qualquer deslize pode criar problemas e, muitas vezes, redundar
em agressões e até mesmo em morte. Praticamente
todos os clubes universitários de Aikido no Japão
são organizados desta forma. O treino é dirigido
pelos estudantes veteranos (geralmente do 3º ano) e
uma queixa comum é que o processo se torna sufocante.
O peso da tradição é enorme, com cegos
conduzindo cegos. Os estudantes aprendem como serem educados
e obedientes, mas isto é tudo. Poucos dos graduados
continuam a praticar Aikido após a faculdade.
Estes clubes, contudo, instilam nos alunos certos pressupostos
que podem ser muito úteis à prática
das artes marciais. O estudante praticará o Aikido,
dentro de certos pressupostos:
a) o Aikido é completamente diferente da sala de
aula, com os seus resumos e livros-texto;
b) Este novo mundo é estruturado verticalmente e
não depende, de forma alguma, dos interesses ou visões
daqueles na parte mais baixa da estrutura;
c) a prática é o mais importante do treinamento
e o sucesso depende da habilidade em aprender pela simples
repetição;
d) inexiste esforço intelectual, uma vez que os objetivos
não são conhecidos previamente e explicações
raramente são dadas;
e) presume-se que os veteranos necessariamente sabem muito
mais que os calouros e jamais devem ser questionados;
f) as técnicas são demonstradas e os estudantes
devem praticá-las, com vários níveis
de sucesso. Uma execução razoável,
contudo, é exigida e normalmente atingida.
O
KI DA BARBEARIA
Tais
pressupostos ocorrem também em outras atividades,
como no cabeleireiro, por exemplo. Em uma barbearia que
eu conheço, existe um estudante, um deshi, cujo treinamento
consiste, exclusivamente, em observar em silêncio
o trabalho do cabeleireiro. Durante todo o tempo em que
eu frequentei aquele salão como um cliente, eu nunca
o vi cortar sequer um cabelo e apenas fazer uma ou outra
barba. Eventualmente, é claro, ele irá atender
alguns clientes selecionados, mas ainda sobre a vigilância
atenta do seu "professor cabeleireiro".
Não duvido que ele irá se tornar um excelente
cabeleireiro, mas isto não será o resultado
de nenhum ensinamento explícito. Ouvi dizer que O-Sensei
exigia dos seus deshi dois anos de prática de ukemi,
antes de que começassem a aprender as técnicas
e, em um dos seus livros, Saito Sensei sugere dois anos
de suburi, antes de iniciar o kumitachi. Ao meu modo de
ver, isto é um "treinametno de cabeleireiro"
par excellence.
Creio ser necessário enfatizar que estudantes educados
no sistema educacional ocidental não dominam esses
pressupostos e que aprender uma arte marcial como o Aikido,
especialmente se apresentado de acordo com esses pressupostos,
exige uma mudança de paradigmaas intelectual de uma
enorme magnitude.
A idéia de que o deshi tem de "roubar o conhecimento"
ou as técnicas do professos é muito mencionada
pelos discípulos de O-Sensei e existe a sugestão
implícita de que os assim chamados métodos
de ensino, baseados em explicações racionais,
não tem lugar no Aikido. Isto podia ser verdade na
época de O-Sensei, antes da 2ª Guerra Mundial,
mas está claro que o "centro de gravidade"
do Aikido mudou. Talvez seja um exagero dizer que este centro
não é mais no Japão, mas o simples
fato de que existem milhares de praticantes, dedicados e
tecnicamente aptos, fora do Japão, implica em uma
nova dimensão para a arte que o próprio O-Sensei
seria incapaz de imaginar. No restante deste texto, discutirei
a questão da disseminação e da possível
"ocidentalização" do Aikido, desde
os dias de O-Sensei e o que isto implicará no futuro.
O
CAOS PRIMORDIAL
No
estágio atual dos estudos objetivos sobre a história
do Aikido, talvez seja uma falta de polidez sugerir que
O-Sensei não se interessava muito em ensinar o Aikido.
Curiosamente,
contudo, em muitas entrevistas com alunos diretos de O-Sensei,
publicadas em Aikido Journal (e em meus próprios
contatos pessoais com muitos destes estudantes) fica evidente
que O-Sensei estava tão envolvido com a magnitude
e o caráter único da sua visão que
não dedicava muito tempo à questão
de como passar esta visão ou explicá-la a
outras pessoas, de uma forma sistemática. É
claro que existem os assim chamados "Manuais de Treinamento"
: BUDO e BUDO RENSHU. Acredita-se que o primeiro
foi escrito pelo próprio O-Sensei e que ele teria
aprovado a redação do último. No entanto,
a) Eles só foram dados a poucos estudantes, provavelmente
após testes não conhecidos de virtude marcial
e nunca foram disponibilizados a todos e b) as explicações
ali contidas seriam incompreensíveis para quem não
tivesse um profundo conhecimento da cultura japonêsa
(particularmente quanto ao conteúdo e o significado
das coleções de mitos japonêses contidos
no KOJIKI e no NIHON SHOKI) ou que já
não dominassem as várias técnicas praticadas
por O-Sensei naquela época. Mesmo assim, muitos dos
alunos diretos de O-Sensei confessaram haver compreendido
praticamente nada das explicações mais esotéricas
quanto às "leis inalteráveis do Universo",
etc...Estes estudantes treinaram continuamente sob a direção
de O-Sensei e seguramente teriam as melhores condições
de absorver tais conhecimentos. Aparentemente, isto não
ocorreu. Com base nos registros existentes e em suas próprias
palavras, O-Sensei teve experiências que podemos chamar
de místicas, que representaram um papel central na
criação da sua arte. O misticismo é
um elemento altamente respeitado na tradição
religiosa ocidental e não se restringe ao Cristianismo,
com sua formação intelectual ocidental. Grandes
místicos como Santa Teresa d'Ávila e São
João da Cruz foram, como O-Sensei, também
grandes reformistas nas suas áreas de atividades
escolhidas. Ao contrário de O-Sensei, ambos deixaram
relatos copiosos das suas experiências místicas,
embora estes relatos não nos ajudem a compreender
melhor as suas experiências, nem representem, de forma
alguma, um meio que permita a reprodução destas
experiências em nós mesmos. O-Sensei compôs
alguns poemas que são incompreensíveis para
a maioria dos praticantes de Aikido. Mas talvez não
tenhamos o direito de exigir que O-Sensei nos relate essas
experiências através de palavras que possamos
entender? O que precisa ser enfatizado é que O-Sensei
não tinha apenas uma visão do Divino, digamos,
em duas dimensões. A sua visão tinha a praticidade
de combinar poderes extraordinários da percepção
do Real, com uma série de rituais, através
dos quais ele se colocava em união com o Divino.
Ele
atraiu um certo número de discípulos e é
importante também lembrar que estes discípulos
eram também, de alguma forma, especiais. Eles buscavam
algo e achavam que O-Sensei poderia lhes dar o que eles
estavam procurando, uma situação nada semelhante
de uma sala de aula normal ou mesmo de um dojo normal. Recentemente,
eu conversei com um destes discípulos, que se juntou
a O-Sensei, logo após o fim da Guerra. Segundo ele,
O-Sensei simplesmente mostrava as técnicas contra
uma variedade de ataques e então dava as suas explicações
longas e esotéricas. Os nomes das técnicas
que conhecemos hoje foram inventados por seus próprios
discípulos, em um esforço de memorizar o que
estavam fazendo e não pelo próprio O-Sensei.
Os seus alunos lutavam por entender um maravilhoso sistema
físico e espiritual, composto de elementos de Daito
Ryu, esgrima e pré-história japonêsa,
conforme interpretada pela seita Omoto, que O-Sensei teceu
em algo flexível, criativo, mutável e extremamente
difícil de descrever, por assim dizer. O eminente
Aikidoka com quem conversei estava convencido de que, tanto
o Aikido, como a forma atual como ele é apresentado,
mudaram muito desde a época de O-Sensei e que mudaria
mais ainda após a sua morte. Ele é uma das
poucas pessoas ainda vivas que estudou, por muito tempo,
com O-Sensei e esta situação não pode
mais se repetir. Isto não é causa para mágoas,
mas algo que tem que ser aceito como algo inevitável
e que não deve nos impedir de olhar para a frente
com entusiasmo.
DO
CAOS PARA A ORDEM
É
a minha crença pessoal que o Aikido mudou radicalmente,
mesmo durante a vida de O-Sensei. Creio que o principal
arquiteto desta mudança foi o Segundo Doshu, Kisshomaru
Ueshiba, embora outras pessoas estivessem envolvidas, como
Koichi Tohei. Creio ainda que tais mudanças se refletem
em minha própria experiência de Aikido.
Quando eu me iniciei no Aikido, na Inglaterra, o meu professor
se preocupava em apresentar a arte da forma mais pura possível
e tentou nos ensinar virtualmente sem explicações.
Tinhamos um "curso relâmpago" em japonês
de Aikido e ele esperava que nos lembrássemos de
todos aqueles termos e que imitássemos os seus movimentos
suaves, fortes e incrívelmente fluidos. Ele costumava
nos dizer coisas como "Kokyunage é como as ondas
do mar" (Imaginem eu me comportando como uma onda)
ou "Peter, você deve se tornar um gato"
( é melhor nem pensar nisto...). Sendo alguém
que acredita que o arquétipo da comunicação
é a troca verbal, seguindo a lógica ocidental,
isto destruia a minha alma. Lutei com esta situação
até que, por acidente, encontrei 3 livros.
Encontrei
três livros por acidente. Um deles, cujo título
esqueci, havia sido escrito por Koichi Tohei e apresentava
uma relação, passo-a-passo, das técnicas
básicas, junto com explicações sobre
o potencial do Ki, que me pareceram extraordinárias
(provavelmente, como muitas gerações de estudantes
de Aikido, eu costumava praticar o "braço impossível
de dobrar" de Tohei Sensei nos meus infelizes companheiros
de faculdade. O segundo livro se chamava simplesmente AIKIDO.
Era escrito por Kisshomaru Ueshiba e apresentava, aproximadamente,
as mesmas técnicas e exercícios de Tohei Sensei,
mas com uma ênfase menor nos exercícios de
Ki. O terceiro livro foi ainda mais útil. Era AIKIDO
E A ESFERA DINÂMICA, escrito por Westbrook e Ratti
e, além dos maravilhosos desenhos, cheios de linhas
e flechas, continha um diagrama que mostrava todas as técnicas
básicas e ataques, incorporados em um sistema. Isto
para mim foi uma revelação. Haviam algumas
falhas, é claro (alguns aikidoka devem ter percebido
que a dualidade de Omote/ Ura é, muitas vezes, difícil
de duplicar em certas técnicas de Aikido e eu, por
exemplo, nunca pratiquei Hanmi Handachi Shihonage Ura, até
vir para o Japão). Ainda assim, o diagrama de Westbrook
e Ratti traçou as linhas gerais de um sistema defensivo
muito abrangente.
Um outro livro seminal que eu encontrei foi o primeiro volume
de TRADITIONAL AIKIDO, de Morihiro Saito. Eu encontrei o
livro, pela primeira vez, quando eu era um estudante nos
Estados Unidos. Havia um nota no dojo informando sobre um
seminário de verão em um outro país,
onde o livro seria usado como texto de orientação.
Era orientado aos participantes levarem bokken e jo. O meu
próprio professor, naquela época, era contra
o uso de livros no ensino, com base em que (o que era razoável)
ele era um modelo muito melhor que explicações
e uma sequência de fotografias. Além das aulas
de Iaido, que eram separadas das aulas de Aikido, havia
pouca prática de armas no dojo. E, contudo, ali estava
um livro, escrito por um dos discípulos mais íntimos
de O-Sensei, apresentando uma explicação precisa
de exercícios (kata) com o Bokken e o Jo, cujo autor
afirmava ter aprendido diretamente com o Fundador. Com o
livro de Saito Sensei, entrávamos em um mundo onde
as técnicas desarmadas e as técnicas armas
eram ensinadas juntas. A proposta de que o treinamento com
armas podia melhorar a habilidade nas técnicas desarmadas
era uma outra revelação.
Descobri posteriormente que a publicação do
livro de Saito Sensei não era vista com muito entusiasmo
em certos ambientes do Aikido. O-Sensei, aparentemente,
raramente treinava com armas no Hombu Dojo em Tóquio
e, na verdade, desencorajava os estudantes de praticarem
com armas, achando que eles poderiam aprender maus hábitos.
O-Sensei
jamais ensinou o kata de 13 movimentos ou o de 31 movimentos
com o jo e ensiná-los como algo aprendido diretamente
do Fundador era algo tendencioso, para dizer o mínimo.
Eram estes os argumentos, quando o primeiro volume foi publicado.
Por outro lado, muitos dos outros discípulos diretos
de O-Sensei calmamente desenvolviam os seus próprios
kata com o Jo e o Bokken e continuavam a praticá-los,
sempre que surgiam oportunidades. Participei, uma vez, de
um seminário na Europa, onde a prática vespertina
invariavelmente consistia de treinamento com armas. Pratiquei
muitos kata completamente desconhecidos. Respondendo a minha
dúvida, o Sensei me disse que ele praticava aqueles
kata apenas em seu próprio dojo e nunca no Hombu
Dojo. Na minha opinião, a iniciativa de Saito Sensei
e a sua coragem em impor as suas cores no mastro conquistaram
as barreiras do tempo.
Não quero entrar na questão de se o treinamento
com armas é necessário no Aikido. A resposta
é óbvia para mim : É. O que me interessa
salientar aqui é que 3 dos mais eminentes discípulos
de O-Sensei sentiram a necessidade de escrever manuais de
instrução sobre as técnicas básicas
do Aikido e as suas iniciativas foram seguidas por outros.
Todos os textos seguem o mesmo sistema básico ocidental.
Há uma breve história da vida de O-Sensei
e dos seus ensinamentos, algumas vezes acrescida de exemplos
das suas frases mais esotéricas. Seguem explicações
ilustradas dos exercícios básicos de alongamento
e das técnicas básicas, geralmente começando
pelo Ikkyo e concluindo com imagens de ataques múltiplos.
Um destes livros é até mesmo chamado de AIKIDO
COMPLETO, o que não corresponde à realidade
e acredito que o próprio autor concordaria comigo.
Saito Sensei, é claro, continuou a escrever diversos
volumes da sua série sobre o AIKIDO TRADICIONAL e
produziu muitos outros manuais, hoje complementados por
vídeos. O seu exemplo, novamente, foi seguido por
outros aikidoka graduados e hoje existem vídeos devotados,
até mesmo, a aspectos específicos do treinamento,
como o Ukemi ou as técnicas contra ataques de faca.
É claro que muitos destes livros foram escritos por
instrutores japoneses que tinham como profissão ensinar
Aikido a não-japoneses e é evidente que estes
instrutores tentavam encontrar maneiras de tornar o Aikido
atrativo para os ocidentais, a fim de se manterem. Mas dois
pontos precisam ser ressaltados a este respeito :
1) Existem notáveis exceções à
prática de erigir um monumento à própria
experiência de Aikido, através de um livro
ou de um vídeo. Alguns sensei eminentes de Aikido
jamais sentiram a necessidade de fazer alguma coisa além
de ensinar o Aikido do seu próprio modo através
dos anos. Creio que, no Japão, tais sensei constituem
a maioria.
(2)
Os livros e vídeos não estão lá,
apenas para ensinar a arte aos não-japoneses. AIKIDO,
do falecido Doshu, foi a tradução de uma obra
original japonêsa e tanto Kisshomaru Ueshiba, como
o seu sucessor no Hombu Dojo, produziram muitos outros manuais,
explicando o Aikido para os não-iniciados, dos quais
a maioria não foi traduzida para outras línguas.
Talvez seja um exagero dizer que o método de apresentação
destes manuais é praticamente ocidental, mas há
muita diferença entre estes manuais e outras obras,
circuladas privativamente como BUDO e BUDO RENSHU. Os textos
mais modernos parecem responder a uma necessidade aparente
de apresentar o Aikido de uma forma estruturada, com explicações
de acordo com determinados princípios e esta necessidade
já era sentida nos tempos de O-Sensei.
DA
ORDEM PARA O SISTEMA
A
publicação de uma torrente de textos e vídeos
não é a única forma pela qual o Aikido
se ocidentalizou. Eu fiz menção antes aos
volumes produzidos por Morihiro Saito e eles representam
uma estrutura organizacional bem definida, combinando armas
e técnicas desarmadas em um todo coerente. Não
é muito claro no sistema de Saito Sensei por onde
começar, uma vez que todos os elementos da estrutura
tem igual importância. Há, contudo, uma certa
facilidade em começar, ao contrário de outros
sensei que criaram sistemas altamente sofisticados de Aikido,
que são muito difíceis para os iniciantes,
embora altamente estimulantes para praticantes mais avançados.
Existem ainda outros sensei, alguns dos quais escreveram
manuais e outros não, que criaram os seus próprios
sistemas e que exigem dos estudantes que comecem por um
certo ponto, a fim de - muitos anos depois - emergirem como
exímios aikidoka nestes sistemas. Os estudantes precisam,
por assim dizer, "começar do começo"
, eis que de outra forma, as percepções necessárias
para alcançar o próximo nível não
seriam adquiridas. Creio que esta é a forma mais
extrema de adaptar o Aikido às exigências da
lógica ocidental e não é surpresa para
mim que todos os sensei neste caso tiveram que enfrentar
o problema de lidarem com estudantes educados à moda
ocidental.
Não quero dizer que criar um sistema altamente sofisticado
de treinamento em Aikido seja algo errado. Me parece, contudo,
que algumas questões válidas podem ser formuladas
sobre como praticar com aqueles que não foram expostos
ao sistema. Observei este problema muitas vezes em seminários
internacionais. O Sensei demonstra uma técnica e
a maioria dos estudantes tenta executá-la mais ou
menos como ela foi demonstrada.
Muitos,
contudo, executam as suas próprias variações,
de acordo com os seus próprios sistemas e às
vezes me parece que eles nem percebem que o que estão
fazendo é bem diferente do que aquilo que o Sensei
demonstrou. Vi isto muitas vezes em sessões de treinamento
dirigidas pelo Doshu, tanto o atual, como o seu predecessor.
Na minha opinião, o atual Doshu ensina uma versão
muito minimalista do "Aikido Clássico do Hombu"!,
que é ráido e suave, despido de "enfeites"
desnecessários, muito efetivo, mas pouco imitado.
Quanto às técnicas, os melhores exemplos deste
fenômeno são representados por técnicas
relativamente simples como o Iriminage ou o Kotegaeshi (especialmente
quanto às mãos e os pés) ou o ataque
shomenuchi. Alguns Sensei insistem que, em Shomenuchi Ikkyo,
Tori inicia o ataque com Shomenuchi e executa a técnica
no braço que Uke levanta para se defender; outros
- a maioria - asseveram que o Uke deve atacar energicamente
e que o Tori deve esperar o seu ataque. Escutei as justificativas
em ambos os casos e me parece óbvio que ambos são
possíveis. Mas um dos problemas de aprender um sistema
de aikido estruturado é que ele não encoraja
a aceitação de outros sistemas, igualmente
válidos, de executar as técnicas.
CONCLUSÕES
A minha proposta é que O-Sensei não ensinava
Aikido, de nenhuma forma reconhecida. Ele permitia que algumas
pessoas selecionadas observassem vislumbres da sua arte,
como um meio de encontro pessoal com o Divino e encorajava
estas pessoas a desenvolverem os seus próprios Aikido.
Eles faziam isto e enfrentavam a responsabilidade de passar
adiante o que haviam aprendido a outras pessoas que não
haviam tido contato com O-Sensei. Muitos destes novos alunos
tiveram que enfrentar o problema de ensinar Aikido a não-japoneses,
que jamais se dedicariam a ele como a mesma intensidade
dos seus professores. Claro que eles gostariam de apresentar
o Aikido da maneira mais autêntica possível,
mas também de uma forma compreensível para
os seus estudantes. Alguns destes Sensei decidiram que a
prática era tudo : a repetição constante
das técnicas até que elas se tornassem uma
segunda natureza. Outros decidiram complementar a dieta
rígida do treinamento com um pouco de ensinamento
: uma apresentação das técnicas, estruturada
logicamente e organizada em um sistema, com diversos níveis
exigidos de sofisticação e de dedicação.
O desenvolvimento de normas objetivas nos sistemas de ensino
do Aikido, complementada por livros e vídeos, é
algo desejável. As atividades mais periféricas,
tais como os ukemi e os exercícios de aquecimento,
também podem ser submetidos a uma análise
mais apurada. Um estudante com o qual treinei recentemente,
um fisioterapeuta, está se dedicando à pesquisa
das técnicas de aquecimento e solicitou a minha ajuda
na condução de uma pesquisa sobre os tipos
e os benefícios de tais exercícios. Acredito
que tais pesquisas são muito necessárias.
Concluindo, gostaria de sugerir que o Aikido ainda é,
basicamente, uma atividade solitária e que o estudante
é, em última análise, o principal árbitro
do seu próprio progresso. Os Sensei estão
lá para apresentar as possibilidades e permitir-lhes
a chance de enfrentarem estas possibilidades. Como o título
Shihan implica, eles não ensinam : Eles se limitam
a apontar o Caminho.
(NOTA
: As opiniões contidas neste artigo são as
opiniões pessoais do autor e não devem ser
entendidas, de forma alguma, como a visão ou a política
da Federação Internacional de Aikido (IAF),
da qual o autor é, no momento, um dirigente).
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