Artigos de Grandes Mestres

Pode-se ensinar Aikido?
por Peter Goldsbury


Peter Goldsbery
6th Dan e presidente da IAF
(INTERNATIONAL AIKIDO FEDERATION)

"Que pergunta tola! É claro que o Aikido pode ser ensinado. O fato de existir mais de um milhão de praticantes, no Japão e no Além Mar, é um testemunho eloquente disto. Considerando que Morihei Ueshiba ensinou relativamente poucos deste milhão de praticantes, o crescimento fenomenal do Aikido só pode ser atribuído às centenas de instrutores dedicados que aprenderam com os discípulos que foram ensinados, diretamente, por O-Sensei."

Esta resposta é plausível, mas insatisfatória. Não queremos negar que o grande número atual de praticantes (as estimativas variam muito) tenham aprendido com estes instrutores dedicados. Se eles foram realmente ensinados e como foram ensinados é um outro problema.

ENSINO E TREINAMENTO

Não se trata de um jogo de palavras ou de um outro exemplo do conflito entre as tradições culturais do Oriente e do Ocidente e suas limitações. É óbvio que estas tradições culturais são muito diferentes, especialmente no que diz respeito aos métodos de ensino e aprendizado. Tais diferenças, contudo, embora importantes, não são absolutas.

Por um lado, ARISTÓTELES, o inventor da lógica ocidental, da Universidade, da metodologia educacional do Ocidente e de muitas outras coisas, era bastante claro quanto ao que podia e o que não podia ser ensinado. No seu texto, conhecido como A ÉTICA NICOMAQUEANA, Aristóteles sustenta que a moralidade ou a compreensão da importância de um sistema ético, só pode ser intuída a partir da experiência. Tudo que o professor pode fazer é oferecer ao aluno oportunidades de aprendizado e ter esperanças.

Por outro lado, no esquema japonês, um shihan de Aikido não é um professor, no sentido que damos à palavra. Este título, de fato, tão querido de alguns praticantes de Aikido e fonte de tanta angústia para aqueles praticantes que não o possuem e acham que o deviam ter, é completamente desconhecido fora das artes tradicionais japonêsas. Um Shihan é um modelo ou arquétipo da arte em questão e o título é dado (geralmente contra o pagamento de um grande valor em dinheiro) àqueles que são considerados exemplos marcantes da arte. Títulos completamente diferentes são adotados pelos membros do sistema educacional japonês, que passam suas vidas ensinando aos jovens e/ou aos inexperientes. (1)

Os hábitos educacionais japoneses são também relevantes em relação ao ensino das artes marciais. Um jovem japonês sofre um processo de socialização destinado à torná-lo um membro de uma organização ou tribo socialmente coesiva. O desenvolvimento do individualismo não é admitido como uma oposição aos interesses do organismo social. Desta forma, o processo educacional é muito mais instrumentalista e utilitário que o adotado nos países ocidentais, onde o objetivo maior é desenvolver o indivíduo. Os estudantes nas escolas e universidades japonesas recebem passivamente, daqueles considerados mais velhos e mais sábios, um enorme conjunto de conhecimentos, a maior parte simplesmente através da memorização. É aí que os livros-textos e os resumos entram em jogo e os alunos japoneses, de todas as escolas, em todo o país, aprendem a mesma coisa, às vezes ao mesmo tempo.

O treinamento marcial, contudo, raramente ocorre como em uma sala de aula. Ao chegar ao segundo grau, o jovem japonês irá se associar a um clube esportivo da escola (estes clubes existem em escolas e universidades). O estudante aprenderá através da prática como se dirigir a seus superiores, em um japonês polido e correto e como ser um obediente parafuso na grande engrenagem. O treinamento, muitas vezes, pode ser muito rígido e exige-se uma obediência absoluta às regras. Qualquer deslize pode criar problemas e, muitas vezes, redundar em agressões e até mesmo em morte. Praticamente todos os clubes universitários de Aikido no Japão são organizados desta forma. O treino é dirigido pelos estudantes veteranos (geralmente do 3º ano) e uma queixa comum é que o processo se torna sufocante. O peso da tradição é enorme, com cegos conduzindo cegos. Os estudantes aprendem como serem educados e obedientes, mas isto é tudo. Poucos dos graduados continuam a praticar Aikido após a faculdade.

Estes clubes, contudo, instilam nos alunos certos pressupostos que podem ser muito úteis à prática das artes marciais. O estudante praticará o Aikido, dentro de certos pressupostos:

a) o Aikido é completamente diferente da sala de aula, com os seus resumos e livros-texto;
b) Este novo mundo é estruturado verticalmente e não depende, de forma alguma, dos interesses ou visões daqueles na parte mais baixa da estrutura;
c) a prática é o mais importante do treinamento e o sucesso depende da habilidade em aprender pela simples repetição;
d) inexiste esforço intelectual, uma vez que os objetivos não são conhecidos previamente e explicações raramente são dadas;
e) presume-se que os veteranos necessariamente sabem muito mais que os calouros e jamais devem ser questionados;
f) as técnicas são demonstradas e os estudantes devem praticá-las, com vários níveis de sucesso. Uma execução razoável, contudo, é exigida e normalmente atingida.

O KI DA BARBEARIA

Tais pressupostos ocorrem também em outras atividades, como no cabeleireiro, por exemplo. Em uma barbearia que eu conheço, existe um estudante, um deshi, cujo treinamento consiste, exclusivamente, em observar em silêncio o trabalho do cabeleireiro. Durante todo o tempo em que eu frequentei aquele salão como um cliente, eu nunca o vi cortar sequer um cabelo e apenas fazer uma ou outra barba. Eventualmente, é claro, ele irá atender alguns clientes selecionados, mas ainda sobre a vigilância atenta do seu "professor cabeleireiro".

Não duvido que ele irá se tornar um excelente cabeleireiro, mas isto não será o resultado de nenhum ensinamento explícito. Ouvi dizer que O-Sensei exigia dos seus deshi dois anos de prática de ukemi, antes de que começassem a aprender as técnicas e, em um dos seus livros, Saito Sensei sugere dois anos de suburi, antes de iniciar o kumitachi. Ao meu modo de ver, isto é um "treinametno de cabeleireiro" par excellence.

Creio ser necessário enfatizar que estudantes educados no sistema educacional ocidental não dominam esses pressupostos e que aprender uma arte marcial como o Aikido, especialmente se apresentado de acordo com esses pressupostos, exige uma mudança de paradigmaas intelectual de uma enorme magnitude.

A idéia de que o deshi tem de "roubar o conhecimento" ou as técnicas do professos é muito mencionada pelos discípulos de O-Sensei e existe a sugestão implícita de que os assim chamados métodos de ensino, baseados em explicações racionais, não tem lugar no Aikido. Isto podia ser verdade na época de O-Sensei, antes da 2ª Guerra Mundial, mas está claro que o "centro de gravidade" do Aikido mudou. Talvez seja um exagero dizer que este centro não é mais no Japão, mas o simples fato de que existem milhares de praticantes, dedicados e tecnicamente aptos, fora do Japão, implica em uma nova dimensão para a arte que o próprio O-Sensei seria incapaz de imaginar. No restante deste texto, discutirei a questão da disseminação e da possível "ocidentalização" do Aikido, desde os dias de O-Sensei e o que isto implicará no futuro.

O CAOS PRIMORDIAL

No estágio atual dos estudos objetivos sobre a história do Aikido, talvez seja uma falta de polidez sugerir que O-Sensei não se interessava muito em ensinar o Aikido.

Curiosamente, contudo, em muitas entrevistas com alunos diretos de O-Sensei, publicadas em Aikido Journal (e em meus próprios contatos pessoais com muitos destes estudantes) fica evidente que O-Sensei estava tão envolvido com a magnitude e o caráter único da sua visão que não dedicava muito tempo à questão de como passar esta visão ou explicá-la a outras pessoas, de uma forma sistemática. É claro que existem os assim chamados "Manuais de Treinamento" : BUDO e BUDO RENSHU. Acredita-se que o primeiro foi escrito pelo próprio O-Sensei e que ele teria aprovado a redação do último. No entanto, a) Eles só foram dados a poucos estudantes, provavelmente após testes não conhecidos de virtude marcial e nunca foram disponibilizados a todos e b) as explicações ali contidas seriam incompreensíveis para quem não tivesse um profundo conhecimento da cultura japonêsa (particularmente quanto ao conteúdo e o significado das coleções de mitos japonêses contidos no KOJIKI e no NIHON SHOKI) ou que já não dominassem as várias técnicas praticadas por O-Sensei naquela época. Mesmo assim, muitos dos alunos diretos de O-Sensei confessaram haver compreendido praticamente nada das explicações mais esotéricas quanto às "leis inalteráveis do Universo", etc...Estes estudantes treinaram continuamente sob a direção de O-Sensei e seguramente teriam as melhores condições de absorver tais conhecimentos. Aparentemente, isto não ocorreu. Com base nos registros existentes e em suas próprias palavras, O-Sensei teve experiências que podemos chamar de místicas, que representaram um papel central na criação da sua arte. O misticismo é um elemento altamente respeitado na tradição religiosa ocidental e não se restringe ao Cristianismo, com sua formação intelectual ocidental. Grandes místicos como Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz foram, como O-Sensei, também grandes reformistas nas suas áreas de atividades escolhidas. Ao contrário de O-Sensei, ambos deixaram relatos copiosos das suas experiências místicas, embora estes relatos não nos ajudem a compreender melhor as suas experiências, nem representem, de forma alguma, um meio que permita a reprodução destas experiências em nós mesmos. O-Sensei compôs alguns poemas que são incompreensíveis para a maioria dos praticantes de Aikido. Mas talvez não tenhamos o direito de exigir que O-Sensei nos relate essas experiências através de palavras que possamos entender? O que precisa ser enfatizado é que O-Sensei não tinha apenas uma visão do Divino, digamos, em duas dimensões. A sua visão tinha a praticidade de combinar poderes extraordinários da percepção do Real, com uma série de rituais, através dos quais ele se colocava em união com o Divino.

Ele atraiu um certo número de discípulos e é importante também lembrar que estes discípulos eram também, de alguma forma, especiais. Eles buscavam algo e achavam que O-Sensei poderia lhes dar o que eles estavam procurando, uma situação nada semelhante de uma sala de aula normal ou mesmo de um dojo normal. Recentemente, eu conversei com um destes discípulos, que se juntou a O-Sensei, logo após o fim da Guerra. Segundo ele, O-Sensei simplesmente mostrava as técnicas contra uma variedade de ataques e então dava as suas explicações longas e esotéricas. Os nomes das técnicas que conhecemos hoje foram inventados por seus próprios discípulos, em um esforço de memorizar o que estavam fazendo e não pelo próprio O-Sensei. Os seus alunos lutavam por entender um maravilhoso sistema físico e espiritual, composto de elementos de Daito Ryu, esgrima e pré-história japonêsa, conforme interpretada pela seita Omoto, que O-Sensei teceu em algo flexível, criativo, mutável e extremamente difícil de descrever, por assim dizer. O eminente Aikidoka com quem conversei estava convencido de que, tanto o Aikido, como a forma atual como ele é apresentado, mudaram muito desde a época de O-Sensei e que mudaria mais ainda após a sua morte. Ele é uma das poucas pessoas ainda vivas que estudou, por muito tempo, com O-Sensei e esta situação não pode mais se repetir. Isto não é causa para mágoas, mas algo que tem que ser aceito como algo inevitável e que não deve nos impedir de olhar para a frente com entusiasmo.

DO CAOS PARA A ORDEM

É a minha crença pessoal que o Aikido mudou radicalmente, mesmo durante a vida de O-Sensei. Creio que o principal arquiteto desta mudança foi o Segundo Doshu, Kisshomaru Ueshiba, embora outras pessoas estivessem envolvidas, como Koichi Tohei. Creio ainda que tais mudanças se refletem em minha própria experiência de Aikido.
Quando eu me iniciei no Aikido, na Inglaterra, o meu professor se preocupava em apresentar a arte da forma mais pura possível e tentou nos ensinar virtualmente sem explicações. Tinhamos um "curso relâmpago" em japonês de Aikido e ele esperava que nos lembrássemos de todos aqueles termos e que imitássemos os seus movimentos suaves, fortes e incrívelmente fluidos. Ele costumava nos dizer coisas como "Kokyunage é como as ondas do mar" (Imaginem eu me comportando como uma onda) ou "Peter, você deve se tornar um gato" ( é melhor nem pensar nisto...). Sendo alguém que acredita que o arquétipo da comunicação é a troca verbal, seguindo a lógica ocidental, isto destruia a minha alma. Lutei com esta situação até que, por acidente, encontrei 3 livros.

Encontrei três livros por acidente. Um deles, cujo título esqueci, havia sido escrito por Koichi Tohei e apresentava uma relação, passo-a-passo, das técnicas básicas, junto com explicações sobre o potencial do Ki, que me pareceram extraordinárias (provavelmente, como muitas gerações de estudantes de Aikido, eu costumava praticar o "braço impossível de dobrar" de Tohei Sensei nos meus infelizes companheiros de faculdade. O segundo livro se chamava simplesmente AIKIDO. Era escrito por Kisshomaru Ueshiba e apresentava, aproximadamente, as mesmas técnicas e exercícios de Tohei Sensei, mas com uma ênfase menor nos exercícios de Ki. O terceiro livro foi ainda mais útil. Era AIKIDO E A ESFERA DINÂMICA, escrito por Westbrook e Ratti e, além dos maravilhosos desenhos, cheios de linhas e flechas, continha um diagrama que mostrava todas as técnicas básicas e ataques, incorporados em um sistema. Isto para mim foi uma revelação. Haviam algumas falhas, é claro (alguns aikidoka devem ter percebido que a dualidade de Omote/ Ura é, muitas vezes, difícil de duplicar em certas técnicas de Aikido e eu, por exemplo, nunca pratiquei Hanmi Handachi Shihonage Ura, até vir para o Japão). Ainda assim, o diagrama de Westbrook e Ratti traçou as linhas gerais de um sistema defensivo muito abrangente.
Um outro livro seminal que eu encontrei foi o primeiro volume de TRADITIONAL AIKIDO, de Morihiro Saito. Eu encontrei o livro, pela primeira vez, quando eu era um estudante nos Estados Unidos. Havia um nota no dojo informando sobre um seminário de verão em um outro país, onde o livro seria usado como texto de orientação. Era orientado aos participantes levarem bokken e jo. O meu próprio professor, naquela época, era contra o uso de livros no ensino, com base em que (o que era razoável) ele era um modelo muito melhor que explicações e uma sequência de fotografias. Além das aulas de Iaido, que eram separadas das aulas de Aikido, havia pouca prática de armas no dojo. E, contudo, ali estava um livro, escrito por um dos discípulos mais íntimos de O-Sensei, apresentando uma explicação precisa de exercícios (kata) com o Bokken e o Jo, cujo autor afirmava ter aprendido diretamente com o Fundador. Com o livro de Saito Sensei, entrávamos em um mundo onde as técnicas desarmadas e as técnicas armas eram ensinadas juntas. A proposta de que o treinamento com armas podia melhorar a habilidade nas técnicas desarmadas era uma outra revelação.

Descobri posteriormente que a publicação do livro de Saito Sensei não era vista com muito entusiasmo em certos ambientes do Aikido. O-Sensei, aparentemente, raramente treinava com armas no Hombu Dojo em Tóquio e, na verdade, desencorajava os estudantes de praticarem com armas, achando que eles poderiam aprender maus hábitos.

O-Sensei jamais ensinou o kata de 13 movimentos ou o de 31 movimentos com o jo e ensiná-los como algo aprendido diretamente do Fundador era algo tendencioso, para dizer o mínimo. Eram estes os argumentos, quando o primeiro volume foi publicado. Por outro lado, muitos dos outros discípulos diretos de O-Sensei calmamente desenvolviam os seus próprios kata com o Jo e o Bokken e continuavam a praticá-los, sempre que surgiam oportunidades. Participei, uma vez, de um seminário na Europa, onde a prática vespertina invariavelmente consistia de treinamento com armas. Pratiquei muitos kata completamente desconhecidos. Respondendo a minha dúvida, o Sensei me disse que ele praticava aqueles kata apenas em seu próprio dojo e nunca no Hombu Dojo. Na minha opinião, a iniciativa de Saito Sensei e a sua coragem em impor as suas cores no mastro conquistaram as barreiras do tempo.

Não quero entrar na questão de se o treinamento com armas é necessário no Aikido. A resposta é óbvia para mim : É. O que me interessa salientar aqui é que 3 dos mais eminentes discípulos de O-Sensei sentiram a necessidade de escrever manuais de instrução sobre as técnicas básicas do Aikido e as suas iniciativas foram seguidas por outros. Todos os textos seguem o mesmo sistema básico ocidental. Há uma breve história da vida de O-Sensei e dos seus ensinamentos, algumas vezes acrescida de exemplos das suas frases mais esotéricas. Seguem explicações ilustradas dos exercícios básicos de alongamento e das técnicas básicas, geralmente começando pelo Ikkyo e concluindo com imagens de ataques múltiplos. Um destes livros é até mesmo chamado de AIKIDO COMPLETO, o que não corresponde à realidade e acredito que o próprio autor concordaria comigo. Saito Sensei, é claro, continuou a escrever diversos volumes da sua série sobre o AIKIDO TRADICIONAL e produziu muitos outros manuais, hoje complementados por vídeos. O seu exemplo, novamente, foi seguido por outros aikidoka graduados e hoje existem vídeos devotados, até mesmo, a aspectos específicos do treinamento, como o Ukemi ou as técnicas contra ataques de faca.

É claro que muitos destes livros foram escritos por instrutores japoneses que tinham como profissão ensinar Aikido a não-japoneses e é evidente que estes instrutores tentavam encontrar maneiras de tornar o Aikido atrativo para os ocidentais, a fim de se manterem. Mas dois pontos precisam ser ressaltados a este respeito :

1) Existem notáveis exceções à prática de erigir um monumento à própria experiência de Aikido, através de um livro ou de um vídeo. Alguns sensei eminentes de Aikido jamais sentiram a necessidade de fazer alguma coisa além de ensinar o Aikido do seu próprio modo através dos anos. Creio que, no Japão, tais sensei constituem a maioria.

(2) Os livros e vídeos não estão lá, apenas para ensinar a arte aos não-japoneses. AIKIDO, do falecido Doshu, foi a tradução de uma obra original japonêsa e tanto Kisshomaru Ueshiba, como o seu sucessor no Hombu Dojo, produziram muitos outros manuais, explicando o Aikido para os não-iniciados, dos quais a maioria não foi traduzida para outras línguas. Talvez seja um exagero dizer que o método de apresentação destes manuais é praticamente ocidental, mas há muita diferença entre estes manuais e outras obras, circuladas privativamente como BUDO e BUDO RENSHU. Os textos mais modernos parecem responder a uma necessidade aparente de apresentar o Aikido de uma forma estruturada, com explicações de acordo com determinados princípios e esta necessidade já era sentida nos tempos de O-Sensei.

DA ORDEM PARA O SISTEMA

A publicação de uma torrente de textos e vídeos não é a única forma pela qual o Aikido se ocidentalizou. Eu fiz menção antes aos volumes produzidos por Morihiro Saito e eles representam uma estrutura organizacional bem definida, combinando armas e técnicas desarmadas em um todo coerente. Não é muito claro no sistema de Saito Sensei por onde começar, uma vez que todos os elementos da estrutura tem igual importância. Há, contudo, uma certa facilidade em começar, ao contrário de outros sensei que criaram sistemas altamente sofisticados de Aikido, que são muito difíceis para os iniciantes, embora altamente estimulantes para praticantes mais avançados. Existem ainda outros sensei, alguns dos quais escreveram manuais e outros não, que criaram os seus próprios sistemas e que exigem dos estudantes que comecem por um certo ponto, a fim de - muitos anos depois - emergirem como exímios aikidoka nestes sistemas. Os estudantes precisam, por assim dizer, "começar do começo" , eis que de outra forma, as percepções necessárias para alcançar o próximo nível não seriam adquiridas. Creio que esta é a forma mais extrema de adaptar o Aikido às exigências da lógica ocidental e não é surpresa para mim que todos os sensei neste caso tiveram que enfrentar o problema de lidarem com estudantes educados à moda ocidental.

Não quero dizer que criar um sistema altamente sofisticado de treinamento em Aikido seja algo errado. Me parece, contudo, que algumas questões válidas podem ser formuladas sobre como praticar com aqueles que não foram expostos ao sistema. Observei este problema muitas vezes em seminários internacionais. O Sensei demonstra uma técnica e a maioria dos estudantes tenta executá-la mais ou menos como ela foi demonstrada.

Muitos, contudo, executam as suas próprias variações, de acordo com os seus próprios sistemas e às vezes me parece que eles nem percebem que o que estão fazendo é bem diferente do que aquilo que o Sensei demonstrou. Vi isto muitas vezes em sessões de treinamento dirigidas pelo Doshu, tanto o atual, como o seu predecessor. Na minha opinião, o atual Doshu ensina uma versão muito minimalista do "Aikido Clássico do Hombu"!, que é ráido e suave, despido de "enfeites" desnecessários, muito efetivo, mas pouco imitado. Quanto às técnicas, os melhores exemplos deste fenômeno são representados por técnicas relativamente simples como o Iriminage ou o Kotegaeshi (especialmente quanto às mãos e os pés) ou o ataque shomenuchi. Alguns Sensei insistem que, em Shomenuchi Ikkyo, Tori inicia o ataque com Shomenuchi e executa a técnica no braço que Uke levanta para se defender; outros - a maioria - asseveram que o Uke deve atacar energicamente e que o Tori deve esperar o seu ataque. Escutei as justificativas em ambos os casos e me parece óbvio que ambos são possíveis. Mas um dos problemas de aprender um sistema de aikido estruturado é que ele não encoraja a aceitação de outros sistemas, igualmente válidos, de executar as técnicas.

CONCLUSÕES…

A minha proposta é que O-Sensei não ensinava Aikido, de nenhuma forma reconhecida. Ele permitia que algumas pessoas selecionadas observassem vislumbres da sua arte, como um meio de encontro pessoal com o Divino e encorajava estas pessoas a desenvolverem os seus próprios Aikido. Eles faziam isto e enfrentavam a responsabilidade de passar adiante o que haviam aprendido a outras pessoas que não haviam tido contato com O-Sensei. Muitos destes novos alunos tiveram que enfrentar o problema de ensinar Aikido a não-japoneses, que jamais se dedicariam a ele como a mesma intensidade dos seus professores. Claro que eles gostariam de apresentar o Aikido da maneira mais autêntica possível, mas também de uma forma compreensível para os seus estudantes. Alguns destes Sensei decidiram que a prática era tudo : a repetição constante das técnicas até que elas se tornassem uma segunda natureza. Outros decidiram complementar a dieta rígida do treinamento com um pouco de ensinamento : uma apresentação das técnicas, estruturada logicamente e organizada em um sistema, com diversos níveis exigidos de sofisticação e de dedicação.

O desenvolvimento de normas objetivas nos sistemas de ensino do Aikido, complementada por livros e vídeos, é algo desejável. As atividades mais periféricas, tais como os ukemi e os exercícios de aquecimento, também podem ser submetidos a uma análise mais apurada. Um estudante com o qual treinei recentemente, um fisioterapeuta, está se dedicando à pesquisa das técnicas de aquecimento e solicitou a minha ajuda na condução de uma pesquisa sobre os tipos e os benefícios de tais exercícios. Acredito que tais pesquisas são muito necessárias. Concluindo, gostaria de sugerir que o Aikido ainda é, basicamente, uma atividade solitária e que o estudante é, em última análise, o principal árbitro do seu próprio progresso. Os Sensei estão lá para apresentar as possibilidades e permitir-lhes a chance de enfrentarem estas possibilidades. Como o título Shihan implica, eles não ensinam : Eles se limitam a apontar o Caminho.

(NOTA : As opiniões contidas neste artigo são as opiniões pessoais do autor e não devem ser entendidas, de forma alguma, como a visão ou a política da Federação Internacional de Aikido (IAF), da qual o autor é, no momento, um dirigente).




 

 

 

 

 

 


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