ARTIGOS E ENTREVISTAS

Uma Odisséia do Aikido.
por Toni Anderson


Eu quero chamar a atenção das pessoas para ouvirem a voz do Aikidô. Aikidô não é para corrigir os outros: é para corrigir sua própria mente.
O-Sensei.

Eu lutei com tensão contra minhas lágrimas quando tentei obedecer a meu sensei, a meu professor.

"Maior. Faça os passos maiores."

Ele era paciente e encorajador. Eu sentia uma certeza de que ele estava me preparando para alguma crueldade desconhecida.

Passo, virar, e passo voltar: o Aikidô resume-se em dois passos. Era o meu primeiro dia de treino, e ele me pediu para fazer movimentos largos que cobrissem todo o espaço do tatame. Ele não percebia que eu já era grande demais? Tomar conta de mais espaço significava ser maior ainda. Estava ele zombando de mim?

"Vamos lá, você pode faze-lo. Deixe se levar. Assim."

Lá estava ele, com graciosidade girando pelo tatame, com desenvoltura, virando-se com os dois passos e então voltando. De novo e de novo. Seus passos o carregavam pelo tatame. Ele não parecia estar zombando de mim, apenas mostrando-me como faze-lo.

"Tente novamente," ele disse, sem enxergar os meus esforços.

Eu vivi 30 anos experimentando erradamente meu tamanho e tomando passos maiores. Eles eram ligeiramente menores que meu andar, mas eles pareciam arrogantes para mim.

"Sim! Bom! Maior agora!"

Maior agora? Eu olhei para ele, surpreso. Maior agora? O que no mundo estava ele pensando? Por que ele queria me machucar, zombar de mim? Nós dois sabíamos que eu já era grande demais. Maior agora? O olhar de encorajamento no rosto de meu sensei nunca mudava. Eu procurei por zomba, mas tudo que eu via era encorajamento.

Para minha grande consternação, ele não iria desistir de mim. Para o inferno com isso. Eu abri meus movimentos e exagerei nos meus passos, sabendo que eu estava longe dos meus limites e que eu estava me ridicularizando. Eu queria acabar com essa tortura. Eu iria mostra-lo o maior, se era isso que ele queria! Eu estava dando passos largos, desajeitados, mas mantendo meu andar grande. Eu não me importava mais!

"Assim está melhor! Continue!"

O que ele disse? O Aikidô encoraja isto? Minha determinação violenta drenou para fora de mim. Pela primeira vez após anos, eu me senti fraco e incerto da realidade. Lágrimas silenciosamente surgiram e correram no meu rosto, eu me movi em passos ainda maiores. Estava tudo bem? Eu podia usar mais espaço?

Eu não pedi por afirmação quando eu escolhi o Aikidô. Eu não conseguia entender como deixar minhas defesas de lado poderia ter algo haver com aprender uma arte marcial. Mas eu fervorosamente esperava que isso ocorresse, quando me movi com liberdade aquele primeiro dia.

As aulas eram fascinantes mas duras, e eu resisti a elas. Palavras estranhas e novas entraram no meu vocabulário - palavras como "centro" e "base" que apontavam para um mundo que eu não podia agarrar intelectualmente mas podia sentir durante movimentos fugazes no meu treino.

O demônio dentro de mim inibia os movimentos que pareciam tão fáceis. A tensão que eu sentia em lidar com a vida foi diretamente sentida pelos meus parceiros de treino, que endureciam quando eu puxava e usava a força. Eu não conseguia entender por que eles não caíam.

"Concentre-se, relaxe. Você está em suas próprias mãos."

O enrijecimento dos meus ombros constantemente me surpreendia e o fato de eu me importar com isso me surpreendia ainda mais. Determinado a aprender que concentrar-se e relaxar realmente funcionava, eu iria esquecer meus ombros e me concentrar em apenas um ponto no qual eu não acreditava - um ponto que meu sensei dizia estar localizado apenas abaixo do meu umbigo. E então eu iria me sentir equilibrado.

Frustrado mas resignado a verdade do que eu sentia, eu iria tentar novamente, mais centrado. Eu não me importava aonde eu tinha errado. Se meu sensei estivesse errado, minha visão de vida estaria certa e eu podia partir. Mas eu nunca iria usar esta desculpa. Ele sempre esteve certo.

Eu obtive sucesso quando parei de tentar fazer as coisas acontecerem. Os lances funcionaram quando menos eu esperava que eles fossem funcionar, e eu não os senti da maneira que eu esperava que deveria senti-los. Não havia sensação de vitória triunfante, nenhuma sensação de que eu havia feito algo. Quando eu recebi o lance, de qualquer forma, eu não era capaz de lidar com o seu poder. Mais coisas aconteciam durante o treino do que eu podia imaginar.

Eu me vi experimentando os princípios do Aikidô fora do tatame. Eu tentei mudar com harmonia minha vida - alerta, concentrado, relaxado e fluído. Eu até desisti de tentar fazer o mundo obedecer a minha própria vontade. A vida se tornou mais fácil.

Até certo ponto, a harmonia que estava crescendo dentro de mim começou a se mostrar nas minhas técnicas de Aikidô, e o lance se tornou poderoso. Quando eu estava calmo e sem pensar, eu podia mover em harmonia com os movimentos de ataque dos meus parceiros, não considerando ele ou ela como um alvo, estendendo a energia em um lance ou imobilizando o adversário, e tornando uma situação potencialmente perigosa inofensiva.

Eu fui freqüentemente o agressor na vida - sem equilíbrio, tenso, tentando fazer os outros se conformarem com o meu modo de fazer as coisas para que assim eu me sentisse seguro. Mas, gradualmente, eu comecei a enxergar outra opção. Eu comecei a ver o conflito como um sinal para ser centralizado, atento e cuidadoso, em contato comigo mesmo e com a situação. Eu comecei a procurar por maneiras para resolver os problemas de modo que todos iriam ganhar e se beneficiar. Meu treinamento se tornou mais profundo, dia após dia. Eu comecei a me divertir em vez de estar constantemente assustado.

Agora eu ensino Aikidô tão bem como eu o treino. Eu consigo o lance, imobilizar o adversário e voar através do ar com uma facilidade agradável.

Eu ajudei muitos alunos bons a passar nas graduações. Mas há um lugar especial no meu coração para os alunos iniciantes inseguros, teimosos e resistentes, mas determinados. Depois do aquecimento nós começamos com os dois passos...

Traduzido por Simone-Corinn Czech Instituto Takemussu Agatsu Dojo - São Paulo.




 

 

 

 

 

 

 

 

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