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Eu quero chamar a atenção das pessoas para ouvirem a voz
do Aikidô. Aikidô não é para corrigir os outros: é para
corrigir sua própria mente.
O-Sensei.
Eu lutei
com tensão contra minhas lágrimas quando tentei obedecer
a meu sensei, a meu professor.
"Maior.
Faça os passos maiores."
Ele
era paciente e encorajador. Eu sentia uma certeza de que
ele estava me preparando para alguma crueldade desconhecida.
Passo,
virar, e passo voltar: o Aikidô resume-se em dois passos.
Era o meu primeiro dia de treino, e ele me pediu para fazer
movimentos largos que cobrissem todo o espaço do tatame.
Ele não percebia que eu já era grande demais? Tomar conta
de mais espaço significava ser maior ainda. Estava ele zombando
de mim?
"Vamos
lá, você pode faze-lo. Deixe se levar. Assim."
Lá estava
ele, com graciosidade girando pelo tatame, com desenvoltura,
virando-se com os dois passos e então voltando. De novo
e de novo. Seus passos o carregavam pelo tatame. Ele não
parecia estar zombando de mim, apenas mostrando-me como
faze-lo.
"Tente
novamente," ele disse, sem enxergar os meus esforços.
Eu vivi
30 anos experimentando erradamente meu tamanho e tomando
passos maiores. Eles eram ligeiramente menores que meu andar,
mas eles pareciam arrogantes para mim.
"Sim!
Bom! Maior agora!"
Maior
agora? Eu olhei para ele, surpreso. Maior agora? O que no
mundo estava ele pensando? Por que ele queria me machucar,
zombar de mim? Nós dois sabíamos que eu já era grande demais.
Maior agora? O olhar de encorajamento no rosto de meu sensei
nunca mudava. Eu procurei por zomba, mas tudo que eu via
era encorajamento.
Para
minha grande consternação, ele não iria desistir de mim.
Para o inferno com isso. Eu abri meus movimentos e exagerei
nos meus passos, sabendo que eu estava longe dos meus limites
e que eu estava me ridicularizando. Eu queria acabar com
essa tortura. Eu iria mostra-lo o maior, se era isso que
ele queria! Eu estava dando passos largos, desajeitados,
mas mantendo meu andar grande. Eu não me importava mais!
"Assim
está melhor! Continue!"
O que
ele disse? O Aikidô encoraja isto? Minha determinação violenta
drenou para fora de mim. Pela primeira vez após anos, eu
me senti fraco e incerto da realidade. Lágrimas silenciosamente
surgiram e correram no meu rosto, eu me movi em passos ainda
maiores. Estava tudo bem? Eu podia usar mais espaço?
Eu não
pedi por afirmação quando eu escolhi o Aikidô. Eu não conseguia
entender como deixar minhas defesas de lado poderia ter
algo haver com aprender uma arte marcial. Mas eu fervorosamente
esperava que isso ocorresse, quando me movi com liberdade
aquele primeiro dia.
As
aulas eram fascinantes mas duras, e eu resisti a elas. Palavras
estranhas e novas entraram no meu vocabulário - palavras
como "centro" e "base" que apontavam para um mundo que eu
não podia agarrar intelectualmente mas podia sentir durante
movimentos fugazes no meu treino.
O demônio
dentro de mim inibia os movimentos que pareciam tão fáceis.
A tensão que eu sentia em lidar com a vida foi diretamente
sentida pelos meus parceiros de treino, que endureciam quando
eu puxava e usava a força. Eu não conseguia entender por
que eles não caíam.
"Concentre-se,
relaxe. Você está em suas próprias mãos."
O enrijecimento
dos meus ombros constantemente me surpreendia e o fato de
eu me importar com isso me surpreendia ainda mais. Determinado
a aprender que concentrar-se e relaxar realmente funcionava,
eu iria esquecer meus ombros e me concentrar em apenas um
ponto no qual eu não acreditava - um ponto que meu sensei
dizia estar localizado apenas abaixo do meu umbigo. E então
eu iria me sentir equilibrado.
Frustrado
mas resignado a verdade do que eu sentia, eu iria tentar
novamente, mais centrado. Eu não me importava aonde eu tinha
errado. Se meu sensei estivesse errado, minha visão de vida
estaria certa e eu podia partir. Mas eu nunca iria usar
esta desculpa. Ele sempre esteve certo.
Eu obtive
sucesso quando parei de tentar fazer as coisas acontecerem.
Os lances funcionaram quando menos eu esperava que eles
fossem funcionar, e eu não os senti da maneira que eu esperava
que deveria senti-los. Não havia sensação de vitória triunfante,
nenhuma sensação de que eu havia feito algo. Quando eu recebi
o lance, de qualquer forma, eu não era capaz de lidar com
o seu poder. Mais coisas aconteciam durante o treino do
que eu podia imaginar.
Eu me
vi experimentando os princípios do Aikidô fora do tatame.
Eu tentei mudar com harmonia minha vida - alerta, concentrado,
relaxado e fluído. Eu até desisti de tentar fazer o mundo
obedecer a minha própria vontade. A vida se tornou mais
fácil.
Até
certo ponto, a harmonia que estava crescendo dentro de mim
começou a se mostrar nas minhas técnicas de Aikidô, e o
lance se tornou poderoso. Quando eu estava calmo e sem pensar,
eu podia mover em harmonia com os movimentos de ataque dos
meus parceiros, não considerando ele ou ela como um alvo,
estendendo a energia em um lance ou imobilizando o adversário,
e tornando uma situação potencialmente perigosa inofensiva.
Eu fui
freqüentemente o agressor na vida - sem equilíbrio, tenso,
tentando fazer os outros se conformarem com o meu modo de
fazer as coisas para que assim eu me sentisse seguro. Mas,
gradualmente, eu comecei a enxergar outra opção. Eu comecei
a ver o conflito como um sinal para ser centralizado, atento
e cuidadoso, em contato comigo mesmo e com a situação. Eu
comecei a procurar por maneiras para resolver os problemas
de modo que todos iriam ganhar e se beneficiar. Meu treinamento
se tornou mais profundo, dia após dia. Eu comecei a me divertir
em vez de estar constantemente assustado.
Agora
eu ensino Aikidô tão bem como eu o treino. Eu consigo o
lance, imobilizar o adversário e voar através do ar com
uma facilidade agradável.
Eu ajudei
muitos alunos bons a passar nas graduações. Mas há um lugar
especial no meu coração para os alunos iniciantes inseguros,
teimosos e resistentes, mas determinados. Depois do aquecimento
nós começamos com os dois passos...
Traduzido
por Simone-Corinn Czech Instituto Takemussu Agatsu Dojo
- São Paulo.
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