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Em
1971, uma excelente competidora americana faixa preta de
caratê descobriu esta realidade de uma maneira muito
cruel quando foi brutalmente estuprada e espancada. Ela
nunca havia proferido um soco com a intenção
de machucar e nunca havia lutado no solo, onde ela rapidamente
foi parar quando foi atacada. Seu instrutor achou que seu
fracasso sujou o nome de do dojo bem como todos os ensinamentos.
Felizmente, um colega de dojo, que não concordava
com o instrutor, reconheceu que a falha havia sido da academia
e do professor, que nunca ensinou à moça como
combater os ataques que uma mulher pode ter que enfrentar.
Determinado
a suprir a necessidade de um sistema desenvolvido especificamente
para proteger as mulheres de um estupro, Thomas iniciou
uma extensa pesquisa, examinando arquivos policiais de mais
de 2000 casos de estupro. Baseando-se nos resultados de
suas pesquisas, ele elaborou um sistema com foco especial
em combates de solo e golpes de nocaute imediato e decidiu
ensiná-lo a um grupo de mulheres.
Ao
final do curso, ele vestiu equipamentos de proteção
e simulou assaltos para cada uma de suas alunas, encorajando-as
a usar as técnicas aprendidas para escapar aos seus
ataques. Como nenhuma delas conseguiu se defender com êxito,
Thomas voltou-se à sua prancheta e modificou as técnicas
e os métodos de ensinamento, que deram origem ao
Model Mugging (Assalto Modelo).
Em
1983, ele juntou-se a Danielle Evans, uma sandan em aikido
[ex-aluna do editor chefe do Aiki News, Stan Pranin e Julio
Toribio, um perito em artes marciais com mais de 20 anos
de experiência, os quais ajudaram a refinar a metodologia
de ensino, filosofia, treinamento de instrutores e acabaram
criando a "roupa de assalto".
Este
traje, uma armadura com quase 18 quiilos de material acolchoado,
é o que distingüe o Model Mugging de todo o
resto. As mulheres não aprendem somente técnicas
e golpes para escapar do ataque e imobilizar o agressor.
Elas recebem ajuda em superar as barreiras psicológicas
que geralmente inibem as mulheres a lutarem em caso de ataque.
Mas o mais importante é que elas praticam o que aprenderam
contra "modelos de assaltantes" vestidos com esta
armadura acolchoada. O editor do AIKI NEWS, Ikuko Kimura,
e eu tivemos a chance de conversar com o "assaltante"
Julio Toribio em Tokio, Outubro passado. Ele explicou que
o Model Mugging usa a seu favor os mesmos princípios
que freqüentemente aterrorizam as mulheres quando atacadas,
ou seja, "O modo como você treina é o
mesmo modo como você irá reagir se você
precisar algum dia. Eu tenho reparado isso tanto com minhas
alunas, quanto comigo mesmo. Se estou treinando artes marciais
de um certo jeito e sou atacado de maneira totalmente diferente,
eu conseqüentemente irei reagir utilizando a maneira
como tenho treinado a arte marcial e, provavelmente, não
conseguirei lidar com esta situação. O que
leva a crer que você tende a reagir da mesma maneira
que treina a arte marcial. Sendo assim, treinamos as mulheres
freqüentemente contra o agressor que as estão
atacando. Ensinamos a lidar com as agressões com
bastante vigor e a vencê-lo, fortalecendo nelas este
sentimento de vitória".
Este
treinamento é feito durante um curso de 24 horas,
normalmente distribuídas em 5 sessões semanais
de 4 horas, acrescidas de diversos encontros sociais e a
conclusão do curso com graduação, onde
cada aluna tem que nocautear um "assaltante" com
êxito. O curso é ministrado por um professor
homem e uma professora mulher, onde a mulher ensina as técnicas
e o homem faz o papel de assaltante. A cada curso, participam
de 12 a 14 mulheres, das quais muitas já sofreram
algum tipo de agressão ou estupro. Elas estudam técnicas
físicas e psicológicas com o objetivo de encontrar
e utilizar sua força integral, tudo isso em uma ambiente
de bastante compreensão e cuidado. No entanto, os
instrutores precisam ser muito mais do que apenas professores
de artes marciais. Eles acabam tornando-se conselheiros
de mulheres que precisam enfrentar seus medos mais profundos.
A instrução técnica acontece em uma
série de cenários extraídos de casos
reais de estupro. Depois de aprender as técnicas,
elas aplicam imediatamente nas simulações.
No começo, o agressor ataca razoavelmente devagar
e sem tanta força, mas no exame de graduação
ele irá atacá-las, utilizando sua força
total. Quando um golpe, que fatalmente levaria a um nocaute
se o agressor não tivesse usando a roupa acolchoada,
entra em cheio e ele faz imediatamente um sinal de rendição
e a luta é então vencida pela aluna. Durante
o curso, os instrutores dão conselhos individuais
sobre seu desempenho, "Eu digo que ela não está
sendo eficaz. Você não está movendo
meu corpo. Isto é o que está acontecendo com
você. Você está me dando uma série
de espaços pelos quais posso lhe atacar", explica
Toribio.
Técnicas
Básicas
As
técnicas de solo são especialmente enfatizadas,
uma vez que a primeira ação de um possível
estuprador é, em muitas vezes, atirar a mulher no
chão. Esta é na verdade a melhor posição
para lutar por muitas outras razões também.
A maior parte da força da mulher vem da região
abaixo do quadril e ao lutar no solo, a mulher pode utilizar
suas pernas, usando esta força a seu favor. As mulheres
aprendem a girar para frente e para trás para manter
suas pernas afastando o corpo do agressor e para esperar
o melhor momento para chutá-lo na cabeça.
Também
são ensinadas técnicas aplicadas em pé
e golpes com os braços. Mas ao invés de ensiná-las
a socar com o punho fechado, como no caratê, os socos
são sempre proferidos com a mão aberta. Toribio
explica porque: "Porque existe a chance de quebrar
sua mão e porque existem mulheres que nunca fizeram
nada ou que nunca encostaram em ninguém. Tem que
fazer sempre algo assim [Toribio delicadamente dá
um tapa no ar]. Então esta é a primeira vez
que elas golpeiam. Usar as costas da mão é
mais seguro. Você pode aprender como bater em alguém
desta forma que além de segura, é bastante
poderosa. Para um soco de caratê, é preciso
treino e isso leva tempo. Quando eu soco alguém desta
forma e não sei direito como alinhar meu punho com
o meu corpo e meu centro, provavelmente quebrarei meu pulso.
Mas quando você ensina alguém como usar a mão
aberta, é como BAMMM! Você reage automaticamente
e de forma natural. É por isso que ensinamos as mulheres
a tapear com a mão aberta".
Mas
todas as técnicas do mundo, mesmo sendo simples e
tendo sido repetidas diversas vezes, não surtirão
nenhum efeito caso a mulher não consiga controlar
e canalizar o medo e a raiva que sente no momento em que
é atacada. O curso de Model Mugging aborda também
inúmeras ferramentas psicológicas. As alunas
são aconselhadas a ficar com o corpo firme e sempre
alerta para os espaços deixados, a gritar ou responder
verbalmente, a manter a calma e guardar suas energias para
que assim que o combate seja iniciado ela não perca
a força e pare antes que o oponente esteja completamente
rendido. A mulher precisa ter a segurança de que
pode utilizar estas técnicas de combate e de que
não irá titubear na hora, uma vez que ela
tem sido atacada e tem respondido em diversos cenários
nas aulas.
Toribio
descreve o que acontece. "Quando nós estamos
lutando, quando estamos criando a situação,
eu sempre utilizo o traje acolchoado. As mulheres sabem
que quando estou com o uniforme não posso falar como
Julio. Eu vou bancar aquele cara mal-encarado. Então,
a não ser que elas se machuquem; porque existe a
possibilidade de se machucar; elas têm que continuar
lutando. E se elas se machucarem, elas podem gritar o nome
da instrutora mulher. Este é o sinal pelo qual saberei
e então irei parar de atacar. Mas se elas gritarem
"Para!"" Para!", eu não irei
parar. Ou se eu disser "Pare, não me machuque!",
elas têm que continuar lutando, pois eu posso tentar
enganá-las ou dizer coisas para que elas parem de
lutar comigo. Houveram vezes em que as mulheres ficaram
realmente iradas e me deram um grande tapa na cara, e eu
digo "Por quê você fez isso? Por quê
você me machucou? Eu não vou te machucar".
Esta é apenas uma maneira para que eu (o assaltante)
me aproxime mais delas e as force a dizer "Oh, desculpe-me".
Esse não é o momento de pedir desculpas, pois
não existem regras quando se está lutando
ou se defendendo. Nenhuma regra. Vale qualquer coisa. Mas
elas estão condicionadas desta maneira. Então
se eu digo "Não, me desculpe" ou digo "Pare!"
Elas reagem a isso. Agressores da vida real sabem disso
e usam estes truques para pegar suas vítimas."
Casos
de Sucesso
A
carga de adrenalina que é liberada durante esse tipo
de treinamento proporciona uma reação condicionada
muito rápida, tanto física quanto mental,
que irá tomar conta da aluna toda vez que ela se
encontrar em uma situação de perigo. Uma aluna
graduada contou que quando um velho amigo aproximou-se dela
de repente com uma faca, "milhões de pensamentos
passaram sobre minha cabeça em apenas 5 segundos
aquele
escolhido como resposta foi atirar-me no chão!"
Linda
Secione escapou com sucesso de um agressor psicótico
com apenas alguns pequenos arranhões. Este tipo de
agressor é de longe o mais perigoso, pois freqüentemente
ele não sente nenhuma dor. Mas Linda soube o que
fazer: "Graças a Deus nós trabalhamos
com esse tipo de agressor nas aulas de Model Mugging. Eu
fui treinada para não desistir."
Sua
história de sucesso não é a única.
De acordo com as estatísticas do Model Mugging, apenas
36 de mais de 6 mil alunas declararam ter sido atacadas.
Duas decidiram não lutar e 34 lutaram e conseguiram
escapar, sendo que em um dos casos, a luta aconteceu 8 anos
após a aluna ter terminado o curso.
O
curso de Model Mugging não termina após a
graduação. São realizadas reuniões
periódicas e as graduadas matem contato através
do Model Mugging News. Existem também os cursos de
recapitulação de um dia, assim como cursos
rápidos enfatizando ataques com múltiplos
agressores e cursos avançados abordando a defesa
de ataques com armas. Uma das ferramentas mais importantes
nas aulas são as fitas de vídeo. "Nós
utilizamos as fitas para que as alunas possam ver a si próprias.
Nós filmamos a primeira aula e também a graduação.
O contraste entre o que você se parece no primeiro
dia e no último dia é incrível. Isso
realmente ajuda as mulheres a verem o quão bem elas
reagem fisicamente. Elas compram o vídeo, o assistem
em casa e dizem "É, essa sou eu!", e podem
assistir toda vez que precisarem de uma dose. Digamos que
você passe por uma situação difícil
e sai dela contente de estar por aí a fora. Daí
você assiste a fita e se sente muito bem. Ou se você
está indo a um lugar muito assustador. Digamos que
você está indo a uma entrevista de emprego,
ou dar uma palestra e você está assustada.
Você assiste a fita e recebe uma dose de força."
Mulheres
nas Artes Marciais
Então
o que acontece a uma mulher que pratica artes marciais quando
participam do curso? Toribio comenta, "É muito
interessante. Muitas alunas são faixas-pretas em
outras artes marciais como caratê, aikido, jiu-jitsu
ou judô. Elas descobrem que é tão diferente
que acabam se frustrando nas primeiras semanas de aula por
não conseguirem utilizar o que aprenderam em suas
artes marciais. Assim que elas aprendem as técnicas
básicas, uma vez que elas se soltam, elas conseguem
utilizar a força que adquiriram e aprenderam nas
artes marciais, e elas se tornam incrivelmente fortes. É
muito difícil para mim, como um agressor, lidar com
as praticantes em artes marciais depois que elas entendem
que devem se soltar e serem elas mesmas, que elas não
têm que confiar em nenhuma arte marcial."
"Eu
pessoalmente gosto de pessoas que já tenham estudado
aikido porque elas possuem aquela mente passiva e tentam
evitar o conflito o máximo possível, mas também
sabem que precisam proteger a si mesmas. Você precisa
ser real também. Isto é diferente de alguém
que estuda caratê ou artes marciais competitivas como
o judô, tentando ser sempre o número um, o
melhor de todos. Às vezes, elas entram no curso e
tentam na bater de verdade no cara e esquecem que estão
fazendo algo para elas mesmas e não para mostrar
para outras pessoas. Você sabe, você precisa
tirar a sua faixa e parar de pensar que é uma faixa-preta
e agir apenas como uma mulher e ver o que acontece."
De
acordo com Toribio, o curso ajuda mulheres com suas artes
marciais. "O que as mulheres têm dito é
que uma vez que elas participam do curso de Model Mugging
e aprendem estas maneiras básicas de se defender,
suas artes marciais começam a fazer muito mais sentido.
Elas confiantes de que conseguem se proteger com técnicas
básicas e por isso elas não precisam se apoiar
nas técnicas aprendidas previamente nas outras artes
marciais. Nas artes marciais, ficamos confusos porque existem
tantas maneiras de nos proteger que é impossível
manter tudo na cabeça. Mas o que o Model Mugging
tem feito é ter se concentrado em apenas algumas
técnicas bem básicas, apenas 2 ou 3 boas técnicas.
Nós o ensinamos a usá-las, treinando exaustivamente
até que elas façam parte de você."
O
Model Mugging é uma ferramenta utilizada para auxiliar
no combate do medo da violência que as mulheres precisam
enfrentar em seu dia-a-dia. Parece óbvio que, nesse
mundo onde o crime e a selvageria vêm aumentando,
todos nós precisamos tomar providências para
quebrar este ciclo de violência. Como diz Toribio,
"Nós precisamos começar em algum lugar
e na minha opinião o Model Mugging é um grande
lugar pra começar." Praticantes de artes marciais
têm a obrigação de ser os precursores
desta batalha; todo instrutor deve isso aos seus alunos
e alunas e toda praticante de artes marciais deve isso a
si mesma e a suas colegas. Todos devem considerar o papel
do Model Mugging como um instrumento para tornar o mundo
um lugar melhor para se viver.
PERFIL
DE JULIO TORIBIO
Julio
Toribio iniciou seus estudos de artes marciais em 1968,
aos 13 anos. Ele é 2º dan em caratê, 3º
em aikido e 5º dan em Hakko-ryu jujutsu. Toribio é
um dos criadores do Programa de Defesa Pessoal Model Mugging
e treinador de instrutores. Ele é também sócio
da Model Mugging of Monterey Chapter. Turibio tem concentrado
esforços no sentido de desenvolver métodos
de instrução eficazes para adultos, crianças
e deficientes físicos nas áreas de defesa
pessoal e crescimento pessoal.
Fonte
: Aiki News 84, Primavera 1990
Colaborou
para este artigo Lynn Varone.
Traduzido
para o português por Marcos Toledo- Instituto Takemussu
Dojo Central
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