|
Enquanto
dava uma carona para um grupo de estudantes em uma de minhas
viagens este verão, o assunto de lutas surgiu e eu comentei
que "Aikidoístas não lutam". Alguns de vocês podem estar
se perguntando, "Se isso não vai me ajudar a lutar, por
que estou treinando?" É uma pergunta justa. Vamos explorar
a resposta.
Mesmo
sendo o Aikido uma arte marcial, isso não a torna automaticamente
uma arte de luta. Nós somos uma arte de paz, não de luta.
Nosso objetivo é não lutar, e sim restaurar a paz onde ela
está ausente. Isto não se consegue batendo no nosso antagonista
até ele sangrar. Nossas técnicas são desenvolvidas almejando
a calma e não a tempestade. Nós trabalhamos para relacionamentos
harmoniosos e não contidos. Nós treinamos o relaxamento
ao invés da tensão. Nenhum comportamento nosso suporta o
conceito de luta.
O que
é lutar? Lutar é "Brigar contra em batalha ou combate físico"
(Britannica World Language Dictionary). No meu ponto de
vista, são necessárias duas ou mais pessoas para se ter
uma luta. Um antagonista pode tentar lutar conosco mas seus
esforços não surtem efeito pois sua perspectiva está errada.
Enquanto ele está lutando ou brigando contra nós, nós estamos
simplesmente tentando encontrar uma ação final para trazer
o indivíduo à harmonia conosco e com a natureza que nos
rodeia. Se nós escolhemos lutar, nós mudamos a nossa mentalidade
para uma que é inconsistente com a filosofia do Aikido,
e então deixamos de treinar Aikido.
Esse
"ajuste de atitude" é o que mais demora para a maioria de
nós que estudamos Aikido. As técnicas podem ser aprendidas
em um período relativamente curto, mas pode demorar anos
até que elas se tornem o mais eficazes possível, porque
aprender e internalizar o espírito do Aikido leva tempo.
Até conseguirmos isso, a maioria de nós está simplesmente
usando técnicas de Aikido para lutar com maior eficácia,
mas não estamos treinando o verdadeiro Aikido, como o fundador,
O Sensei, e o Mestre Tohei visualizaram.
Eto
Sensei, durante seus seminários na Virgínia e em Maryland,
reforçou a idéia de ausência de uma "mentalidade lutadora".
Quando ele aprendeu a jogar fora a "mentalidade lutadora",
ele foi capaz de realmente encontrar o poder do Aikido.
Devemos nós fazer menos em nossas vidas?
Se
você estuda Aikido para se tornar um melhor lutador, você
vai aprender algumas boas técnicas para te ajudar na sua
jornada, mas você nunca vai encontrar o verdadeiro caminho
do Aikido. Somente quando deixarmos de lado o objetivo de
nos tornarmos melhores lutadores e adotarmos o objetivo
de desenvolver uma mentalidade não-lutadora é que encontraremos
o verdadeiro caminho do Aikido e sua mensagem para o mundo.
Durante
o treino diário você vai encontrar este caminho procurando
o fluxo associado a uma técnica: Aonde está a energia do
oponente e como ela pode me ajudar a criar uma harmonia
de movimento? Como eu posso direcionar esta energia dentro
da técnica? Se eu entendi errado a energia ou se ela mudou,
como eu posso encontrar o caminho para conseguir um estado
de harmonia? Estas são as verdadeiras perguntas, e não o
quão rápido eu posso derrubar ou derrotar o oponente. Estas
últimas perguntas são de luta, enquanto as perguntas mais
complexas que levantamos antes são aquelas de alguém que
procura a verdade do Aikido. Tohei Sensei diz que não importa
quantas vezes nós dividimos, o número um nunca pode se tornar
o número zero. Isto é verdade, e me diz que não importa
o quão importante ou o quão insignificante eu me tornar,
eu nunca serei nada - e isso é confortante. Não importa
o quanto eu tentar, eu nunca serei perfeito e isso também
é bom, pois eu sei que a perfeição é, na melhor das hipóteses,
volúvel, constantemente sendo buscada e nunca sendo realmente
encontrada, mas eu posso chegar perto às vezes, e quando
eu chego, eu funciono maravilhosamente. Estes momentos devem
ser valorizados e buscados com grande entusiasmo. Como buscar
é a verdadeira pergunta.
Cada
um de nós tem Mestres que nos oferecem uma imagem da perfeição.
Eles são perfeitos? Na verdade, não, mas eles parecem oferecer
um caminho que nós nos vemos capazes de seguir, logo seguimos.
Alguns descobrem, mais tarde, que escolheram mal, e deixam
o caminho por opções mais atraentes. Outros sentem que escolheram
com sabedoria, e continuam a treinar com seu Mestre. Quem
está certo? Somente no final da jornada é que irão descobrir
se escolheram o trem correto, mas existem pistas e sinais
que dão uma dica. Mapas e tabelas nos ajudam em uma jornada
física, enquanto que na nossa jornada de Aikido nós podemos
ser auxiliados por livros, conversas com outros, seminários
que nos fazem abrir os olhos, e o nosso bom senso.
Traduzido
por Mariana Studart - Instituto Takemussu Dojo Central.
|