ARTIGOS E ENTREVISTAS

Masaka Agatsu Katsu Hayahi
por Suzan Perry




Passar algumas noites com neve em um chalé nas montanhas sem TV, telefone ou aparelho de som tem maravilhosos efeitos revigorantes - efeitos que nos alinham com a natureza.

Durante o dia, sua atenção está naturalmente voltada para o lado de fora. Quando o sol se levanta, a luz atravessa a janela, insistindo para que olhemos para fora, nos aquecendo e nos encorajando a apreciar a natureza. À noite, o sol se põe, desenhando uma sombra na paisagem montanhosa. A atenção se volta para o interior à medida que o frio nos instiga a procurar uma lareira acesa.

Nas montanhas, essa dicotomia Yin/Yang é inevitável. A vida tem dois aspectos completamente diferentes - exterior e interior - cada um com sua própria perspectiva. Quando estamos no exterior, nossos olhos focam vistas distantes e apreciam grandes extensões. Quando estamos no interior, o detalhe da nossa redondeza imediata e os desejos corporais (por comida, água, descanso) tomam a liderança.

No ambiente urbano, é difícil manter essas perspectivas. Muitos não têm uma vizinhança bonita que os convide a apreciá-la. Mesmo para aqueles que a têm, acham que há muita poluição ou perigo para estar lá fora. Então, passam o tempo do lado de dentro, dia e noite.

Obviamente, certas pessoas têm "interiores" muito agradáveis - casas com ótimos aparelhos de som, TVs gigantes, aparelho de DVD. Alguns ônibus e vans possuem equipamento semelhante, tal que os passageiros nem mesmo olham para fora quando estão indo de casa para outro lugar. Mas esta existência introspectiva tem seu preço. Nós tendemos a perder de vista O Grande Cenário, a perder nosso rumo, a derivar.



Onze de setembro nos tirou de nossa sonolência urbana. Para muitos foi um despertar - um evento que mudou suas vidas. Muitos dizem que tornaram suas vidas mais significativas por motivá-los a re-examinar suas escolhas. Alguns alunos do meu dojo me disseram que, por causa dos acontecimentos, eles decidiram fazer planos de longo prazo, voltar a estudar, e arrumar empregos naquilo que realmente queriam fazer. Outros se dedicaram a aumentar a carga de treinamento no dojo. É bom ver que tal acontecimento trágico pode ter feito algum bem ao impulsionar pessoas a direções valiosas.

Mas outras ainda estão paradas. Como disse Snow Leopard no Jord's Storage Unit Aikido, essas pessoas têm o grande, mas inatingível objetivo de se tornarem Musashi. Elas são atraídas a uma direção até que algo mais sedutor apareça, a atenção se desviando tão freqüentemente que nunca chegarão a lugar nenhum. Talvez porque suas escolhas não sejam profundas e verdadeiras. Se for o caso, não é de estranhar que derivem pelo caminho. Como podem as pessoas se comprometer com algo que não se importam?

Na Universidade onde lecionei filosofia por vários anos, a alta dispersão da sala podia ser atribuída à "mente do estudante", focada em sexo, drogas e álcool. A idéia era que estudantes, sendo jovens, naturalmente pensariam em primeiro satisfazer seus desejos. Nós todos esperávamos que, com a idade e educação, os estudantes desenvolvessem maturidade e descobrissem seus verdadeiros lugares na vida - vissem O Grande Cenário ao invés do Pequeno Cenário de seus desejos.
Ser capaz de ascender sobre um desejo egoísta é Agatsu, vitória sobre o ego. O-Sensei mostrava isso.



Uma maneira de transcender o ego é devotar-nos a serviço e proteção da natureza; pensar na vastidão da natureza nos força a ver "o grande cenário". Outros trabalhos podem fazer o mesmo de maneira diferente - trabalhos como curandeiro, oficiais de justiça, e outros.

Encontrar um chamado verdadeiro é importante. Algumas pessoas, apenas para pagar as contas, trabalham dia após dia, semana após semana, ano após ano, ou por causa do medo da pobreza ou por incrédula autodisciplina. Mas outros encontraram um propósito, um chamado, que surgiu de sua própria natureza: masaka.

Conseguir controlar a vida de tal modo a estar em um determinado lugar na hora e em um determinado dia, dia após dia, semana após semana, década após década, é uma habilidade. Aqueles que não conseguem manter esse tipo de compromisso não conseguem manter muito mais. Mesmo se atendo a uma coisa já é difícil. Não há dúvida que é por isso que artes marciais incluem em seu treinamento 100 repetições, 1000 golpes de espada, ou então o compromisso de treinar diariamente por um certo período de tempo. Apesar de soar simples, estes exercícios podem ser severo treinamento. Grosso modo, nos comprometem a completar uma tarefa para um propósito - e, quando conseguimos, vemos um vestígio da nossa força para transcender nossa infantilidade.



Como disse antes, a vida em um chalé nas montanhas nos oferece duas perspectivas: uma exterior, outra interior. A primeira corresponde a olhar nossas verdadeiras funções na vida - ver como nos encaixamos no Grande Cenário. A outra corresponde ao compromisso diário de alimentar nossas funções - a ver nossas ações estenderem nossos objetivos.

A frase "Masaka Agatsu Katsu Hayahi" foi importante para O-Sensei, que a usava como um tópico para caligrafia. Se Masaka é lido como "encontrar seu propósito verdadeiro", Agatsu como "vitória sobre o ego" e "Katsu haya hi" como "além das limitações de tempo e espaço" a frase nos instiga a combinar o Yin com o Yang - a ter a visão ampla e encontrar o nosso lugar, e então ter a visão estreita e nos comprometer a agir.

Traduzido por: João Vicente Sparano- Instituto Takemussu Dojo Central




 

 

 

 

 

 


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