|

Passar algumas noites com neve em um chalé nas montanhas
sem TV, telefone ou aparelho de som tem maravilhosos efeitos
revigorantes - efeitos que nos alinham com a natureza.
Durante o dia, sua atenção está naturalmente
voltada para o lado de fora. Quando o sol se levanta, a
luz atravessa a janela, insistindo para que olhemos para
fora, nos aquecendo e nos encorajando a apreciar a natureza.
À noite, o sol se põe, desenhando uma sombra
na paisagem montanhosa. A atenção se volta
para o interior à medida que o frio nos instiga a
procurar uma lareira acesa.
Nas montanhas, essa dicotomia Yin/Yang é inevitável.
A vida tem dois aspectos completamente diferentes - exterior
e interior - cada um com sua própria perspectiva.
Quando estamos no exterior, nossos olhos focam vistas distantes
e apreciam grandes extensões. Quando estamos no interior,
o detalhe da nossa redondeza imediata e os desejos corporais
(por comida, água, descanso) tomam a liderança.
No ambiente urbano, é difícil manter essas
perspectivas. Muitos não têm uma vizinhança
bonita que os convide a apreciá-la. Mesmo para aqueles
que a têm, acham que há muita poluição
ou perigo para estar lá fora. Então, passam
o tempo do lado de dentro, dia e noite.
Obviamente, certas pessoas têm "interiores"
muito agradáveis - casas com ótimos aparelhos
de som, TVs gigantes, aparelho de DVD. Alguns ônibus
e vans possuem equipamento semelhante, tal que os passageiros
nem mesmo olham para fora quando estão indo de casa
para outro lugar. Mas esta existência introspectiva
tem seu preço. Nós tendemos a perder de vista
O Grande Cenário, a perder nosso rumo, a derivar.
Onze de setembro nos tirou de nossa sonolência urbana.
Para muitos foi um despertar - um evento que mudou suas
vidas. Muitos dizem que tornaram suas vidas mais significativas
por motivá-los a re-examinar suas escolhas. Alguns
alunos do meu dojo me disseram que, por causa dos acontecimentos,
eles decidiram fazer planos de longo prazo, voltar a estudar,
e arrumar empregos naquilo que realmente queriam fazer.
Outros se dedicaram a aumentar a carga de treinamento no
dojo. É bom ver que tal acontecimento trágico
pode ter feito algum bem ao impulsionar pessoas a direções
valiosas.
Mas outras ainda estão paradas. Como disse Snow Leopard
no Jord's Storage Unit Aikido, essas pessoas têm o
grande, mas inatingível objetivo de se tornarem Musashi.
Elas são atraídas a uma direção
até que algo mais sedutor apareça, a atenção
se desviando tão freqüentemente que nunca chegarão
a lugar nenhum. Talvez porque suas escolhas não sejam
profundas e verdadeiras. Se for o caso, não é
de estranhar que derivem pelo caminho. Como podem as pessoas
se comprometer com algo que não se importam?
Na
Universidade onde lecionei filosofia por vários anos,
a alta dispersão da sala podia ser atribuída
à "mente do estudante", focada em sexo,
drogas e álcool. A idéia era que estudantes,
sendo jovens, naturalmente pensariam em primeiro satisfazer
seus desejos. Nós todos esperávamos que, com
a idade e educação, os estudantes desenvolvessem
maturidade e descobrissem seus verdadeiros lugares na vida
- vissem O Grande Cenário ao invés do Pequeno
Cenário de seus desejos.
Ser capaz de ascender sobre um desejo egoísta é
Agatsu, vitória sobre o ego. O-Sensei mostrava isso.
Uma maneira de transcender o ego é devotar-nos a
serviço e proteção da natureza; pensar
na vastidão da natureza nos força a ver "o
grande cenário". Outros trabalhos podem fazer
o mesmo de maneira diferente - trabalhos como curandeiro,
oficiais de justiça, e outros.
Encontrar um chamado verdadeiro é importante. Algumas
pessoas, apenas para pagar as contas, trabalham dia após
dia, semana após semana, ano após ano, ou
por causa do medo da pobreza ou por incrédula autodisciplina.
Mas outros encontraram um propósito, um chamado,
que surgiu de sua própria natureza: masaka.
Conseguir controlar a vida de tal modo a estar em um determinado
lugar na hora e em um determinado dia, dia após dia,
semana após semana, década após década,
é uma habilidade. Aqueles que não conseguem
manter esse tipo de compromisso não conseguem manter
muito mais. Mesmo se atendo a uma coisa já é
difícil. Não há dúvida que é
por isso que artes marciais incluem em seu treinamento 100
repetições, 1000 golpes de espada, ou então
o compromisso de treinar diariamente por um certo período
de tempo. Apesar de soar simples, estes exercícios
podem ser severo treinamento. Grosso modo, nos comprometem
a completar uma tarefa para um propósito - e, quando
conseguimos, vemos um vestígio da nossa força
para transcender nossa infantilidade.
Como disse antes, a vida em um chalé nas montanhas
nos oferece duas perspectivas: uma exterior, outra interior.
A primeira corresponde a olhar nossas verdadeiras funções
na vida - ver como nos encaixamos no Grande Cenário.
A outra corresponde ao compromisso diário de alimentar
nossas funções - a ver nossas ações
estenderem nossos objetivos.
A frase "Masaka Agatsu Katsu Hayahi" foi importante
para O-Sensei, que a usava como um tópico para caligrafia.
Se Masaka é lido como "encontrar seu propósito
verdadeiro", Agatsu como "vitória sobre
o ego" e "Katsu haya hi" como "além
das limitações de tempo e espaço"
a frase nos instiga a combinar o Yin com o Yang - a ter
a visão ampla e encontrar o nosso lugar, e então
ter a visão estreita e nos comprometer a agir.
Traduzido
por: João Vicente Sparano- Instituto Takemussu Dojo
Central
|