ARTIGOS E ENTREVISTAS

Masa Katsu Agatsu
A Verdadeira Vitória é a Vitória Própria.

por Arnet Hales Takemusu Aiki Gakko


Seguindo princípios religiosos.
Mas Oyama (Fundador do Karate Kyokushinkai) e Ejji Yoshikawa (novelista)

Um dos maiores desafios éticos na pastoral que cuida das vítimas de AIDS, é encorajar e atender pacientes que possuem sentimentos de culpa, deixando-os procurar saídas de sua própria maneira. Isto produz várias pressões éticas e dúvidas severas no voluntário da pastoral, particularmente em decisões do paciente que não coincidem com a maneira que o voluntário iria resolve-las. Apesar de tudo, os voluntários que cuidam de pacientes com AIDS não deixam seus valores morais no lado de fora da porta da pastoral.
Dr. Tom Mabey Hospital Geral Victoria, Nova Escócia

Ame seus inimigos, faça bem a aqueles que te fizeram mal.
Luke

A princípio não há inimigos. Você pode verdadeiramente apenas reconciliar quando você perceber que você não possui inimigos. Se você primeiramente reconhecer a existência de um inimigo, tente ama-lo, pois você irá achar quase impossível porque a idéia de "inimigo" contradiz "amor". Apenas quando você perceber que não possui inimigos, você será capaz de amar qualquer um sem fazer tal propósito.
Holy Sripture of Seicho no Ie, uma nova religião japonesa fundada por Taniguchi Masaharu, membro formal do Omoto Kyo

Aqui está a viagem do triângulo, do quadrado e do círculo.

TRIÂNGULO: A vontade de agir

Em Março de 1996, minha vida pessoal começou a se desintegrar. Eu estava ensinando Aikidô em um pequeno dojo que eu havia fundado dois anos antes. Dois estudantes seniores começaram com comportamentos que tiveram um impacto negativo, não apenas no dojo, mas também na união como um todo.

Fora do relacionamento sempai-kohai, eu esforcei-me a estabelecer entre os alunos em questão e a mim mesmo, o que para minha própria compreensão eram fé, vida e Budo e o que era antiético e imoral. Os alunos se recusaram a mudar de comportamento. Vendo que eu não tinha outra opção para manter minha própria integridade, eu resolvi pedir demissão da minha posição no dojo. Na minha carta de demissão eu declarei que : "Porque eu não consegui mudar o comportamento de outros, e eu só tenho poder sobre mim mesmo, e a desconfiança e desarmonia tomaram conta, eu estou deixando o dojo."

Como resultado desta minha posição, eu perdi um dojo ao qual eu dei nascimento, um trabalho, uma ocupação, amizade com muitos alunos, e uma relação profunda e valiosa com um shihan pelo qual eu tinha o mais profundo respeito. Eu estava perdido e fora de harmonia com o universo.

Nos dias que seguiram, eu tentei praticar sozinho. Velhos amigos me ligaram para me confortar e apoiar, mas eu estava à deriva. Finalmente, sozinho e desolado, eu me submeti a invasão da escuridão e 31 anos de pratica acabaram.

Nas palavras de João da Cruz (1542-1591), " Uma alma precisa antes prosseguir não entendendo do desejar entender; e cegar-se e sentar-se na escuridão, antes de abrir seus olhos, na ordem de admirar de mais perto o raio divino."

QUADRADO: Disciplina e Correção

Treinar não parece ser o objetivo de uma meta alcançável. É a vida propriamente dita. Budo é treinar para a confrontação da vida e da morte que espera a nós todos. Desistir é morrer, morrer é estar enterrado e estar enterrado é estar livre - mas eu não estava livre.

Depois de que alguns meses se passaram, eu encontrei nova energia, através de exercícios espirituais da minha fé, através de rezas e meditações, através de lectio divina e escrituras Holy, e através de lançar no diário minhas experiências espirituais como elas apareciam ao amanhecer de cada novo dia. Eu li os trabalhos dos Mestres Eckhart, João da Cruz, Thomas Merton, Morton Kelsey, Jack Kornfield, e D.T.Suzuki. Meu coração começou a bombear sangue novo e eu tive longas visões da morte. Força, perspicácia e claridade da mente apareceram com um novo desejo de treinar. Alunos antigos apareceram e me pediram para dar aula.

Eu me tornei um amigo querido e de confiança. A direção se tornou clara: procurar buscar para reconciliar - para restabelecer harmonia com o universo.

Eu procurei buscar para reconciliar com os alunos cujo comportamento eu não conseguia perdoar. Eu escrevi uma carta difícil e dolorosa para o meu professor pedindo seu perdão e explicando as razões da minha saída repentina e inexplicável. Algum movimento foi tomado, mas o silêncio ainda me saudava.

A espera na escuridão começou a me aliviar. Eu comecei a selecionar os alunos. Não havia espaço físico para os treinos, apenas minha sala de visitas sem tatames, mas com carpetes no chão. Meu corpo ficava em cinzas, mas meu espírito elevado, e uma luz quebrou...

Meu amigo de confiança tinha aberto a porta para mim. Eu podia treinar com ele, seus alunos e seus professores. De repente o telefone tocou: "Sensei leu sua carta e compreendeu. Está tudo bem." A mensagem veio como um choque elétrico. A terra abriu-se, e a morte não parecia mais morte. Eu havia sido restaurado. Correção e disciplina são imperativas para vitória.

Analisando o ano que passou, eu me perguntei, "Eu teria feito as mesmas escolhas se eu pudesse faze-las novamente?" Parte da minha resposta veio nas palavras de Akihiro Omi, presidente do Nippon Budo Shiugaikai: "O objetivo do Budo é cultivar o caráter, enriquecer a habilidade de fazer julgamentos valiosos e formar um indivíduo bem disciplinado e capaz". Através do treinamento no Budo, eu estou mais bem preparado para fazer julgamentos valiosos, com uma mente mais clara e um coração mais puro.

Devoção aos princípios do Budo como eu os aprendi demanda que eu siga com sinceridade o ensinamento moral e ético que eu recebi durante minha viagem. Tesshu escreveu: "Há diferentes sistemas no mundo que admitem várias maneiras de virtudes. Todos são bons, mas apenas aquelas pessoas que realmente colocam suas virtudes em prática estão observando o Budo." Eu preciso permanecer cheio de fé na minha compreensão da verdade.

Permanecer cheio de fé, com significados verdadeiros, buscar e preservar a honestidade e a integridade, não importando quão difícil é, não importando quão forte o compromisso da integridade seduz os sensos, não importando o que a integridade irá fazer para ferir o ego desonesto. Isto é Budo. É o esforço, da vida inteira, através do aperfeiçoamento do caráter que nós da força e esperança. Estes são os maiores desafios e objetivos de todas as proezas. Se eu desafiasse hoje o que eu consideraria comportamento imoral, iria eu ariscar a perda do esforço de juniores e seniores? Iria eu ousar até a morte?

"Quem quer salvar sua concha da vida perde-a, e quem perde sua vida, por minha causa, irá encontra-la. Que deus seria este para um homem que ganhasse o mundo inteiro fortalecendo sua alma? O que um homem pode dar em troca de sua alma?" Perguntas retóricas? Eu penso que não. Uma viagem guiada pela verdade é repleta de dificuldades, frustrações, adversários e contrariedades - injúrias, repressões, dores e cortes dolorosos no corpo e na alma. A cura é liberalmente com alegrias e triunfos incomparáveis. Não se pode conhecer a vida sem ter experimentado a morte; não se pode conhecer a luz, sem ter descansado no escuro. A prática continua.

Uma carta recente ao editor de uma pequena revista de artes marciais dizia: "Eu pratiquei Jujitsu por três anos. Meu professor nos disse que a verdadeira arte marcial não precisa de filosofia ou ensinamentos morais, porque o que vale é ganhar e/ou perder, e isso é tudo. Ele disse que artes marciais são apenas sobre sobrevivência, e todo o outro negócio é bagagem desnecessária. Certo ou errado?" O editor deu a seguinte resposta:

Errado!!!
Todo mundo está intitulado a opinião dele ou dela, é claro. Mas com algumas exceções, todos os "ryu" clássicos seguem uma filosofia particular, algumas influenciadas por crenças religiosas. Oferecer técnicas sem um código moral de conduta não é apenas antiético, mas perigoso para a sociedade. Rouba a razão de ser de um arte marcial. A bagagem a qual você se referiu é o que iria fazer este indivíduo uma pessoa compassiva, humilde e capaz. Não um arrogante, egoísta, fanfarrão agressivo, mais disposto a brigar do que a ajudar. Budo não existe para promover homens arrogantes, mas sim para aqueles que possuem um espírito benevolente. As técnicas não são mera proteção, mas um meio de conduzir princípios e estratégias aplicadas na vida. Dessa bagagem nós necessitamos muitas malas, quanto mais conseguirmos carregar, melhor.

Como Mas Oyama e Ejji Yoshikawa o disseram, eu irei "Seguir princípios religiosos." Como Dr. Tom Mabey o disse, eu irei recusar a "deixar meus valores e princípios morais do lado de fora" da porta do dojo. Eu irei viver na escuridão, mas eu irei viver com integridade, e na morte eu irei viver. Budo me ensinou que integridade moral é imperativa para a vida.

Nosso espírito não é forte porque nós manifestamos técnicas fortes. Nossa técnica é forte porque nós manifestamos força de caráter e espírito.

CÍRCULO: A esfera dinâmica

No Budo há claramente lugar para um coração moral e puro. E onde há lugar para isto, há também lugar para perdão e reconciliação.

O´Sensei disse que para praticar Aikidô adequadamente, é preciso acalmar o espírito e retornar ao recurso, limpar-nos de malícia, egoísmo e merecer, estar grato pelos presentes que nós recebemos do universo, nossas famílias, natureza e nossos seres humanos antepassados e descendentes. Ele disse que precisamos entrar no manifesto, no mistério e nos reinos divinos - aquecendo-nos da luz e calor, aprendendo dos deuses, e eventualmente nos tornando um com o divino.

Princípios religiosos, valores, personalidade moral e perdão são todos uma coisa só. Um não pode ser separado do outro; todos fazem parte do ciclo da vida. O valor que um carrega para um deles é refletido no valor que um carrega para os outros. Esse é o espelho, a espada , e a jóia. Isto é Budo.

Mas as águas ainda estão lodosas, o espelho ainda não foi polido, a pedra ainda não foi enterrada, o ferro ainda não foi forjado em aço, e o aço ainda não foi transformado em espada. O problema não está no comportamento dos outros, mas sim na minha convicção religiosa. O problema está no falso dilema que cresce aonde uma resolução não coincide com a outra. O espelho sagrado está entre o consenso de uma pessoa em promover apoio e companheirismo em tempos difíceis e no consenso de outra pessoa em respeitar honestamente e autenticamente a escolha de estilo de vida e responsabilidades dos outros. O espelho reflete mutuamente domínios exclusivos, e o dilema cresce com uma tentativa de usurpar o papel dos outros. O reflexo é verdadeiro. O que está em um, também está no outro. Nós prolongamos o reflexo que está em nossos corações.

"O coração está desesperadamente malvado, decepcionado com todas as coisas." O que pode mudar o coração? Justa indignação? Perdão? O´Sensei disse: "Keiko, keiko, keiko." A verdade está no treinamento. União da prática, o lugar entre pontos de vista divergentes e convicções - o lugar no qual afirmamos que não há inimigos. No dojo, o lugar de treinamento - onde podemos ser ouvidos e onde podemos ouvir, carregar nossas próprias convicções e viver com as escolhas dos outros - deixando tudo para trás para treinar.

Um pequeno dojo foi fraturado e amizades foram perdidas, mas o espelho se manteve intacto. O espelho reflete os erros. E quando conseguimos aceita-los como sendo parte das falhas humanas e parte da nossa realidade, nós podemos iniciar a prática de coisas mais profundas. Nós devemos lembrar do shoshinsha - a mente do principiante. Nós precisamos lembrar do taikyoku, o grande vazio e túmulo dos iniciante e nós precisamos lembrar e aceitar que na prática o espírito de criação paira sobre a escuridão.

A luz está no aprendizado. O valor está em ver, aceitar e entender o reflexo. No espelho apenas encontramos a verdade. Não existem inimigos. Por isso, eu posso verdadeiramente estender a arte da paz como arte do amor. A maravilha está no espelho. Eu posso ver a escuridão do reflexo, e eu sei que a escuridão sou eu, e há luz e esperança - esperança que mesmo tendo perdido bons amigos, eu tenho outra chance de polir o espelho, aprendendo dos erros do passado.

Hoje existem dois dojos no lugar de um só. Nós não somos propriamente amigos, mas também não somos mais inimigos, se alguma vez o fomos. Existe luz e a luz reflete a verdade. A verdade está no reflexo. É possível seguir princípios religiosos; ética não é para ser deixada para trás, do lado de fora da porta. Não há inimigos. Há apenas harmonia, e a prática ocorre em um lugar entre convicções onde a luz é mais brilhante e o reflexo mais claro.

Aprenda de erros e pratique, pratique, pratique. Estude o reflexo, fique polindo o espelho. O círculo continua, sem início e sem fim, e ai estão à verdade e o poder.

Como O´Sensei escreveu

O treinamento diário na arte da paz permite que sua divindade interior brilhe mais e mais. Não se concentre com o certo e o errado dos outros. Não fique calculando ou agindo sem naturalidade. Permaneça com sua mente na arte da paz, e não critique outros professores ou tradições. A arte da paz nunca reprime, restringe ou impede qualquer coisa. Ela abraça tudo e purifica.

Traduzido por Simone-Corinn Czech Agatsu Dojo - São Paulo, Brasil.




 

 

 

 

 

 

 

 

Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil Aikikai.