ARTIGOS E ENTREVISTAS

A Linha Central.
por Yoshihiro Matsumoto


Este é um sumário de conversas diárias que eu tive com Matsumoto Sensei - algumas vezes em bares, outras vezes em trens e ônibus.

Fui estudante do curso de Estudos Japoneses na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica por cinco anos e fiquei mais de um ano na Universidade de Kyushu, no Japão, como aluno de intercâmbio. Mesmo assim tive dificuldade em traduzir as anotações de Matsumoto Sensei para o inglês. Isto em parte porque elas eram sempre metafóricas e algumas vezes filosóficas, religiosas ou intuitivas.
Devido a isto tentei fazer o melhor possível em relatar o que Matsumoto Sensei disse. Aceito total responsibilidade por erros que poderão existir abaixo.

Geert Dreighe.

Problemas em explicar Linha Central.

O tópico Linha Central é bastante comum. Qualquer que seja o campo do Budo ou arte marcial, ninguém irá muito longe sem escutar o termo "linha central" ou sem ter que pensar sobre sua existência. Porém a maioria dos artistas marciais ficam maravilhados com o que a linha central é e, tem procurado por uma explicação clara sobre a mesma.

Aqueles que perguntam aos seus mestres sobre isto podem deixa-los em uma profunda confusão. Um grande professor de golfe, Nakamura Torakishi, ensinou aos seus alunos o seguinte: "Acerte a bola de golfe com o seu umbigo". Esta é uma estória engraçada, mas não é uma piada: ele era sério. E isto é porque ele era chamado de um grande professor.

A Linha Central é um assunto tipicamente subjetivo. Imagine quatro mestres de Kenjitsu cujos movimentos de espada são idênticos e imagine que alguém pergunta aos mesmos que parte de seus corpos deveria começar o movimento. Um dos mestres pode responder: "Os pés, é claro". Outro pode responder: "Os joelhos". O terceiro pode responder: "Não, não - O koshi (quadril) deve Ter a iniciativa". O quarto pode dizer o seguinte: "Não, todos vocês estão errados. Como vocês podem cortar seus inimigos com os pés, joelhos ou quadril? Você o corta com as mãos. Então, a ação das mãos deve começar primeiro".

Lembre-se: os movimentos destes mestres são idênticos: mesmo que gravasse-mos seus movimentos e os observássemos em câmera lenta, não poderíamos notar a diferença. Assim, as pessoas poderiam colocar o Budo em uma lâmina de vidro e coloca-la sob o microscópio, para torná-lo observável. Esta talvez seja a maneira científica de fazer, mas, neste caso, não nos levará a nenhum lugar.

 

As três etapas da Linha Central.

O que eu vou falar agora vem da minha experiência e sentimento pessoal. É possível que, se outras pessoas fizerem as mesmas descobertas, elas irão expressar de outra forma.

Algumas pessoas, eu sei, gostariam de fazer objeções ou mostrar que existem erros de lógica em minha exposição. A estas eu gostaria de dizer para tentarem entender o que eu tenho a dizer de uma forma positiva.

Em minha experiência a Linha Central desenvolve-se em três etapas. Elas são: Linha Central, Plano Central e Centro do Ovo. Existem outras etapas, porém eu não posso dizer nada sobre eles, porque ainda não os vivenciei.

Etapa I: Linha de Centro.

As pessoas dizem freqüentemente que a Linha Central repousa sobre a espinha. A espinha humana se estende sobre a linha de gravitação. Grosseiramente falando, a Linha central é uma combinação da espinha e da linha de gravitação.

Quando uma pessoa fica de pé bem equilibrada, a Linha Central repousa por sobre o centro vertical de seu corpo. A espinha e a linha de gravitação estão sobrepostas sobre a Linha Central, o que é uma situação normal. Entretanto, quando alguém olha para cima ou para baixo, ou gira o seu pescoço para observar algo, a Linha Central enfraquece. Isto significa que a Linha Central depende de vários fatores: nível e direção dos olhos, atenção, consciência, coordenação corporal, etc. A Linha de Centro é variável e delicada.

A mera existência da linha de Centro não tem significado no Budo. No Budo nós aprendemos a controlar a Linha de Centro - em outras palavras, a nos controlar. Aqui eu darei uma explicação de apenas uma parte disto - o caminho para harmonizar o corpo.

A primeira prática para obtermos um corpo bem harmonizado é o relaxamento. Todos sabemos que existem várias maneiras de treinar o relaxamento e eu não os descreverei aqui. As pessoas podem praticar de acordo com suas preferência.

Nós podemos notar que os europeus possuem maus hábitos quando observamos suas ações corporais sob a luz do Budo - maus hábitos que estão associados com o estilo de vida europeu. Por exemplo, os europeus utilizam garfo e faca para comer. Seus cotovelos se afastam e suas axilas ficam abertos.

Para aqueles que querem serem eficientes na utilização de seus corpos, como os japoneses Budokas são, eu recomendo o uso do hashi (palitos). A maioria dos movimentos do Budo tem origem no uso do hashi. Aqueles que não conseguem utilizar o hashi jamais se tornaram mestres do Budo Japonês, especialmente na utilização do Ken (espada).

Para quebrar a aderência aos nossos hábitos diários, devemos separar as partes de nosso corpo em partes independentes. Devemos parecer como marionetes. Quando alguém é bem sucedido em ser como uma marionete, sentirá que a parte inferior de seu corpo é mais pesada que a parte superior, se se tornar muito sensível. Por exemplo, quando se levanta um braço, sentirá que este esta dividido, no mínimo, em duas partes: a parte mais baixa e a mais alta. Sentirá seu braço muito mais pesado que anteriormente.

Então podemos soltar nossos braços, nossos joelhos - da maneira como a marionete faz. E poderemos colocar todas as partes que se encontram independentes, juntas em um momento, em uma recomposição harmoniosa, da mesma forma quando se puxam os fios da marionete. Se você faz isso para assumir hamni, você apreciará o significado de hamni e ficará surpreso em se sentir mais forte e com os sentidos mais claros.

A transição momentânea entre "re-quebrar" e "re-compor" constitui a essência das técnicas do Budo japonês. Nós a chamaremos de "Micro-Ação" e a distinguiremos da "Macro-Ação", o movimento visível externamente. Assim, a compreensão da Micro-Ação pode verdadeiramente ser chamada de "Arte".

"Micro-Ação" é feita em um momento, sem ser notado externamente. Trata-se de um trabalho interno - e, assim, por conseguinte, é o trabalho na Linha de Centro. Quando o corpo se recompõe de suas partes independentes, a Linha de Centro permanecerá internamente. Na base de nossa experiência em Linha de Centro, você poderá usar integral e harmoniosamente o seu corpo. Então você poderá a ação mais rápida, maior e menor.

Etapa II: Plano Central.

Em nossa prática diária de Budo, encontramos praticantes em nossa frente. Dirigimos nossa atenção e consciência até os mesmos. Assim a Linha de Centro estática se torna ativa. A direção de nossa atenção e consciência e a Linha de Centro formam um plano.

A prática do Ken (espada) ajuda-nos a compreender o Plano Central. Suponha que você tenta cortar algo ou alguém na sua frente com um golpe vertical de espada. Quando você move as suas mãos para cima e para baixo, você acredita que o Ken forma um plano.

Se você possui uma forte Linha de Centro, sua posição em hanmi faceia frontalmente o objeto e sua atenção e consciência buscam o objeto sem qualquer ansiedade, medo ou dúvida e você esta confiante e a ação de seu Ken e suave e rápida, tudo trabalha junto, harmoniosamente e você sentirá o Plano Central formando um grande, afiado e forte plano alongando-se de você até o objeto.

Na prática diária com um parceiro, atendendo-se às condições acima descritas podemos encontrar um caminho principal para nos desenvolver. Quando uma ou mais destas condições não são satisfeitas, nos sentiremos descontentes e, assim conheceremos a profundidade e a dificuldade do Budo japonês.

O Plano Central é estranho, é algo com vida. Mesmo que você possua uma técnica perfeita, quando perdemos a atenção ou a consciência - quando pensamos em algo externo ou nos encontramos em uma situação de stress - nós não podemos formar um bom Plano Central. E, como conseqüência disto, nos tornamos fracos. Esta é a explicação do porque alguns artistas marciais acreditam que necessitam treinamento mental espiritual ou religioso e alguma experiência nestes.

Quando Munenori Yagyu agraciou com um certificado de alto nível um de seus alunos, disse: "Eu não tenho mais nada para lhe ensinar. Apenas com o Zen você poderá aumentar o seu conhecimento".

Do período Edo (1603 - 1868) até os dias de hoje, muitos praticantes do Budo tem tido interesse no Zen. Enquanto não descobrimos o que finalmente eles encontraram no Zen, podemos dizer apenas que o Zen teve e ainda possui uma forte influência no mundo do Budo japonês e também na cultura japonesa como um todo.

Centro do Ovo.

Este ano, eu estava fazendo compras de presentes para alguns amigos do Japão. Através de uma janela de uma loja de chocolates belgas vi muitos patos e ovos orientais e, subitamente, realizei aquilo que eu tinha querido vivenciar recentemente. Era um ovo!! Não pude explicar o por quê, mas aquilo talvez fosse a coisa mais feliz que me acontecera em toda a minha vida.

Tive uma forte sensação que me encontrava envelopado em um objeto oval recheado com um líquido. Naquele ovo recheado de líquido me senti mais leve e mais suave, como um peixe dentro d'água. Estou certo que vocês já viram peixes movendo-se graciosa e suavemente. Senti que meus atos tornaram-se parecidos com aqueles.

Ao mesmo tempo senti que minha Linha de Centro penetrava na terra e no céu e alongava-se até o centro do universo.

Uma vez que tive esta sensação, ela nunca mais desapareceu. Onde quer que eu vá, o que quer que eu faça, quer eu esteja de pé ou deitado na cama, a sensação que estou flutuando em um líquido sempre permanece comigo. Finalmente, estou certo que encontrei o "meu lugar".

Durante a prática diária, quando meus parceiros tentam me atacar e penetrar no limite externo de meu ovo, seus movimentos subitamente se tornam mais lentos. Posso notar seus movimentos mais claramente e em mais detalhes. Acredito que seja por causa da diferença entre a densidade entre meu líquido e o ar.

Não acredito que, no meu caso, estas experiências possuam base técnica: Não estou bem treinado e nunca tive nenhum treino especial em como buscar o "meu lugar". Não que as pessoas possam Ter essa sensação através de técnicas e treinamento especial. Porem, pela minha própria experiência, acredito "meu lugar" é uma questão de existência e não de técnica. "Meu lugar" é uma sensação muito forte que eu possuo aqui e agora. Uma força da existência.

René Descartes disse: "Penso, logo existo". Podemos até rir disto. Como praticante do budo podemos dizer: "eu paro de pensar", entretanto, eu sei que existo.

Inazo Nitobe, que escreveu um livro denominado Bushido, a alma do Japão, enfatizou a definição de Zen de Lafcadio Hearn: Zen refere-se ao esforço humano, através da meditação, de atingir-se o reino do pensamento além do limite da expressão pelas palavras.

Não apenas os europeus, mas também os atuais japoneses cresceram com a filosofia e as idéias cartesianas. Agora é hora de sacudir esses ensinamentos e retornar ao caminho. Se fizermos isto, seremos capazes de responder a pergunta comum: "Para que isto serve?" Com a seguinte resposta: "Para nos redescobrir".

Yoshihiro Matsumoto Sensei ensina Aikido no Rakutenjutsu Dojo na Bélgica.
Traduzido por Ilidio Lazariviecz Instituto Takemussu Shugyo Dojo




 

 

 

 

 

 

 

 

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