ARTIGOS E ENTREVISTAS

O KI
por Gabriel Castañeda


Todo o praticante de Aikido já deve saber que a prática desta arte marcial está ligada ao emprego da energia interna do homem ao que, comumente no Dojo, chamamos de KI, portanto necessitamos que sua compreensão que não deva ser abstrata ou baseada em conceitos esotéricos, mitológicos ou folclóricos.

O universo, e tudo quanto existe nele incluindo o homem, está constituído de uma mesma substância ou energia que se manifesta de múltiplas maneiras e com incontáveis graus de concentração (magnética, eólica, geotérmica, calórica, luminosa. gravitacional, cinética, nuclear, radioativa, etc.)

A palavra energia provém do grego: en = dentro e ergón = ação e significa que toda ação é a manifestação de uma força. O KI, em japonês, significa: coração, éter, alento, sopro, vapor, temperatura, etc. Mas se refere verdadeiramente ao fluído vital ou energia que emana da fonte de energia universal que dá vida, anima e conserva tudo o que existe. Se encontra em todas as partes, em fluxo contínuo ou movimento manifestando-se de infinitas maneiras conservando a ordem das leis naturais com equilíbrio e harmonia.

O maestro Fuji Nokajima afirmava que todo homem, inclusive o mais débil possui um KI, uma força interna muito grande que nos é dada com a vida e que se regenera captando os elementos ao nosso redor.

Quando esta energia é capturada e circula livremente pelos meridianos de nosso corpo, faz com que nos encontremos em um ótimo estado bioenergético e psicosomático. O KI se encontra em todos os processos vitais, mas não se mistura com a matéria ou substância que anima. Ele infunde vida, dá atividade, movimento, otimismo, valor, decisão, amor e estabelece o equilíbrio e a paz entre o sistema nervoso central e o autônomo (entenda-se como consciente e inconsciente).

O KI é constante, tem sempre o mesmo valor, não diminui nem aumenta e é o meio de intercâmbio e comunicação com o nosso meio e o universo e através dele percebemos suas influências.

Quando respiramos, a superfície de troca gasosa das paredes dos alvéolos pulmonares constitui uma espécie de captador de íons, capaz de captar a energia magnética contida nos núcleos dos átomos dos gases nobres da atmosfera.

O KI chega ao corpo com a respiração, estabelecendo uma troca contínua e ininterrupta desta energia com a fonte original de onde procede e para onde volta, porque não se pode armazená-lo nem detê-lo.

O aikidoista procura compassar a respiração com os movimentos que realiza, evitando que seu fluxo ou seu ritmo seja perturbado por nenhuma emoção visualizando, mentalmente, como seu corpo se enche de KI durante a fase respiratória e como flui ao exterior através de seus braços, tronco, etc, durante a expiração.

Ao respirar, não apenas nos concentramos em absorver oxigênio, como também em encher cada célula do corpo da energia que preenchem espaço universal. Esta energia não desaparece, nem se dissipa e nem pode ser armazenada, simplesmente se transforma, se transmite e pode ser canalizada, ou dirigir-se na direção do movimento que se está realizando acompanhada da visualização mental.

Buscar uma energia mágica e todo poderosa de caráter misterioso, pseudomístico ou esotérico, cuja posse depende de um certo grau de desenvolvimento místico da personalidade é um erro, posto que o KI se refere a energia natural que anima cada coisa e que se manifesta pela ação do princípio dinâmico do Yin e do Yang.

No início de cada treino, durante os exercícios de Kokyu Dosa, o aikidoista busca a recepção ótima desta energia através da respiração abdominal durante uns minutos, tratando de estabelecer o equilíbrio psicossomático que permitirá a circulação
da mesma de uma maneira livre, fluída e expontânea e que se manifestará pela agudeza das sensações exteroreceptivas e interoreceptiva, pela adoção de uma atitude e a postura corretas, delas surgirá o movimento potente, eficaz e harmônico.

É possível captar, de forma ótima, a energia do KI quando se está receptivo e se crê, com muita sinceridade, que a energia magnética, contida nos gases nobres que respiramos, vivifica as células do organismo. A mente pode influenciar o corpo e
originar sobre as mudanças fisiológicas através da respiração.

O cérebro (a mente) tem a capacidade para alterar a natureza da energia procedente do KI, fazendo-a adquirir um caráter positivo ou negativo. O mestre Koichi Tohei, um dos destacados estudiosos da natureza do KI e seus efeitos, distingue várias situações ou estados:

• Unificar o corpo e a mente para captar a energia através da respiração e conduzi-la ao 'Hara", de onde fluirá a todo o organismo.

• O fluxo do KI se interrompe e diminui seu poder com a mente fixa na razão, nos desejos e nos impulsos.

• Quando se abandona a concentração no "Hara", ou se interrompe seu fluxo exterior, por causa de estados anímicos negativos (preocupações, mau humor, medos, decepções, rancor, etc.) se perde o KI ou ele não é recebido com normalidade.

• O movimentos do Aikido nascem no "Hara" e se materializam em trajetórias circulares ou espirais até o infinito, permitindo que o KI flua ao exterior através dos braços, pernas, tronco, etc., de maneira ininterrupta com o auxílio da visualização
mental de um fluxo energético que segue a direção requerida pela técnica que se está realizando.

• Projetar o Ki para o exterior com a visualização mental e a imaginação ante ao oponente para evitar ser influenciado por ele.

Quando os membros do corpo estão rígidos, por causa do medo ou excitação nervosa ou quando o estado mental é negativo, os canais de recepção e fluxo do KI se "obstruem", a vitalidade decresce e os movimentos são torpes e pesados.

Uma boa recepção, circulação e irradiação do KI exige a observância destes requisitos:

• Postura do corpo bem vertical, em qualquer posição que estejamos.
• O tônus muscular geral semi-relaxado.
• Concentração no "Hara".
• Respiração abdominal profunda e tranqüila.
• A mente em estado receptivo (capaz de perceber e visualizar).
• A calma e a paz interior (harmonia consigo mesmo)

Já que estamos falando de KI e da respiração, gostaria de recomendar inspirar e expirar pelo nariz pelas seguintes

• Ao inspirar, as paredes das narinas filtram as impurezas do ar e regulam sua temperatura para que este chegue aos pulmões com a menor diferença de temperatura possível, esfriando, pela sua passagem, a mucosa do nariz.

• Ao se expirar, se expulsam as impurezas retidas nos filtros do nariz e se esquenta novamente a mucos para que, a seu tempo, possa esquentar novamente o ar que vamos captar do exterior na próxima inspiração.

Sem dúvida, existem mestres que ensinam a inspirar pelo nariz e expirar pela boca, todavia, recomendo a todo aikidoista que confie, obedeça e imite com sinceridade os métodos de respiração de seu mestre que conhece os atalhos que facilitam o aprendizado.

Um grande abraço a todos

Traduzido do espanhol por Sidney Coldibelli




 

 

 

 

 

 


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