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Confuso e de certo modo machucado ---- e não somente de yonkyo ---- um outro amigo do Aikido retornou recentemente de uma peregrinação ao Japão, antes da data prevista. Ele não foi o único a diminuir drasticamente uma estadia previamente planejada na Méca do Aikido, e certamente não será o último.
Foi um caso de se ter grandes expectativas, e cair de cara no chão com a verdadeira realidade ---- finalmente caindo em espiral com um som abafado, entre pedaços de sonhos despedaçados. Muitos outros, não necessariamente de caráter forte ou abençoados com grande inteligência, sobrevivem uma experiência no Japão, e ganham muita experiência em termos de progresso em suas técnicas, mesmo que assim eles não atinjam o Satori. Mas o sonho se torna um pesadelo para alguns pobres estudantes.
O Japão tende a invocar reações extremas nos Ocidentais e a dividi-los em Japonófilos e Japonófobos. Visitantes estrangeiros que estão no país passam por várias fases emocionais, às vezes em série e rapidamente, e às vezes até no mesmo dia. Existe o período inicial de euforia, inspirado pelas novidades, a cultura, a tremenda energia das cidades grandes, e a "educação" das pessoas. Isso é seguido por um período de desespero com a língua e as barreiras burocráticas, e devido ao fato de voce ser uma "pessoa de fora" e ser abertamente tratada como tal. Daí, se voce ainda não desistiu e voltou para casa, há um período de aceitação Zen das coisas como elas são. Nem mesmo residentes que já estão no Japão há muito tempo escapam dessa montanha russa e muitos continuam a viver com isso todos os dias. Quando consultado por um aikidoka interessado sobre fazer a peregrinação, eu confesso não saber o que dizer ou aconselhar para que eles se safem de possíveis desapontamentos, além de jogar água fria em suas esperanças e ambições, o que seria injusto, na maioria dos casos.
Infelizmente, não há procedimento certo ou lei de defesa do consumidor para proteger uma pessoa de desilusões ---- no amor, fé ou aspiração ---- sendo esse parte do preço a pagar por sermos humanos. Mas eu encorajo as pessoas a tirar seus óculos de lentes cor de rosa e a preparar-se para possíveis choques.
Que tipos de choques?
Por exemplo, existe a intensa pressão da população. Em contraste com a imagem que algumas pessoas tem de uma terra de tranquilidade espiritual ---- com pastores Zen e mestres de Aikido olhando pacificamente para seus Bonsai, acompanhados pelo som de antigos instrumentos de corda ---- a verdadeira realidade, ao se chegar em Tóquio é a atividade frenética e insana, um barulho infernal e a poluição.
O Grande amor dos Japoneses pela Natureza parece até uma piada nessa cidade desagradavelmente única, com menos espaço aberto por cabeça de população, que a maioria das cidades do mundo. Para procurar escapar desse barulho e das multidões para achar um momento para pensar, uma pessoa deve mergulhar em um dos milhares de coffee shops (cafeterias) provavelmente cheio de fumaça de cigarros com música de fole tocando alto e pagar muitos dólares por meia xícara de café. Este é o choque número dois: tudo custa muito mais do que voce esperava pagar.
Por isso, tente evitar lugares caros, e ache alguém que possa lhe mostrar os locais com preços mais razoáveis. Ah! Alguns Amigos Japoneses! Bem, sim, talvez, mas voce verá que há um limite para essa amizade que voce mais cedo ou mais tarde vai chegar. Alguma coisa está errada com o cenário. Seus amigos são muito educados e sorriem muito, mas será que eles realmente tem essa intenção?
É claro que isso poderia ser um problema em qualquer lugar, pois a verdadeira amizade leva tempo para se conseguir e deve ser conquistada. A diferença é que os Japoneses têm uma sociedade tão fechada que chega até a ser incestuosa , que é uma herança de seus longos períodos de confinamento solitário. Parece até que seria sair de seus padrões ser amigável com estrangeiros, mas há uma qualidade artificial nessa amizade. Na verdade, para alguns ocidentais isso é pior do que a hostilidade declarada. (Taxistas, por mais rudes que sejam em todo o mundo, podem expressar mais verdadeiramente a situação de indiferença que muitos Japoneses sentem em relação aos estrangeiros).
Se voce tem muito dinheiro, outro problema que atormenta o que "seria o visitante de longo prazo", que pode não afetar a voce, é a dificuldade de encontrar trabalho. Graças a sua prolongada recessão econômica, os Japoneses apertaram o cinto tanto em vistos de estadia quanto em empregos. Um emprego que voce não gostaria de Ter, que dificilmente pagaria suas despesas com estadia e não permite tempo suficiente para voce treinar, obviamente não seria satisfatório. Costumava ser muito fácil arranjar um emprego ensinando a Língua Inglesa, mas hoje em dia é muito mais difícil, e você não conseguirá um visto para trabalhar como professor, a não ser que possa fornecer as qualificações necessárias para tal cargo.
Quando se fala em Aikido, a potência dos choques, novamente, são estritamente na proporção à altura de suas expectativas. Em artigos anteriores, apontei que o Japão tem uma boa parte de Senseis de Aikido cujos caráteres claramente não são tão elevados quanto suas graduações de hierarquia. Voce não deve esperar que dojos Japoneses sejam livres ou arrogantes, ignorantes ou com indivíduos sádicos. Eles não são. De fato, o peso dado a autoridade no Japão significa que, tais pessoas frequentemente se mantêm completamente inatingíveis em suas posições. Instrutores da Aikido Japoneses são humanos --- por isso, imaginá-los pode levá-lo a sofrer um grande choque quando voce estiver cara a cara com a realidade.
Assuntos triviais semelhantes a esses podem ser suficientes para ultrapassar os limites para alguns peregrinos, e mandá-los numa triste jornada de volta para casa. Existem um número de tais coisas, que podem desmoralizar um peregrino-aiki e até causar sua saída do país no primeiro vôo disponível, mas essas devem ser causas mais profundas, das quais o indivíduo pode nem estar consciente. Existe de fato, por exemplo, que quanto mais voce aprende, mais voce tem para aprender, por isso, não importa o quanto voce fique no Japão, voce nunca sentirá que dominou a arte.
O Aikido é uma missão que leva a vida inteira, e a idéia de se passar a vida toda no Japão não apetece a ninguém. Quanto mais ansiosa a pessoa está para tirar algo do Aikido num curto espaço de tempo, mais difícil ele se torna. Por outro lado, uma visita ao Japão torna possível de se treinar por mais horas com parceiros mais experientes, do que voce normalmente encontraria em seu país, e o processo de aprendizagem ainda levaria tempo e pode nem ser nem muito diferente do que voce já faz. Não importa o quanto seu professor seja excelente, é voce mesmo que tem que fazer o trabalho, e o processo interno de absorção do que voce aprende não pode ser forçado.
Se os comentário acima parecem ser excessivamente pessimistas, eu peço desculpas, mas senti que havia a necessidade de dá-los a fim de ajudar aqueles que estão considerando fazer uma viagem ao Japão estarem melhor preparados. Meus comentários não têm a intenção de ser anti-Japoneses ou mesmo anti-Japão, e eu poderia até escrever um artigo muito mais longo (na verdade eu até devo mesmo, algum dia) sobre as experiências realmente positivas que tive no Japão e a maravilhosa índole gentil do Japonês, tanto dentro como fora do mundo do Aikido. Talvez meu ponto é que, mudar para o Japão (ou possivelmente para qualquer outro país) pode acrescentar um elemento de choque cultural e stress adicional para a já difícil missão de se aperfeiçoar no Aikido. Não vais ser fácil, e voce deverá estar mentalmente preparado e de preferência já ter um treinamento sólido e árduo por debaixo de sua faixa antes.
O que me traz a uma sábia declaração feita por um Sensei, por quem eu tenho grande respeito: "Não existe nada além de treino". O quanto isso é profundo e quantos níveis de significados podem se abrir quando voce pensa sobre isso. Obviamente, faz diferença onde voce treina e sob a tutela de quem, mas mesmo esses aspectos tem uma maneira de se resolverem por si só, desde que voce treine sinceramente. Como diz o velho ditado: "Quando o aluno está preparado, o mestre aparece". E o aluno nunca estará preparado se ele ou ela não treinam regularmente e sinceramente. Se voce treina com sinceridade, essas preocupações devem ir gradativamente se dissolvendo e voce pode concluir que ir correndo ao Japão não é a resposta. Ou talvez até seja o caso de se fazer essa viagem, mas não como uma peregrinação, procurando pelo dojo mais avançado ou melhor Sensei, mas encará-la como mais um estágio que voce faz no seu treinamento. E se voce mantém seu treinamento sincero, voce pode até chegar a encontrar o professor perfeito para voce --- o Sensei que está em voce.
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