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Todos procuram o prazer, e
tentam se livrar do sofrimento. Assim quando um titulo como
o deste artigo sugere que o sofrimento seja indispensável,
muitos podem ficar perplexos e mesmo rejeitarem a afirmação.
Principalmente para estes que não aceitam este adjetivo,
este artigo é fundamental, pois pode modificar a forma do
individuo encarar a vida, seus problemas, suas dificuladades.
O aforisma esotérico " Quando o aluno está pronto o mestre
aparece", é perfeitamente compreendido por todos que buscam
os mistérios e métodos da evolução espiritual. Muitas vezes,
porém o mestre não é uma pessoa, mau um episódio do dia
a dia. Para entender o titulo de nosso artigo vá o leitor
à porta de uma escola e observe certas mães e veja quem
carrega as mochilas dos alunos. Na maioria das vezes é a
mãe, que por um excesso de amor carrega a mochila do filho
para poupá-lo do esforço, e quando chega a porta da escola
a mãe tem que correr atrás dele para entregar-lhe a mochila,
pois este ,ávido em encontrar-se com seus colegas, acaba
se esquecendo de que tem que levar seu material junto.
Observe depois, que é a mãe que segura o filho para dar-lhe
um beijo de despedida, pois raramente o filho é quem tem
a iniciativa de beijar a mãe. Porque o filho não beija a
mãe? Qualquer ser humano normal, ao separar-se de alguém,
pelo menos por boas maneiras se despede. Os enamorados beijam-se
tão demoradamente nas despedidas que ás vezes é impossível
saber se estão se encontrando ou se afastando.
Portanto a conclusão óbvia é que o filho não procura beijar
a mãe na despedida porque não usufruiu tão prazeirosamente
de sua companhia como a que o espera com os companheiros
da escola. Em outras palavras, e aí está o problema sério
da questão ou seja, o filho não reconheceu a ajuda que a
mãe lhe deu, e portanto não sentiu " Kancha" (gratidão),
aspecto este tão importante no treinamendo do Aikido e na
vida. Ajudar o filho é um nobre ato de amor que nenhuma
mãe se furta, mas se não ficar claro na relação que a mãe
está ajudando o filho por que gosta dele, ele pode entender
que é obrigação dela e daí não sentir a necessidade da gratidão.
E assim a situação acaba se perpetuando, com a ideia de
que é o filho que vai a escola para se divertir e estudar,
mas quem deve carregar a mochila é a mãe.
Esta é uma das melhores maneiras de ensinar a um filho a
não assumir responsabilidades na vida por seus atos e obrigações.E
o pior, aprendido este modelo, o filho começa a pensar que
sua finalidade na vida é desfrutar dos prazeres, e que aos
pais compete realizar as coisas desagradáveis, e penosas
que este prazer exige, causando uma profunda distorção em
sua maneira de encarar a vida, pois certamente vai extrapolar
esta exigência para as demais pessoas com as quais se relaciona.
Assim o filho se transforma em " filhinho de papai", o os
pais, se sufocam , muitas vezes deixando de desfrutar de
horas, para si de prazer ou descanso, se sacrificando pelos
filhos, achando que estão lhe fazendo bem, quando na verdade
estão lhe trazendo grande infelicidade no futuro.
Certamente o filho esperará da esposa, no futuro, servilidade
similar, e a filha de seu futuro marido, trazendo invariavelmente
divorcios, e filhos abandonados, educados sem a presença
imprencindível da paternidade ou da maternidade. Nesta forma
vai se organizando na mente da criança uma falta de ética,
em que o respeito a quem o ajuda passa a não existir e a
responsabilidade pelos proprios compromissos a se diluir.
Quem não respeita a mãe, não vai respeitar o pai, o professor,
autoridades sociais, ou qualquer ser vivente. Carregar a
mochila do filho é poupar-lhe o sofrimento, e não permitir
que o filho sofra para que possa ter prazer é um dos maiores
erros que os pais cometem na educação dos filhos. Sem o
sofrimento não pode existir o prazer e isto precisa ficar
bem claro, pois é uma lei na natureza, que um extremo sempre
traz o outro. Buda enxergou este ponto, e ensinou as pessoas
de que se buscarem apenas o prazer terão certamente infelicidade
e frustração. A vida exige qualidade, ética, liberdade e
responsabilidade.
Ainda bem que nossa psique é plastica e os comportamentos
podem ser mudados a qualquer momento desde que estejamos
realmente mobilizados para isto.As pessoas que amamos podem
ser ajudadas em suas dificuldades através de conselhos orientativos,
ou ações diretas, mas é fundamental que fique claro para
eles , que a carga, a responsabilidade, é delas, e inclusive
as duras consequências que podem advir de um eventual mau
desempenho. Os professores, patrões, e os líderes de grupos
devem ser como aquela mãe que entrega toda a mochila para
o filho carregar, e depois de este se esforçar muito em
carregar o peso e não estar conseguindo, ele se volta para
a mãe e pede ajuda: " Mãe me ajuda?" . Esta é a hora sagrada
que Deus arrumou para a mãe realmente ensinar a seu filho,
que o ama, e que se ele quizer ser alguem na vida tem que
se esforçar muito e saber respeitar e manter grandes amigos,
pois sem a solidariedade e a cooperação mutua pouco pode
um homem realizar.
Por esta razão no Dojo de Aikido, os verdadeiros Sensei,
são duros, exigentes, e procuram levar seus "deshi", (alunos),
no limite de seus esforços em um " Shugyo" (treinamento
austero), purificador. Muitas pessoas chegam ao dojo, porque
buscam uma maneira de conseguir se adaptar melhor no meio
em que atua, visto ser o Aikido, um caminho de integração
e harmonia e estes em grande parte, tem dificuldade em se
harmonizar, porque não tem o sentimento de gratidão, de
responsabilidade e de compromisso ainda desenvolvidos em
si. O mestre tem que ser duro com estes. Nem todos aguentam
e disistem, culpando o sensei de ditador, sádico, ou agressivo.
Mal sabem estes, que lhes foi oferecido um remédio poderoso,
para curar suas maiores feridas e estes, em sua ignorancia,
o recusaram. Por isto é fundamental no Budo a escolha do
mestre adequado, mas uma vez escolhido, deve-se ir com ele
até o fim. Somente desta forma haverá progresso.
Quando o mestre tem que ser politico para manter seus alunos,
o verdadeiro treinamento aí acaba. " Feliz os que sofrem,
pois estes serão consolados", disse Jesus no Sermão da Montanha,
um de seus mais belos ensinamentos impregnado da filosofia
oriental que o Aikido tambem ensina.
Por
Wagner Bull
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