ARTIGOS E ENTREVISTAS

Fora do Caminho
por Jim Bradford



"Se você negligencia o treino espiritual do coração e só pratica técnicas, nada resulta disto.Técnicas somente se aperfeiçoam. Mas concentre-se no aspecto espiritual e o caminho se abrirá para você."
Hikitsuchi Sensei.

Meu Sensei e eu estávamos compartilhando uma xícara de chá e conversando sobre livros e artigos de revistas que havíamos lido recentemente quando eu fiz uma observação que provocou riso em ambos. "Eu tenho estado tão ocupado no trabalho e em casa com a família", eu disse, "que os únicos livros que têm me interessado ultimamente são narrativas de viagens." Meu Sensei sorriu e respondeu ,"Eu acho que, às vezes, todos nós sonhamos abandonar tudo e fugir."

Mais tarde, naquele dia, eu fui até minha estante e olhei o que ainda precisava ser lido. Enquanto eu passava meus dedos pelos livros e sussurrava os títulos para mim mesmo, fiquei maravilhado sobre como os livros davam um tipo de guia de minha vida. Não importando a ordem em que foram comprados, eles refletiam meus diferentes interesses e experiências ano após ano.

Então, o que estava acontecendo com minha vida agora ? Os três últimos livros que comprei eram narrativas de viagens – sobre como alguém pegou um carro ou uma moto e viajou para algum destino longínquo como Alasca ou Panamá, ou fez um "tour" através de pequenas cidades dos EUA tendo somente a estrada como companhia. Antes dessas narrativas, ocupavam minha estante anos de livros de filosofia das artes marciais, livros sobre Aikido e livros sobre filosofia espiritual, como Hinduísmo, Budismo e Cristianismo.

Assim como minhas preferências de leitura mudaram, também mudou meu estilo de vida. Meu trabalho entrou numa rotina repetitiva e começou a parecer vazio. Muitas vezes eu encarava as buscas e investigações e cada prisão como se fossem uma única. Quanto ao trabalho social de minha unidade, eu não mais me importava com os contatos que fazia. Eu não me importava mais em fazer o discurso "como eu posso ajuda-la a sair das ruas ?" para as prostitutas que prendia e não mais me importava em ter os números telefônicos de albergues e serviços sociais.

Minha prática de Aikido havia mudado também. De fato, quase havia se tornado inexistente. Eu vagava pelo Dojo a cada quinze dias , mas minha prática não tinha a mesma importância de antes. Eu estava permitindo que muitas outras coisas tivessem prioridade sobre ela. E, quando eu treinava, a prática me parecia inútil.

Fora do trabalho e do Dojo, tudo me parecia grandioso. Eu descobri alguns novos "hobbies": passeios de motocicleta (eu não rodava há alguns anos, mas comprei uma nova moto e fiz planos para um passeio longo e distante), mountain biking (eu desencaixotei a velha mountain bike e aproveitava cada oportunidade para experimentar as trilha das montanhas locais) e viajar (eu voei para Maui e então para Oahu, naveguei para o México e fiz uma viagem por rodovia até São Francisco).

Quando meu Sensei mencionou que "pessoas sonham fugir"eu nunca imaginei que pudesse ser uma delas. Mas do que eu estaria fugindo ? Eu não me sentia fugindo, afinal de contas; eu me sentia como se estivesse fazendo uma pausa.

Muitos dias se passaram, e eu estava praticando Aikido. Após a aula, enquanto eu dobrava meu hakama, reparei que alguém colocara cópias de um capítulo de "O Profeta" de Kahlil Gibran próximo ao shomen – um capítulo sobre o amor. Enquanto lia os versos ajoelhado diante do shomen, acho que experimentei uma pequena "revelação". Subitamente me ocorreu o porque das mudança que haviam ocorrido em minha prática do Aikido, em meu trabalho e nos meus hábitos de leitura. Eu não vinha fugindo de meu caminho... eu o havia perdido!

Ir ao Dojo e praticar Kotegaeshi repetidamente não é Aikido. Praticar Ikkyo exaustivamente não é Aikido. Técnicas não significam nada além de partes de uma busca espiritual. Se você acha que está praticando Aikido mas não está envolvido na questão espiritual – a questão da razão de estarmos neste planeta, a questão de ajudar aos outros, a questão de tornar este um lugar melhor para todos- você não está praticando Aikido.

O-Sensei nos legou um caminho a seguir. Ele nos deu o Aikido, não para demonstrar seu poder marcial, mas para nos mostrar como ele viveu, sua vida espiritual e sua compaixão. Praticar Aikido é seguir os passos de O-Sensei e deixar essas lições permearem toda nossa vida.

Eu sou um oficial de polícia. Se eu vou para o trabalho por nada mais que um salário, se eu olho para o outro lado quando vejo que uma vítima ou suspeito necessita de minha ajuda, ou se eu machuco alguém por ódio ou raiva, eu não posso afirmar que estudo Aikido sem estar sendo hipócrita. Se faço essas coisas, não estou seguindo o caminho do Aiki.

Eu me desviei do caminho em "Estradas Azuis" de William Least Heat-Moon. Eu adoro este livro, mas agora vejo que foi uma distração, uma prova para testar minha prática de Aikido, outro round da randori da vida.

Somente o tempo dirá quais outros livros ocuparão minha estante mas, agora, estou no meio de uma grande leitura : "Oração, uma Resposta Radical para a Vida", de Matthew Fox.




 

 

 

 

 

 


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