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"Se você negligencia o treino espiritual do coração
e só pratica técnicas, nada resulta disto.Técnicas
somente se aperfeiçoam. Mas concentre-se no aspecto
espiritual e o caminho se abrirá para você."
Hikitsuchi
Sensei.
Meu Sensei e eu estávamos compartilhando uma xícara
de chá e conversando sobre livros e artigos de revistas
que havíamos lido recentemente quando eu fiz uma
observação que provocou riso em ambos. "Eu
tenho estado tão ocupado no trabalho e em casa com
a família", eu disse, "que os únicos
livros que têm me interessado ultimamente são
narrativas de viagens." Meu Sensei sorriu e respondeu
,"Eu acho que, às vezes, todos nós sonhamos
abandonar tudo e fugir."
Mais
tarde, naquele dia, eu fui até minha estante e olhei
o que ainda precisava ser lido. Enquanto eu passava meus
dedos pelos livros e sussurrava os títulos para mim
mesmo, fiquei maravilhado sobre como os livros davam um
tipo de guia de minha vida. Não importando a ordem
em que foram comprados, eles refletiam meus diferentes interesses
e experiências ano após ano.
Então,
o que estava acontecendo com minha vida agora ? Os três
últimos livros que comprei eram narrativas de viagens
sobre como alguém pegou um carro ou uma moto
e viajou para algum destino longínquo como Alasca
ou Panamá, ou fez um "tour" através
de pequenas cidades dos EUA tendo somente a estrada como
companhia. Antes dessas narrativas, ocupavam minha estante
anos de livros de filosofia das artes marciais, livros sobre
Aikido e livros sobre filosofia espiritual, como Hinduísmo,
Budismo e Cristianismo.
Assim
como minhas preferências de leitura mudaram, também
mudou meu estilo de vida. Meu trabalho entrou numa rotina
repetitiva e começou a parecer vazio. Muitas vezes
eu encarava as buscas e investigações e cada
prisão como se fossem uma única. Quanto ao
trabalho social de minha unidade, eu não mais me
importava com os contatos que fazia. Eu não me importava
mais em fazer o discurso "como eu posso ajuda-la a
sair das ruas ?" para as prostitutas que prendia e
não mais me importava em ter os números telefônicos
de albergues e serviços sociais.
Minha
prática de Aikido havia mudado também. De
fato, quase havia se tornado inexistente. Eu vagava pelo
Dojo a cada quinze dias , mas minha prática não
tinha a mesma importância de antes. Eu estava permitindo
que muitas outras coisas tivessem prioridade sobre ela.
E, quando eu treinava, a prática me parecia inútil.
Fora
do trabalho e do Dojo, tudo me parecia grandioso. Eu descobri
alguns novos "hobbies": passeios de motocicleta
(eu não rodava há alguns anos, mas comprei
uma nova moto e fiz planos para um passeio longo e distante),
mountain biking (eu desencaixotei a velha mountain bike
e aproveitava cada oportunidade para experimentar as trilha
das montanhas locais) e viajar (eu voei para Maui e então
para Oahu, naveguei para o México e fiz uma viagem
por rodovia até São Francisco).
Quando
meu Sensei mencionou que "pessoas sonham fugir"eu
nunca imaginei que pudesse ser uma delas. Mas do que eu
estaria fugindo ? Eu não me sentia fugindo, afinal
de contas; eu me sentia como se estivesse fazendo uma pausa.
Muitos
dias se passaram, e eu estava praticando Aikido. Após
a aula, enquanto eu dobrava meu hakama, reparei que alguém
colocara cópias de um capítulo de "O
Profeta" de Kahlil Gibran próximo ao shomen
um capítulo sobre o amor. Enquanto lia os
versos ajoelhado diante do shomen, acho que experimentei
uma pequena "revelação". Subitamente
me ocorreu o porque das mudança que haviam ocorrido
em minha prática do Aikido, em meu trabalho e nos
meus hábitos de leitura. Eu não vinha fugindo
de meu caminho... eu o havia perdido!
Ir
ao Dojo e praticar Kotegaeshi repetidamente não é
Aikido. Praticar Ikkyo exaustivamente não é
Aikido. Técnicas não significam nada além
de partes de uma busca espiritual. Se você acha que
está praticando Aikido mas não está
envolvido na questão espiritual a questão
da razão de estarmos neste planeta, a questão
de ajudar aos outros, a questão de tornar este um
lugar melhor para todos- você não está
praticando Aikido.
O-Sensei
nos legou um caminho a seguir. Ele nos deu o Aikido, não
para demonstrar seu poder marcial, mas para nos mostrar
como ele viveu, sua vida espiritual e sua compaixão.
Praticar Aikido é seguir os passos de O-Sensei e
deixar essas lições permearem toda nossa vida.
Eu
sou um oficial de polícia. Se eu vou para o trabalho
por nada mais que um salário, se eu olho para o outro
lado quando vejo que uma vítima ou suspeito necessita
de minha ajuda, ou se eu machuco alguém por ódio
ou raiva, eu não posso afirmar que estudo Aikido
sem estar sendo hipócrita. Se faço essas coisas,
não estou seguindo o caminho do Aiki.
Eu
me desviei do caminho em "Estradas Azuis" de William
Least Heat-Moon. Eu adoro este livro, mas agora vejo que
foi uma distração, uma prova para testar minha
prática de Aikido, outro round da randori da vida.
Somente
o tempo dirá quais outros livros ocuparão
minha estante mas, agora, estou no meio de uma grande leitura
: "Oração, uma Resposta Radical para
a Vida", de Matthew Fox.
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