|
(Tudo o que você precisa saber quando for visitar um dojo)
Quem disser que nunca sentiu um "friozinho na barriga" diante de uma
situação totalmente
nova, pode atirar a primeira pedra. Isso acontece freqüentemente na
nossa vida, por
exemplo: o primeiro beijo, o primeiro emprego, a primeira viagem e por
que não a primeira vez
num tatame. Agora, imagine essa mesma sensação de "friozinho" dobrada!
Pois é, isso pode
acontecer quando visitamos outras academias. São dojos diferentes,
senseis diferentes,
colegas diferentes, treinos diferentes. Então como proceder diante de
um treino num outro
dojo que não o seu? É fácil. Agora o convidamos a ouvir os conselhos de
quem visita,
ministra e recebe aulas de Aikido nos mais diferentes tatames no mundo.
Estamos falando
do Sensei Makoto Nishida (shihan - 6º Dan), diretor técnico da
Fepai. Anote as dicas e
coloque-as em prática.
Fepai News - Como ocorre o processo de treinamento do Aikido?
Sensei Nishida - Desde a antigüidade aprendemos que há três etapas em
todo o processo
de treinamento em artes marciais. O primeiro é "Shu" (significa
resguardar), o segundo "Ha"
(quebrar) e o terceiro "Ri" (afastar).
Em "Shu", deve-se praticar a base. Escolhe-se um professor de confiança
e tenta-se
aprender completamente suas técnicas. Nesta etapa, é melhor que não se
receba instrução
de outros professores. Pode ocorrer uma confusão de idéias pois cada
professor possui uma
base diferente.
Em "Ha", após adquirir corretamente a base, tenta-se adaptar as
técnicas com auxílio do seu
professor. Nesta etapa, é interessante aprender com diversos
professores e estudar técnicas
novas, pois já será possível distinguir as diferenças entre as técnicas
próprias e as técnicas
de outros professores. O importante é manter as suas idéias voltadas ao
estilo do seu
professor e crescer em conjunto.
Em "Ri", deve-se digerir tudo o que foi aprendido e criar um estilo de
técnicas próprias e sua
forma de treino. É uma maneira de se tornar um artista marcial autônomo.
Em geral, pensa-se em "Shu" no período de 10 a 15 anos até atingir o
3º Dan. "Ha" de 8
a 10 anos nos 4º e 5º Dans. "Ri" após o 6º Dan, etapa onde
o praticante é
considerado mestre. É uma forma bastante rígida, que pode variar um
pouco com a
capacidade de cada praticante, mas que deve ser entendida como a forma
correta de
treinamento.
Fepai News - Em que etapa do treinamento um aikidoísta pode visitar e
treinar em uma outra
academia (no Brasil e no mundo)? Por quê?
Sensei Nishida - Na atualidade, devido à falta de tempo, o treinamento
pode não ser tão
rígido, mas sempre tome a ação após conversar e receber a autorização
de seu professor. Até o 3º kyu é melhor concentrar-se apenas nos treinos de seu dojo.
No 2º e
1º kyu, participe ativamente de treinos coletivos dentro da
Federação como os
yudanshakais para aperfeiçoar suas técnicas. Já nos 1º Dan e 2º
Dan, há uma
responsabilidade com um posto instrutivo dentro do dojo. Assim, faça se
conhecer
participando de diversos seminários. Não se deve esquecer que o
objetivo principal são os
treinos no próprio dojo, sendo os treinos extras uma forma de estudo e
confraternização.
Como dever de todo praticante, deve-se relatar as impressões e os
acontecimentos dos
treinos extras ao professor, já que os professores também são
responsáveis pelas ações de
cada praticante.
Fepai News - Como um praticante de Aikido deve se apresentar num outro
dojo?
Sensei Nishida - 0 procedimento certo quando se vai a um outro dojo é
se apresentar
dizendo o dojo em que treina, o professor e a organização à qual
pertence e por quanto
tempo treina. Após isso, pergunte se é possível treinar naquele dojo.
Caso o professor do
dojo não conheça o seu professor, deve-se citar o professor de seu
professor, pois quanto
mais claro for a sua origem, os procedimentos serão mais fáceis. Se já
houver uma relação de
amizade entre os professores, você será muito bem recebido. Caso
contrário, deve-se efetuar
um esforço para deixar uma boa impressão, pois você será a ponte de
ligação entre os dojos.
Fepai News - O aikidoca/visitante que pertence ao 5º, 4º,
3º, 2º ou
1º Kyu deve usar a cor da faixa ao qual está graduado ou é melhor
usar a faixa branca
porque não faz parte daquele grupo?
Sensei Nishida - Após deixar claro a sua graduação, siga os
procedimentos do dojo
visitado.
Fepai News - E as mulheres, elas podem usar hakama em qualquer outra
academia (que não
seja a dela) desde que já pertença ao 5º kyu?
Sensei Nishida - Neste caso também há diferenças entre dojos. Use de
acordo com as regras
do dojo.
Fepai News - E os aikidoístas que possuem faixas pretas, devem sempre
apresentar o
certificado (passaporte) para comprovarem sua graduação?
Sensei Nishida - É melhor mostrar sempre que possível. Há dojos onde o
treino só será
permitido com a apresentação do passaporte.
Fepai News - Cada mestre tem seu estilo de ensinar e de aplicar os
golpes, embora a essência
do Aikido prevalece. Se o professor, ao qual a pessoa está visitando,
apresentar um estilo e
exercícios um pouco diferentes, como proceder?
Sensei Nishida - Como regra, deve-se seguir as formas do professor.
Apesar disso, caso a
base do professor seja diferente, será impossível acompanhar exatamente
os movimentos.
Neste caso, deve-se tentar acompanhar na medida do possível. Na maioria
dos casos, o
professor não irá ver nenhum problema nisso. O importante é não impor o
seu estilo em
outros dojos. Deve-se tentar acompanhar as técnicas do dojo de forma
humilde e mostrar o
seu estilo de forma aberta apenas quando for requisitado.
Fepai News - Muitos aikidocas viajam para outras cidades brasileiras e
do exterior. Caso eles
queiram treinar nesses lugares, como procurar uma boa academia de
Aikido? É interessante
procurar as academias filiadas a Aikikai do Japão? Por quê?
Sensei Nishida - Antes de viajar, é interessante perguntar aos colegas
ou aos professores
que já foram ao lugar, apesar de que muitas vezes, não haverá alguém
nessa posição. É
possível pesquisar dojos em listas da Aikikai ou em revistas, mas a
qualidade das técnicas
ou o ambiente do mesmo só pode ser conhecido com uma visita. Desta
forma, a única
maneira de escolher o local certo é visitar os diversos dojos possíveis
e escolher a que
melhor se adapte à sua vontade. Existem variações mesmo entre os dojos
filiados à Aikikai,
mas esta pode ser uma boa dica para se achar bons dojos. É sempre
melhor escolher após
ver com os próprios olhos. Existem casos onde se pratica uma coisa
bastante diferente do
Aikido, usando-se apenas do nome. Caso haja dúvidas, é melhor apenas
assistir à aula para
não se machucar. Tomem cuidado para não se machucarem durante as
viagens.
Fepai News - Baseado na sua experiência, que visita e recebe sempre
alunos de outras
academias (inclusive estrangeiros), como um professor deve proceder
para receber bem
esses alunos/visitantes ou temporários?
Sensei Nishida - Caso haja uma visita em seu dojo, deve-se receber o
visitante de forma
amigável. Pergunta-se de forma respeitosa alguns dados pessoais como o
professor, o dojo
e a organização onde treina. Ainda mantendo a relação de amizade,
deve-se observar o
caráter e o grau técnico do visitante, sendo necessário selecionar os
praticantes que irão
treinar com ele, caso o visitante seja especialmente violento ou muito
fraco. Dependendo da
atitude do visitante, deve-se avisá-lo a praticar conforme o estilo do
dojo. Em minhas
experiências, a grande maioria dos visitantes é amigável, mas é
importante observar bem o
aluno pois alguns possuem uma postura competitiva. Como regra, não seja
muito rígido com
visitantes, aceitando suas técnicas e incentivando os seus pontos
fortes. Crie urna relação
de amizade.
Fepai News - Na sua opinião, o que um praticante de Aikido nunca deve
fazer ao chegar para
treinar numa outra academia na condição de visitante?
Sensei Nishida - O que nunca se deve fazer numa visita é não obedecer
as regras do dojo
ou impor seus métodos de treino. Nunca tente ensinar suas técnicas aos
alunos do dojo sem
a permissão do professor. Mesmo que você sinta que a sua técnica seja
muito superior ao
do professor do dojo visitado. Caso você possua uma técnica realmente
superior, os
resultados aparecem mesmo treinando de forma humilde e a aceitação será
de forma natural.
Esqueça as rivalidades inúteis e tente em primeiro lugar, fazer amigos
no local visitado,
promovendo um treino onde se possa suar de forma agradável junto com os
outros
aikidoístas.

Reportagem:
Adriana Silvestrini-1º KYU ACAM
Artigo fornecido pelo FEPAI NEWS
|