ARTIGOS E ENTREVISTAS

Mestres do Desequilíbrio
Por Luciano Noeme

A Física Quântica pode ser um interessante tema de estudo para a compreensão (e confirmação) científica dos princípios matemáticos do Aikido. A nível de partículas sub-atômicas, qualquer objeto, mesmo aparentemente estático a olho nu, na verdade está com suas moléculas vibrando em uma determinada freqüência que as mantêm coesas à sua massa. Transpondo esta análise para o movimento dinâmico em escala maior, tudo está em desequilíbrio, e nada é uniforme, retilíneo, simétrico e idêntico. O fato de caminhar é um exemplo rotineiro de desequilíbrio: para nos locomover, o primeiro passo é um rompimento com o repouso da posição parada, no qual projetamos nosso peso em uma direção e inconscientemente ajustamos o equilíbrio para não cairmos, alternando a cada passo o peso com o movimento, graças a um delicado sistema neural que "nivela" o corpo em seu eixo, daí a importância do alinhamento da coluna vertebral em toda sua extensão. Sem este sensível mecanismo de compensação, o menor movimento de um corpo hipoteticamente parado e equilibrado, faria com que a gravidade o atraísse sistematicamente para o chão e despencasse até se harmonizar novamente com a pressão recebida.

Ida P. Rouf em seu livro "Roufing - A Integração das Estruturas Humanas" explica bem este fenômeno:

"Movimento é um termo cujos limites são quase indefiníveis. Isso também vale para a palavra imobilidade. Um pássaro pousado sobre uma bóia no mar aparentemente está imóvel, no entanto, sua necessidade de ajustamento contínua às ondulações da maré mantém seus músculos em constante mudança interna. No mundo não existe uma completa ausência de movimento".

No Aikido, matematicamente explicando, também não existem movimentos retilíneos, pois qualquer linha reta na verdade é um ponto na tangente de um círculo imaginário.

Mediante a observação destas leis naturais, avaliamos o quanto nosso conceito tradicional de equilíbrio, geometria e estética são superficiais. Nada no Universo conhecido é simétrico ou idêntico a outro (Os mestres de Ikebana conhecem profundamente esta verdade e por isso sempre deixam algum galhinho meio torto na composição geral e nunca repetem o mesmo arranjo floral).

Para gerar movimento sempre é preciso gerar desequilíbrio de peso e transferir o ponto de gravidade no tempo e no espaço. Na verdade, nenhuma matéria está em equilíbrio total. Ainda que não existam instrumentos que meçam a freqüência oscilatória mínima dos átomos que compõe um objeto inanimado, sensorialmente compacto e impermeável, ou capazes de captar a vibração dispersa dos íons presentes nos gases, tudo está em constante mudança, tanto a nível micro quanto macroscópico. Recentemente foi descoberto que tanto a matéria quanto à cadeia de DNA são formados por espaços vazios e de condutores inócuos e isso faz lembrar um velho adágio: a roda só é útil porque tem um buraco no meio.

Logo, a energia e a matéria, para o Aikido e a ciência moderna, passam a ser a mesma substância, só variando o grau de condensação e expansão dos seus componentes atômicos (E=mc²).

Voltando ao estudo do movimento, o requisito básico para se alcançar a maestria da técnica paradoxalmente é o auto-aprendizado intuitivo e experimental das elementares leis regentes do desequilíbrio, amparadas matematicamente na Física (atrito, eixo de gravidade, alavanca, etc).

Mas, o fator principal para influenciar um corpo a longa distância ou com o menor contato possível, reside na maestria do próprio desequilíbrio interno e externo, no domínio da alternância de peso, respiração, expansão e contração, movimento e inércia. Munidos destas leis básicas do desequilíbrio físico, resta o aprendizado do seu complemento para abarcar o domínio técnico total, a ponto de ser desnecessário o uso de movimentos exagerados para influenciar no redirecionamento de uma força recebida e ou aplicada. Este complemento, imprescindível devido a sua poderosa influência capaz de anular a resistência baseada em peso, força e velocidade, é o que compreende o aspecto sutil da mente e da sua interação com o cosmos. O método da indução mental também tem suas leis análogas às leis do desequilíbrio físico, e abrangem a ilusão de ótica e de ritmo, o domínio do tempo e do espaço. Entretanto, sem autocontrole é virtualmente impossível controlar e dirigir o outro. Logo, quanto maior a consciência dos mecanismos do movimento em si mesmo, maior a capacidade em influenciar os mesmo mecanismos presentes em outros corpos, não importando a diferença de volume, massa ou velocidade.

Praticando e estudando estes fundamentos, Kuzushi e Mussubi, desequilíbrio psicofísico e redirecionamento harmônico de energia, é que o praticante de Aikido consegue compreender o complexo e sofisticado sistema dos Katas, até alcançar o ponto da ação condicionada na qual espontaneamente "descobre", ao menor contato, o ponto e o ângulo ideal a ser atingido e o vazio a ser preenchido, para gerar ou absorver uma ação. Sokaku Takeda, a este respeito, dizia que Aiki é a arte de vencer o inimigo com um simples olhar.

O estudo do Kuzushi no Aikido pode ser verificado na atitude do Uke que "acompanha" a técnica para compensar o desequilíbrio acentuado pelo Nague. Por isso, o Ukemi no Aikido é um meio de manter a integridade da estrutura humana, facilitando o treino físico regular que, conforme demonstrado, é primordialmente a arte de desequilibrar e canalizar energias.

O Aikido ao seguir a Natureza, sempre cultivando e reciclando a energia estagnada e moldando novas formações, sem desperdiçar um único elétron, gera neste processo um sistema natural de purificação (de decantação com as posturas, de centrifugação com os movimentos espiralados e de filtragem com a respiração e a catarse emocional resultantes do aquecimento dos órgãos internos) e, de forma gradual, ocorre o refinamento das energias emitidas e receptadas, a ponto de não haver separação entre sujeito e objeto. O observador torna-se o observado. Vale ressaltar que a evolução da qualidade vibratória resulta finalmente em uma mudança de dimensão existencial, ou seja, quanto mais potente o raio de ação de uma onda mental, mais longe sua irradiação irá alcançar e influir, tal qual o universo em constante expansão.

Na prática do Aikido, começamos aprimorando nossos cinco sentidos, mas acabamos percebendo que os sons mais altos são inaudíveis e as cores mais vibrantes são invisíveis. Então, surge o vislumbre de um mundo novo e maravilhoso somente detectável por meio da desobstrução de um sexto sentido, uma espécie de radar sensorial instintivo, que se manifesta normalmente através do pensamento e da intuição em picos esporádicos.

Com a descoberta do golpe mental, um novo passo é dado no caminho do Aikido. Os mestres em seus ensinamentos, sempre salientam o fato de só terem compreendido melhor o mecanismo das técnicas à medida que a força física de sua juventude se exauria com o passar dos anos e era substituída por essa percepção extra-sensorial. Então aprimoram esta fonte de poder infinitamente superior a contração muscular bruta e, ao invés de treinarem golpes e katas isolados, passam a praticar estratégias, a exemplo do espadachim Miyamoto Musashi e outros mestres que transcenderam suas artes. Surge mais tarde um novo dilema: como ensinar um fato tão óbvio e compartilhar sua descoberta pessoal com seus alunos e as pessoas de seu relacionamento? Experimente explicar verbalmente o ato de abrir e fechar as mãos e já irá encontrar uma barreira, então tente ensinar como manipular o Uke com o mínimo esforço e a tarefa se transforma em um desafio.

E assim, de desequilíbrio em desequilíbrio, a custa de contradições eloqüentes e silêncios significativos, os mestres vão ensinando de forma paradoxal o que não pode ser ensinado.

"O Tao (Do) que pode ser expresso não é o verdadeiro Tao"
                                                                       - Lao Tsé -

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

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